Torcedores usam máscaras em partida da Champions, antes da competição ser paralisada

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Melhor Futebol do Mundo

Correspondentes em quarentena

O diário de nossa equipe da Europa, no epicentro da pandemia do novo coronavírus

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Por Redação do Esporte Interativo

#70 É certo ficar feliz? - Marcelo Bechler

É impossível escrever, agora, um texto sobre o confinamento e o que ele representou. Daqui a algumas semanas vamos olhar com perspectivas e entender melhor. Na Espanha já podemos nos reunir com amigos, sentar em uma mesa de bar na rua, fazer esportes. Ainda não posso sair de Barcelona, que segue sitiada, mas comparado com o que tínhamos há dois meses, é um mundo de possibilidades.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Where else?

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O confinamento foi rígido. Era terminantemente proíbio sair se não fosse para ir ao mercado. Quase todos os dias, da minha janela, via a polícia multar quem desrespeitava as normas. Pouco sol, muita solidão, incerteza profissional, medo de perder pessoas queridas pelo vírus, dias e dias em um apartamento pequeno. Podia ter sido bem pior e sou privilegiado por ter um emprego, amigos e não ter perdido ninguém.

Esse mix de que para mim estava muito melhor do que para muitas outras pessoas, mas ainda assim estava difícil é mais ou menos o que sinto agora. Antes eu não me permitia ficar triste, porque sei que sou privilegiado. Agora não sei se é hora de ficar feliz ,enquanto tanta gente ainda sofre.

Cada passinho a mais de liberdade que damos, me vem a lembrança de quanta gente ficou pelo caminho. É certo se sentir bem? É certo comemorar poder ir beber com os amigos enquanto no Brasil, o meu país, morrem mil pessoas por dia?  É difícil saber o que é certo sentir. E se há um certo ou errado nesse sentido.

Mas se tem uma coisa que talvez eu possa falar pra você que está lendo é que só estamos saindo dessa na Espanha, só estamos re-experimentando a liberdade, porque cada um colocou o seu grão de areia. Lógico que houve exceções e quem tentou burlar o confinamento, mas no geral eu vi que as pessoas acreditaram que ficar em casa e se sacrificar como fosse, cada um à sua maneira, era o certo a se fazer.

É isso que eu deixo para vocês. Podemos não ter os melhores líderes, os que mais bem cuidam da gente. Podemos parecer perdidos nesse sentido, mas vencer esse vírus é também o papel de cada um. Façam a sua parte, não façam mais ou menos. Se cada um fizer, é possível. O coletivo só existe se cada individualidade trabalhar por ele.

Fiquem em casa e fiquem bem. Porque no Brasil ainda estamos só começando.

#69 Ondas do mesmo mar - Fred Caldeira

Ontem, o Reino Unido chegou à marca de 1.625 novos casos do coronavírus - a menor desde o dia 23 de março. Enquanto os pouco mais de dois meses de confinamento enfim começam a dar fôlego ao sistema de saúde britânico, o país se direciona ao relaxamento das medidas restritivas. No entanto, um escândalo toma conta das páginas dos jornais: Dominic Cummings, o principal assessor do primeiro-ministro Boris Johnson, quebrou o isolamento ao dirigir 420km com os filhos para visitar os pais. Ao se justificar, Cummings disse que fez o passeio com o intuito de testar a visão, que andava falhando. Fico curioso para saber quais ideias foram deixadas de lado para que essa tenha sido eleita a desculpa esfarrapada com maior poder disfarce de credibilidade.

"Um trapaceiro e um covarde", diz a capa do jornal Daily Mirror da última segunda-feira

A minha parte nesta semana de despedida do blog não é tão criativa quanto à justificativa acima, então tento apenas trazer uma mensagem de força a quem aqui nos leu durante todo esse tempo. "Somos ondas do mesmo mar", brada uma poética colocação atribuída ao filósofo romano Seneca. Portanto, em meio a um momento tão difícil, digo que o Atlântico não nos divide - na verdade nos conecta.

 

#68 Meu copo, minhas regras - Arthur Quezada

Quem lê só o título pode achar que eu falaria aqui sobre cerveja, tendo em vista meu apreço pelo famoso suco de cevada. Porém, para o meu último texto no  "Correspondentes em Quarentena", já que chegamos na semana final deste blog, precisarei ser mais profundo. Tem uma famosa metáfora que sigo à risca na minha vida. Aquela do "copo meio vazio ou meio cheio". Na prática, ela define se você é otimista ou pessimista. Obviamente que há contextos, situações, experiências em que não conseguimos olhar o copo meio cheio, mas tento fazer esse exercício para tudo no meu universo.

A Pandemia da Covid-19 trouxe dor, tristeza, sentimento de impotência, revolta, desespero...mais de 345 mil mortes no Mundo, até a data deste texto. Não deveria ter acontecido, não estávamos preparados como humanidade. Contudo, nas situações mais adversas é que conseguimos ver o lado bom das pessoas. Falo por Portugal e não só. Por aqui, é possível afirmar que a união do povo travou a Pandemia. Não foi apenas isso, mas tivemos, nos tempos mais difíceis do contagio, 80% de adesão à quarentena. A indústria e a construção civil não pararam, mas aderiram as normas de segurança e distanciamento social. Ruas desertas, comércios e restaurantes fechados, empresas paradas. Mas e a economia? Vai sofrer num futuro breve, e muito. É fato. Porém, vidas foram salvas.

Eu não gosto de política, mas gosto pra caramba de pessoas. Por isso, não vou entrar no certo e errado. Vou ver o copo meio cheio. Perdi um amigo querido e uma mãe de uma amiga querida para a Covid-19 no Brasil. Sofremos, lamentamos, choramos....Nada poderá trazer de volta as pessoas que se foram. Ao mesmo tempo vi, da janela de casa, pessoas confinadas cantando todo dia as 21h o hino de Portugal. Aplausos aos profissionais de saúde ecoaram pela cidade do Porto. Um gesto pequeno, mas que mostrar o caminho do bem que a sociedade deve seguir.

No meio caso pessoal, ficar em casa me proporcionou estar mais presente no crescimento da minha filha, que nasceu em Novembro do ano passado. A inocência da pequena Clara me fez sonhar com dias melhores. Não deixei a peteca cair.  O Mundo mudou e cada vez mais precisamos entender que vivemos em sociedade. Cada vida conta e assim vejo o meu copo, as vezes não tão cheio, mas as vezes ele transborda de esperança.

 

#67 - O verão chegou em Turim - Clara Albuquerque

Turim é uma cidade que vive cada uma das estações do ano de forma muito clara e definida. O inverno é frio, as pessoas saem menos de casa, vestem casacos escuros e frequentam menos as ruas e parques. Na primavera, os restaurantes começam a colocar mesas e cadeiras em áreas externas e, aos poucos, as pessoas vão saindo mais de casa numa cidade que, em um mês, vai do marrom dos galhos ao verde das folhas. E então vem o verão, ainda mais colorido, barulhento e vivo. 

Claro que ainda estamos na primavera por aqui, mas o fim da quarentena no seu estágio mais radical trouxe o verão mais cedo pra Turim. Foi o primeiro fim de semana com restaurantes e bares abertos (em outras regiões, a reabertura aconteceu desde segunda-feira passada) e as temperaturas chegaram perto de 30°. As pessoas foram pra rua. E eu também. 

A escolha de um bar/restaurante para aproveitar o dia não foi como antes. Por conta dos novos protocolos de saúde, alguns só estão aceitando dois clientes por mesa, outros só estão funcionando com reserva e alguns ainda estão trabalhando apenas com take away. Acabei num bar de drinks na esquina de casa. Todos os funcionários usando máscaras e mesas muito mais espaçadas. Pessoas alegres. O colorido volta ao país. Que ele só vá embora novamente no inverno e por motivos exclusivamente climáticos.

 

#66 Voltei a ter datas marcadas no meu calendário – Tati Mantovani

Aqui na parede de casa, tenho uma lousa branca. Os dias da semana estão fixados para que eu possa desenhar meu próprio calendário. No dia 12 de março, quando a LaLiga anunciou que o Campeonato Espanhol estava suspenso, apaguei tudo. Desde então, não voltei a usar meu calendário. Hoje, 72 dias depois, ele foi reativado!

Calendário na parade da minha casa em Madri

O governo espanhol anunciou neste sábado que o Campeonato Espanhol vai voltar a partir do dia 8 de junho. A LaLiga, que estava aguardando a autorização do governo para voltar, já começa a trabalhar no retorno da competição. O mais provável é que seja na sexta-feira, dia 12 de junho.

A luz verde do governo não é só para o futebol. Na mesma entrevista, o Presidente do Governo espanhol anunciou que em julho o país abrirá suas fronteiras para os turistas estrangeiros. A partir de segunda, tudo começará a ser reativado em todo o país. Em Madri e Barcelona, as regiões mais afetadas pelo novo coronavírus, restaurantes poderão abrir com 50% da capacidade e pequenos comércios poderão funcionar.

A Espanha começa a conviver com o vírus. Todas as atividades econômicas estão voltando no país e o futebol também. Nos próximos dias teremos as confirmações de dias e horários das partidas das 11 rodadas do campeonato espanhol. Serão dias e horários que vou colocar no meu calendário, pois estamos voltando. Com uma “nova” normalidade e com um “novo” futebol.

#65 O normal é extraordinário - Marcelo Bechler

Venho aqui filosofar, eu sei. Se fosse pra enaltecer os anos 90, seria o Quezada. Acontece que outro dia ouvi na rádio em Barcelona o slogan de uma seguradora, durante os comerciais, que fez todo sentido. “O normal é extraordinário”.

Enquanto pegava uma bicicleta para ir fazer exercício a frase me veio à cabeça. Eram oito da noite, ainda havia sol, faziam 23 graus. A cidade verde pela primavera, as pessoas saindo às ruas para se exercitarem (ainda estamos em processo de desconfinamento, podendo sair em determinadas faixas horárias para esportes). Enquanto batia o vento e a bicicleta deslizava pelo asfalto de uma Barcelona sem carros, mas de novo com vida, eu pensei como aquilo era bom. E era normal. Pessoas andando pela rua, bom tempo e cores.

Já me perguntei algumas vezes, já conversei com amigos e faço essa pergunta também a você: qual a primeira coisa que você vai fazer quando voltarmos ao normal?

Ninguém me respondeu algo muito espalhafatoso. As pessoas não querem viajar para a Tailândia, fazer um cruzeiro pelo Caribe, conhecer a Torre Eiffel. Queremos abraçar quem amamos, tomar uma cerveja com os amigos, jogar aquele futebol de terça-feira de noite, fazer um churrasco com a família. 

Fim do dia em Barcelona

O extraordinário é o normal. A Tailândia é linda, a água do Caribe é cristalina e eu respeito quem goste da Torre Eiffel, mas queremos as coisas normais que enchem os nossos corações. Queremos as pessoas que gostamos perto, queremos rir e passar o tempo com elas.

A vida é feita de momentos assim. Mais de 90% dos nossos momentos felizes são normais. Queremos esses 10% ou menos na Tailândia ou em qualquer lugar, mas não precisamos disso para nos sentirmos bem.

O sopro de normalidade que tive enquanto fazia um trajeto de bicicleta com Barcelona do jeito que eu gosto me deu esse clique. Como é bom sentir coisas normais e como ser normal nos faz feliz.

Que já já possamos todos dar um abraço e fazer um brinde: às coisas normais, que fazem tanta falta!

 

#64 Óscar da quarentena vai para: The Last Dance! - Arthur Quezada

Quem já assistiu sabe do que eu estou falando. Quem ainda não viu, tem que correr para a TV e não deveria nem estar perdendo tempo lendo esse texto. O documentário The Last Dance, da Netflix em parceria com a ESPN, é uma super produção que fez renascer a lenda do basquete, Michael Jordan, e colocou todos os outros docs esportivos no chinelo. Com todo respeito as outras produções, os 10 episódios que contam a história do maior astro do basquete mundial, correlacionando com a dinastia do Chicago Bulls na NBA, nos anos 90, são impecáveis.

O enredo parece de filme e não de documentário. Tudo é bom, desde a trilha, as entrevistas, o recorte das historias, a contextualizando utilizando linha do tempo, o drama de cada momento marcante, e principalmente o acesso aos bastidores de um time de estrelas que buscava o sexto título da NBA, em 97/98...tudo é bom.

Diria que é o Game of Thrones dos documentários. Daqueles conteúdos que te fazem querer mais e mais. A história de personagens icônicos, além de Michael Jordan é claro, como Phil Jackson, Dennis Rodman, Scottie Pippen, dentre outros, nos faz mergulhar no mundo mágico e cultural dos anos 90 nos Estados Unidos. Talvez aquele Chicago Bulls tenha sido a maior equipe de todos os tempos em termos de esportes coletivos.

Os bastidores daquele time de estrelas é muito semelhante ao de grandes equipes de outras modalidades, principalmente o futebol. Com uma diferença, muita coisa do que acontece fora das quatro linhas a gente não fica sabendo. Quem sabe no futuro não teremos outros docs como este para nos revelar. Chega de papo, o melhor conteúdo possível nesta quarentena é The Last Dance. Esse é o veredito final.

#63 66 dias, 32 anos, uma eternidade  - Tati Mantovani
 

Lá se vão 66 dias desde que o estado de emergência começou aqui na Espanha, a minha quarentena já dura mais de 70 dias. E serão mais, até a primeira semana de junho. Mesmo assim, pouco a pouco, o governo está liberando algumas atividades no país. Porém, como Madri segue sendo uma das regiões mais atingidas pelo novo coronavírus, por aqui as restrições seguem valendo. Temos hora para sair, não podemos encontrar nossos amigos e a locomoção entre diferentes regiões segue proibida. Com tudo isso, estes 66 dias parecem uma eternidade.

Às vezes eu tenho a sensação de que o tempo não passa. Outra vezes parece que ele voa. O tempo é algo que eu aprendi a valorizar ainda mais nestes dias. Dentro desta minha reflexão, inevitavelmente, faço um paralelo com o mundo do futebol.

Gol que deu ao Real Madrid a Sétima Champions. Crédito: ElPaís

Este 20 de maio é um dia que a torcida do Real Madrid tem marcado no calendário. Em 1998, o clube voltou a conquistar uma Champions. Mijatovic balançou as redes da Amsterdam Arena e o Real voltou a estar no topo da Europa depois de longos 32 anos. A Sétima é, até hoje e mesmo para quem não a viveu, a Champions mais especial para os madridistas. 32 anos que pareceram uma eternidade.

O tempo entre um título e outro. O tempo entre um tipo de vida e outra. A pandemia está no forçando a calcular mais o tempo, a valorizar os momentos marcantes e a não desistir de poder voltar a desfrutar deles. Pra isso, precisamos continuar sendo responsáveis.

#62 Um mundo à parte - Fred Caldeira
 

A Premier League divulgou hoje um balanço da primeira leva de testes para o coronavírus. A conta envolve 19 dos 20 clubes, já que um deles realizou a testagem apenas na segunda-feira (18), portanto não tinha os resultados em mãos. Dos 748 profissionais testados - entre jogadores e membros das comissões técnicas - seis testaram positivo. Seis.

Até aqui, o Reino Unido realizou pouco mais de um milhão de testes. Quase 250 mil pessoas testaram positivo. Para deixar os números mais claros, o quadro é o seguinte: no país, há um caso positivo a cada 3,5 testes. Na Premier League, a proporção é de um a cada 124,5.

É importante lembrar que, como em qualquer país, o número do Reino Unido é composto principalmente por pessoas que deram entrada nos hospitais, enquanto na Premier League o grupo de indivíduos saudáveis é majoritário. Fato que não anula, ao meu ver, a interpretação esportiva mais gritante: hoje, é mais seguro jogar bola - na redoma da Premier - que ir ao mercado.

#61 - O início do fim - Clara Albuquerque

Depois do início do fim do mundo por aqui, agora já podemos falar do início do fim da pandemia na Itália. Ao menos da parte que envolve a quarentena. Depois de quase 70 dias, o país finalmente deixa de estar em quarentena total nesta segunda-feira, 18 de maio.

Pra sair de casa, não é preciso mais levar o documento de autocertificação preenchido com o motivo da saída (sim, até ontem, pra sair de casa, em todo o país, tinha que levar esse documento). Em quase todas as regiões, as lojas, restaurantes, bares, cafés, salões de beleza e tudo mais ja receberam autorização pra reabertura partir de hoje, ainda que sejam necessárias seguir diversas regras. 

As academias voltam a abrir a partir da próxima semana e, no início de junho, a livre circulação entre as regiões e também com outros países europeus será permitida! 

Foto: La Stampa

O ambiente aqui em Turim já mudou. Saí pra ir ao mercado e tive uma sensação grande de que a Itália é, hoje, um país em reforma. Seja no sentido figurativo da palavra, de que é hora de mudar para melhor, seja no sentido literal. A quantidade de estabelecimentos fazendo pequenas reformas pra se adequar à novas regras de distanciamento me chamou a atenção nos 4 quarteirões que andei até ao mercado.

Ainda falta muito pra essa reforma terminar, mas a quarentena, na Itália, acabou. Que não volte nunca mais.

 

#60 O poder de poder escolher - Marcelo Bechler

Durante os últimos dias fiquei pensando no que eu sentiria quando visse a bola rolar neste final de semana. Não é igual ver reprise, ver a liga da Bielorrússia (gracias por tanto) ou a Bundesliga. Os times, os jogadores, a disputa, o ritmo. Tudo era muito esperado. Nos primeiros minutos não pisquei. Quase comemorei o primeiro gol, ainda mais por ter sido de Haaland, um cometa que parece ter a simpatia de todos os seres humanos de bem. Mas pensando melhor, acho que comemoraria por qualquer um que colocasse a bola pra dentro.

Haaland comemora mantendo distância de seus companheiros. Fonte: reprodução Twitter do Borussia Dortmund

Passaram os primeiros minutos, os primeiros gols. Vieram as curiosidades de jogos sem torcida, comemorações por correspondência e gente no banco de reserva usando máscara.

Nos outros jogos, eu já via como um jogo qualquer. O jogo do Bayern, deste domingo, assisti enquanto me preparava para sair para correr. E foi aí que eu percebi - e me permitam misturar as bolas da volta do futebol e da volta do exercício físico. Me explico.

Há 16 dias nos permitiram sair de casa para fazer exercícios na Espanha. Em Barcelona ainda não podemos fazer outras coisas já autorizadas pelo país, porque aqui ainda tem um número perigoso de contágios. Desses 16 dias, sai seis vezes. Pensei que seriam 16.

Esse é o X da questão. Eu não preciso sair todo dia. Eu não preciso ver todos os minutos da Bundesliga como se fossem os últimos. Voltar a nossa liberdade, ainda que pouco a pouco, ainda que seja uma “nova liberdade”, não é fazer tudo. É saber que podemos fazer.

O mais duro do confinamento talvez seja nos tirar a opção de fazer o que talvez nem queiramos. Eu não gosto de correr na rua, mas me emocionei no primeiro dia que sai. Eu não gosto de Eintracht Frankfurt x Borussia Monchengladbach, mas deixei a TV ligada - e às vezes prestava atenção no filho do Liliam Thuram, que joga pelo Borussia.

Queremos saber que podemos. Que podemos correr, que podemos ver futebol, que podemos ter perspectivas que as coisas serão como antes. É isso que alivia o confinamento: ter a opção de ficar em casa, sem correr ou sem ver o Frankfurt jogar. Quanto mais opções ganhamos, mais leve fica.

A vida é feita de escolhas e escolher é perder, porque sempre deixamos algo para trás. Hoje eu percebi que viramos do avesso. Agora se podemos escolher, é porque ganhamos uma opção.

#59 Apita o árbitro, estamos de volta! - Arthur Quezada

Na prática, pouco mais de 2 meses sem futebol. No sentimento, anos. Quando liguei a TV neste sábado para assistir Borussia Dortmund X Schalke 04, pela 26ª rodada da Bundesliga, a ansiedade era de quando vou assistir uma final de campeonato, com meu time jogando. Máscaras, arquibancadas vazias, protocolos de higiene, distanciamento social, sem abraços e cumprimentos nos gols...tudo estava diferente, mas a essência estava ali, sempre esteve.

A Alemanha mostra ao mundo que é possível. Só quando for viável, mas é possível. O esquema de "guerra", desenhado e executado nas últimas semanas, tornou realidade o retorno do futebol. Aplausos para a DFL (Federação Alemã de Futebol), para os clubes, para os jogadores, para a galera da transmissão, para o pessoal do suporte. O mundo parou para ver a Bundesliga. Na verdade, aplausos para toda a estrutura de saúde do país, que está muito a frente de outras grandes nações mundo à fora. O tal pragmatismo alemão não é um defeito, como muitos insistem em rotular.

O futebol na Alemanha voltou e Portugal será o próximo. Dia 4 de Junho teremos o regresso do Campeonato Português. Porém, nesta última sexta-feira, outro retorno me marcou muito. A equipe do Esporte Interativo no Porto (Eu e a repórter de imagem, Carol Albuquerque) voltou à gravar nas ruas da cidade. O programa De Olho na Liga, que vai ao ar todo sábado na TNT as 10h, tem como cenário pontos turísticos na Europa, especialmente Portugal. Por conta da quarentena, paramos de gravar semanalmente. Só que nesta semana, com o fim do Estado de Emergência em solo lusitano, voltamos.

Fomos até a região da Ribeira, perto da Ponte Dom Luiz, um cartão postal da cidade. Normalmente, o ponto mais turístico do Porto, costuma estar cheio de turistas, comerciantes, estudantes, gente de todo lado. O que encontramos desta vez foi um cenário quase apocalíptico. Com todos os cuidados, máscara e afins, começamos as gravações no silêncio de uma cidade deserta. O barulho mais latente era do rio, e do número elevado de motocicletas, principalmente de aplicativos de entrega.

Gravamos sem ninguém para entrar na frente da câmera, ou atrapalhar falando alto, ou até mesmo para perguntar: "é para o Brasil, menino?"... Sentamos às margens do Rio Douro para editar. No silêncio ensurdecedor, nem precisamos de fones de ouvido. Terminamos as gravações e fomos para a casa. Felizes, afinal atingir a normalidade parece utopia nos dias de hoje, mas os primeiros passos já estão sendo dados.

#58 Com hora para sair e para assistir futebol na TV – Tati Mantovani

Madri continua sendo uma das regiões da Espanha mais afetadas pelo novo coronavírus. As restrições aqui continuam. Temos horário para sair de casa, os restaurantes, teatros, museus e cinemas seguem fechados. Portanto, minha vida por aqui continua sendo 99% confinada. Saio apenas uma vez por semana para ir ao supermercado e, nos últimos 15 dias, sai uma vez para caminhar no horário permitido.

Um sábado de trabalho em Madrid lá em 2018.

Geralmente nos sábados do mês de maio, quando as temperaturas por aqui são muito agradáveis, as tardes são de sol no parque, cerveja com os amigos ou futebol no estádio. Nada disso é possível. Mas neste sábado, pelo menos uma das sensações de maio em Madri estará de volta. A sensação de assistir um jogo de futebol.  

Dentro de todo o contexto que estamos vivendo, voltar a ver a bola rolando poderá provocar diferentes sensações. Eu estou louca para descobrir o que vou sentir. Fato é que a Bundesliga nunca foi um campeonato que acompanhei tanto.

Assistia alguns jogos soltos das equipes que participam de competições europeias. Neste sábado, para mim, assim como para um montão de loucos por futebol que está sedento por ver a bola rolar, o campeonato alemão será um oásis no deserto.

Não será no estádio, não será em Madri, mas será futebol. O “novo” futebol.

#57 Bundesloka. Vamos falar de coisa boa? Melhor de Dez. As novas facetas dos correspondentes - Arthur Quezada

Já ouviram naquele ditado: "quem não tem cão, caça com gato"?

É mais ou menos isso o que está acontecendo com os correspondentes do Esporte Interativo. A Pandemia paralisou a Champions, os jogos das ligas nacionais, as coletivas de imprensa, os 15 minutos de treinos abertos, os amistosos das seleções europeias, até mesmo a possibilidade de sair de casa para gravar.

Sem largar o osso, tivemos que nos reinventar.  Já tínhamos programas que poderíamos perfeitamente gravar de casa, como o Conexão Europa ou o ao vivo no MFM Debate. Mas era pouco para nossa equipe. Afinal, somos a maior equipe brasileira de esportes trabalhando na Europa e foi usando a criatividade que estamos tentando melhorar o conteúdo, dia após dia. OK, esse texto é "chapa branca" demais, mas os exemplos estão ai pra não me deixar mentir, e as novidades pipocam semana após semana. Nesta sexta-feira, 15, será a minha vez de testar uma nova faceta.

Bundesloka

A Bundesliga será a primeira grande competição europeia à retornar. Mais do que nunca, todos estarão ligados no futebol alemão. Por isso, resolvi criar um programa para falar um pouco mais das curiosidades, dos grandes clássicos, das equipes emblemáticas, das histórias apaixonantes e da cerveja alemã, é claro. Com um tom bem-humorado e com algumas surpresas, teremos 9 episódios para as 9 rodadas restantes da competição. O primeiro vai ao ar nesta sexta, nas redes sociais e youtube do Esporte Interativo.

Vamos falar de coisa boa?

Fred Caldeira se inspirou no programa Some Good News, de John Krasinski, para trazer um pouco de humor à realidade pandêmica que estamos enfrentando. Com edição de Carolina Albuquerque e participação especial de outros correspondentes/casting, o programa estreou na última terça-feira, 12, no Canal De Sola e nas redes sociais do Ei. Formato de jornal, com um tom bem-humorado, preparado exclusivamente para este período de quarentena, trazendo a todos a leveza que precisamos em meio ao cenário de notícias pesadas relacionadas à pandemia, além de um resumo do que há de melhor acontecendo no mundo esportivo.

Melhor de Dez

Não foi Marcelo Bechler quem criou o Melhor de Dez, mas com certeza foi feito pra ele. No programa que testa a argumentação e a memória futebolística dos participantes, nosso correspondente em Barcelona já surrou 5 oponentes, dentre eles VSR, Bruno Formiga, André Henning...O homem é uma máquina na argumentação. Ele vence y vence.

MFM Debate Exclusivas

A repaginada no MFM Debate (programa ao vivo que traz os correspondentes para debater o futebol europeu) foi feita na base de entrevistas exclusivas. Jogadores de vários países já bateram um papo com a gente. Guilherme, do Olympiacos, Jorginho. do Chelsea, Ricardo Pereira, do Leicester, Rafael, do Lyon...por ai vai. Na segunda-feira, 18, teremos o Profe Ortega, preparador físico do Atletico de Madrid e braço direito de Simeone.

Enfim, dá uma trabalheira...mas nossa audiência merece.

 

#56 É jogo de Copa do Mundo, amigo - Marcelo Bechler

A Bundesliga é a nova Copa do Mundo. Aquele campeonato jogado dentro de um mês (será um pouco mais do que isso), em que muita gente que acompanha o futebol por alto passa a se interessar freneticamente pelo jogo. É na Copa do Mundo que muita gente passa a conhecer aquele volante marfinense, o atacante dinamarquês, o meia belga que cumpre seu papel.

Todos os olhos se voltam para a Copa, como grande e único evento desportivo disponível no menu. Assim será com o Campeonato Alemão, a partir de sábado. De repente o Paderborn te parece simpático. A história do Union Berlim te comove, o futebol e as ideias modernas do Leipzig te convidam a torcer pelo azarão. A arquibancada de papelão do Borussia Mönchengladbach ganha sua preferência.

As atuações de Lewandowski vão fazer as pessoas vê-lo como o melhor do mundo (e talvez fosse nesta temporada). Gnabry, Davies, Reyna, Havertz, Olmo e outros serão descobertos.

O alemão será uma febre em seu retorno. Os dias serão menos longos e monótonos também para nós, correspondentes em quarentena, que seguimos dentro de nossas casas. Prepare sua cerveja, salsicha, pão e mostarda. Vai começar!

 

#55 Vire a cara - Fred Caldeira
 

Vou cometer o pecado que é iniciar o texto com as mesmas palavras que as do título, mas é necessário: "vire a cara quando houver uma dividida" será uma das instruções que a Premier League dará aos capitães dos 20 times na reunião desta quarta-feira. Parece absurdo - e é.

Enquanto alguns jogadores começam a demonstrar publicamente as próprias insatisfações com a temeridade que é retornar o futebol em meio à pandemia, a Premier League tenta convencê-los de que a cultura do futebol deverá mudar drasticamente. "O governo pede o retorno do futebol como uma injeção de ânimo para o país. Cara, eu não ligo porra nenhuma para o ânimo do país, as vidas das pessoas estão em risco", disse ontem o lateral do Newcastle e da seleção inglesa Danny Rose.

A quarta-feira de reuniões - primeiro com capitães e jogadores mais experientes, depois com os treinadores - será determinante para os próximos passos da liga mais rica do mundo. Se houver consenso, treinamentos serão retomados a partir da próxima semana e o começo de junho parecerá um horizonte concreto de retorno da competição. Se as divergências prevalecerem, as chances da Inglaterra seguir o caminho da França passam a se tornar relevantes.

Veremos.

#54 Um pingo de verde - Clara Albuquerque

Há exatamente uma semana, na Itália, foi permitido sair de casa para fazer exercícios individualmente ao ar livre. Desde 4 de maio, portanto. Mas, durante toda a semana, eu não saí para dar uma caminhada, mesmo morando praticamente do lado do principal parque de Turim, o Valentino. 

De todas as dificuldades da quarentena, não fazer exercício físico é o menor dos meus problemas. Por isso, decidi que esperaria alguns dias pra dar esse passo. Na minha cabeça, é muito claro que quanto mais gente decidir ficar em casa mais tempo, melhor. 

Não marquei uma data marcada pra sair, mas, no domingo, olhei a previsão do tempo para a semana e vi que teríamos chuva aqui em Turim quase todos os dias. Decidi, então, fazer uma caminhada antes do tempo fechar. 

Que coisa mais linda é o verde da primavera. Como Turim é linda. Foram as primeiras coisas que vieram na minha cabeça enquanto iniciava minha caminhada rápida de 4 quilômetros pelo parque. Algumas áreas estavam bastante cheias, especialmente as que tinham algum quiosque vendendo bebidas e alguns lanches. A novidade do fim de semana, na minha região, foi a reabertura dos bares e restaurantes para take-away. Não pode consumir na frente do local, apenas pegar e levar pra casa, mas é claro que tinha muita gente bebendo ou comendo alguma coisa rápida ali por perto. Evitei essas áreas e caminhei por outros lugares bem mais vazios. Encontrei alguns esquilos, o que animou consideravelmente o passeio. 

 

Fez bem? Claro que fez. Mas ainda é um pinguinho de água numa jarra vazia. Seguirei em casa, durante essa semana, na espera de outros pingos. No fim de semana, o Governo vai avaliar as primeiras duas semanas deste início de reabertura/retomada e pode tomar a decisão de seguir adiante ou dar alguns passos atrás. Espero que a gente não precise secar novamente essa jarra.

 

#53 Vírus da saudade - Arthur Quezada

10 de Maio de 2020. Dia das Mães no Brasil. Um dos dias mais especiais para a minha família. Desde pequeno, me acostumei à essa data como uma das principais fraternizações por parte materna da minha descendência. Aquela boa família ítalo paulistana, saca? Macarrão na mesa, bom vinho, frango, maionese, farofa, gente falando alto, beijos e abraços, cantoria na cozinha, barulho de panela, pratos, risadas....tudo isso comandado pela minha vó Lídia, que já há alguns anos não está mais entre nós.

Porém, o Dia das Mães deste ano teve sua importância ímpar em meio a Pandemia que enfrentamos. Minha mãe agora mora em Portugal, em Esposende, localidade a 50km de distância do Porto. Por conta do vírus, fizemos a quarentena separados. Ficar 2 meses longe da minha mãe não seria um grande problema, mas nesse ano é um problemaço. Isso porque fui pai de primeira viagem, recentemente, e minha pequena Clara completou, neste dia 10 de Maio, 6 meses de vida. Há dois meses minha mãe não tinha contato algum com ela. Privar uma avó disso é horrível, mas se fez necessário.

Com o fim do Estado de Emergência em Portugal e os indicativos de crescimento do vírus no país melhorando, decidimos que era a hora de matar essa saudade. Eu e minha esposa passamos o domingão com a "mãma". Sem abraços, sem beijinhos, muito álcool em gel, mas com o coração cheio de esperança. Por conta da Pandemia, meu pai, que mora no Brasil, ainda não conhece a neta. Teve o voo cancelado em Março. O vírus da saudade pegou a minha família em cheio, e não somos os únicos, não é? Mas o antídoto é ter paciência, afinal, como dizem aqui em Portugal: "Juntos somos mais fortes".

 

#52 O “novo” futebol – Tati Mantovani

A Espanha está começando a viver uma “nova” normalidade. Algumas regiões do país já poderão frequentar restaurantes na próxima semana. Com reserva, espaço de 2 metros entre uma mesa e outra, em pequenos grupos e com todo um protocolo de segurança. Será uma “nova” normalidade. O futebol segue a mesma linha da sociedade, pouco a pouco os clubes estão voltando e já estamos vendo um “novo” futebol.

Neste sábado (9) depois de todos os jogadores passarem por testes para Covid-19, clubes como o Atlético de Madrid e o Valencia retornaram aos treinos. O Barcelona voltou ainda na sexta (8), o Real Madrid só voltará na segunda (11). Os treinos são de forma individual. Seis jogadores por campo, sem nenhum contato e mantendo 2 metros de distância uns dos outros. Eles chegam de máscara e luvas, já com a roupa do treino posta. Testam a temperatura, pegam o material que vão utilizar no treino individual e vão para o campo. Conversam à distância, fazem os exercícios e voltam para casa sem passarem pelo vestiário.

Depois de dois meses, os jogadores voltaram aos CTs. Na entrevista que fizemos hoje com o Gabriel Paulista, do Valencia, ele falou sobre a sensação estranha de voltar aos treinos desta forma e da felicidade de poder reiniciar algo que caminha para terminar com a volta do futebol. Na verdade, do “novo” futebol.

 

Assim como todos precisaremos nos adaptar a uma “nova” normalidade, o mundo do futebol também. De momento, são os treinos com cuidados, mas para frente os treinos em grupo, os testes mais constantes e só depois a bola rolando. Um “novo” futebol que ainda está mais no papel que na realidade.

#51 O tempo jamais vai apagar o Milagre de Lucas Moura - Arthur Quezada

Quarentena é sinônimo de saudosismo. A gente fica lembrando de histórias, de momentos especiais, esperando que tudo volte ao normal para podermos colecionar mais emoções. No ano passado, vivi a situação mais incrível da minha carreira como repórter na Liga dos Campeões. Já são 5 temporadas cobrindo a maior competição de clubes do mundo, e com isso, tive a oportunidade de trabalhar em 3 finais in loco (Cardiff, Kiev e Madrid). Perdi a conta dos jogos emocionantes que presenciei. Porém, o dia 8 de Maio de 2019, semifinal entre Ajax e Tottenham, é inatingível, inigualável, incomparável, em termos sentimentais. Pelo menos para mim....foi, sem dúvidas, o meu maior jogo de Champions.

Amsterdã amanheceu nublada, com uma chuva leve em determinados momentos do dia. Eu tinha ido dormir tarde, ainda incrédulo com a eliminação do Barcelona em Anfield na noite anterior. Na minha cabeça, uma final Liverpool X Ajax era praticamente certa. Qual a chance de termos outra virada espetacular com menos de 24 horas? Um Tottenham desfalcado, sem Harry Kane, seu principal jogador, e que já tinha perdido o primeiro jogo em Londres para os holandeses por 0x1. O Ajax estava com um pé na final.

Tomei banho no hotel ouvindo Bob Marley, Three Little Birds, música que toca no intervalo de cada partida do Ajax na Johan Cruyff Arena. Fiz a barba, coloquei a melhor camisa disponível...afinal, era semifinal de Champions. Fui cedo para o estádio e cheguei 6 horas antes do jogo começar. Queria sentir o clima, a atmosfera e mostrar os bastidores nos stories do Instagram.

 

A torcida do Ajax estava em lua de mel com o time. No Domingo, tinham vencido a final da Copa Holandesa, estavam próximos de conquistar o Campeonato Holandês e o eminente retorno a uma final de Champions também se fazia presente. Tudo conspirava. O time jogava o futebol mais bonito da Europa. Uma molecada solta, voando, atacando sem medo, derrubando gigantes como Real Madrid e Juventus nas fases anteriores. Tudo conspirava.

 
arthur torcida ajax

O esquenta nos arredores do estádio começou cedo e aos poucos milhares de torcedores começaram a chegar. Mais de 50 mil eram esperados. Entrei no estádio faltando umas 3 horas para o início da partida. Bateria de "ao vivos", adrenalina do repórter vai subindo. Entrevista com Overmars, foto com Sneijder, mais entradas na programação. Os time chegam e vão fazer o reconhecimento do gramado. O estádio vai enchendo e o aquecimento começa. Tudo isso demora 2 horas, mas para quem está lá, tudo passa num piscar de olhos.

Terminadas as entradas ao vivo, faltando 10 minutos pra começar o jogo, corro para minha posição atrás do gol. Festa nas arquibancadas, com bandeiras, hino, orgulho estampado na cara dos torcedores do Ajax. O primeiro tempo começou e tudo fazia sentido. Conspirava a favor do Ajax. Time gastou a bola, fez 2X0 com De Ligt e Ziyech e quando o juiz apitou o fim do primeiro tempo, eu não tinha dúvidas de que o Ajax iria para a final.

Comecei a mentalizar as perguntas que faria na zona mista. Faltavam 45 minutos e pra mim estava tudo definido. Só esqueceram de avisar a um tal de Lucas Moura. O Tottenham voltou para o segundo tempo aguerrido e o Ajax ao invés de controlar o jogo, não perdeu o seu DNA, foi pra cima. Quando Lucas fez o primeiro gol, pensei: "legal, pelo menos o Lucas guardou o dele, fazer gol em semifinal de Champions não é pra qualquer um". Quando Lucas fez o segundo gol, ligou o alerta, pensei: "Rapaz, e se o Tottenham faz o terceiro?". Contactei nossa repórter de imagem, Carol Albuquerque que estava posicionada no outro lado do campo, para que ela viesse até o gol para onde o Tottenham estava atacando. Mas ela já tinha pensado nisso e estava praticamente do meu lado, só que a adrenalina era tanta que não a vi.

Já nos acréscimos peguei minhas coisas e me preparei para correr para zona mista, para encontrar um lugar bom para as entrevistas. Quando estava saindo do gramado, olho pra trás, bola na área....e o que vi foi um verdadeiro milagre do futebol. Com o pé esquerdo, pela terceira vez, Lucas. 2x3. Carol filmou, óbvio:

Corri, desesperadamente para a Zona Mista. As calças caindo, o tripé batendo na cabeça e o cérebro a mil por hora, sem entender direito o que eu tinha presenciado. Consegui pegar um bom lugar para entrevistá-lo e comecei a pensar: "o que diabos vou perguntar pra esse cara". Tinha que ser uma entrevista emocional, eu estava arrepiado, imagina ele. Meu chefe mandou mensagem e disse: "a narração do Jorge Iggor, do Esporte Interativo, está emocionante", foi aí que surgiu a ideia de mostra-lhe a narração. Foi como apresentar para ele como o Brasil inteiro viu o que ele tinha feito. Familiares, amigos, fãs. Toda vez que vejo esse vídeo abaixo me emociono. O Milagre de Lucas Moura jamais será esquecido. Obrigado Lucas.

 

 

#50 Desavenças na Premier - Fred Caldeira
 

Oito pontos separam Brighton e Norwich. O primeiro está três posições acima da zona de rebaixamento, enquanto o segundo está na última colocação. No total, seis clubes tentam escapar das três vagas no trem que afasta os passageiros da riqueza da Premier League - o campeão da Championship, a segunda divisão inglesa, ganha em média nove milhões de libras. O lanterninha da Premier fatura quase cem milhões.

"Siga o dinheiro" é a frase mais convencional quando, no jornalismo, é preciso investigar a origem dos fatos. A grana - ou a falta dela - explica quase tudo no mundo, e as atuais desavenças na Premier League não são exceção. Enquanto todos os vinte clubes concordam que é preciso concluir a competição dentro de campo, nem todos estão felizes com a possibilidade de disputar as 92 partidas restantes em estádios neutros. Há quem coloque a responsabilidade por essa discordância justamente nos clubes que brigam contra o rebaixamento, mas parece que a história não é bem assim.

Hoje, o presidente do Brighton disse que concentração de renda na liga não é igual à de diferenças de opinião: "não é uma briga entre os seis primeiros colocados contra os seis últimos". Ainda de acordo com Paul Barber, são diversos os clubes que temem que a conclusão da liga em estádios neutros atinja a justiça de uma competição que começou de maneira diferente.

Penso que o ineditismo de todo esse cenário da pandemia permita que o ideal de justiça esportiva jamais seja alcançado, e fico com o pé atrás ao interpretar tais argumentos como utilização da crise do coronavírus para interesses particulares. A palavra final, também no futebol, deve vir da ciência.

# 49 Viajando de avião na pandemia - Isabela Pagliari

Meu alarme tocou às 6h20 da manhã de terça-feira. Rapidamente fiz uma checagem mental para ver se não tinha esquecido nada. Dez minutos depois, o motorista do Uber chegou e seguimos até o Aeroporto Charles de Gaulle. O destino? Brasil.

Foi muito estranho observar a movimentação das ruas de Paris após 51 dias confinada. Esse trajeto casa-aeroporto era tão comum na minha rotina A.C (antes da Covid-19) e agora a sensação era de uma cidade fantasma, não tinha carro. O ruído das folhas no chão ocupava o do caminhar de alguns franceses que praticavam atividade. O vento ecoava como uma canção. Nada era tão barulhento como o motor do carro que parecia estar no meu colo.

 

Curioso, o motorista me perguntou se os aeroportos já estavam abertos e como estava a situação dos voos. Para sair do país, no meu caso a França, é preciso apresentar o passaporte brasileiro. Para voltar, um comprovante de residência e um visto de trabalho ou apenas um documento europeu basta.

O aeroporto está diferente

"Vamos nos proteger e proteger aos outros, vamos manter a distância social. Por favor, mantenha esse assento vazio" (Foto: arquivo pessoal)

Cheguei no aeroporto às 6h50 (meu voo era às 10h10), o movimento era escasso e muitas coisas me chamaram atenção. Primeiro, todo o meu cuidado a cada segundo para não encostar em nada e continuar com a máscara intacta no meu rosto. Olhando ao redor, percebi que esse mesmo zelo era compartilhado com as outras pessoas no local.

Não comeu nada de manhã e está com fome? Se deu mal, tudo fechado, restaurantes, lojas e cafés. No painel dos vôos, apenas 5 estavam programados, incluindo o meu. No chão, marcações para respeitar o distanciamento e muitos avisos sobre as medidas de prevenção do vírus estavam espalhadas pelos corredores. A cada 10 minutos, no alto-falante do aeroporto, as mensagens escritas eram transmitidas agora em inglês e em francês. Todo o cuidado é pouco e não custa nada relembrar.

Painel de voos do aeroporto Charles de Gaulle vazio (Foto: arquivo pessoal)

Na imigração, mostrei meus dois passaportes, brasileiro e italiano, tudo certo. Na hora do embarque, fomos divididos em grupos pequenos e todos respeitando a distância de pelo menos um metro. Como o avião estava bem vazio, foi possível colocar uma pessoa por blocos de cadeiras , e em alguns casos, pular até uma fileira. Pelas minhas contas éramos umas 100 pessoas, e o Airbus A350 comporta até 516 lugares, o voo estava bem vazio. Da série de pequenos prazeres da vida: consegui ficar com três poltronas e deu pra compensar a noite que passei em claro.

Voo de Paris para São Paulo foi bem mais vazio que o comum (Foto: arquivo pessoal)

Chegando no Brasil, o desembarque também foi realizado em pequenos grupos e o aeroporto estava relativamente vazio.

Enquanto meu irmão e a namorada me aguardavam na saída do desembarque de Guarulhos, fui buscar a mala na esteira 4. Observando o local, as comparações com a França foram inevitáveis:  "Por que o Freeshop está aberto?"; "e essas pessoas trabalhando no aeroporto sem máscara?";  "olha, geral aglomerado ali na esteira".

O choque continuou assim que pegamos a marginal: "Quanto carro na rua!!". Foi um mix de revolta e tristeza.

No aeroporto, não teve nenhum tipo de recomendação, mas vou fazer quarentena de 15 dias na minha casa em São Paulo, e só depois disso vou encontrar com meus pais. Que comece a quarentena parte II.

#48 Não esperem apologia à ingenuidade - Marcelo Bechler

Por aqui já são 53 dias. De totalmente fechados a poder fazer pequenos passeios e esportes. Em mais alguns dias poderemos visitar amigos. Os contágios caem, o número de vítimas fatais também, os hospitais de campanha fecham. Só podemos falar em normalidade no dia que chegar a vacina e isso vai demorar um ano ou mais, mas logo teremos uma “quase normalidade” ou “nova normalidade”.

Depois de tanto tempo fechados, tivemos tempo de sobra para nos questionar como será o mundo pós-pandemia. Vamos sair melhores? A sociedade vai mudar? Os animais estão voltando para as cidades. Vê-se golfinhos no porto de Barcelona, peixes nos, outrora, imundos canais de Veneza. O maior buraco da camada de ozônio no polo norte foi fechado. O mundo se recupera rapidamente dos humanos. Mas e nós? Como vamos sair?

O otimismo dos bons números dos últimos dias na Europa, as palmas aos profissionais de saúde e os velhinhos deixando os hospitais parecem um sopro de esperança, mas eu não farei apologia à ingenuidade. Sinceramente, não acho que mudaremos tanto como sociedade.

Queremos logo nossas vidas de volta para retomar as viagens, ver as ruas cheias e lojas abertas, voltar aos bares, às festas. Se o mundo parasse porque somos uma sociedade de consumo desenfreado, porque poluímos com mais plástico e combustível do que deveríamos usar, se fosse uma crise gerada pelo aquecimento global, colocaríamos a mão na consciência.

As cidades vão mudar pós-pandemia? E nós?

O problema é que o coronavírus não tem um culpado coletivo e claro. Não é possível, daqui a 10 anos, agir diferente para que um vírus desconhecido não apareça. Nã há estudos para mostrar que virá uma doença misteriosa, que ninguém sabe como se contagia durante meses e que 1/5 das pessoas que têm, nem sabem e transmitem para os outros.

Eu adoraria fazer um texto com final feliz. Dizer que vamos ter mais empatia, que vamos mudar nossa forma de ver o mundo, que as cidades serão mais ecológicas. No início talvez, mas não acredito que isso terá fôlego. No máximo estaremos mais atentos à ciência e aos avisos e recomendações dos especialistas.

Não precisamos de uma pandemia para mudar. Talvez seja essa a lição.

 

#47 Um 4 de maio ainda mais marcante - Clara Albuquerque

O 4 de maio é uma data muito significativa aqui em Turim. Foi nesse dia, há 71 anos, que o avião com todo o time do Torino, que na época era o grande campeão do país e a base da seleção italiana, se chocou num dos muros da Basílica de Superga, matando todos os tripulantes do voo.

É um dia muito marcante pra cidade e, todos os anos, nesse dia, torcedores do Torino e amantes do futebol, sobem até a colina onde está a Basílica para recordar e homenagear os que morreram na tragédia.

Presidente do Torino presta homenagens em Superga vazia

Por diversos motivos, nos quatro anos desde que vim morar na Itália, não pude acompanhar o evento. Nos dois primeiros anos, eu estava viajando a trabalho e, no ano passado, que eu estava na cidade, a Basílica estava em reforma, e a cerimonia foi realizada na catedral da cidade e não aconteceu da mesma forma que seria na Basílica. Hoje, pela quarta vez, não será possível viver esse dia na sua forma mais tradicional, mas será um dia de esperança.

Por ironia do destino, o 4 de maio de 2020 ganhará outro peso importante na cidade e no país: o começo da fase dois, na Itália, a fase de convivência com o novo coronavírus e que marca o início da reabertura/retomada na Itália. Hoje, diversos trabalhadores voltam aos seus ofícios, parte do comércio retoma as atividades e os parques e ruas voltam a estar “abertos” para exercícios físicos de forma individual. Os clubes de futebol também foram autorizados a abrir seus CTs para treinos individuais dos jogadores. Coletivamente, a partir do dia 18 de maio. 

Tudo ainda está muito longe, mas, hoje, em Turim, o dia é de esperança e recordação.

A Basilica de Superga durante o 4 de maio em outros anos

 

# 46 Correr é uma vitória de todos - Marcelo Bechler

Como vocês viram no texto da Tati, depois de 50 dias nos foi dado aqui na Espanha o direito de praticar esportes ao ar livre duas vezes ao dia. Diferentemente da Tati (obrigado pela resiliência e empatia, guria!!!), eu sim sai para correr.

Não sou um grande fã de corrida de rua. Acho um pouco monótono e fico entediado. A questão é que depois de 50 dias sozinho em um apartamento pequeno, onde mal entra sol, se me liberassem para esquiar no asfalto eu compraria os esquis.

Não fui à praia em Barcelona, que ficou lotada. Moro perto da Avenida Diagonal que tem um passeio bastante largo e arborizado, com pista de corrida, ciclofaixa, jardim, etc. Estava cheio, muita gente também compraria os esquis para usar no asfalto, mas eu consegui perceber uma cumplicidade em cada um. Tentávamos manter distância, cruzávamos olhar e nos distanciávamos uns dos outros como podíamos, quando o semáforo parava, não fazíamos uma fila de pessoas para atravessar, mas nos dispersávamos pela calçada esperando a luz verde.

Estava muito mais cheio que um dia normal, sim. E era bastante compreensível que estivesse, na minha opinião. Corri 2km em 10 minutos, fiz 7 sprints de 20s e depois voltei 2.5km em 13 minutos. Cansei, suei e estou cheio de dores, bem típicas de tanto tempo parado.

O primeiro dia ao ar livre, depois de quase 50 dias

Enquanto corria e via as pessoas, percebi que sair à rua e correr não tinha a ver com queima de calorias, ganho de condicionamento físico, quilometragem ou tempo. Tinha a ver com liberdade. Colocar um tênis, uma música no fone de ouvido e deslizar pelas ruas da cidade eram a celebração de uma vitória. Minha e de todos.

Aguentamos 50 dias em casa. Cada um com suas particularidades. Criamos empatia dos mais idosos, evitamos ir ao mercado sem necessidade e nos mantivemos pacientes esperando. Os números de contágios e mortos estão baixando, os hospitais de campanha estão fechando suas portas.

A primavera chegou, as temperaturas passam dos 20 graus, a cidade está linda. Dói ver um lugar tão cheio de vida e alegre como Barcelona triste e de cabeça baixa, confinado dentro de sua casa.

Como a Tati disse, o juiz apitou neste sábado. Mais que fazer esportes, podemos dar um passinho depois do outro para voltarmos a sorrir. Sem precisar correr, mas também sem parar de caminhar.

 

# 45 Apita o árbitro – Tati Mantovani

Não, o futebol ainda não retornou aqui na Espanha, mas o governo já autorizou a prática de esportes. Neste sábado, 2 de maio, fomos liberados parcialmente do confinamento para sair e praticar esportes. A regra é simples: de 06h a 10h e de 20h a 23h, pessoas de 14 a 65 anos, podem sair uma vez ao dia de casa para realizar atividade física. 

Eu não sai esta manhã e não devo sair esta tarde. Como aconteceu quando o governo liberou a saída com as crianças, os primeiros dias serão de certa aglomeração, mesmo a maioria respeitando as regras e o distanciamento.

Imagem do Paseo Marítimo de Barcelona. Crédito: EFE

Penso, se quando a vida era “normal” eu não sai para correr todos os dias, não tem motivo para ser diferente agora. Sim, o confinamento é complicado e, bem por isso, tento pensar em quem sim pratica esportes diariamente e estava louco para sair. Não é o meu caso, eu posso esperar mais alguns dias.

Já são mais de 50 dias confinada, eu sinto muita falta das ruas da minha Madri, mas sigo tentando ser responsável. Talvez eu saia amanhã ou talvez só na segunda-feira. Não é porque o árbitro apitou que temos que sair como loucos atrás da bola. O jogo está só começando e se todos formos responsáveis talvez a gente consiga fazer com que, o quanto antes, a “nova” normalidade retorne para as nossas vidas. Os números aqui na Espanha estabilizaram, mas o vírus segue aí fora. Quero deixar estes primeiros dias para quem precisa mais.

# 44 Adeus quarentena, chegou sua hora - Arthur Quezada

Estou empolgado, eu sei. Talvez não deveria, eu sei também. Mas depois de quase 50 dias de quarentena, chegou a hora do desconfinamento, pelo menos para Portugal. O Governo português anunciou nesta semana o plano para que o país deixe o Estado de Emergência, e retome, aos poucos, a vida normal.

Portugal se tornou referência na Europa pela forma como conseguiu lidar com a pandemia da Covid-19, e hoje apresenta números bem abaixo em comparação a outros países europeus (são "apenas" 25351 casos, 1007 mortes). O sucesso da estratégia lusitana na crise obviamente tem a ver com o tamanho do país, afinal são cerca de 11 milhões de habitantes, e com a facilidade de gerir fronteiras, pois a única terrestre é com a Espanha. Porém, está longe de ter sido apenas isso. Não foi sorte. Governo agiu rápido, boa parte da população aderiu a quarentena voluntaria e o país se uniu para combater o vírus, dentre outros fatores.

Agora, a tal luz no fim do túnel. O Plano Nacional de Desconfinamento será feito por fases e executado nos mínimos detalhes. A partir do dia 4 de Maio, a quarentena domiciliar obrigatória deixa de vigorar e ao longo dos próximos dois meses todas atividades vão regressar. Inclusive o futebol, no dia 30 de Maio. Veja abaixo.

Por falar em futebol, com a decisão do Governo, o Campeonato Português passa o primeiro a ter uma data para retornar, dentre os principais da Europa. 30 de Maio. Muito provavelmente, a Bundesliga volte antes (previsão dia 16 de Maio), mas ainda há suspense em relação a isso.

Faltam 10 rodadas para a conclusão do Portuguesão e o formato deste retorno ainda é incerto. As datas das partidas serão decididas pela Liga Portuguesa e os estádios permanecem em dúvida, pois há a ideia de fazer os jogos nos locais mais seguros no país. Todos os duelos sem torcida, é claro. A final da Taça de Portugal entre Porto e Benfica também vai acontecer. Ainda sem data, mas será após a conclusão do Campeonato Nacional.

Enfim, começamos a dar adeus à quarentena. Tudo ainda vai depender da evolução da pandemia após esse desconfinamento. Mas hoje vou abrir uma garrafa de um bom vinho português pra comemorar. As coisas vão melhorar. As garrafas vão acabar.

 

#43 - C’est fini - Isabela Pagliari

Desde o início do confinamento, essa foi sem dúvidas a semana que eu senti as mais variadas emoções. Depois de escrever meu último texto, aqui no blog, sábado passado, abri uma garrafa de vinho e fiz a live no Instagram com o Alê Oliveira. Foram risadas atrás de risadas, vocês podem imaginar a resenha.

Um sábado trivial se tornou o dia mais feliz da minha quarentena até agora. Além da live, as notícias sobre o retorno do futebol eram otimistas: uma provável volta aos treinos a partir do dia 11 de maio, e um possível retorno do campeonato em Junho. Na minha cabeça empolgada, já era quase como uma contagem regressiva. Mentalmente, isso fazia um bem danado.

Na terça-feira, o discurso do primeiro ministro francês Édouard Philippe foi um balde de água fria. Para fazer um comparativo com o futebol, sabe aquele gol aos 45 minutos do segundo tempo que garante a classificação? Então, só que o gol é do time rival. "A temporada 2019/20 não poderá ser retomada" disse o Ministro. Game over. Fim. C’est fini. This is the end for you my friend.

Tudo o que eu me diverti, no sábado, assistindo a live do grupo 'Menos É Mais' e fazendo surra de stories compartilhando os momentos de alegria com os seguidores, agora parecia bem patético.

Hoje, a Liga Francesa decretou o campeonato por encerrado, o PSG conquistou seu terceiro título consecutivo, o nono na sua história. E é isso, não tem o que fazer. "É Isabela, vamos precisar reagir", pensei.

Eu não sou muito boa em matemática, mas diria que em dias normais, ou seja, pré-pandemia, minha semana era preenchida com 70% de trabalho e 30% de vida pessoal. 

Ainda sem uma resolução da Uefa com a Liga dos campeões, a minha nova realidade é ficar pelo menos 3 meses sem futebol a partir de agora.

O coração apertou. Expliquei pro meu chefe e me coloquei à disposição para trabalhar de casa, dessa vez em São Paulo. É hora de ver a família, de voltar pra casa tomando todos os cuidados necessários.

#42 De volta à (parte da) programação normal - Fred Caldeira
 

Sei que o exemplo é pouco sensível ao cenário atual, mas lembra da vez em que você topou ir àquela festa de música ruim e, por um instante quase que inacreditável, a sua música favorita foi tocada? São minutos de alegria cristalina, mas o problema volta quando ela termina. Foi mais ou menos assim a relação de Manchester com o sol: veio, foi bonito mas passou. Estamos de volta à programação normal.

Enquanto a quarentena me dá tempo suficiente para notar as mais tênues alternâncias climáticas, o mundo real e as inerentes preocupações fazem-se mais perceptíveis. O futebol na França está suspenso até pelo menos setembro e o efeito dominó em outras das principais ligas europeias é possível. Aqui na Inglaterra, a Premier League volta a se reunir nesta sexta-feira e o jornal The Guardian alerta: o plano é retomar a competição no começo de junho, porém há clubes preocupados em se tornarem "bodes expiatórios" caso a decisão seja precipitada. Certamente haverá quem, agora, olhe para o vizinho francês como um espelho mais seguro.

Dentre os objetos óbvios do estereótipo inglês, somente a chuva está de volta. O futebol, as festas de (bom) rock e até o fish & chips ainda precisam esperar.

#41 É preciso cuidar da mente - Clara Albuquerque

Algumas horinhas mais e chegamos ao 50º dia de quarentena na Itália. É duro manter a positividade, a saúde mental e as ações positivas diante da situação, e algumas pessoas, por diversos motivos, são mais impactadas que outras. Dentro do tema, li um artigo, no jornal italiano La Reppublica, que me chamou atenção.

O jornal trouxe uma pesquisa da Fifpro, sindicato mundial dos jogadores de futebol, junto ao setor médico da Universidade de Amsterdam, que revelou que o número de casos de depressão entre jogadores dobrou desde o início da atual pandemia. 

A sondagem, realizada entre 22 de março e 14 de abril, foi feita com 1.602 jogadores profissionais de futebol em 16 países que implementaram medidas drásticas para conter a propagação do novo coronavírus. Os dados foram comparados com uma pesquisa semelhante realizada em dezembro de 2019. 

Foram entrevistados 1.134 jogadores, com idade média de 26 anos, e 468 jogadoras, com idade média de 23 anos: todos atuando em equipes da Primeira ou da Segunda divisão desses 16 países investigados, que incluem Inglaterra e França, apenas pra citar duas ligas importantes no cenário do futebol mundial.

A matéria ainda destaca o fato de que, segundo um estudo da Fifpro, apenas 1% dos jogadores profissionais não têm problemas econômicos. 

O capitão da Juventus, Giorgio Chiellini, e a lateral do Lyon, Lucy Bronze, representantes do Fifpro Global Player Council, fizeram um apelo para que jogadores profissionais se apoiem durante a pandemia. 

O pedido de Chiellini é por solidariedade: "É muito importante que jogadores de futebol, como famílias e outras comunidades, se cuidem durante esse período difícil, mantendo contato por telefone ou com videochamadas. Mantenha contato com seus colegas de equipe, especialmente se você achar que está deprimido ou ansioso. Vamos manter um forte espírito de equipe mesmo quando não há futebol para ser jogador".

 
Pra quem quiser ler mais, está aqui a matéria no site da Fifpro (em inglês): 
 

#40 Choque de realidade: um dia a mais, é um dia a menos de Messi - Marcelo Bechler

Estamos há 45 dias fechados dentro de casa na Espanha. O confinamento tem data para acabar, dia 9 de maio, mas a volta a o que entendíamos como realidade não. Tudo será a conta gotas. Os estádios, muito provavelmente, só voltarão a receber público quando existir uma vacina. Sendo otimista, no início 2021. Também não é possível saber quando os jornalistas poderão voltar a acompanhar os jogos in loco.

Aí mora o meu problema.

Ficar em casa gera ansiedade em todos nós. Não poder estar com quem queremos, não poder ir e vir, não ter a liberdade que nos fazia parecer invencíveis é angustiante. No meu caso, há um fator mais: não sei quanto tempo me sobra para ver Messi.

Ele tem contrato com o Barcelona até o fim da temporada de 2021 e acredito que ainda ficará aqui até a Copa de 2022. Um dos meus grandes orgulhos é pensar que moro a 3km do Camp Nou há cinco anos e já o vi jogar umas 150 vezes. Quando larguei tudo no Brasil e vim para a Espanha, a chance de acompanha-lo de perto foi um fator importante na decisão.

Estar tão perto da história é um privilégio

Sem jogos desde 7 de março por aqui, sei que o relógio joga contra. Esta noite, antes de dormir, fiquei vendo aqueles vídeos de Youtube com compilados de jogadas de Messi e trilha sonora de balada ruim. São 15 anos de carreira e que proporcionam todo tipo de tema para um vídeo de 20 minutos. Vi um de quase gols e jogadas impossíveis e que por pouco não entraram. Muitos dos lances eu vi no estádio. Um espetáculo que não precisa de boa edição para ficar bom. Só deixar as jogadas acontecerem e pronto.

Confesso que durante esta pausa forçada tenho consumido muito pouco de futebol. Minha libido futebolística se foi. Não sou mais um tarado por futebol e nas últimas semanas virou só trabalho. Ver Messi jogar fez re-acender essa chama, mas ao mesmo tempo me tirou o sono. O vídeo acabou e pensei “e agora quê?”.

Domingo à noite, sozinho no quarto com as luzes apagadas, uma semana inteira, idêntica a todas as últimas,  pela frente. E eu não sei quando verei Messi de novo. Custei a dormir. Acordei sem vontade. É um ensaio para quando ele não estiver mais nos campos. Do mesmo jeito que todas as semanas eu vou ao Camp Nou pensando que “eu sou feliz e sei”, também sei que a vida será pior sem Messi.

 

#39 Saudade das defesas incríveis - Tati Mantovani

26 de abril é o dia do goleiro no Brasil. Aqui na Espanha, é o dia do aniversário do Atlético de Madrid, 117 anos de história do clube. Um clube que tem se caracterizado por contar com goleiros muito bons nos últimos anos. O titular hoje é, para mim, um dos dois melhores goleiros do mundo. Talvez, neste momento, até seja o melhor.

Defesa do Oblak contra o Leverkusen em 15/3/2017. Crédito: Marca

O esloveno Jan Oblak é aquele tipo de goleiro que ganha jogos. Certeza que você lembra de algum goleiro do teu time que também é/era assim. Para o Transfermarket, Oblak é o goleiro mais caro do mundo. Vale 80 milhões de euros, uns 450 milhões de reais hoje. Na lista dos 7 goleiros mais valiosos do mundo, estão os três últimos goleiros do Atlético de Madrid: 1º Oblak (80€ milhões), 6º Courtois (48€ milhões) e 7º De Gea (40€ milhões).

O Atleti, principalmente desta Era Simeone, é um dos times que melhor defende do mundo e tem contado com verdadeiros paredões. Tirei este domingo para assistir alguns jogos antigos do Oblak e acredito que um dos pontos altos dele foi a defesa tripla contra o Leverkusen, na Champions de 2017.

Nestes 42 dias de confinamento, aqui na Espanha, uma das formas de sentir menos saudades do futebol tem sido rever alguns jogos antigos. Hoje tirei o dia para rever Oblak. Se você for lá no EIPlus também vai encontrar vários jogos da Champions para relembrar jogos incríveis. Fica a dica!

#38 Cadê a live que tava aqui? - Isabela Pagliari

Meu nome é Isabela Pagliari, tenho 30 anos e estou há 41 dias sem fazer live.

Devo ser uma das poucas pessoas no meu Instagram que ainda não utilizou o recurso mais badalado da quarentena. Pra assistir aos stories das pessoas que eu sigo, tenho que rolar o dedo pelo menos 2 vezes na tela até chegarem as bolinhas tradicionais. As únicas lives que eu fiz até o momento foram pelo Esporte Interativo e um "after" da entrevista com o Rafael do Lyon. Calma que até o final dessa quarentena vou dar o ar da graça hehehe.

Quem me conhece sabe que sou muito ativa nas redes sociais. No primeiro texto aqui no blog, expliquei que moro sozinha na França e gosto de interagir com meus seguidores compartilhando muita coisa de trabalho e até da vida pessoal.

Nos primeiros dias da quarentena, a minha vontade era enfiar a cara no travesseiro e dormir até a vida voltar ao normal. Estamos no dia 41 e advinha? A vontade é a mesma, mas ela foi inevitavelmente adaptada.

Eu uso muito meus stories, - pra quem não me acompanha. A média em dia de cobertura de jogo do Paris Saint-Germain (ou qualquer outro jogo que eu esteja trabalhando) são 30 stories, com pré-jogo, alguns lances durante a partida e o pós. Sim, sou exagerada, mas o povo gosta, recebo muitas mensagens da galera falando que se sente comigo no estádio. Para quem gosta de bastidor, meu Instagram é um prato cheio.

Beleza e agora na quarentena? Falar do que, fazer o que? Como dosar as notícias com interatividade? Confesso que no meu caso, senti as notícias pesando no início do confinamento, deixando uma sensação ‘sem luz no final do túnel'.

Por isso, adotei um tom mais leve e usei mais meu lado "brincalhona". Fiz alguns vídeos sobre a minha quarentena, alguns #TBTs trabalhando nos estádios, fiz um cover com o repórter do EI de Sao Paulo, Victor Lopes, e até tema sobre BBB puxei por lá. Uma coisa que eu fiz e funcionou bem: sabe a caixinha de perguntas? Usei esse template abaixo, e fui respondendo com verdade, mentira e talvez. Comecei a procurar no meu HD conteúdos antigos e postar alguns bastidores.

Enquanto escrevo esse texto, acabei de receber uma mensagem do Alê Oliveira me chamando para fazer uma live hoje no Instagram. Até que o ar da graça não demorou muito para aparecer.

#37 Um erro enfim reconhecido - Fred Caldeira
 

A classificação do Atlético de Madri sobre o Liverpool na Liga dos Campeões foi a última partida disputada em território inglês antes da paralisação do futebol. Mais de um mês depois, o governo nacional começa a compreender o erro de ter deixado o jogo acontecer. Enquanto a Espanha já havia decidido interromper eventos esportivos, três mil torcedores do Atleti foram recebidos em Anfield. E eu estava lá.

Minha percepção àquela altura já era de que ninguém deveria estar ali: jogadores, técnicos, imprensa e torcidas. Como é natural em qualquer cobertura, jornalistas dividiram as mesmas salas, mesas e até a maçaneta da porta do único banheiro disponível. Um único contagiado ali faria um estrago invisível.

Agora, as autoridades locais começam a procurar conexões entre a partida e o contágio do coronavírus. Até o momento, ao menos 246 pessoas foram vítimas fatais do COVID-19 nos hospitais de Liverpool. "O jogo pode ter sido uma grande influência no crescimento de casos na região. Certamente vamos investigar com a cautela necessária para que possamos aprender com o erro e jamais repeti-lo", disse Matt Ashton, diretor local de saúde, ao jornal The Guardian. Enfim.

#36 A camisa do meu time me protege - Tati Mantovani

Veremos muitas crianças do Atlético de Madrid nas ruas da Espanha nos próximos dias. Mas aí você pergunta: mas Tati, o país não está em confinamento?

A Espanha vive sua sexta semana de confinamento e ainda teremos, pelo menos, mais duas pela frente. Na última terça-feira, o governo anunciou novas medidas para a prorrogação do confinamento, que inicia no próximo domingo. Entre elas está a possibilidade de que as crianças, menores de 14 anos, saiam para dar um curto passeio por dia. A medida foi celebrada pelos pais que estão com os pequenos sem poder sair de casa nos últimos 40 dias. E é aí que as crianças colchoneras entram.

Um dos grupos de torcedores do Atlético de Madrid, o Replicantes 1903, lançou em suas redes sociais o movimento #MiCamisetaMeProtege (Minha camisa me protege), incentivando as crianças a saírem de casa com sua camisa do Atlético de Madrid. No material publicado, está a frase "saiam protegidos com a camisa da equipe que nunca se rende”.

Iniciativa dos torcedores do Atlético de Madrid. Crédito: Replicantes 1903

Como diz Arrigo Sacchi “o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes”, mas o futebol une, o futebol aproxima, mesmo estando longe. Vou aderir à campanha e no próximo dia que precisar sair para ir ao supermercado, vou vestir minha camisa protetora.

#35 E quando acaba a paciência? - Clara Albuquerque

Na Itália, completamos 44 dias de quarentena hoje. No decreto atual, ainda faltam 11 dias para que algo possa mudar. É esperado que, a partir do dia 4 de maio, algumas coisas, no país, voltem a abrir/funcionar. Seria o início da “fase 2”, a fase em que convivemos com o novo coronavírus. A primeira, que estamos passando agora, é de localização e estabilização do problema.

Ciclos positivos, atividades produtivas, séries, filmes, ligações com a família, com os amigos, culinária, jogos antigos, novas atividades, pizza, vinho… vale de tudo pra manter a rotina saudável e a quarentena suportável. Mas, tem dias que absolutamente nada funciona. Todo mundo tem dias assim e tá tudo bem ter dias assim, mas a vontade é de gritar (e chorar!)!

Tudo irrita e a paciência vai pro beleléu. Tem hora que tudo que a gente quer é sair de casa (e nao é pra ir ao mercado de máscara) e encontrar alguém que a gente ama. Principalmente pra quem está tendo que passar a quarentena sem nenhuma família (ou namorado, marido, etc).

Hoje, nem a melhor pizza italiana entregue em casa e uma taça de vinho estão ajudando. Hoje, enquanto a quarentena segue, a paciência acaba. No aguardo que ela volte amanhã.

 

#34 Cortar ou não cortar? Eis a questão! - Arthur Quezada

Ninguém aguenta mais a quarentena, fato. Buscar estabilidade emocional e mental neste momento é um desafio diário. São diversos problemas básicos, que no cotidiano normal, nem pensávamos. Desde tomar sol (pra quem não tem varanda ou quintal em casa), fazer exercício, aguentar a esposa no confinamento (ou no caso da minha, aguentar o marido) e por ai vai.

Porém, um dos maiores desafios da quarentena é sem dúvidas cortar o cabelo. Passa uma semana, a costeleta já incomoda. Na segunda semana, os tradicionais mullets começam a ganhar vida. Na terceira semana, o capacete ganha forma. E finalmente, quando bate um mês de isolamento, você percebe que chegou o momento. Cortar ou não cortar? Eis a questão!

Da janela do meu apartamento eu vejo a minha barbearia. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Com ela fechada tive que apelar. No desespero, pedi para a minha esposa dar uma aparada na juba. Foi ai o meu erro. Depois de 8 anos juntos percebi que ela não leva jeito para operar uma maquininha de cortar cabelo. No primeiro movimento, uma talhada na lateral, acima da orelha. Não tinha mais como voltar atrás. A cada movimento da máquina, minha esposa ria...eu já estava desesperado. Pedi para parar no meio. Aparou-se os mullets e já deu. A obra de arte abstrata estava completa.

Na minha família, a calvície se faz presente. Por isso, preferi manter do jeito que estava. Talhado. Para não correr o risco de cortar mais e depois não crescer. Relato dramático, mas eu não fui o único a passar por isso. No mundo da bola, até Cristiano Ronaldo precisou de auxílio caseiro de Georgina para cortar seu estiloso cabelo. Richarlison, do Everton, meteu um cascão do Ronaldo Fenômeno logo na primeira semana de isolamento. Exemplos não faltam.

 

Dentre os correspondentes do Esporte Interativo, as mulheres se deram bem. Nem Clara Albuquerque, nem Tatiana Mantovani, nem Isabela Pagliari tiveram que cortar as madeixas, ainda. Porém, o caso de Marcelo Bechler é um outro drama. Afinal, ele mora sozinho em Barcelona. Não teve pra onde correr, tomou coragem e resolveu se aventurar. Porém, associou o corte a uma causa nobre. Participou do movimento das redes sociais chamado #cutcovid, no qual a pessoa corta o próprio cabelo e doa o dinheiro que gastaria no barbeiro para a OMS (Organização Mundial da Saúde). Mas no caso de Marcelito, não foi tão simples. Sua máquina de cortar estava com problemas na bateria e a cada 5 minutos ele precisava recarregá-la. Um drama que deve ter durado no mínimo uma hora, torturando-o lentamente. Ele imaginou que ficaria parecido com algum personagem da série Peaky Blinders, mas na verdade ficou assim:

bechler

Já Fred Caldeira, nosso correspondente na Inglaterra, resolveu não cortar o cabelo. Ao invés disso, cortou sua barba e lastimavelmente deixou o bigode. Descobri recentemente que, pra piorar a situação, ele colocou um brinco na orelha, num esforço enorme para ficar parecido com os integrantes de Village People. O resultado foi esse ai:

Imagens fortes....e o pior, na semana que vem, terei que cortar novamente. O drama continua, depois eu mostro o resultado por aqui.

#33 Tá pago - Marcelo Bechler

 

Um dos temas mais polêmicos das minhas conversas com amigos nesta quarentena tem sido: “exercícios físicos, fazer ou não fazer”? As justificativas de um lado e de outro sempre são boas e no final das contas não há uma regra - o que faz bem a uma pessoa não traz a mesma sensação à outra, e tudo bem.

Sempre fui bastante ativo. Meu principal meio de transporte em Barcelona é a bicicleta e adoro treinos curtos e bem exigentes. Em um apartamento de 60m as opções ficam bem reduzidas, mas realmente quem quer dá um jeito.

Fazer exercícios me ajuda a chegar no final do dia cansado, melhora a qualidade do sono e me dá uma sensação de perna e braços pesados que me faz bem. Além disso, me ajuda a criar uma rotina, enquadro o exercício dentro de um ciclo positivo diário que tento criar para driblar a ansiedade de estar sozinho dentro de casa há 37 dias, sem contato físico com nenhum amigo, familiar ou pessoa querida.

Depois de semanas com toda a economia da Espanha parada, as lojas de mercado online reabriram e consegui comprar um elástico. Chegou sexta-feira e recomendo completamente. Custou 9€ e é bem eficaz. Cria bastante resistência e é preciso fazer muita força pra exercícios de peitoral, costas, braços, ombro e trapézio. 

Por aqui, ainda faltam 19 dias para que possamos sair de casa. São mais três semanas pela frente tentando criar ciclos positivos, uma rotina saudável para o corpo e a mente. Quando nos permitirem sair de casa, a academia deve permanecer fechada por algum tempo e malhar em casa seguirá sendo uma realidade a curto/médio prazo.

Assim seguimos. Fazendo força, estipulando metas, tentando cumpri-las e suando. Um dia a mais, é um dia a menos. O dia 37 tá pago.


#32 O Feitiço do Tempo (versão quarentena) - Isabela Pagliari

Vocês já assistiram ao filme "O Feitiço do Tempo" ?

Basicamente, é sobre um repórter de TV que trabalha com a previsão do tempo e é encarregado de fazer algo que não curte: cobrir a 'Festa da Marmota' em uma cidade pequena. Ele faz esse trabalho há anos e nitidamente repudia. Como se não bastasse um dia de evento, ele vai dormir, levanta e surpresa: todo o dia é a bendita 'Festa da Marmota'. Pra quem interessar, esse é o trailer:

Eu não faço ideia de onde meu cérebro foi buscar a referência, porque assisti a esse filme há mais de 8 anos, mas a sensação é a mesma: a quarentena é uma luta diária para não viver em uma eterna 'Festa da Marmota'.

Praticamente todo dia o cenário é o mesmo. Acordo às 14h, porque dormir antes das quatro da manhã é luxo, almoçamos juntos aqui na casa, leio as notícias, faço a reunião do trabalho (segunda, quarta e sexta), falo com a minha família, olho as redes sociais, ficamos na resenha, brinco com as crianças (um dos meus momentos preferidos), gravo o que tiver que gravar de material, e quando olho para o relógio já são quase 19h. Hora de treinar.Lado bom da quarentena é poder fazer atividade física com mais regularidade do que antes - pelo menos a desculpa de falta de tempo eu não tenho mais.

(Foto: Arquivo Pessoal/ Instagram Isabela Pagliari

O presidente francês Emmanuel Macron avisou essa semana que a quarentena na França foi prorrogada até o dia 11 de maio, e isso ainda vai longe, nem me assusta mais. Lá se foram 35 dias fechada em casa e a criatividade para levar tudo de bom humor e da forma menos pesada possível começa a ficar escassa. Com exceção do dia do supermercado e da época que acompanhava reality show, me sinto presa em um ciclo.

Tenho frio no pé, abro a gaveta, e pareço pegar a mesma meia que estou vestindo. “É ela”, vem a certeza antes de notar que sigo descalça. Sigo presa, na conversa com meu amigo no confinamento, o tema principal são as mortes pelo novo coronavírus. São muitas, não diminui, a impressão é a do mesmo patamar inicial. 

O relógio aponta 22h e eu ligo para minha família no Brasil. “Alô, mãe. O que você e o papai estão fazendo? A resposta é a mesma há 27 dias: “estou aqui na sala assistindo ao jornal, e seu pai está lendo um livro. Se cuida aí em Paris, pois vi na TV que...”. Daí para a frente é como se eu pudesse antever todos o discurso da minha mãe. Nada muda.

Após mais de um mês fechada em casa, eu percebi que esse confinamento é um exercício diário de disciplina. Disciplina mental, de horário, bons pensamentos, boa alimentação, boas conversas, músicas, filmes e leitura. Disciplina para quebrar o ciclo da 'Festa da Marmota' variando as atividades.

Aprendi a fazer um bolo de cenoura, liguei o Fifa 20 e entendi os fundamentos básicos (falar que aprendi a jogar é muita ousadia da minha parte), fiz algumas palhaçadas no TIKTOK (@isapagliari), pintei e desenhei com as crianças, lancei um desafio "cambalhota com a bola" no meu Instagram - aliás, o Rafael jogador do Lyon aceitou e fez,  mas trapaceou usando a mão (chama o VAR!).

Assisti ao documentário mais bizarro do mundo - "Tiger King"- no Netflix, peguei a indicação do Neymar e do Bruno Guimarães no Instagram e vi sozinha o filme mais triste dos últimos tempos, "O Milagre na Cela 7". Chorei muito. Assistam aos dois e me contem o que acharam.

Hoje eu sou um misto de saudade da minha família, do meu trabalho, da minha vida antes em Paris. Mas sigo me esforçando pra manter a disciplina da alimentação, dos novos desafios e de bons hábitos. Ah, se tiver uma dica, não hesite. O meu próximo filme é  "O Poço", e o próximo desafio é dormir antes das duas da manhã.

 

#31 Uma taça de vinho e um doce pra ajudar - Clara Albuquerque

Com 40 dias de confinamento, na Itália, vocês já devem imaginar que os italianos estão aproveitando o tempo em casa pra cozinhar e também degustar os ótimos vinhos da região, facilmente encontrados nos mercados locais. Prazeres gastronômicos são importantíssimos pra levantar o espírito no atual momento.

Eu tenho mantido refeições saudáveis, e mais leves, de segunda a sexta, mas no fim de semana tenho me arriscado na culinária. Dias desses, fiquei orgulhosa de fazer (com as próprias mãos) a massa do tagliatelli do jantar e a noite mexicana vai entrar no cardápio novamente em breve. Outro dia, teve até tiramisú, e uma curiosidade que achei sensacional. O tiramisú deve ser a sobremesa mais famosa da Itália, e muita gente está fazendo em casa… resultado: não falta papel higiênico no mercado, mas está faltando biscoito champagne, que é usado na receita da sobremesa! Tive que ir em dois mercados pra encontrar um último pacote perdido na prateleira!

Os vinhos, ao menos, não têm faltado. Pra quem não sabe, a região do Piemonte, onde fica Turim, é uma das produtoras mais famosas da Itália. O Barolo, um dos melhores vinhos do mundo, é produzido aqui, por exemplo, assim como o Barbaresco, outro vinho super famoso. No dia a dia, no entanto, a escolha é por vinhos mais leves (e bem mais baratos), também produzidos na região. Entre os tintos, os meus preferidos são o Dolcetto e o Barbera. Entre os brancos, e aqui começou a fazer calor, o que é ótimo, o meu preferido é o Roero Arneis!

Caso queira experimentar um vinho italiano, em casa, nos próximos dias, essas são as minhas dicas! Quando essa quarentena acabar, vou abrir um Barolo pra comemorar! 

# 30 Dá para "viver" sem futebol - Tati Mantovani

Uma amiga que não gosta de futebol dizia “Você viu? Dá para viver sem futebol”. Há 41 dias que não vou a um campo de futebol para assistir uma partida. Obviamente respondi que sim, podemos viver sem futebol. Mas isso é viver?

São 34 dias de confinamento oficial aqui na Espanha. Estamos vivendo sem ir às ruas, bares ou restaurantes, sem ir ao cinema e shows, sem viajar, sem ver a família ou os amigos, sem futebol. Mas isso, ela que me perdoe, não é viver, isso é sobreviver.

O futebol faz parte da vida e, para muitos, é vida. Federações e entidades que organizam o esporte estão se preparado para que, assim que possível e com toda a segurança, o futebol retorne. Claro que a questão financeira conta, mas pensar em sentir novamente as sensações que o futebol proporciona dá uma esperança de que podemos alargar por mais tempo o período de sobrevivência com algo de vivência.

Último jogo do Atlético de Madrid em Madri antes do confnamento.

No dia 7 de março, quando pisei por última vez um estádio de futebol, eu não imaginava que 41 dias depois estaria sentindo tanta falta de viver. A saúde deve estar em primeiro lugar e pensar em futebol agora parece absurdo, mas é complicado explicar para quem não sente este esporte da mesma forma o que a volta do futebol poderia representar para o ânimo de quem não entende a vida sem a bola rolando na grama.

#29 Aniversário na quarentena e o dia que Klopp me deu um presente - Arthur Quezada

Pois é, dia 16 de Abril. Fiquei mais velho. 31 primaveras. Não sou daqueles que adora fazer aniversário. Gosto mais do aniversário dos outros. Mas quando a data cai numa quarentena pandêmica, a lamentação é inevitável.

Não comemorar tem que ser escolha e não determinação.

Faz falta aqueles abraços familiares, aquela cervejinha no bar com os amigos, aquele jantar em restaurante caro sem pagar a conta.

A melancolia de fazer aniversário nesta data me leva a uma reflexão forçada de como foram meus últimos aniversários.

Onde eu estava no último dia 16 de Abril?

Klopp e Quezada

Pesquisando, descobri que ano passado passei meu aniversário trabalhando muito. Era dia de MD-1 (prévia de partida) das quartas de final da Champions League. FC Porto X Liverpool no Estádio do Dragão, jogo da volta.

De "presente" recebi a oportunidade de entrevistar, de forma exclusiva, Jurgen Klopp. O carismático treinador alemão é sempre um ótimo personagem para entrevistas, mas como o primeiro jogo já tinha sido 2X0 para o Liverpool e a classificação dos ingleses estava encaminhada, resolvi destinar uma, das três perguntas possíveis, a um tema sensível no Brasil: a troca constante de treinadores.

Se fosse no Brasil, muito provavelmente Klopp já teria sido demitido do Liverpool naquele momento. Não tinha vencido nenhum troféu em quase 4 anos de trabalho.

Preparei a pergunta, revisei, treinei em inglês para ver se soava bem. Mudei tudo na hora de perguntar. Típico...Mas a resposta foi um verdadeiro presente de aniversário. Klopão deu um tapa na cara dos clubes brasileiros e criticou a postura das equipes em demitir constantemente seus treinadores.

Na hora sabia que a resposta tinha sido boa. Mas foi mais do que eu esperava. Caiu como uma bomba na imprensa brasileira e repercutiu por semanas nos debates das concorrentes e nas redes sociais. Como um treinador alemão, de um dos maiores clubes do mundo conseguiu ser tão assertivo num crítica direcionada ao futebol brasileiro? Isso eu não sei, só sei que foi assim.

Meu desejo neste aniversário pandêmico é que tudo volte ao normal, para voltar a fazer as coisas que eu mais gosto. Uma delas é entrevistar o Míster Klopp.

 

#28 Dias de sol - Fred Caldeira
 

Manchester chega à terceira semana seguida de dias majoritariamente azuis, com temperaturas máximas em dois dígitos - um alento para quem estava há pelo menos três meses sem vislumbrar os dez graus. O verão oficioso chegou, e quem conhece a cidade já sabe: quando o oficial chegar, terá cara de um inverno modorrento. Enquanto o sol brilha lá fora, seguimos aqui dentro.

Vista da varanda de casa

O Reino Unido não dá previsão para o fim da quarentena, o que é absolutamente compreensível para um conjunto de países que vivem a proximidade do pico do número de casos e, consequentemente, mortes. Quem está atento ao noticiário, pouco lamenta o desperdício de dias de sol. Pequenos problemas, que normalmente podem ganhar contornos de dramas pessoais, são colocados em perspectiva.

Por aqui, olhar para o céu dá o tom de tempos estranhos: Manchester não está normal, o mundo não está normal.
 

# 27 Contando os dias, sem saber quantos dias faltam - Marcelo Bechler



“Um dia a mais, é um dia a menos”. Esta mensagem está em um painel ao lado das autoridades espanholas quando elas saem para prestar contas das mediadas contra o novo coronavírus, a cada dia, aqui no país. Estamos contando os dias, sem saber quantos dias faltam para a vida voltar ao normal.

Vai demorar. Oficialmente a Espanha está confinada até 26 de abril, a Itália 3 de maio e a França 11 de maio. Além da chance de prorrogação das medidas, a volta às ruas será gradual. Ainda teremos que ficar em casa por um bom tempo. Por enquanto nos resta tentar criar dinâmicas positivas.

Particularmente, passei a dar muito valor à casa limpa e organizada. Moro sozinho e nunca a deixei suja, mas um dos melhores momentos da semana é quando termino a faxina e a sensação de limpeza vai além do piso, paredes e armários. 

Além disso, passei a valorizar o sol que entra por uma única janela do apartamento, durante duas horas do dia. Faço uma programação para nesse momento tomar uma xícara de café sentado ou deitado no chão, aproveitando até ele girar e levar a luz para outras casas.

Uma casa agradável torna o confinamento mais leve

Comer bem e beber água são outros hábitos que tento reforçar. Durante a semana, mantenho uma rotina de comer de forma saudável, leve e sem exageros. Encho uma garrafa de 1 litro d’agua duas vezes ao dia e coloco como meta tentar termina-las antes de ir dormir. Álcool, uma vez na semana. Assim como delivery de algo que eu queira muito comer. São pequenos jogos mentais para valorizar os bons momentos.

A minha conta é: se todo dia tem pizza, hambúrguer, espaguete ou sushi, assim como uma taça de vinho ou garrafa de cerveja, nenhum dia vai ser especial e aguardado. O efeito prazeroso e positivo que a comida te dá, passará rápido e a tática vai ficar ineficaz com o passar dos dias.

Estamos fechados em casa como ratos em um laboratório. Temos que testar o que nos faz bem e o que não faz. E cada um funciona de um jeito, não se trata de uma receita de bolo.

Tentar criar ciclos positivos, se motivar com pequenas vitórias e seguir contando os dias. Sem saber quantos dias faltam.

#26 Uma LIVE pra cada um – Clara Albuquerque

Chegamos a 35 dias de confinamento por aqui na Itália. Número inferior, sem dúvidas, à quantidade de lives de cantores/bandas brasileiras que tivemos na internet nos últimos dias! Sou da tribo do rock (alô Tati Mantovani), então, não assisti nenhuma dessas que bateram recorde de audiência no YouTube, mas confesso que fiquei chocada com o engajamento de vocês por artistas que eu não saberia dizer uma música sequer.

A verdade é que se a maioria deles falasse, pra mim, “oi, meu nome é __________ (complete aqui com o artista de sua preferência)”, eu ainda assim não saberia dizer quem é. Mas, o que importa é que vocês ficaram em casa pra assistir às LIVES, eu espero!

Brincadeiras à parte, a Itália também teve uma LIVE pra chamar de sua no fim de semana. Foi uma das coisas mais lindas, tristes e emocionantes que já assisti na vida: o tenor italiano Andrea Bocelli cantando, ao vivo, ao lado apenas de seu pianista, na Catedral de Milão. Vazia.

A última música ainda foi cantada do lado de fora da igreja, numa das praças mais visitadas do país, mas que estava deserta. Enquanto ele cantava, imagens mostravam outras cidades, como Paris, Londres, Bérgamo (cidade italiana que mais sofreu com o novo coronavirus) totalmente por conta da pandemia do novo coronavírus. Triste e emocionante.  

A live com o tenor foi assistida por 2,5 milhões de pessoas. Foi um domingo de páscoa diferente para os italianos.

#25 - Voltei no tempo com o melhor do mundo - Tati Mantovani
 

Recordar é viver. Na quarentena, ainda mais. Parece que neste momento, temos mais tempo para recordar. Eu lembro perfeitamente do primeiro jogo que assisti em um estádio. O que eu não consigo recordar é a primeira partida de futsal que eu assisti em um ginásio. Eu nasci em Carlos Barbosa, a capital nacional de futsal, cidade de uma das melhores equipes do mundo na modalidade. Desde muito pequena eu acompanho o esporte. Fazendo as contas, até os meus 18 anos eu assisti muito mais jogos de futsal ao vivo que de futebol. Pelo carinho que eu tenho pelo esporte, este domingo de quarentena foi especial para mim.

Hoje tive o prazer de conversar com o Ferrão, o melhor jogador de futsal do mundo em 2019joga no Barcelona desde 2014, chegou por lá quando o Barça ganhava tudo na Espanha. Nos últimos anos, quem dominou o futsal aqui foi o Inter Movistar, time aqui da Comunidade de Madri. Mas no último ano, Ferrão e o Barcelona voltaram ao topo.

Eu vi o Ferrão jogar algumas vezes ao vivo e muitas vezes pela TV. Sempre me impressiono. Ele é aquele pivô clássico, mas com uma habilidade e uma visão de jogo que a gente vê mais em outras posições do futsal. Isso faz dele um jogador completo. Além disso, o poder de finalização dele é absurdo. Quando a bola cai nele é muito difícil não ser gol.

Ver o Ferrão jogar me faz viajar no tempo. Lembro de momentos felizes da minha infância, do sofrimento das derrotas e da alegria imensa dos títulos que meu time de futsal conquistou. O barulho do tênis no parquet é um dos sons da minha vida. Quem curte futsal sabe do que eu estou falando e quem ainda não curte, fica a dica! Foi muito legal voltar no tempo e falar de futsal com o número um hoje, mesmo quando a bola não está rolando nas quadras.

#24 - Três semanas - Fred Caldeira
 

Na segunda-feira, o Reino Unido completa três semanas de isolamento. A data representa o último dia do prazo inicial dado pelo governo, que naturalmente será estendido - fala-se entre três e seis semanas a mais de quarentena por aqui.
 

O país celebra a Páscoa a portas fechadas com a notícia de que Boris Johnson recebeu alta. O primeiro-ministro chegou a ficar internado na UTI por conta do coronavírus e agora faz um discurso que provavelmente entrará para a história. Nele, Boris celebra o sistema público de saúde inglês e agradece especialmente a dois enfermeiros: um de Portugal e uma da Nova Zelândia. O líder político que avançou com o Brexit parece ter aberto os olhos para o mundo.
 

O número de mortes no Reino Unido ultrapassou a marca de dez mil, e a curva segue ascendente. Cada número tem nome, é importante lembrar. O isolamento é duro mas extremamente necessário. Sigamos.

#23 - Sextou na quarentena - Tati Mantovani 

Quando a quarentena terminar, vamos dar muito valor às sextas. Não sei vocês, mas para mim a sexta à noite era aquele momento da semana para desconectar. Encontrar os amigos, colocar a conversa em dia e ir de bar em bar caminhando pelas ruas de Madri. Desde que o confinamento começou, lá se vão 27 dias oficiais na Espanha, aqui em casa resolvemos não abrir mão das sextas.

Ronaldo em Live com os Galáticos. Crédito: Reprodução Instagram

Obviamente, não estou saindo de casa para encontrar os amigos, estou fazendo como o Ronaldo. O Fenômeno reuniu seus amigos para um papo na última quarta-feira. Abriu seu Instagram e conversou com Roberto Carlos, Figo, Beckham e Casillas. O encontro do Ronaldo com seus amigos da época dos Galáticos foi aberto, para todos que o seguem nas redes sociais. Teve Beckham lembrando o quanto gosta de Guaraná, Figo contando como foi feliz jogando naquele time, Casillas lembrando como eram os jogos e Roberto Carlos falando da vida. Um encontro entre amigos, que bem podia ser uma sexta-feira à noite em um restaurante e com um bom vinho

O novo coronavírus não permite que a gente possa encontrar nossos amigos, recordar momentos divertidos e compartilhar novas experiências. A situação, pelo menos aqui em Madri, continua sendo muito complicada. Mas isso não impede que a gente possa estar em contato com eles.

Minha dica para essa sexta é: encontrem seus amigos. Eu já marquei uma janta com os meus. Vou fazer a comida, abrir um vinho, ligar meu telefone, entrar no app e conectar com eles. Vamos jantar juntos e aproveitar essa sexta. O importante agora é seguimos em casa, mas isso não quer dizer que a gente não possa curtir a sexta à noite.

#22 Não há festas nem tradições em meio ao caos - Arthur Quezada

Parecerá óbvio o que eu vou dizer, mas a ficha demora a cair. Talvez a sua, em relação a alguma data importante, ainda não caiu. Mas a verdade é que não teremos mais festas e grandes aglomerações em 2020. Pelo menos aqui em Portugal.

Ao passo que a Páscoa se aproxima (Dia 12 de Abril), as tensões aumentam em terras lusitanas. Num país, onde 90% da população é católica, essa é uma das épocas de mais movimentação por aqui. Imigrantes portugueses por toda a Europa costumam regressar a Portugal nesta data, vindos da Suíça, França, Espanha Inglaterra e de tantos outros lugares. É tradição! Mas esse ano, essas movimentações se tornaram o terror das autoridades.

Nenhum coelho escapa. Foi montada uma operação com 35 mil policiais espalhados pelas estradas do país. A partir desta quinta-feira, durante 24 horas até o dia 13, nenhuma pessoa poderá circular fora do seu conselho de residência (fora do seu bairro), a não ser com autorização especial. Tudo para evitar que a quarentena seja quebrada.

Ok, estamos em Abril, possivelmente no pico da pandemia por aqui. Entretanto, as festas populares dos Santos de Junho também foram canceladas. O São João no Porto e o Santo Antônio em Lisboa, são, na minha opinião, as melhores festas do país. É como cancelar o Carnaval no Brasil, numa comparação tosca. E alguém pode estar se questionando: quem pensa em festas neste momento? Pois é, muita gente. As datas comemorativas movimentam milhões de euros em Portugal. Sem falar no turismo.

Sem falar nos casamentos, missas, aniversários, batizados...tudo cancelado. Todos sabemos que é por um bem maior e que deve passar, mas até lá é melhor se conformar com a nossa nova realidade. Não há festas nem tradições em meio ao caos.

#21 - O confinamento não é engraçado - Marcelo Bechler


O confinamento não é engraçado. Não é heróico ficar sentado no sofá ou fazendo dezenas de desafios nas redes sociais. Sou contra a ostentação do ato de estar em casa, enquanto um ecossistema inteiro do lado de fora tenta reagir ao desconhecido.

Fazer a nossa parte é colocar um grão de areia na praia. Nada mais do que isso. E esse grão de areia não é engraçado, é pesado. 

Os dias são intermináveis. Você olha para trás e relê algo do dia 30 de março. Parece que foi há uma vida. Passaram-se 10 dias. Acordar, preparar o café, os boletins da manhã (trabalho também para a Rádio Itatiaia e atualizo a situação geral da Europa, não apenas no esporte), fazer as atividades da casa, exercitar-se, preparar as notícias esportivas, preparar uma nova comida e olhar no relógio: 15h30.

Ainda faltam umas 10 horas até o sono vir e o dia já está praticamente “vencido”. Ocupar a cabeça 25 dias consecutivos (o confinamento obrigatório espanhol começou em 14 de março), sozinho e com tantas horas ociosas não é engraçado. Nos faltam, no mínimo, 17 dias mais.

Mistura-se ao seu confinamento solitário, o tédio e a ansiedade com as notícias do dia e isso não te convida a chutar papel higiênico, como se tudo não passasse de uma brincadeira.

Marcelo Bechler
Rua de Barcelona vazia durante o confinamento

Da minha janela, vejo pessoas aplaudindo os profissionais que seguem trabalhando. Já vi uma blitz que parava todos que passavam para entender o que faziam fora de casa, já vi uma ambulância levar uma vizinha, escuto durante todo dia um “bip” que vem do supermercado da rua, passando produtos pelo caixa o dia inteiro. Agora os vizinhos gritam “bona nit” (boa noite, em catalão), uns aos outros.

Dentro das casas perto da minha casa acho que o sentimento é igual ao meu: não é engraçado. Quando o número de mortos diários cai de 950 para 630 não se pode comemorar. Seiscentas e trinta pessoas morreram em um dia, por um motivo bem específico. 

Estamos colocando um grão de areia na praia para acabar com isso. Em silêncio e respeitando quem perde e não pode se despedir dos seus familiares. Levar a vida com leveza não é fingir que nada acontece a sua volta e seguir rindo de tudo. Isso é o conto do palhaço triste. Estar confinado não é heróico, mas precisa ser respeitoso.

#20 - O drama do exercício - Clara Albuquerque 

E lá se vão 29 dias de confinamento aqui em Turim, Itália. E, praticamente, 28 dias sem exercício. Hoje, no entanto, decidi mudar essa história. Nunca gostei de academia e suporto menos ainda fazer treinos em casa, mesmo que o cara lá na telinha esteja animadão me incentivando. 

Durante boa parte da minha vida, significando uns 30 anos, fiz ballet clássico, e sempre foi o único exercício que gostei, por isso decidi tentar fazer uma aula em casa. Obviamente, o primeiro passo é ter, em casa, um espaço que vc consiga minimamente se movimentar. Como tenho espaço em casa, fui à caça, na internet, de aulas de ballet, pra quem está na quarentena, fazer em casa! E achei! Coloquei minha sapatilha nos pés, compartilhei o vídeo do YouTube na tv e fiz meu primeiro exercício físico da quarentena! Uma hora de ballet clássico e quase 300 calorias queimadas com algum prazer! 

Sapatilha nos pés

É preciso encontrar algo pra se movimentar! Seja aqueles treinos mais tradicionais que estão transbordando pela internet (o Esporte Interativo, inclusive, tem feito lives no Instagram pra você se movimentar), uma aula de dança na sala, uma corrida no quintal (pra quem tem a felicidade de ter um) ou outra atividade! E se você é competitivo, tipo o Cristiano Ronaldo, tem um monte de desafio (como o que o craque português lançou há alguns dias nas redes) pra você se jogar também!

 

#19 Pela primeira vez na história, Paris não quer sol - Isabela Pagliari

"Dia de luz, festa do sol e os parisienses a burlar todas as regrinhas do confiná".

Domingão em Paris, 21 graus, céu azul e você em quarentena faz o que? FICA EM CASA, óbvio! Não tão simples assim pra os franceses.

A galera se empolgou com o bom tempo e lotou os parques em Paris. O policiamento foi reforçado , e as autoridades pediram para que todos respeitassem e relembrassem das regras: "apenas uma hora de caminhada por dia, em um raio de até 1km da sua casa".

Domingo foi o meu primeiro dia de folga desde que começou o confinamento. Ah, para não perder o costume, são 21 dias fechados em casa. Apesar de repudiar as atitudes dos franceses que foram até os parques, eu entendo o desespero de um povo que vive o ano no frio e chuva, em sua maioria em apartamentos de 15 metros quadrados esperando pelos dias sagrados de sol, sorrisos e vitamina D.

Aproveitei o domingo para desconectar. Fiz exercício, aproveitei do sol (em casa), assisti "La casa de papel" e fui dormir sem ver BBB.

A segunda-feira (6/04) começou daquele jeito. Adiantei coisas do trabalho, treinei, lavei e passei roupa, já deixei a mesa do almoço pronta e decidi ir ao supermercado. Aliás, quando foi a última vez que fui às compras mesmo? Há 24 dias, antes do confinamento obrigatório. Era um momento raro, diferente e queria registrar esse "rolê" da quarentena (assista aos vídeos).

 
Isabela Pagliari relata como é sair de casa na quarentena em Paris

Máscaras no rosto, atestado preenchido, álcool em gel em mãos, sacolas para as compras e lá fomos nós (eu e a minha amiga Riama - estamos na mesma casa).

Hoje foi um dia chuvoso, o primeiro desde que estamos na quarentena. A sensação de sair de casa é como uma liberdade falsa. Você sente que está "solta", mas está "presa" lutando contra um inimigo invisível, o coronavírus.

O trajeto da casa até o local das compras foi tão rápido que mal terminou a música do Thiaguinho no rádio "Deixa tudo como tá" e já estávamos em frente ao Monoprix. Tiramos as capinhas dos nossos celulares, pois explicaram que o vírus gruda bem nessas superfícies. Pegamos o álcool em gel, as sacolas e tiramos os carrinhos. Aqui na França, você precisa colocar uma moeda de 1 ou 2 euros para tirar o carrinho do supermercado. Sim, você recupera no final, é só encaixar as correntes e ele "cospe" a moedinha.

Antes de entrar no estabelecimento, tinha um senhor na rua pedindo dinheiro. Eu não tinha trocado e nem a Riama. Abri a carteira, peguei uma nota de 20€, a Ri colocou mais 20€, e entregamos 40€ para o homem.

Dentro do supermercado

Algumas constatações: tinha mais gente do que eu imaginava, algumas pessoas sem máscaras, produtos bem abastecidos e pessoas irritadas.

 
Isabela Pagliari mostra como está funcionando a vida em Paris durante quarentena pelo novo coronavírus

Eu não estou acostumada com a "vida na sociedade" pós-corona, então fui na manha, tranquila e abri a porta da geladeira para pegar um iogurte. Ao meu lado, tinha um homem abaixado que deu um mini berro assim que abri a porta e saiu resmungando. Eu fiquei meio sem reação, pedi desculpas e depois entendi que estávamos com menos de um metro de distância. De fato, essas coisas não são automáticas.

Após finalizar a nossa lista de compras, a surpresa boa: não pegamos fila. Outra constatação: marcações no chão com um X preto para separar um metro de distância das pessoas no caixa (deveriam ter feito isso na sessão geladeira, pensei).

 
A vida na quarentena: Isabela Pagliari mostra como uma ida ao supermercado funciona na quarentena de Paris

Além disso, colocaram um vidro para evitar o contato e consequentemente, separar o cliente da pessoa que trabalha no caixa. Hora de pagar. Hora de pagar. Hora de pagar. Meu cérebro bugou. Igual essa parte do texto. Cara, qual a minha senha? Procurei no bloco de anotações e nada. Essa foi a terceira vez que aconteceu isso em Paris em seis anos. E não era um golpe. Não sei se isso ja aconteceu com você, mas é um sentimento muito estranho. A pessoa sai para usar o cartão pela primeira vez em 24 dias e não tem mais controle algum sobre as movimentações automáticas dos dedos na hora de colocar a senha.

A Riama pagou a conta e eu fiquei intrigada, irritada e queria lembrar e pagar as compras. Afinal, eu queria contribuir na quarentena que estou fazendo na casa da minha amiga. Eu sentei, abri o Google e digitei "foto máquina de cartão de crédito". Comecei a simular a dança dos dedos, fiquei uns cinco minutos para tentar lembrar da senha de um dos cartões. Só tinha mais uma chance antes de bloquear. Ufa, foi. Hora de ir pra casa.

Chegamos, lavamos bem as mãos e fizemos o ritual com todas as compras que chegam na casa. Álcool, papel toalha e todo mundo desinfetando, uma das nossas atividades em grupo.

De uma forma bem estranha, a sensação de liberdade para mim foi pisar em casa. Engraçado como as nossas referências mudam nesses tempos de incertezas.

Agora é relaxar e lembrar da senha do outro cartão para a próxima aventura pelas ruas de Paris.

#18 Golaço do futebol feminino - Tati Mantovani

Nesta semana conversei com 6 jogadoras brasileiras que estão confinadas na Espanha, como todos que residimos por aqui. Isoladas em seus apartamentos, elas mantem a rotinas de exercícios adaptando salas, quartos e móveis para manter a forma. A grande maioria dos clubes da primeira divisão da Espanha já adotou, como a maioria das empresas espanholas, a suspensão temporária do emprego, e nos clubes femininos não é diferente. A maioria das jogadoras terão a grande parte dos seus salários pagos pelo governo.

Elas ainda não sabem quando voltarão a jogar, mas neste momento complicado, estão fazendo a sua parte para ajudar no combate ao novo coronavírus. No Brasil, as jogadoras lançaram o projeto "Joga Junto", com objetivo de arrecadar fundos através da uma vaquinha online e doar o dinheiro para o Sistema Único de Saúde (SUS). A cada valor arrecadado, elas sorteiam uma camisa.

 

Na Espanha, as meninas lançaram o “Juntas venceremos”, para arrecadar dinheiro para a compra de material médico. A cada valor arrecadado, elas farão o sorteio de materiais esportivos autografado por elas.

Campanha jogadoras espanholas. Crédito: Instagram

O futebol feminino, tanto no Brasil como aqui na Espanha, está ganhando a cada temporada mais visibilidade e é muito bom ver como as protagonistas desta evolução são capazes de estarem unidas por uma causa neste momento.   

 

#17 Vácuo moral - Fred Caldeira
 

Aqui na Inglaterra, nos últimos dias os jogadores da Premier League tornaram-se um dos focos de críticas em meio ao caos do coronavírus. O salário mensal médio de 1.6 milhão de reais provoca cobranças políticas: o prefeito de Londres,  Sadiq Khan, disse que os atletas de elite "deveriam ser os primeiros a sacrificar o próprio salário" e até mesmo o deputado conservador Julian Knight chamou o futebol inglês de "vácuo moral".
 

A tentação de mirar nos (exageradamente) endinheirados jogadores é grande, mas não vejo o corte salarial necessariamente como o melhor caminho. Neste sábado (04), o sindicato dos atletas profissionais divulgou uma nota com a pertinente questão - para onde vai esse dinheiro? Clubes do poder financeiro como Liverpool e Tottenham, posicionados entre os dez mais ricos do mundo no ano passado, estão utilizando dinheiro público para pagar grande parte da folha salarial dos funcionários - jogadores não estão inclusos na perversa matemática.
 

Os capitães da Premier League estão organizando doações para o sistema público de saúde britânico. De acordo com a imprensa local, Jordan Henderson tem liderado conversas com o ministro da saúde para entender o melhor destino para o dinheiro. Se há algum vácuo moral no futebol inglês, está mais em quem veste ternos do que nos que calçam chuteiras.
 

#16 Vem mais por aí - Clara Albuquerque

São 25 dias de isolamento obrigatório, em casa, na Itália, mas parece que aquele primeiro dia, aconteceu há vários meses. Com exceção das três vezes que fui ao mercado, a última vez que saí de casa foi no dia 8 de março, para a cobertura de Juventus 2x0 Inter, aqui em Turim. A sensação é que esse jogo aconteceu no ano passado de tão distante. Assim como o fim do que estamos vivendo parece estar.

Nesta sexta-feira (03/04), o chefe da Defesa Civil da Itália deu uma declaração esperada, mas que ainda assim assusta: a população deve se preparar para ficar em casa ao menos até o dia 1º de maio. Questionado sobre a "fase 2", que consiste na retomada gradual das atividades, disse que a expectativa é que isso só poderá ocorrer a partir do dia 16 de maio.

Isso significaria, no total, mais de 60 dias de confinamento. Não estamos nem na metade. Será preciso reinventar um pouco a vida dentro de casa pra manter a mente saudável (e de alguma forma positiva). Depois de muitos dias, quem aguenta ver mais um filme, maratonar uma nova série ou ler mais um livro?

Eu decidi que vou experimentar coisas novas, ainda que de uma forma virtual. Interesses ou curiosidades que sempre ficavam pra depois na vida atribulada (e super ocupada) de trabalho, viagens, jogos de futebol e hobbys já conhecidos. 

Tenho me aventurado, por exemplo, um pouco mais na cozinha e pretendo aumentar o desafio. Amanhã, por exemplo, teremos comida mexicana no jantar (torçam para que apenas a língua queime com a pimenta). No domingo, está programada uma ida a uma apresentação de Ópera que acontecerá na sala aqui de casa. O lindíssimo Teatro Regio Torino, que eu vivo dizendo que um dia vou conhecer, está disponibilizando uma atração nova, todos os dias, no YouTube, então vou aproveitar pra assistir algo que nunca vi. 

Diante do meu privilégio de poder ficar em casa, segura, com comida, vinho e trabalho, já estou com uma listinha de novas aventuras por aqui. Vem mais dias por aí, e é preciso estar preparada.

#15 O futebol não está acima do bem e do mal - Arthur Quezada

Já estou há 19 dias de quarentena aqui em Portugal. Tédio é a palavra que define esse momento. Já li o livro que estava na cabeceira da cama, já vi os filmes que a Netflix me sugeriu, já enjoei até de jogar Fifa...Tenho a teoria que depois de um período enclausurado, as pessoas entram no piloto automático. E ai, bate aquela saudade.

Quem me dera ter um joguinho de Champions para assistir...

Quem me dera  poder ver meu time jogar um jogo feio de campeonato estadual...

Na realidade, estou topando até segunda, terceira ou quarta divisão aqui em Portugal...

Só queria poder assistir um joguinho de futebol, e como faz falta.

Trabalhar com futebol torna a situação ainda mais difícil, mas chegou a hora do CHOQUE de realidade: em 2020 o futebol perdeu. E tem que ser assim.

Fácil falar, mas na prática é difícil de entender. A reunião da UEFA desta última quarta-feira foi considerada, por muita gente, uma insanidade no meio do caos. Segundo relato de representantes que participaram da videoconferência, a entidade máxima do futebol europeu pediu às federações que os campeonatos nacionais fossem encerrados até dia 3 de Agosto. Desta forma, a UEFA conseguiria terminar o mata-mata da Champions League e Europa League sem uma mudança brusca no calendário da próxima temporada.

Porém, para cumprir esse prazo, os principais campeonatos europeus teriam que regressar no meio de Junho. Os jogadores precisariam de uma intertemporada de 10, 15 dias, ou seja voltariam a treinar no início de Junho. NÃO DÁ.

O ex-jogador holandês e diretor esportivo do Ajax, Marc Overmars bateu forte na UEFA após a reunião. "Neste momento olho para a UEFA e para a KNVB e penso no Donald Trump, no discurso que ele fazia há uma semana e onde dizia que a economia era mais importante que o vírus e a saúde das pessoas".

O presidente do Brescia, Massimo Cellino, foi ainda mais pesado nas críticas. "A UEFA é arrogante e irresponsável, só pensa nos interesses econômicos. Mas não é a UEFA quem decide a Serie A, quem decide a Serie A é a Itália. Querem que joguemos a cada dois dias? Ou a UEFA vai estender os dias para 72 horas? Se a UEFA quer fazer algo de útil, que traga ventiladores, agradecemos. Falo pelo Brescia. Temos caminhões que transportam mortos, estamos no centro da pandemia. Os jogadores já levam 45 dias parados, é preciso um mês para que fiquem em forma novamente", disparou.

Infelizmente, eles tem razão.

Voltar a jogar com portões fechados não resolve o problema. Isolar os jogadores do mundo é praticamente impossível.

Por mais que amemos o futebol, não podemos colocá-lo acima do bem ou do mal.

Como diz a Organização Mundial da Saúde: "Isso não é um sprint, é uma maratona. Ainda nem chegamos a metade".

 

#14 Tem futebol na tv! - Clara Albuquerque

Já são 23 dias de quarentena na Itália. Sigo mantendo a rotina de sair apenas uma vez por semana de casa para ir ao mercado. E sigo procurando atividades que possam substituir o futebol na televisão. Claro que séries, filmes e livros ganharam muito mais espaço na minha rotina, mas ainda assim preciso de futebol.

Os canais esportivos, aqui na Itália, claro, sabem disso e, na falta de futebol ao vivo, é preciso voltar ao passado. Há algumas semanas, o grupo de mídia SkySport, detentor dos direitos de grandes competições europeias, como a Liga dos Campeões, a Premier League e o próprio campeonato italiano, reprisou a campanha italiana na Copa do Mundo de 2006. Pra quem não lembra (alguém?), a Itália garantiu seu quarto título mundial, e os italianos passaram o fim de semana assistindo aquele time formado por nomes como Buffon, Cannavaro, Pirlo, Totti e companhia conquistar o mundo. A semifinal diante da Alemanha e a final com a França foram exibidas na íntegra, inclusive.

 

Hoje, quarta-feira, a atração é especial para os torcedores da Internazionale. Será o dia de reviver a campanha do clube de Milão na Liga dos Campeões de 2010. Liderada pelo técnico Mourinho, a Inter subiu ao ponto mais alto da Europa, vencendo o Bayern de Munique por 2 a 0, no Santiago Bernabéu. Foi o último título de um clube italiano na competição.

No Brasil, o Esporte Interativo está reprisando grandes jogos da Liga dos Campeões. É uma forma de voltar a viver alguns momentos emocionantes e matar a saudade da bola rolando ainda que não seja ao vivo. Nesse momento, em certos casos, saber o resultado pode até trazer certo conforto.

#13 O último jogo de futebol como incentivo - Tati Mantovani

Há 20 dias não temos futebol. Os minutos finais da prorrogação em Anfield, que davam ao Atlético de Madrid a vitória por 3x2 para cima do Liverpool, foram os últimos momentos de futebol antes da pandemia parar tudo. A emoção da classificação dos colchoneros para as quartas de final da Champions, eliminando os atuais campeões no seu estádio, foi vivida intensamente em campo e fora dele. Para muitos, a realização daquela partida e com torcida foi uma temeridade. Olhando para trás, não há como negar.

Mas a emoção, o sentido de pertencimento e a fé em um clube que o futebol nos faz sentir é algo muito difícil de explicar, principalmente para aqueles que nunca sentiram. Nestes dias tão complicados que vivemos em Madri, nos quais a cidade e o país registram centenas de mortes em decorrência do novo coronavírus a cada dia, aqueles que guardaram em suas melhores lembranças todas as sensações de Anfield as utilizam para resistir.

Uma sacada de Madrid. Crédito: reprodução Twitter

Um torcedor/a do Atlético de Madrid colocou essa bandeira na sacada aqui em Madri “Saímos de Anfield, sairemos desta”. Conseguir eliminar o melhor time do mundo, na melhor competição do mundo, era tarefa quase impossível para o Atlético de Madrid, mas eles conseguiram.

Neste momento, sem futebol e quando o jogo é outro, vale recordar aquelas partidas nas quais o nosso time encarava um rival muito superior, mas que isso não era motivo para entrar em campo já derrotados. Aqueles jogos que foram eternos, mas que no final saímos vencedores. O futebol tem destas coisas, a vida também.

 

#12 Premier League, um sonho de verão - Fred Caldeira
 

"Mais seis meses até a vida voltar ao normal", profetizou hoje a Dra. Jenny Harries, que faz parte do equivalente britânico ao Ministério da Saúde brasileiro. É muito provável que o isolamento não irá cobrir todo esse período mas, de qualquer forma, não são as palavras mais animadoras para se ouvir em meio à adaptação a um viver mais solitário. Enquanto isso, há quem planeje o retorno do futebol.

O jornal inglês The Independent revela que uma das propostas para que a temporada da Premier League seja encerrada dentro de campo é, basicamente, um esquema de Copa do Mundo. Os 92 jogos restantes seriam disputados no verão europeu, entre junho e julho, em centros de treinamentos concentrados na região central da Inglaterra. A expectativa é uma média de cinco partidas por dia, o que resultaria em um superevento às detentoras dos direitos de transmissão - e consequentemente ao público - após o longo período de seca.

Para que a ideia saia do papel, é extremamente necessário que a crise do coronavírus esteja sob controle ao menos no Reino Unido. Mesmo assim, testar e confinar tantas pessoas seria um desafio dificílimo. Os representantes da Premier League se reúnem nesta sexta-feira (03) para debater o futuro.

A proposta tão mirabolante que dá o tom da absurda realidade em que vivemos no momento. O sonho de verão inglês pode não passar de delírio.

#11 O meu futebol da quarentena - Isabela Pagliari

Hoje completam 12 dias de quarentena obrigatória na França, 12 dias de sol consecutivos em Paris (o que é uma bela ironia em uma cidade que faz muito frio e chove com frequência) e 12 dias que não saio de casa. 

Só pra deixar claro: iniciar o texto com o número de dias de confinamento virou tradição, espero que entendam.

Como já era esperado, a França prorrogou a quarentena por pelo menos mais duas semanas. Ou seja, até dia 15 de Abril seguiremos nesses mesmos padrões: casa, casa, casa, supermercado, farmácia se necessário e exercícios físicos na rua por uma hora ao dia e tudo isso com um atestado impresso.

Entre trabalho, leitura, atividades físicas, violão, FIFA, eu me rendi ao Big Brother Brasil. Sim, enlouqueci (também pensei isso). Me julguem! Estou vidrada e é o meu novo futebol. 

Se não fosse a escala de trabalho, meus dias da semana seriam tranquilamente baseados com prova do líder, paredão, eliminação…

Analisando friamente a situação, eu encontro uma resposta plausível para o cenário atual: estamos carentes sem futebol - E eu falo no plural mesmo, porque nessa barca, não estou só. Em tempos difíceis, qualquer entretenimento que te faça vibrar e debater com os amigos, precisa ser compreendido.

Aqui na casa onde faço a quarentena, consigo assistir os canais do Brasil. Depois de acompanhar esporadicamente alguns vídeos nas redes sociais, muitos mêmes e tuítes sobre o assunto, pensei «  deixa eu ver uma coisa aqui » . E não é que me ferrei bonito?

O auge desse momento « viciada em BBB » foi domingo passado (22). Se eu pudesse rever a cena das 3 da manhã (domingo para segunda aqui), seria algo entre patético e hilário.

Era uma prova de bate-volta do paredão que mais parecia uma disputa de pênaltis - todos aqui tensos (éramos 5 pessoas acompanhando na madrugada). Aos 45 do segundo tempo, quando Felipe Prior pegou o bastão da prova que o tirava do paredão, e deixada Daniel, ficamos eufóricos! Para deixar ainda mais dramático o suspense, o cara mandou essa « minha mãe mandou eu escolher esse daqui… ». Parecia gol do Brasil em Copa do Mundo, eu não estou brincando. Em Paris, pelo horário, a comemoração foi mais contida.

Você que não esta acompanhando e acha isso ilógico, é porque ainda não viu o grupo dos meus amigos apostadores de futebol olhando as cotas para o campeão do BBB. 

Seguimos fechados em casa igual o pessoal do Big Brother, pelo menos até o dia 23 de Abril (dia da final), meu « futebol da quarentena » está garantido.

Até o próximo paredão hahahaha.

Beijos Isa

 

#10 Vem pro balcão - Clara Albuquerque 
 

Completamos 20 dias de quarentena obrigatória, na Itália, neste fim de semana. Olhando pra baixo da minha janela, a rua segue quase sem movimento, com exceção do barulho das ambulâncias e dos caminhões de limpeza que passam, todos os dias, nos lembrando porquê precisamos ficar em casa. 

Mas, se desvio o olhar um pouco pra cima, os balcões dos prédios estão cheios de movimento. O casal de velhinhos, numa das varandas do apartamento da frente, voltou a dar atenção extra às plantas e flores, afinal a primavera começou por aqui. Dois balcões pra esquerda, três amigos jogam cartas sentados no chão da varanda enquanto escrevo esse texto. Faz um dia lindo, hoje, em Turim, e o sol seca um festival de roupas coloridas em outras tantas varandas. 

À noite, no balcão dos fundos do apartamento onde, vizinhos misteriosos projetam palavras de agradecimento, luta e esperança na parede lateral de outro prédio. 


 


Inicialmente, a quarentena deveria durar até 3 de abril. Uma semana mais. Infelizmente, pela previsão do tempo, será uma semana sem muito sol e sem muitas horas na varanda. Vem uma frente fria que deve trazer ao menos dois dias de neve pra Turim em plena primavera. Infelizmente, não deve ser também a última semana em quarentena. A Itália parece estar vivendo seu pico (naquela curva que cansamos de ver nas notícias), mas ainda serão necessários muitos dias (ou semanas) pros números diminuírem a ponto de voltarmos pra rua. Enquanto isso, vamos pro balcão. E esperamos.

#9 O futebol na Alemanha e o tapa na cara da sociedade - Arthur Quezada

 

Estou há 14 dias em quarentena. Entediado, sou um alvo fácil para sugestões de novas séries, filmes, livros e afins... A Netflix percebeu isso, e me sugeriu repetidamente um filme chamado El Hoyo. Um suspense/ficção científica espanhol, do diretor Galder Gaztelu-Urrutia. Há três dias resolvi assistir e desde então o filme não sai da minha cabeça. Em tempos de pandemia que vivemos, a obra é um tapa da cara da sociedade.

Não vou dar spoiler e muito menos fazer sinopse aqui. Mas importante dizer que a ficção é diferente de tudo o que você já assistiu e consiste numa dura crítica à postura das pessoas em relação ao status e classe social dentro de uma sociedade desigual. Duas mensagens importantes são passadas: 1. se todos formos solidários e pensarmos uns nos outros, todos sobreviverão as adversidades; 2. o mundo dá voltas e uma hora podemos estar por cima, mas num piscar de olhos somos nós que precisamos de ajuda.

E o que isso tem a ver com futebol?

Um dos esportes que mais movimenta dinheiro no planeta é o reflexo da disparidade financeira da sociedade. Os salários astronômicos dos atletas de alta performance levantam a bola de uma discussão profunda. Neste momento caótico para todos, quem tem mais deveria ajudar que tem menos? Para Manuel Neuer, um dos maiores goleiros da história do futebol alemão, não há dúvidas:

"Os jogadores de futebol têm uma profissão particularmente privilegiada, portanto é evidente que estamos dispostos a um corte nos salários em caso de necessidade", disparou. Os atletas ganham muito dinheiro porque o mercado do futebol gera muito dinheiro. FATO. Não estou aqui para discutir o mérito salarial, isso fica para outro momento. Porém, como diz o arqueiro germânico, para os jogadores com contratos extremamente abastados fica claro que o momento é de ajudar.

A Alemanha tem sido um exemplo nisso. Com o futebol paralisado por tempo indefinido, os clubes (mesmo os de elite) estão tendo dificuldades. O Borussia Dortmund, por exemplo, tem 850 funcionários e pessoas que dependem do time. Os próprios jogadores aurinegros resolveram abrir mão de 20% dos salários para que nenhum funcionário ficasse sem receber. No Bayern de Munique, a situação é semelhante. Diretoria e jogadores chegaram a esse acordo para proteger as 1000 pessoas que dependem do clube.

Os quatro times alemães (BVB, Bayern de Munique, Leipzig, Bayer Leverkusen), que participaram desta edição da Liga dos Campeões, se juntaram numa "vaquinha" e doaram 20 milhões de euros para a Bundesliga e Bundesliga 2, para ajudar as pessoas que dependem do futebol destes campeonatos.

Os jogadores da seleção alemã doaram em conjunto 2,5 milhões de euros para fins solidários no combate à pandemia do Covid-19.

Até mesmo nos clubes menores, como no Union Berlim, vemos exemplos de solidariedade. Os jogadores se posicionaram e aceitaram não receber os salários integrais durante a paralisação das competições, para que o time consiga sobreviver à crise.

Neste sentido, o futebol e os jogadores na Alemanha se tornaram exemplo. Seja num filme de ficção ou na vida real, em tempos difíceis a mensagem é clara: se pensarmos uns nos outros venceremos juntos, como sociedade.

 

 

#8 A jogadora e médica, o atleta e policial - Tati Mantovani

 

Ser responsáveis e fazer nossa parte. São 13 dias de confinamento oficial aqui na Espanha. Os hospitais, principalmente aqui de Madri estão colapsados, os profissionais da área de saúde trabalham sem descanso e os números de infectados e mortos são assustadores. Mas em meio a tantas notícias ruins, algumas boas ações.

Silvia Meseguer, jogadora do Atlético de Madrid e estudante de Medicina. Crédito: AFE e Instagram

Com o futebol suspenso até segunda ordem e as Olimpíadas adiadas em um ano, esportistas com outras profissões estão se colocando à disposição do governo para ajudar. A volante e segunda capitã do Atlético de Madrid, Silvia Meseguer, está cursando o último ano da faculdade de medicina. Sem poder jogar, ela se colocou à disposição do governo espanhol para ajudar. A cidade de Madri montou, no principal pavilhão de eventos da cidade, o maior hospital de campanha do país e Meseguer está disposta a ajudar. O governo espanhol está convocado alguns estudantes do último ano de medicina para auxiliar no cuidado dos doentes, já que cerca de 12% dos infectados do país são profissionais da saúde que não estão podendo trabalhar. Assim como faz em campo, Meseguer está disposta a ajudar a conter o ataque do novo coronavírus.

Saúl Craviotto medalha de ouro nas olimpíadas e policial. Crédito: Instagram

O futuro porta-bandeira da Espanha nas Olimpíadas de Tóquio, medalha de ouro nos Jogos do Rio na prova do K2 200m da canoagem, Saúl Craviotto é policial. Ele pediu uma licença do trabalho para se preparar para as Olimpíadas, mas como os jogos foram adiados, ele está disposto a voltar à ativa. Craviotto já comunicou ao seu superior que voltará ao trabalho assim que for solicitado. A polícia e o exército da Espanha estão nas ruas das cidades para evitar que os cidadãos descumpram a ordem de confinamento.

Para que tudo isso passe, precisamos fazer a nossa parte, ser responsáveis. É bom ver que o mundo do esporte continua dando bons exemplos nestes dias tão difíceis.

 

#7 A solidariedade não é contagiosa, é contagiante - Fred Caldeira

 

Os primeiros dias de liberdade restrita em Manchester foram ensolarados - não bastasse o caos, junta-se a fina ironia de uma cidade normalmente coberta por nuvens. Desde a última segunda-feira (23), é permitido sair de casa apenas em situações bastante específicas: se você não for um médico a caminho do hospital ou estiver indo comprar aquele tão valorizado rolo de papel higiênico, limite-se ao isolamento domiciliar.

No alto dos meus privilégios - afinal, tenho casa e salário garantidos - vejo a vida passar mais devagar. A Inglaterra demorou para atentar à gravidade do vírus, mas agora as ruas finalmente estão vazias. Ao sair para correr hoje mais cedo, o que ainda é permitido por aqui, vi muito poucas pessoas, o que me fez questionar o que elas estavam fazendo fora de casa e por que eu mesmo estava ali. Decidi suspender a corrida.

No Reino Unido, a marca dos casos confirmados chegou aos oito mil. A mais recente e badalada confirmação veio da realeza, com o príncipe Charles. Enquanto o país prepara-se para a subida da curva, talvez chegando aos preocupantes níveis italianos, ao menos uma boa notícia: 15 horas depois do NHS, o sistema público de saúde, pedir a inscrição de 250 mil voluntários,  mais de 400 mil pessoas se disponibilizaram. A solidariedade, afinal, não é contagiosa - é contagiante.

 

#6 Portugal e a vacina contra o medo - Arthur Quezada

 

 

Estou há 10 dias em quarentena. Da janela do apartamento vejo uma rua, que antes era movimentada, cada vez mais deserta. O cabeleireiro da esquina fechou, a senhora da frutaria também baixou as portas, os cafés do convívio diário encerraram os serviços.

Um desastre para a economia de um país que, nos últimos anos, estava conseguindo sair da terrível crise financeira europeia da última década. Não foi fácil. A recuperação sangrou o bolso dos portugueses, mas veio principalmente à base do turismo e do consumo.

Agora, o medo do desastre financeiro que pode acontecer depois da pandemia do Covid-19 é real, mas a prioridade não é essa. A batalha é pela vida, pelo exemplo, pelos pais e avós.

Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da Europa. Dos 10,2 milhões de habitantes residentes, 21,3% tem mais de 65 anos. Ou seja, assim como a Itália, um prato cheio para um vírus perigosíssimo para os mais idosos.

Neste cenário, a maioria dos portugueses resolveu agir. Quando percebeu-se a gravidade da situação, infelizmente com os exemplos de Itália e Espanha, boa parte dos lusitanos aderiu a quarentena voluntária. As escolas fecharam e muitos trabalhos liberaram os funcionários para home-office. A Fedração Portuguesa de Futebol e a Liga Portuguesa encerraram as atividades de todos os campeonatos e pediram para que os clubes paralisassem as atividades. No dia 18 de Março, o Presidente declarou Estado de Emergência, quando Portugal tinha registrado "apenas" 2 mortes e 642 casos. Uma realidade bem diferente da italiana.

Os principais telejornais por aqui fizeram, desde muito cedo, uma árdua campanha para as pessoas ficarem em casa. Numa espécie de bom senso coletivo, a adesão ao apelo aconteceu, não a 100%, mas em grande número.

O mundo do futebol (jogadores, técnicos, dirigentes, clubes) também se juntaram à essa campanha.

Portugal está longe da perfeição. Nesta situação, quem seria perfeito? No último final de semana, o sol apareceu e vimos pessoas passeando nas belas praias lusitanas, furando a quarentena obrigatória. O Governo errou também em alguns momentos, principalmente no controle das fronteiras e na circulação de turistas. Mas, mesmo com tudo isso, a maioria merece destaque. Na luta contra o Covid-19, o país pode sim servir de exemplo. Veremos daqui uns dias se valeu a pena o sacrifício. A vacina contra o medo foi encontrada e chama-se solidariedade. 

 

 

#5 Real Madrid campeão, mesmo sem futebol – Tati Mantovani

No fim de semana, a bola rolou aqui na Espanha, mas não foi nos campos do país e sim nas telas. Um torneio de FIFA20 entre jogadores do campeonato espanhol fez muitos, como eu, amenizarem a saudade do futebol por algumas horas.

O narrador de e-Sports Ibai Llanos montou um torneio entre os clubes do campeonato espanhol no qual um jogador de cada equipe assumia o comando do seu time. Marco Asensio jogou com o Real Madrid, Marcos Lllorente com o Atlético de Madrid e Sergi Roberto iria jogar com o Barcelona, mas por problemas de patrocínios o Barça acabou não participando.

Foi minha primeira vez assistindo esse tipo de transmissão e tenho que reconhecer que eu gostei muito. No sábado, assisti o Llorente colocando o Atlético de Madrid nas quartas de final fazendo um 5x3 na Real Sociedad. Depois acompanhei o Marco Asensio colocando o Real também nas quartas fazendo 2x0 no Granada. No domingo, assisti praticamente todas as eliminatórias. Os jogos são bem mais rápidos, certa de 8 minutos cada tempo, e a habilidade de alguns jogadores é a mesma com o controle que com a bola nos pés.

Asensio campeão de FIFA20 com o Real Madrid
Marco Asensio campeão de FIFA20 com o Real Madrid. Crédito:La Liga Santander Challenge

Marco Asensio, escolhido para defender o Real Madrid, foi o grande destaque da competição. Ele, que ainda não jogou esta temporada e segue se recuperando de uma grave lesão no joelho, foi o campeão do torneio com o Real Madrid. Asensio jogou com Hazard, Gareth Bale e ele mesmo a maioria das partidas. Eu sabia que ele jogava bem, mas realmente me surpreendi com a habilidade do atacante do Real Madrid. Nas semifinais ele goleou o Eibar por 7x0 e na final venceu o Leganés por 4x2. Foi legal ver o Asensio jogando outra vez, mesmo que só no videogame.

Quem assistiu o torneio se distraiu, curtiu um pouco de futebol e ainda ajudou. Depois do jogo final as ajudas estavam na casa dos 140 mil euros (cerca de 700 mil reais). O valor será repassado para a UNICEF repartir nas ajudas ao combate ao novo coronavírus.

 

#4 Quarentena em Paris: Escolhi me fechar com os amigos – Isabela Pagliari

Hoje é o meu sexto dia de quarentena aqui na França e eu preciso confessar que eu fiz parte do grupo de pessoas que achava que era « só uma gripe ». Por favor, não seja essa pessoa e fique em casa.

Eu moro na França há quase seis anos e sempre morei sozinha (com exceção dos oito meses que dividi o apartamento com um amigo). Ficar sozinha nunca foi realmente um problema porque a gente se acostuma, a rotina é corrida e até porque quando o bate aquela bad, é só mandar mensagem para o grupo dos amigos e quase sempre a gente dá um jeito de se encontrar. E acabamos pegando um metrô e em menos de 40 minutos já estamos dando risadas, contando histórias e tomando vinho em algum canto de Paris.

Uma coisa é ficar em casa esporadicamente, outra é ficar em casa sozinha por, PELO MENOS, 15 dias. Eu sabia que nada seria igual e precisava tomar uma decisão rápida caso não quisesse surtar.

As informações chegavam, os números eram atualizados e o desespero começou a bater. Em poucos dias, a França estaria nos mesmos padrões da Itália e da Espanha: ninguém sai de casa.

Na Sexta-feira 13 (risos irônicos) eu pedi ao meu amigo que tem carro me levar até um supermercado mais afastado pra fazer uma compra maior que a de costume. A ideia não era fazer um estoque com medo de terminar a comida, mas simplesmente porque eu não queria ficar saindo toda hora pra fazer compras já que a recomendação era evitar ao máximo sair de casa.

 

Com o coração acelerado entre tantas perguntas sem respostas, eu comecei a comer muito, mesmo. No WhatsApp meus amigos do Brasil falavam « vem pra cá Isa, o que você vai ficar fazendo aí? ». No momento, não queria preocupar minha família, mas fiz questão de passar toda a realidade da Europa e fazer todo o possível para controlar e alertar mesmo de longe.

 

Sábado de manhã eu já tinha comido muito mais do que eu costumo comer e sem me exercitar. Na minha cabeça, várias dúvidas « como vou ficar sozinha aqui por pelo menos 15 dias? Campeonato paralisado sem data de retorno, como fica o trabalho? Caramba o PSG emitiu um comunicado suspendendo os treinos por tempo indeterminado. Alguns jogadores podem ir ao Brasil!» .

 

 

Todo sábado, eu vou para o meu trabalho na rádio francesa « Europe 1 » e como de costume, às 21h25 um motorista me esperava na porta de casa para me levar até o estúdio. Não era um dia normal, eu fui à rádio meio inquieta, com receio e tomando todo o cuidado do mundo para seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde. Ninguém se cumprimentou, passamos álcool gel, cheguei em casa às 23h e o coração apertou.

Quando me sinto muito sozinha, eu toco violão, ligo pra família ou faço alguns stories no meu instagram. Esse contato virtual com meus seguidores tem sido uma válvula de escape.

Fui lá, fiz vídeos, expliquei algumas coisas e recebi uma mensagem da Carol, minha amiga de Paris :« amiga se quiser vem ficar com a gente ». Entre todas a ideias de ir ao Brasil, ficar sozinha, esse convite me deu uma alegria no coração, me trouxe paz em um momento turbulento.

 

Já eram 2 da manhã de domingo e o sono não vinha - Aliás, desde que a quarentena começou, às 5 da manhã virou meu novo meia noite, insônia brava. Tentei assistir uma série, tocar violão, mas nada me prendia. Depois de comer boa parte do estoque e perceber que estava vivendo uma mini crise de ansiedade, resolvi tomar uma taça de vinho para tentar dormir « amanhã é domingo, vou fazer diferente ».

 

Acordei, lavei roupa, arrumei a casa e resolvi sair (sim, fui ao parque ao lado de casa). Estava um dia lindo, 17 graus em Paris nessa época é raridade. Peguei meu fone, coloquei uma playlist « Coronaout » no spotfy e fui correr.

Fiquei impressionada com o tanto de gente nesse parque. Estava tudo errado, inclusive eu. Até aquele momento era permitida a prática de esportes na rua, com moderação. A França ainda não estava em confinamento total. Me sentindo um pouco irresponsável depois de ver o número de pessoas no parque, voltei pra casa, mais relaxada por ter feito atividade física, jantei, mandei mensagem pra minha amiga e disse « Cá, posso mesmo ir? ».

Paris, Segunda- feira, 16 de março

Eu comecei o dia trabalhando, vendo as notícias e o número de casos no mundo só aumentava e a tristeza também. Quando você é jornalista, não é possível desligar, é preciso acompanhar todas as notícias. Só que agora, por uma questão de sanidade mental, eu resolvi filtrar bem o tipo de conteúdo que consumo nas redes sociais.

Hoje era dia de mudança, de agir rápido e não pensar muito. Aproveitando que minha casa ia ficar livre, pensei no casal de amigos brasileiros que moram no meu bairro, em um estúdio de 16 metros quadrados.

« Vou passar a quarentena na casa da minha amiga, vou deixar a chave e vocês podem vir pra cá ». Nesse momento tão vulnerável, longe da família, é muito nobre poder ajudar e ser ajudada.

Depois de um dia agitado dentro de casa, lavando roupa, limpando, organizando e trabalhando, estava chegando o momento do discurso do presidente francês Emmanuel Macron.

Enquanto ele insistia com « estamos vivendo uma guerra, uma guerra sanitária », eu pegava minha mala, a mesma que levo para as viagens da Champions League e comecei a colocar minhas coisas (moletom e roupas de academia basicamente). Peguei um par de tênis, coloquei outro no pé e organizei todos os meus equipamentos com câmera, computador, tripé, carregadores, o trabalho não ia parar.

O presidente continuava falando na TV «um estado de guerra contra um inimigo invisível ». Ok entendi. Essa palavra « guerra » me causa arrepios. Fechei a mala, peguei uma sacola grande e coloquei tudo o que eu consegui das compras feitas na sexta-feira.

Entreguei a chave de casa ao meu amigo, desliguei a TV e esperei minha amiga me buscar. Era segunda-feira 22h00 e não sabia quando eu iria voltar para a casa.

Esse é um primeiro relato de uma brasileira confinada, enfrentando a pandemia longe do lar e amparada por uma família incrível. Estou bem, sigo trabalhando e mantendo a mente ocupada, estudando, fazendo atividade física, tocando violão e sendo positiva. Nesse momento é preciso de união, compaixão e muita calma.

#3 – Falta comida e papel higiênico na Itália? – Clara Albuquerque

Como estão os mercados na Itália? Essa é uma das perguntas que mais tenho recebido nos últimos dias. É claro que não consigo responder por todos os mercados, no país, mas os relatos por aqui têm sido parecidos. Com exceção de álcool, não tem faltado nada.

Num primeiro momento, quando o governo começou a anunciar as medidas de restrição e fechamentos, tivemos relatos de muita gente correndo pros supermercados pra fazer estoque. Esse pânico não é exclusividade de país nenhum. Mas, na Itália, durou pouco. O governo garantiu o abastecimento e é isso que temos visto na prática. Nos últimos 12 dias, fui a três mercados diferentes (saindo de casa apenas duas vezes) e encontrei tudo que precisava.

 
Compras na Itália

As regras, no entanto, mudaram. Há um limite de clientes que podem entrar no estabelecimento ao mesmo tempo, pra evitar aglomeração, então, eventualmente, pode ser preciso esperar alguns minutos na porta. Nos mercados menores do centro de Turim, no entanto, quase não vejo essa situação. Hoje mesmo, não encontrei fila na porta dos dois mercados que passei.

Também não é permitido entrar acompanhado nos mercados. Tudo deve ser feito sozinho. Lá dentro, os funcionários estão usando máscara, protegidos, e os clientes precisam respeitar a distância mínima de um metro do outro na fila do caixa. No mais, está tudo igual.

 

#2 – Confinados sim, sozinhos não - Tati Mantovani

O estado de emergência aqui na Espanha foi anunciado há uma semana. Desde então, não podemos sair de casa, somente para as necessidades básicas, como fazer compras, ir à farmácia ou por motivos de saúde. O isolamento ou confinamento, como você quiser denominar, impede que tenhamos uma vida social, mas isso não quer dizer que estejamos sozinhos.

Todos os dias, às 20h (hora local), nos encontramos. “Saímos” do isolamento e vamos para as janelas aplaudir profissionais da saúde, da segurança e trabalhadores que seguem com suas atividades para que possamos cumprir a regra de ficar em casa, evitar contágios e, portanto, não colapsar os hospitais. Os aplausos diários se tornaram o momento de encontro neste confinamento. 

Aqui na minha rua em Madri, nós já nos reconhecemos. E, olha, que há uma semana eu não fazia ideia de quem eram meus vizinhos. O casal de idosos da janela do prédio da frente, os estudantes de quatro janelas para lá, as duas janelas com crianças do outro prédio, a moça que mora sozinha aqui na frente. Nos encontramos todos os dias, aplaudimos com força, e nos apoiamos. Desde o primeiro dia, no final da rua, uma voz ecoa de uma das janelas um grito de “força”, que hoje é repetido por todos. Aplauso, força e um “hasta mañana” para despedir. O ritual diário do momento do dia no qual não estamos sozinhos.

 

 A Comunidade de Madri é a mais atingida da Espanha, mais de 60% dos mortos em decorrência do novo coronavírus no país residiam aqui. A cada nova atualização dos números, a tristeza toma conta, de forma ainda mais forte, do coração dos madrilenos. A cidade na qual escolhi viver, a cidade que me escolheu, fica ainda mais silenciosa a cada dia. Não fossem os aplausos diários, o encontro à distância com os, até então, desconhecidos seria ainda mais difícil conviver com esse sentimento de impotência. Nós estamos em casa, mas todas as noites, às 20h, lembramos que não estamos sozinhos. Força e fique em casa.


#1 - Dez dias em casa - Clara Albuquerque

Já são dez dias oficiais de quarentena em toda a Itália. Só é permitido sair de casa para necessidades urgentes, como fazer compras, ir à farmácia ou motivos de saúde. Quem sai, também precisa preencher um formulário, disponibilizado pelo governo, explicando porque você está na rua. Quem descumpre as regras, paga multa e pode até ir pra prisão nos casos mais graves.

A rotina de correspondente esportivo já prevê muito trabalho feito de casa, já que não temos uma redação para ir todo dia. Por isso, a parte do home office em si não é das mais complicadas. Aqui em Turim, com exceção das coletivas da Juventus, geralmente uma vez por semana, e a cobertura em dias de jogos, a produção, apuração e a maioria das entradas ao vivo, nos programas do Esporte Interativo, já eram feitas de um “mini estúdio” improvisado no apartamento onde moro. Sem jogos e eventos, tudo agora é 100% de casa. 

Nos últimos 10 dias, no entanto, pisei o pé fora de casa apenas uma vez, para fazer compras. No centro da cidade, onde moro, e nos bairros mais próximos, o mais comum é sair para fazer compras a pé, em mercados menores, bem diferentes daqueles gigantes que encontramos em várias capitais do Brasil. Por isso, é até difícil comprar muita coisa. A maioria das pessoas passa no mercado uma ou duas vezes por semana. Desde que a quarentena começou, aqui em Turim, os mercados têm se mantido abastecidos com tudo e não houve grandes problemas com falta de produtos (é quase impossível achar álcool, mas tem bastante papel higiênico). 

Pra mim, o mais difícil tem sido passar o dia lendo notícias tristes da pandemia. Como jornalista, é parte do trabalho e é muito difícil desligar. Não tenho ninguém próximo a mim que tenha sido contaminado, mas o país inteiro está em luto e nem sempre é fácil segurar a barra (e o choro!) com tanta notícia ruim. Ontem, pela primeira vez, um carro com sistema de som passou pelo meu bairro pedindo que as pessoas não saiam da rua e passando recomendações. Da janela de casa, no quarto andar, foi como se eu estivesse assistindo um filme. Daqueles bem tristes.

 

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Redação do Esporte Interativo

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