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SL Benfica: A paixão incontida pelo futebol

Direto de Berlim, Fátima Lacerda em colaboração para o EI

Portugal é um país com 10 milhões de habitantes e um dos menores da Europa, mas quando se trata da paixão pelo futebol, tamanho não é documento e as torcidas não ficam devendo nada para países maiores.

Entre os times de maior visibilidade estão o SL Benfica, o Sporting e o o Porto. O Benfica e o Sporting estão separados, geograficamente, somente por dois km. Quando há jogo entre as duas equipes rivais, os torcedores andam até ao estádio vizinho. A pé. Simples assim.

Em 28 de fevereiro de 1904 foi fundado o Sport Lisboa. Depois de muitas dificuldades, foi decidida a união entre ele e o Sport Clube Benfica. A razão principal da fusão teve motivo bem pragmático. O Benfica possuía um campo para treinamento, o da Feiteira, que foi usado até 1911. Para manter a identidade dos dois times, o nome escolhido foi Sport Lisboa e Benfica, ideia de Félix Bermudes, escritor e dramaturgo português e que foi durante vários anos, presidente do clube unificado. Hoje, a nomenclatura correta é SL Benfica.

Um dos 24 fundadores, Cosme Damião, ex-morador da Casa Real da Pia, recorria a meninos da casa de órfãos para convocar jogadores, assegurando dar somente o dinheiro da passagem para o trem. Cosme e Damião é trincado com a história do Benfica, mesmo nunca tendo sido presidente do clube, mas foi jogador, técnico durante muitos anos. A paixão pelo Benfica só se entende, realmente, através de conversa com seus torcedores. Ao falar de seu time do coração, os olhos brilham, a voz altera e o corpo todo arrepia, assim acontece com Rui Féria, um benquifista de toda uma vida. Adentar o Estádio da Luz é também um ingrediente indispensável para inalar a paixão que envolve esse clube.

O religioso e o mundano

O Santuário de Fátima, há duas horas de trem de Lisboa, é lugar de milagres, muitos peregrinos e muita tradição. Ha 24 anos existe ali um restaurante criado para torcedores do Benfica. Tentando juntar a fome com a vontade de comer, depois de ir ao Santuário que tem o meu nome, graças à minha avó, muito católica e devota da Nossa Senhora que apareceu para as crianças Lúcia, Francisco e Jacinta, eu fui realizar um sonho ainda muito maior: visitar o “Fanático”.

O nome já espelha o clima do lugar. Na porta de entrada, tem uma foto do mito Eusébio. Dentro do restaurante pequeno, mas muito charmoso, me deparei com um mar de faixas, troféus e cachecóis do time. “Quer ser campeão? Me manda um e-mail!” diz uma facha pendurada acima do balcão de onde saem especialidades culinárias portuguesas da melhor qualidade do tipo comida caseira como valores bem acessíveis. O ambiente é bem familiar, apesar de ninguém ali ser amigo ou se conhecer, mas uma coisa une a todos que ali vão: a paixão pelo time.

Quando lá cheguei depois de andar muito em Fátima, foi Rui, o dono do restaurante, que me encaminhou para uma mesa, estrategicamente no meião daquele cenário benfiquista. Muito simpático e comunicativo, Rui me trouxe o cardápio e me passou toda a resenha de como a coisa no “Fanático” funciona. “Você só paga o que comer” diz ele ao colocar três bolinhos de bacalhau na mesa. Uma outra placa no local, afirma: “Pode repetir que não custa extra” e isso e bom saber logo antes de pedir. Enquanto a comida não vinha, conversei com um dos garçons, sobre o futebol alemão. Porém ali naquele lugar não existem garções na forma clássica. A impressão é que todos que trabalham ali, o fazem para ficar perto do futebol, do seu clube de coração e isso faz o restaurante ainda mais atrativo, um lugar para ficar muitas horas. É como se você fosse lá para partilhar com amigos desconhecidos uma paixão, mesmo sem conhecer quem está na mesa ao lado. Esse jovem simpaticíssimo que alternava servir a minha mesa com o Rui, disse gostar muito do Hoffenheim, realmente “um clube que promete”.declarou ele fazendo-me sentir firmeza, mais uma vez, que futebol é global, sem fronteiras e isso, já há muito tempo. Falamos também do FCB que, exatamente naquela noite, jogaria contra o Benfica na Allianz Arena. Falamos do Borussia Dortmund e do RB Leipzig. É impressionante como os portuguêses estão interados do futebol alemão. Talvez esse fenômeno tenha sido possibilitado pela LC ou pela Internet ou talvez não. Nunca saberemos ao certo.

Tem dias que o acaso te desenrola o tapete vermelho (ou o gramado) como uma equação matemática. Esse mesmo acaso, quis que o dia que eu fosse realizar meu sonho de longa data de conhecer o restaurante “Fanático” cairia no dia em que o time enfrentaria o FC Bayern (logo ele!) pela Liga dos Campeões e isso, na Arena Allianz.

Nessa mesma época, quase no mesmo dia o futebol português estava bombando. O Porto, arquirrival do Benfica estaria jogando em casa contra o Schalke 04 e ganharia. Na quinta-feira (29) era a vez do Sporting jogar no Azerbaidjão e a TV portuguesa mostrando chamadas ao vivo, o dia inteiro: do Sporting partindo no aeroporto, o Sporting passeando no litoral do Azerbaidjão curtindo o sol, todos numa boa e sempre um destaque especial para os jogadores brasileiros que atuam no clube. Num momento mais tranquilo, exatamente na hora do almoço, pedi o Rui para sentar na mesa para uma conversa exclusiva como EI:

O Fanático que atende pelo nome de Rui Féria, com olhos arregalados, com um sorriso permanente e inquieto como se fosse pegar o próximo e último trem, falou exclusivo com o EI:

Por que que você decidiu fazer esse restaurante para os fãs do Benfica?

O restaurante foi pra mim, mas os gajos começaram a gostar disto… (risos)

Há quanto tempo existe o restaurante?

Há 24 anos. 

Vocês com certeza choraram e riram muito aqui dentro. Existe um momento especial a ser lembrado?

Todos os momentos pra mim são emocionantes.

O que o Benfica significa pra você?

Não tenho palavra. É muito mais. Meu Pai era torcedor do Benfica, minha família. É o clube dos nossos pais.

E a rivalidade com o Porto?

Antes era uma realidade saudável, agora não mais. Agora não se pode mais levar crianças ao estádio em um Dérbi porque há guerras de torcidas.

Você tem amigos que são fãs do Porto?

Muitos, muitos! Tanto muitos amigos do Porto como do Sporting. Eu tenho um genro que é presidente da Casa do Sporting da Batalha (localizada em Leiria, centro de Portugal). Ele vem aqui com o pessoal do Sporting e não tem nada…

O que você acha do Cristiano Ronaldo? 

É o melhor jogador do mundo. Não importa que ele não seja benfiquista, mas gosto porque ele é português.

Quando vocês assistem ao jogo aqui e o Benfica perde, o que acontece?

A porta do restaurante está fechada no dia seguinte. “Não tem expediente“, disse ele de olhos arregalados.

A paixão de Rui é sintomática tanto pelo Benfica como por Portugal pelo futebol. Num pais de 10 milhões de habitantes com três equipes de relevância nacional e internacional, Portugal se entrega à sua paixão, sem medo de ser feliz. Um dia depois que o Benfica perdeu de 5×1 para o FC Bayern, decerto o restaurante “Fanático” na cidade do Santuário ficou de portas fechadas para digerir a derrota. Logo agora que o FCB está com a autoestima baixa, muitos perrengues internos e a torcida insatisfeita com o treinador e a batata assando geral. Não havia melhor momento para sair vitorioso do campo na partida na fase de grupos da Liga dos Campeões do que naquela noite.

Na tarde de quarta-feira (27/11), a TV oficial portuguesa assim como a BTV (TV do clube) ficou a tarde toda reportando, com chamadas ao vivo da sede do clube. A pergunta que interessa ao país não era sobre a situação politica, nem financeira, mas sobre a permanência ou não de Rui Vitoria, treinador do Benfica e do qual o nome se tornou Trending Topics no Twitter de Portugal. Nas inúmeras reportagens, as câmeras de TV iam para associações do Benfica e entrevistavam torcedores da Velha Guarda, ao todo três, que liam uma bíblia em suas análises que funcionavam como termômetro para toda uma torcida, a maior de Portugal.

A proximidade entre o Benfica e o Bayern ainda atinge um outro âmbito. Durante muitos anos o clube português constava no livro Guinness dos recordes como o clube com o maior número de torcedores sócios (270.000), sendo desbancando somente pelos bávaros. Segundo uma pesquisa da UEFA de 2012, 47% dos português são fãs do Benfica, a maior cota nacional da Europa.

Um dia depois, quando o Benfica amargava a derrota, o Porto vencia o Schalke em casa. No dia seguinte, na quinta-feira (29) o rival Sporting saia vitorioso do jogo contra o time da Qarabag pela Liga Europeia lá no fim do mundo no Azerbaidjão enquanto em solos lisboetas, a cobra fumava no terreno do Benfica. Mas o benfiquista não desiste nunca e nada como um dia atrás do outro, como no restaurante “Fanático”, aliás uma visita imperdível para quem visita Fátima. E uma ajudinha dos céus sempre cai bem, até mesmo por motivos mundanos como o futebol.