Torcedores usam máscaras em partida da Champions, antes da competição ser paralisada

Torcedores usam máscaras em partida da Champions, antes da competição ser paralisada

Melhor Futebol do Mundo

Correspondentes em quarentena

O diário de nossa equipe da Europa, no epicentro da pandemia do novo coronavírus

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Por Redação do Esporte Interativo

#15 O futebol não está acima do bem e do mal - Arthur Quezada

Já estou há 19 dias de quarentena aqui em Portugal. Tédio é a palavra que define esse momento. Já li o livro que estava na cabeceira da cama, já vi os filmes que a Netflix me sugeriu, já enjoei até de jogar Fifa...Tenho a teoria que depois de um período enclausurado, as pessoas entram no piloto automático. E ai, bate aquela saudade.

Quem me dera ter um joguinho de Champions para assistir...

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Torcedores usam máscaras em partida da Champions, antes da competição ser paralisada(2020 Getty Images, Getty Images Europe)

Torcedores usam máscaras em partida da Champions, antes da competição ser paralisada | 2020 Getty Images, Getty Images Europe

Cadeados fecham entrada de estádio na Europa(2020 Getty Images, Getty Images Europe)

Cadeados fecham entrada de estádio na Europa | 2020 Getty Images, Getty Images Europe

Quem me dera  poder ver meu time jogar um jogo feio de campeonato estadual...

Na realidade, estou topando até segunda, terceira ou quarta divisão aqui em Portugal...

Só queria poder assistir um joguinho de futebol, e como faz falta.

Trabalhar com futebol torna a situação ainda mais difícil, mas chegou a hora do CHOQUE de realidade: em 2020 o futebol perdeu. E tem que ser assim.

Fácil falar, mas na prática é difícil de entender. A reunião da UEFA desta última quarta-feira foi considerada, por muita gente, uma insanidade no meio do caos. Segundo relato de representantes que participaram da videoconferência, a entidade máxima do futebol europeu pediu às federações que os campeonatos nacionais fossem encerrados até dia 3 de Agosto. Desta forma, a UEFA conseguiria terminar o mata-mata da Champions League e Europa League sem uma mudança brusca no calendário da próxima temporada.

Porém, para cumprir esse prazo, os principais campeonatos europeus teriam que regressar no meio de Junho. Os jogadores precisariam de uma intertemporada de 10, 15 dias, ou seja voltariam a treinar no início de Junho. NÃO DÁ.

O ex-jogador holandês e diretor esportivo do Ajax, Marc Overmars bateu forte na UEFA após a reunião. "Neste momento olho para a UEFA e para a KNVB e penso no Donald Trump, no discurso que ele fazia há uma semana e onde dizia que a economia era mais importante que o vírus e a saúde das pessoas".

O presidente do Brescia, Massimo Cellino, foi ainda mais pesado nas críticas. "A UEFA é arrogante e irresponsável, só pensa nos interesses econômicos. Mas não é a UEFA quem decide a Serie A, quem decide a Serie A é a Itália. Querem que joguemos a cada dois dias? Ou a UEFA vai estender os dias para 72 horas? Se a UEFA quer fazer algo de útil, que traga ventiladores, agradecemos. Falo pelo Brescia. Temos caminhões que transportam mortos, estamos no centro da pandemia. Os jogadores já levam 45 dias parados, é preciso um mês para que fiquem em forma novamente", disparou.

Infelizmente, eles tem razão.

Voltar a jogar com portões fechados não resolve o problema. Isolar os jogadores do mundo é praticamente impossível.

Por mais que amemos o futebol, não podemos colocá-lo acima do bem ou do mal.

Como diz a Organização Mundial da Saúde: "Isso não é um sprint, é uma maratona. Ainda nem chegamos a metade".

 

#14 Tem futebol na tv! - Clara Albuquerque

Já são 23 dias de quarentena na Itália. Sigo mantendo a rotina de sair apenas uma vez por semana de casa para ir ao mercado. E sigo procurando atividades que possam substituir o futebol na televisão. Claro que séries, filmes e livros ganharam muito mais espaço na minha rotina, mas ainda assim preciso de futebol.

Os canais esportivos, aqui na Itália, claro, sabem disso e, na falta de futebol ao vivo, é preciso voltar ao passado. Há algumas semanas, o grupo de mídia SkySport, detentor dos direitos de grandes competições europeias, como a Liga dos Campeões, a Premier League e o próprio campeonato italiano, reprisou a campanha italiana na Copa do Mundo de 2006. Pra quem não lembra (alguém?), a Itália garantiu seu quarto título mundial, e os italianos passaram o fim de semana assistindo aquele time formado por nomes como Buffon, Cannavaro, Pirlo, Totti e companhia conquistar o mundo. A semifinal diante da Alemanha e a final com a França foram exibidas na íntegra, inclusive.

 

Hoje, quarta-feira, a atração é especial para os torcedores da Internazionale. Será o dia de reviver a campanha do clube de Milão na Liga dos Campeões de 2010. Liderada pelo técnico Mourinho, a Inter subiu ao ponto mais alto da Europa, vencendo o Bayern de Munique por 2 a 0, no Santiago Bernabéu. Foi o último título de um clube italiano na competição.

No Brasil, o Esporte Interativo está reprisando grandes jogos da Liga dos Campeões. É uma forma de voltar a viver alguns momentos emocionantes e matar a saudade da bola rolando ainda que não seja ao vivo. Nesse momento, em certos casos, saber o resultado pode até trazer certo conforto.

#13 O último jogo de futebol como incentivo - Tati Mantovani

Há 20 dias não temos futebol. Os minutos finais da prorrogação em Anfield, que davam ao Atlético de Madrid a vitória por 3x2 para cima do Liverpool, foram os últimos momentos de futebol antes da pandemia parar tudo. A emoção da classificação dos colchoneros para as quartas de final da Champions, eliminando os atuais campeões no seu estádio, foi vivida intensamente em campo e fora dele. Para muitos, a realização daquela partida e com torcida foi uma temeridade. Olhando para trás, não há como negar.

Mas a emoção, o sentido de pertencimento e a fé em um clube que o futebol nos faz sentir é algo muito difícil de explicar, principalmente para aqueles que nunca sentiram. Nestes dias tão complicados que vivemos em Madri, nos quais a cidade e o país registram centenas de mortes em decorrência do novo coronavírus a cada dia, aqueles que guardaram em suas melhores lembranças todas as sensações de Anfield as utilizam para resistir.

Uma sacada de Madrid. Crédito: reprodução Twitter

Um torcedor/a do Atlético de Madrid colocou essa bandeira na sacada aqui em Madri “Saímos de Anfield, sairemos desta”. Conseguir eliminar o melhor time do mundo, na melhor competição do mundo, era tarefa quase impossível para o Atlético de Madrid, mas eles conseguiram.

Neste momento, sem futebol e quando o jogo é outro, vale recordar aquelas partidas nas quais o nosso time encarava um rival muito superior, mas que isso não era motivo para entrar em campo já derrotados. Aqueles jogos que foram eternos, mas que no final saímos vencedores. O futebol tem destas coisas, a vida também.

 

#12 Premier League, um sonho de verão - Fred Caldeira
 

"Mais seis meses até a vida voltar ao normal", profetizou hoje a Dra. Jenny Harries, que faz parte do equivalente britânico ao Ministério da Saúde brasileiro. É muito provável que o isolamento não irá cobrir todo esse período mas, de qualquer forma, não são as palavras mais animadoras para se ouvir em meio à adaptação a um viver mais solitário. Enquanto isso, há quem planeje o retorno do futebol.

O jornal inglês The Independent revela que uma das propostas para que a temporada da Premier League seja encerrada dentro de campo é, basicamente, um esquema de Copa do Mundo. Os 92 jogos restantes seriam disputados no verão europeu, entre junho e julho, em centros de treinamentos concentrados na região central da Inglaterra. A expectativa é uma média de cinco partidas por dia, o que resultaria em um superevento às detentoras dos direitos de transmissão - e consequentemente ao público - após o longo período de seca.

Para que a ideia saia do papel, é extremamente necessário que a crise do coronavírus esteja sob controle ao menos no Reino Unido. Mesmo assim, testar e confinar tantas pessoas seria um desafio dificílimo. Os representantes da Premier League se reúnem nesta sexta-feira (03) para debater o futuro.

A proposta tão mirabolante que dá o tom da absurda realidade em que vivemos no momento. O sonho de verão inglês pode não passar de delírio.

#11 O meu futebol da quarentena - Isabela Pagliari

Hoje completam 12 dias de quarentena obrigatória na França, 12 dias de sol consecutivos em Paris (o que é uma bela ironia em uma cidade que faz muito frio e chove com frequência) e 12 dias que não saio de casa. 

Só pra deixar claro: iniciar o texto com o número de dias de confinamento virou tradição, espero que entendam.

Como já era esperado, a França prorrogou a quarentena por pelo menos mais duas semanas. Ou seja, até dia 15 de Abril seguiremos nesses mesmos padrões: casa, casa, casa, supermercado, farmácia se necessário e exercícios físicos na rua por uma hora ao dia e tudo isso com um atestado impresso.

Entre trabalho, leitura, atividades físicas, violão, FIFA, eu me rendi ao Big Brother Brasil. Sim, enlouqueci (também pensei isso). Me julguem! Estou vidrada e é o meu novo futebol. 

Se não fosse a escala de trabalho, meus dias da semana seriam tranquilamente baseados com prova do líder, paredão, eliminação…

Analisando friamente a situação, eu encontro uma resposta plausível para o cenário atual: estamos carentes sem futebol - E eu falo no plural mesmo, porque nessa barca, não estou só. Em tempos difíceis, qualquer entretenimento que te faça vibrar e debater com os amigos, precisa ser compreendido.

Aqui na casa onde faço a quarentena, consigo assistir os canais do Brasil. Depois de acompanhar esporadicamente alguns vídeos nas redes sociais, muitos mêmes e tuítes sobre o assunto, pensei «  deixa eu ver uma coisa aqui » . E não é que me ferrei bonito?

O auge desse momento « viciada em BBB » foi domingo passado (22). Se eu pudesse rever a cena das 3 da manhã (domingo para segunda aqui), seria algo entre patético e hilário.

Era uma prova de bate-volta do paredão que mais parecia uma disputa de pênaltis - todos aqui tensos (éramos 5 pessoas acompanhando na madrugada). Aos 45 do segundo tempo, quando Felipe Prior pegou o bastão da prova que o tirava do paredão, e deixada Daniel, ficamos eufóricos! Para deixar ainda mais dramático o suspense, o cara mandou essa « minha mãe mandou eu escolher esse daqui… ». Parecia gol do Brasil em Copa do Mundo, eu não estou brincando. Em Paris, pelo horário, a comemoração foi mais contida.

Você que não esta acompanhando e acha isso ilógico, é porque ainda não viu o grupo dos meus amigos apostadores de futebol olhando as cotas para o campeão do BBB. 

Seguimos fechados em casa igual o pessoal do Big Brother, pelo menos até o dia 23 de Abril (dia da final), meu « futebol da quarentena » está garantido.

Até o próximo paredão hahahaha.

Beijos Isa

 

#10 Vem pro balcão - Clara Albuquerque 
 

Completamos 20 dias de quarentena obrigatória, na Itália, neste fim de semana. Olhando pra baixo da minha janela, a rua segue quase sem movimento, com exceção do barulho das ambulâncias e dos caminhões de limpeza que passam, todos os dias, nos lembrando porquê precisamos ficar em casa. 

Mas, se desvio o olhar um pouco pra cima, os balcões dos prédios estão cheios de movimento. O casal de velhinhos, numa das varandas do apartamento da frente, voltou a dar atenção extra às plantas e flores, afinal a primavera começou por aqui. Dois balcões pra esquerda, três amigos jogam cartas sentados no chão da varanda enquanto escrevo esse texto. Faz um dia lindo, hoje, em Turim, e o sol seca um festival de roupas coloridas em outras tantas varandas. 

À noite, no balcão dos fundos do apartamento onde, vizinhos misteriosos projetam palavras de agradecimento, luta e esperança na parede lateral de outro prédio. 


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Inicialmente, a quarentena deveria durar até 3 de abril. Uma semana mais. Infelizmente, pela previsão do tempo, será uma semana sem muito sol e sem muitas horas na varanda. Vem uma frente fria que deve trazer ao menos dois dias de neve pra Turim em plena primavera. Infelizmente, não deve ser também a última semana em quarentena. A Itália parece estar vivendo seu pico (naquela curva que cansamos de ver nas notícias), mas ainda serão necessários muitos dias (ou semanas) pros números diminuírem a ponto de voltarmos pra rua. Enquanto isso, vamos pro balcão. E esperamos.

#9 O futebol na Alemanha e o tapa na cara da sociedade - Arthur Quezada

 

Estou há 14 dias em quarentena. Entediado, sou um alvo fácil para sugestões de novas séries, filmes, livros e afins... A Netflix percebeu isso, e me sugeriu repetidamente um filme chamado El Hoyo. Um suspense/ficção científica espanhol, do diretor Galder Gaztelu-Urrutia. Há três dias resolvi assistir e desde então o filme não sai da minha cabeça. Em tempos de pandemia que vivemos, a obra é um tapa da cara da sociedade.

Não vou dar spoiler e muito menos fazer sinopse aqui. Mas importante dizer que a ficção é diferente de tudo o que você já assistiu e consiste numa dura crítica à postura das pessoas em relação ao status e classe social dentro de uma sociedade desigual. Duas mensagens importantes são passadas: 1. se todos formos solidários e pensarmos uns nos outros, todos sobreviverão as adversidades; 2. o mundo dá voltas e uma hora podemos estar por cima, mas num piscar de olhos somos nós que precisamos de ajuda.

E o que isso tem a ver com futebol?

Um dos esportes que mais movimenta dinheiro no planeta é o reflexo da disparidade financeira da sociedade. Os salários astronômicos dos atletas de alta performance levantam a bola de uma discussão profunda. Neste momento caótico para todos, quem tem mais deveria ajudar que tem menos? Para Manuel Neuer, um dos maiores goleiros da história do futebol alemão, não há dúvidas:

"Os jogadores de futebol têm uma profissão particularmente privilegiada, portanto é evidente que estamos dispostos a um corte nos salários em caso de necessidade", disparou. Os atletas ganham muito dinheiro porque o mercado do futebol gera muito dinheiro. FATO. Não estou aqui para discutir o mérito salarial, isso fica para outro momento. Porém, como diz o arqueiro germânico, para os jogadores com contratos extremamente abastados fica claro que o momento é de ajudar.

A Alemanha tem sido um exemplo nisso. Com o futebol paralisado por tempo indefinido, os clubes (mesmo os de elite) estão tendo dificuldades. O Borussia Dortmund, por exemplo, tem 850 funcionários e pessoas que dependem do time. Os próprios jogadores aurinegros resolveram abrir mão de 20% dos salários para que nenhum funcionário ficasse sem receber. No Bayern de Munique, a situação é semelhante. Diretoria e jogadores chegaram a esse acordo para proteger as 1000 pessoas que dependem do clube.

Os quatro times alemães (BVB, Bayern de Munique, Leipzig, Bayer Leverkusen), que participaram desta edição da Liga dos Campeões, se juntaram numa "vaquinha" e doaram 20 milhões de euros para a Bundesliga e Bundesliga 2, para ajudar as pessoas que dependem do futebol destes campeonatos.

Os jogadores da seleção alemã doaram em conjunto 2,5 milhões de euros para fins solidários no combate à pandemia do Covid-19.

Até mesmo nos clubes menores, como no Union Berlim, vemos exemplos de solidariedade. Os jogadores se posicionaram e aceitaram não receber os salários integrais durante a paralisação das competições, para que o time consiga sobreviver à crise.

Neste sentido, o futebol e os jogadores na Alemanha se tornaram exemplo. Seja num filme de ficção ou na vida real, em tempos difíceis a mensagem é clara: se pensarmos uns nos outros venceremos juntos, como sociedade.

 

 

#8 A jogadora e médica, o atleta e policial - Tati Mantovani

 

Ser responsáveis e fazer nossa parte. São 13 dias de confinamento oficial aqui na Espanha. Os hospitais, principalmente aqui de Madri estão colapsados, os profissionais da área de saúde trabalham sem descanso e os números de infectados e mortos são assustadores. Mas em meio a tantas notícias ruins, algumas boas ações.

Silvia Meseguer, jogadora do Atlético de Madrid e estudante de Medicina. Crédito: AFE e Instagram

Com o futebol suspenso até segunda ordem e as Olimpíadas adiadas em um ano, esportistas com outras profissões estão se colocando à disposição do governo para ajudar. A volante e segunda capitã do Atlético de Madrid, Silvia Meseguer, está cursando o último ano da faculdade de medicina. Sem poder jogar, ela se colocou à disposição do governo espanhol para ajudar. A cidade de Madri montou, no principal pavilhão de eventos da cidade, o maior hospital de campanha do país e Meseguer está disposta a ajudar. O governo espanhol está convocado alguns estudantes do último ano de medicina para auxiliar no cuidado dos doentes, já que cerca de 12% dos infectados do país são profissionais da saúde que não estão podendo trabalhar. Assim como faz em campo, Meseguer está disposta a ajudar a conter o ataque do novo coronavírus.

Saúl Craviotto medalha de ouro nas olimpíadas e policial. Crédito: Instagram

O futuro porta-bandeira da Espanha nas Olimpíadas de Tóquio, medalha de ouro nos Jogos do Rio na prova do K2 200m da canoagem, Saúl Craviotto é policial. Ele pediu uma licença do trabalho para se preparar para as Olimpíadas, mas como os jogos foram adiados, ele está disposto a voltar à ativa. Craviotto já comunicou ao seu superior que voltará ao trabalho assim que for solicitado. A polícia e o exército da Espanha estão nas ruas das cidades para evitar que os cidadãos descumpram a ordem de confinamento.

Para que tudo isso passe, precisamos fazer a nossa parte, ser responsáveis. É bom ver que o mundo do esporte continua dando bons exemplos nestes dias tão difíceis.

 

#7 A solidariedade não é contagiosa, é contagiante - Fred Caldeira

 

Os primeiros dias de liberdade restrita em Manchester foram ensolarados - não bastasse o caos, junta-se a fina ironia de uma cidade normalmente coberta por nuvens. Desde a última segunda-feira (23), é permitido sair de casa apenas em situações bastante específicas: se você não for um médico a caminho do hospital ou estiver indo comprar aquele tão valorizado rolo de papel higiênico, limite-se ao isolamento domiciliar.

No alto dos meus privilégios - afinal, tenho casa e salário garantidos - vejo a vida passar mais devagar. A Inglaterra demorou para atentar à gravidade do vírus, mas agora as ruas finalmente estão vazias. Ao sair para correr hoje mais cedo, o que ainda é permitido por aqui, vi muito poucas pessoas, o que me fez questionar o que elas estavam fazendo fora de casa e por que eu mesmo estava ali. Decidi suspender a corrida.

No Reino Unido, a marca dos casos confirmados chegou aos oito mil. A mais recente e badalada confirmação veio da realeza, com o príncipe Charles. Enquanto o país prepara-se para a subida da curva, talvez chegando aos preocupantes níveis italianos, ao menos uma boa notícia: 15 horas depois do NHS, o sistema público de saúde, pedir a inscrição de 250 mil voluntários,  mais de 400 mil pessoas se disponibilizaram. A solidariedade, afinal, não é contagiosa - é contagiante.

 

#6 Portugal e a vacina contra o medo - Arthur Quezada

 

 

Estou há 10 dias em quarentena. Da janela do apartamento vejo uma rua, que antes era movimentada, cada vez mais deserta. O cabeleireiro da esquina fechou, a senhora da frutaria também baixou as portas, os cafés do convívio diário encerraram os serviços.

Um desastre para a economia de um país que, nos últimos anos, estava conseguindo sair da terrível crise financeira europeia da última década. Não foi fácil. A recuperação sangrou o bolso dos portugueses, mas veio principalmente à base do turismo e do consumo.

Agora, o medo do desastre financeiro que pode acontecer depois da pandemia do Covid-19 é real, mas a prioridade não é essa. A batalha é pela vida, pelo exemplo, pelos pais e avós.

Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da Europa. Dos 10,2 milhões de habitantes residentes, 21,3% tem mais de 65 anos. Ou seja, assim como a Itália, um prato cheio para um vírus perigosíssimo para os mais idosos.

Neste cenário, a maioria dos portugueses resolveu agir. Quando percebeu-se a gravidade da situação, infelizmente com os exemplos de Itália e Espanha, boa parte dos lusitanos aderiu a quarentena voluntária. As escolas fecharam e muitos trabalhos liberaram os funcionários para home-office. A Fedração Portuguesa de Futebol e a Liga Portuguesa encerraram as atividades de todos os campeonatos e pediram para que os clubes paralisassem as atividades. No dia 18 de Março, o Presidente declarou Estado de Emergência, quando Portugal tinha registrado "apenas" 2 mortes e 642 casos. Uma realidade bem diferente da italiana.

Os principais telejornais por aqui fizeram, desde muito cedo, uma árdua campanha para as pessoas ficarem em casa. Numa espécie de bom senso coletivo, a adesão ao apelo aconteceu, não a 100%, mas em grande número.

O mundo do futebol (jogadores, técnicos, dirigentes, clubes) também se juntaram à essa campanha.

Portugal está longe da perfeição. Nesta situação, quem seria perfeito? No último final de semana, o sol apareceu e vimos pessoas passeando nas belas praias lusitanas, furando a quarentena obrigatória. O Governo errou também em alguns momentos, principalmente no controle das fronteiras e na circulação de turistas. Mas, mesmo com tudo isso, a maioria merece destaque. Na luta contra o Covid-19, o país pode sim servir de exemplo. Veremos daqui uns dias se valeu a pena o sacrifício. A vacina contra o medo foi encontrada e chama-se solidariedade. 

 

 

#5 Real Madrid campeão, mesmo sem futebol – Tati Mantovani

No fim de semana, a bola rolou aqui na Espanha, mas não foi nos campos do país e sim nas telas. Um torneio de FIFA20 entre jogadores do campeonato espanhol fez muitos, como eu, amenizarem a saudade do futebol por algumas horas.

O narrador de e-Sports Ibai Llanos montou um torneio entre os clubes do campeonato espanhol no qual um jogador de cada equipe assumia o comando do seu time. Marco Asensio jogou com o Real Madrid, Marcos Lllorente com o Atlético de Madrid e Sergi Roberto iria jogar com o Barcelona, mas por problemas de patrocínios o Barça acabou não participando.

Foi minha primeira vez assistindo esse tipo de transmissão e tenho que reconhecer que eu gostei muito. No sábado, assisti o Llorente colocando o Atlético de Madrid nas quartas de final fazendo um 5x3 na Real Sociedad. Depois acompanhei o Marco Asensio colocando o Real também nas quartas fazendo 2x0 no Granada. No domingo, assisti praticamente todas as eliminatórias. Os jogos são bem mais rápidos, certa de 8 minutos cada tempo, e a habilidade de alguns jogadores é a mesma com o controle que com a bola nos pés.

Asensio campeão de FIFA20 com o Real Madrid
Marco Asensio campeão de FIFA20 com o Real Madrid. Crédito:La Liga Santander Challenge

Marco Asensio, escolhido para defender o Real Madrid, foi o grande destaque da competição. Ele, que ainda não jogou esta temporada e segue se recuperando de uma grave lesão no joelho, foi o campeão do torneio com o Real Madrid. Asensio jogou com Hazard, Gareth Bale e ele mesmo a maioria das partidas. Eu sabia que ele jogava bem, mas realmente me surpreendi com a habilidade do atacante do Real Madrid. Nas semifinais ele goleou o Eibar por 7x0 e na final venceu o Leganés por 4x2. Foi legal ver o Asensio jogando outra vez, mesmo que só no videogame.

Quem assistiu o torneio se distraiu, curtiu um pouco de futebol e ainda ajudou. Depois do jogo final as ajudas estavam na casa dos 140 mil euros (cerca de 700 mil reais). O valor será repassado para a UNICEF repartir nas ajudas ao combate ao novo coronavírus.

 

#4 Quarentena em Paris: Escolhi me fechar com os amigos – Isabela Pagliari

Hoje é o meu sexto dia de quarentena aqui na França e eu preciso confessar que eu fiz parte do grupo de pessoas que achava que era « só uma gripe ». Por favor, não seja essa pessoa e fique em casa.

Eu moro na França há quase seis anos e sempre morei sozinha (com exceção dos oito meses que dividi o apartamento com um amigo). Ficar sozinha nunca foi realmente um problema porque a gente se acostuma, a rotina é corrida e até porque quando o bate aquela bad, é só mandar mensagem para o grupo dos amigos e quase sempre a gente dá um jeito de se encontrar. E acabamos pegando um metrô e em menos de 40 minutos já estamos dando risadas, contando histórias e tomando vinho em algum canto de Paris.

Uma coisa é ficar em casa esporadicamente, outra é ficar em casa sozinha por, PELO MENOS, 15 dias. Eu sabia que nada seria igual e precisava tomar uma decisão rápida caso não quisesse surtar.

As informações chegavam, os números eram atualizados e o desespero começou a bater. Em poucos dias, a França estaria nos mesmos padrões da Itália e da Espanha: ninguém sai de casa.

Na Sexta-feira 13 (risos irônicos) eu pedi ao meu amigo que tem carro me levar até um supermercado mais afastado pra fazer uma compra maior que a de costume. A ideia não era fazer um estoque com medo de terminar a comida, mas simplesmente porque eu não queria ficar saindo toda hora pra fazer compras já que a recomendação era evitar ao máximo sair de casa.

 

Com o coração acelerado entre tantas perguntas sem respostas, eu comecei a comer muito, mesmo. No WhatsApp meus amigos do Brasil falavam « vem pra cá Isa, o que você vai ficar fazendo aí? ». No momento, não queria preocupar minha família, mas fiz questão de passar toda a realidade da Europa e fazer todo o possível para controlar e alertar mesmo de longe.

 

Sábado de manhã eu já tinha comido muito mais do que eu costumo comer e sem me exercitar. Na minha cabeça, várias dúvidas « como vou ficar sozinha aqui por pelo menos 15 dias? Campeonato paralisado sem data de retorno, como fica o trabalho? Caramba o PSG emitiu um comunicado suspendendo os treinos por tempo indeterminado. Alguns jogadores podem ir ao Brasil!» .

 

 

Todo sábado, eu vou para o meu trabalho na rádio francesa « Europe 1 » e como de costume, às 21h25 um motorista me esperava na porta de casa para me levar até o estúdio. Não era um dia normal, eu fui à rádio meio inquieta, com receio e tomando todo o cuidado do mundo para seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde. Ninguém se cumprimentou, passamos álcool gel, cheguei em casa às 23h e o coração apertou.

Quando me sinto muito sozinha, eu toco violão, ligo pra família ou faço alguns stories no meu instagram. Esse contato virtual com meus seguidores tem sido uma válvula de escape.

Fui lá, fiz vídeos, expliquei algumas coisas e recebi uma mensagem da Carol, minha amiga de Paris :« amiga se quiser vem ficar com a gente ». Entre todas a ideias de ir ao Brasil, ficar sozinha, esse convite me deu uma alegria no coração, me trouxe paz em um momento turbulento.

 

Já eram 2 da manhã de domingo e o sono não vinha - Aliás, desde que a quarentena começou, às 5 da manhã virou meu novo meia noite, insônia brava. Tentei assistir uma série, tocar violão, mas nada me prendia. Depois de comer boa parte do estoque e perceber que estava vivendo uma mini crise de ansiedade, resolvi tomar uma taça de vinho para tentar dormir « amanhã é domingo, vou fazer diferente ».

 

Acordei, lavei roupa, arrumei a casa e resolvi sair (sim, fui ao parque ao lado de casa). Estava um dia lindo, 17 graus em Paris nessa época é raridade. Peguei meu fone, coloquei uma playlist « Coronaout » no spotfy e fui correr.

Fiquei impressionada com o tanto de gente nesse parque. Estava tudo errado, inclusive eu. Até aquele momento era permitida a prática de esportes na rua, com moderação. A França ainda não estava em confinamento total. Me sentindo um pouco irresponsável depois de ver o número de pessoas no parque, voltei pra casa, mais relaxada por ter feito atividade física, jantei, mandei mensagem pra minha amiga e disse « Cá, posso mesmo ir? ».

Paris, Segunda- feira, 16 de março

Eu comecei o dia trabalhando, vendo as notícias e o número de casos no mundo só aumentava e a tristeza também. Quando você é jornalista, não é possível desligar, é preciso acompanhar todas as notícias. Só que agora, por uma questão de sanidade mental, eu resolvi filtrar bem o tipo de conteúdo que consumo nas redes sociais.

Hoje era dia de mudança, de agir rápido e não pensar muito. Aproveitando que minha casa ia ficar livre, pensei no casal de amigos brasileiros que moram no meu bairro, em um estúdio de 16 metros quadrados.

« Vou passar a quarentena na casa da minha amiga, vou deixar a chave e vocês podem vir pra cá ». Nesse momento tão vulnerável, longe da família, é muito nobre poder ajudar e ser ajudada.

Depois de um dia agitado dentro de casa, lavando roupa, limpando, organizando e trabalhando, estava chegando o momento do discurso do presidente francês Emmanuel Macron.

Enquanto ele insistia com « estamos vivendo uma guerra, uma guerra sanitária », eu pegava minha mala, a mesma que levo para as viagens da Champions League e comecei a colocar minhas coisas (moletom e roupas de academia basicamente). Peguei um par de tênis, coloquei outro no pé e organizei todos os meus equipamentos com câmera, computador, tripé, carregadores, o trabalho não ia parar.

O presidente continuava falando na TV «um estado de guerra contra um inimigo invisível ». Ok entendi. Essa palavra « guerra » me causa arrepios. Fechei a mala, peguei uma sacola grande e coloquei tudo o que eu consegui das compras feitas na sexta-feira.

Entreguei a chave de casa ao meu amigo, desliguei a TV e esperei minha amiga me buscar. Era segunda-feira 22h00 e não sabia quando eu iria voltar para a casa.

Esse é um primeiro relato de uma brasileira confinada, enfrentando a pandemia longe do lar e amparada por uma família incrível. Estou bem, sigo trabalhando e mantendo a mente ocupada, estudando, fazendo atividade física, tocando violão e sendo positiva. Nesse momento é preciso de união, compaixão e muita calma.

#3 – Falta comida e papel higiênico na Itália? – Clara Albuquerque

Como estão os mercados na Itália? Essa é uma das perguntas que mais tenho recebido nos últimos dias. É claro que não consigo responder por todos os mercados, no país, mas os relatos por aqui têm sido parecidos. Com exceção de álcool, não tem faltado nada.

Num primeiro momento, quando o governo começou a anunciar as medidas de restrição e fechamentos, tivemos relatos de muita gente correndo pros supermercados pra fazer estoque. Esse pânico não é exclusividade de país nenhum. Mas, na Itália, durou pouco. O governo garantiu o abastecimento e é isso que temos visto na prática. Nos últimos 12 dias, fui a três mercados diferentes (saindo de casa apenas duas vezes) e encontrei tudo que precisava.

 
Compras na Itália

As regras, no entanto, mudaram. Há um limite de clientes que podem entrar no estabelecimento ao mesmo tempo, pra evitar aglomeração, então, eventualmente, pode ser preciso esperar alguns minutos na porta. Nos mercados menores do centro de Turim, no entanto, quase não vejo essa situação. Hoje mesmo, não encontrei fila na porta dos dois mercados que passei.

Também não é permitido entrar acompanhado nos mercados. Tudo deve ser feito sozinho. Lá dentro, os funcionários estão usando máscara, protegidos, e os clientes precisam respeitar a distância mínima de um metro do outro na fila do caixa. No mais, está tudo igual.

 

#2 – Confinados sim, sozinhos não - Tati Mantovani

O estado de emergência aqui na Espanha foi anunciado há uma semana. Desde então, não podemos sair de casa, somente para as necessidades básicas, como fazer compras, ir à farmácia ou por motivos de saúde. O isolamento ou confinamento, como você quiser denominar, impede que tenhamos uma vida social, mas isso não quer dizer que estejamos sozinhos.

Todos os dias, às 20h (hora local), nos encontramos. “Saímos” do isolamento e vamos para as janelas aplaudir profissionais da saúde, da segurança e trabalhadores que seguem com suas atividades para que possamos cumprir a regra de ficar em casa, evitar contágios e, portanto, não colapsar os hospitais. Os aplausos diários se tornaram o momento de encontro neste confinamento. 

Aqui na minha rua em Madri, nós já nos reconhecemos. E, olha, que há uma semana eu não fazia ideia de quem eram meus vizinhos. O casal de idosos da janela do prédio da frente, os estudantes de quatro janelas para lá, as duas janelas com crianças do outro prédio, a moça que mora sozinha aqui na frente. Nos encontramos todos os dias, aplaudimos com força, e nos apoiamos. Desde o primeiro dia, no final da rua, uma voz ecoa de uma das janelas um grito de “força”, que hoje é repetido por todos. Aplauso, força e um “hasta mañana” para despedir. O ritual diário do momento do dia no qual não estamos sozinhos.

 

 A Comunidade de Madri é a mais atingida da Espanha, mais de 60% dos mortos em decorrência do novo coronavírus no país residiam aqui. A cada nova atualização dos números, a tristeza toma conta, de forma ainda mais forte, do coração dos madrilenos. A cidade na qual escolhi viver, a cidade que me escolheu, fica ainda mais silenciosa a cada dia. Não fossem os aplausos diários, o encontro à distância com os, até então, desconhecidos seria ainda mais difícil conviver com esse sentimento de impotência. Nós estamos em casa, mas todas as noites, às 20h, lembramos que não estamos sozinhos. Força e fique em casa.


#1 - Dez dias em casa - Clara Albuquerque

Já são dez dias oficiais de quarentena em toda a Itália. Só é permitido sair de casa para necessidades urgentes, como fazer compras, ir à farmácia ou motivos de saúde. Quem sai, também precisa preencher um formulário, disponibilizado pelo governo, explicando porque você está na rua. Quem descumpre as regras, paga multa e pode até ir pra prisão nos casos mais graves.

A rotina de correspondente esportivo já prevê muito trabalho feito de casa, já que não temos uma redação para ir todo dia. Por isso, a parte do home office em si não é das mais complicadas. Aqui em Turim, com exceção das coletivas da Juventus, geralmente uma vez por semana, e a cobertura em dias de jogos, a produção, apuração e a maioria das entradas ao vivo, nos programas do Esporte Interativo, já eram feitas de um “mini estúdio” improvisado no apartamento onde moro. Sem jogos e eventos, tudo agora é 100% de casa. 

Nos últimos 10 dias, no entanto, pisei o pé fora de casa apenas uma vez, para fazer compras. No centro da cidade, onde moro, e nos bairros mais próximos, o mais comum é sair para fazer compras a pé, em mercados menores, bem diferentes daqueles gigantes que encontramos em várias capitais do Brasil. Por isso, é até difícil comprar muita coisa. A maioria das pessoas passa no mercado uma ou duas vezes por semana. Desde que a quarentena começou, aqui em Turim, os mercados têm se mantido abastecidos com tudo e não houve grandes problemas com falta de produtos (é quase impossível achar álcool, mas tem bastante papel higiênico). 

Pra mim, o mais difícil tem sido passar o dia lendo notícias tristes da pandemia. Como jornalista, é parte do trabalho e é muito difícil desligar. Não tenho ninguém próximo a mim que tenha sido contaminado, mas o país inteiro está em luto e nem sempre é fácil segurar a barra (e o choro!) com tanta notícia ruim. Ontem, pela primeira vez, um carro com sistema de som passou pelo meu bairro pedindo que as pessoas não saiam da rua e passando recomendações. Da janela de casa, no quarto andar, foi como se eu estivesse assistindo um filme. Daqueles bem tristes.

 

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Redação do Esporte Interativo

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