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Visitas guiadas pelo Estádio da Luz: Celebração do futebol português para o mundo

Fátima Lacerda diretamente de Berlim exclusivo para o Esporte Interativo

Quem ama futebol, independente do time, precisa conhecer o campo do Benfica e o Museu, resultado de meticulosa pesquisa

A minha visita à Lisboa em 2016, final do ano, não permitiu inserir a visita guiada ao Estádio de uma torcida da qual eu já ouvira falar, uma das mais acaloradas e aficionadas da Europa. A do Benfica, a do Légia Varsóvia e a do Eintracht Frankfurt estão no mesmo patamar. Não importa onde o time jogue, dentro ou fora de Portugal. Não importa a temperatura no estádio e nem se São Pedro joga baldes de água lá de cima durante 90 minutos. A torcida de vai onde o time está. Saí de Lisboa em 2016 com a fixa ideia que, da próxima vez, a visita seria um dos primeiros itens da viagem. E assim foi, no início de dezembro.

Numa segunda-feira ensolarada, às 10 horas da matina, eu tinha encontro marcado com Diogo Alvim Galvão, coordenador das visitas guiadas. Diogo é, como a maioria dos portugueses, muito simpático e solícito. Com “somente” 26 anos, ele entende de todas as formas como comunicar e transmitir para o visitante a paixão benfiquista, dá-la a maior visibilidade, espalhá-la pelo mundo.

Durante a visita exclusiva para o Esporte Interativo, acompanhada durante quase todo o tempo por Diogo, ele conta que seu pai o levava no estádio quando pequeno (miúdo, como dizem os portugueses) e se emociona quando fala da morte repentina do ídolo Eusébio (2014). Ele fala da relação com o Sporting, o arquirrival que mora ao lado. “Quando temos jogos, vamos andando ao estádio”, diz ele com aquele sorriso de quem está feliz “na fonte”, dentro do caldeirão futebolístico.

Durante o longo percurso, que inclui a visita ao estádio que hoje comporta 65 mil pessoas, tem a passagem pelas águias, postadas à beira do gramado atrás do gol, símbolos do time. Em postura austera de vigilantes dos passos do clube, estão a mais velha, Glória, de 18 anos, e Vitória, 13, a do meio. A caçula, Luz, carrega o nome do templo do futebol português, tem 8 anos e é arredia à fotos.

A “Praga do Guttmann”

Sob o Estádio da Luz e quando se fala no time, paira a lenda de que a praga que teria sido rogada pelo ex-treinador, o húngaro Béla Guttmann, ainda persiste.

Logo depois da vitória pela Liga dos Campeões em 1962, no Estádio em Amsterdã, o técnico teria subido à tribuna de honra para cobrar o aumento de salário e a quantia em prêmio, anteriormente, prometida a ele, pela diretoria. Ao constatar que a mesma não cumpriria o combinado, Guttmann rogou a praga de que “nos próximos 100 anos”, o Benfica não ganharia nenhum título na Europa. Nem mesmo o colocar da estátua do ex-treinador no Estádio, nem mesmo o apelo do mito Eusébio em 1990, na sepultura do treinador húngaro no cemitério judaico na Áustria, para que ele perdoasse o clube e o Benfica tivesse a chance de vencer o Milan na Liga Campeões naquele fim de semana, a praga não deixou de pairar em cima do clube.

Sobre a rivalidade com o Porto

“Quando o Porto começou a ganhar muitas partidas, ele começou a perceber que, talvez até pela questão geográfica de serem de Lisboa, capital, e o Porto (um bocadinho ao nível do Barcelona com o Real Madrid), cidade do norte, a rivalidade aumentou. O Sporting é sempre especial, é nosso rival local, temos muitos amigos do Sporting (risos), mas acho que, hoje em dia, em Portugal e até internacionalmente falando, é o Benfica e Porto o maior duelo”.

O visitante é o foco

A visita guiada, concebida de forma diversificada e desafiando a era digital, é meticulosamente planejada, passa por várias estações, incluindo o vestiário, o estádio (sem que se possa pisar no gramado), o corredor da fama, a sala de imprensa e o saguão da entrada principal do clube, onde se encontra uma imponente águia branca naquela estatura que você respeita. A tour também contém “aventuras futebolísticas digitais”, que pode acontecer quando você está, fisicamente, parado. Uma das mais bacanas dessas viagens é assistir, através do “óculos do futuro” um jogo virtual, com a torcida cantando sem parar e o jogo rolando no campo. Ao olhar para seus pés, verás que estás em pleno gramado em espaço remarcado e rodeado pelo símbolo do clube, a águia.

Tem Highlights para todos os gostos, até mesmo para quem não é fã de carteirinha do Benfica o que, definitivamente, não é e nem pode ser a única motivação para visitar o Estádio da Luz. Até mesmo quando se sai da estação do metrô, “Colégio Militar”, que é apaixonado por futebol terá o coração batendo mais forte. Isso aumenta, quando se passa do portão de entrada e se atravessa um túnel com paredes pintadas/pichadas com motivos dos vermelhos selvagens.

Vale lembrar que, nos anos 60, o Benfica teve sua maior vitória: a “Orelhuda” do torneio, hoje denominado Liga dos Campeões. Em 1961 em final contra o Barça o clube foi derrotado por 3×2. O Deus do Futebol havia preparado para 1962 o triunfo do clube português no olimpo europeu, em partida final contra o Real Madrid, interrompendo a série de vitórias e o monopólio do clube madrilenho até aquele momento nesta competição.

Corredor da Fama com ídolos brasucas

Uma das estações mais interessantes do clube. A maior das fotos, claro, é do Mito Eusébio e, são nesses momentos que você constata como é importante ser acompanhado durante a visita, por especialistas na história do clube. O aplicativo para viagens de torcedores sozinhos está a disposição em 6 idiomas, inclusive Mandaram, mas nada como dividir a paixão do futebol, suas histórias e momentos inusitados. Diogo me esclareceu que o cara atrás de Eusébio, na foto, é ninguém menos do que Giovanni Trappatoni, que jogou naquela final de 1962 e, anos depois, se tornaria o inesquecível treinador do Bayern por onde teria uma passagem turbulenta.

Também lembrados nesse famoso corredor estão os brasucas Luizão e o David Luiz, a quem Diogo dispensa especial atenção em seus esclarecimentos. “Foram os melhores jogadores zagueiros que já tiveram aqui, além de terem jogado pela Seleção Canarinho”. Diogo não economiza elogios para o Luizão: “Algo que gostamos bastante é que o Luizão, depois que saiu do Brasil (Cruzeiro) esteve sempre aqui. É o jogador mais titulado do Benfica”.

Sala de Imprensa

O local pode ser ampliado, de acordo com a relevância e a visibilidade do jogo. “Nós tempos aqui uma capacidade para 100 jornalistas, sendo que podemos adaptar para eventos especiais como a Final da Liga dos Campeões”. Ele mostra uma parede à esquerda que pode ser removida e integrada em uma sala onde, normalmente, se pratica ginástica. “No total podemos comportar aqui entre 300 e 400 jornalistas, em jogos muito importantes”. Depois de mostrar os lugares marcados para a imprensa escrita, a de rádio, ele ressalva que entre os lugares reservados para equipes de TV, o melhor fica em posse da equipe da BTV, “que é o nosso canal oficial”, ele explica. E como bandeira pouca é bobagem e a auto-estima não falta nos comunicadores do Benfica, Diogo revela que o clube é o único do mundo que transmite seus jogos pelo próprio canal de TV, canal que existe desde 2007. Foi uma decisão de política corporativa (mas também um sinal para a concorrência) que pegou mais leve, depois de sentir o peso da concorrência benfiquista.

Divertimento e Interação

Na mais digital da Tour, entra-se numa sala onde tem TV, microfone e máquinas fotográficas. Essa é a esquina midiática. Depois de se registrar no aplicativo criado pelo próprio Benfica, o visitante pode ter como recordação, vídeos gravados como um repórter esportivo no Zona Mista. Os especialistas que integram a equipe de Diogo são super fofos, solícitos e têm um imenso prazer em conduzir os visitantes e vê-los satisfeitos na saída.

Museu

Para visitar o museu, não deixe de planejar, ao mínimo, duas horas. A meticulosidade, o cuidado e a relevância histórica desse lugar não fica devendo em nada para o museu do Barcelona e se fica, somente na vitrine que exibe várias “Orelhudas”. Até um papel timbrado com o logotipo de uma farmácia, convocando os jogadores para o treino logo depois da fundação do clube, eles conseguiram resgatar.

João Pedro Joaquim é o chefe de comunicação do museu, que também conta com excelentes funcionários, esses que inclusive foram os protagonistas no trabalho de pesquisa e do processo de angariar material histórico para formar invejável documentário da história do clube. Isso dá ao resultado, uma autenticidade instigante para o visitante, que recebe informações diretamente de quem faz.

Infelizmente, a agenda apertada não me permitiu ficar no museu o tempo que gostaria, mas que bom que João Pedro não me deixou sair sem assistir a 7 minutos de uma apresentação multimídia em lugar inusitado. Ele explica que, antes da construção do estádio da Luz naquele local, parte do terreno era tomado por um elevador para “estacionar carros”. Por sorte, o elevador foi mantido, mas tem, agora, novas funções, um verdadeiro upgrade. No percurso que realmente acontece, mesmo que quase desapercebido pelo visitante, você confere em inúmeros telões estações da história do clube e claro, o clima incandescente no Estádio não poderia faltar. Quando você dá por si, o elevador está “lá em cima”. São 7 minutos de imersão total na história de um clube fanático, fantástico e de torcida insana. Na sala de saída do museu, estão eternizados todos os adversários do clube, em todos os âmbitos, nacionais e internacionais. Lá em cima, no topo da parede, pode-se deslumbrar o nome do atual líder da Bundesliga e do grupo na Liga dos Campeões, Borussia Dortmund. Em outras partes têm, eternizados na lista de adversários, os quatro principais times cariocas (Botafogo, Fluminense, Vasco e o Flamengo) assim como o RB Leipzig, este já no finalzinho da parede que não oferece muito mais espaço, afinal a história do Benfica, fundado em 28 de Fevereiro de 1904, é grande.

Para quem estiver em Lisboa nos dias de final do ano ou em qualquer parte do calendário, uma visita ao Estádio é um must para quem ama futebol, suas vitórias e fracassos, suas torcidas inesquecíveis e seus ídolos imortais. Se for possível conciliar com um fim de semana de jogo do Benfica no Estádio, para vivenciar uma das torcidas mais incendiadas da Europa, o pacote ficará completo.

Assista a entrevista com Diogo Alvim Galvão, coordenador de visitas do Estádio da Luz: