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15/4/1970: Pelé estava em má forma

50 anos do tri: o dia a dia da conquista no México. A Seleção de Zagallo não empolgava quase um mês depois da demissão de João Saldanha

Por Mauro Beting

Capa de O GLOBO de 18 de março de 1970

Capa de O GLOBO de 18 de março de 1970

 

17 de março de 1970. Terça-feira. 19h30. Reunião na sede da CBD, na rua da Alfândega, centro do Rio do Janeiro. 

 

O presidente da comissão técnica Antonio do Passo tinha entregado na véspera o cargo ao presidente da entidade João Havelange. A crise técnica era visível. O ambiente entre o treinador João Saldanha e o médico da Seleção Lídio de Toledo era horrível. A pressão da imprensa era grande como sempre. Pelé não estava bem. Tostão não jogava desde setembro de 1969 por um descolamento de retina.

 

Depois de uma hora de reunião, Saldanha deixou a CBD. Demitido. Ou, como disse Havelange, a comissão técnica foi "dissolvida".

 

"Não sou sorvete para ser dissolvido", disse o ex-treinador e comentarista esportivo saindo da sede da entidade. E só foi realmente tirado da receita da sobremesa a cereja do bolo: ele.

Só Saldanha caiu. O supervisor Adolpho Milman, o Russo, saiu em solidariedade ao amigo. Todos os "dissolvidos" continuaram na receita preparada por Antonio do Passo. Quem realmente mandava ali dentro. Quem conhecia de futebol. Bem mais do que Havelange, nadador e jogador de polo aquático.

 

Não era só o futebol da Seleção e os desgastes com o doutor Lídio que levaram à demissão do treinador. Problemas extracampo também convcenceram Havelange a “dissolver a comissão técnica”.

 

Entre eles uma invasão armada de Saldanha na concentração do Flamengo para conversar com o treinador rubro-negro Yustrich, cinco dias antes de ser demitido... (LEIA MAIS A RESPEITO na EDIÇÃO NÚMERO 10 DA REVISTA CORNER).

 

Saldanha saiu atirando como queria entrar na concentração rubro-negro. Enumerou logo deppis os motivos da própria queda: covardia da cúpula da CBD. Insinuou que havia uma pressão absurda para botar Dario (Atlético Mineiro) na Seleção. Por isso Lídio tinha cortado duas semanas antes o centroavante Toninho Guerreiro (São Paulo) por sinusite (?!). Só para agradar Passo que queria Dario. Ou queriam que ele quisesse...

Quem? Havelange? O presidente Médici que adorava o centroavante?

Mas, para Saldanha, o que pesou mais para a sua saída foi quando definiu o time que jogaria no domingo seguinte um amistoso contra o Chile, no Morumbi. Nos 11 não teria o camisa 10 Pelé.

Poupado.

“O Passo dizia que não podia tirar nunca o Negão. Que tem o dinheiro dos patrocinadores, o público..."

O ex-treinador entendia que ele atrapalhava muitos negócios e interesses da CBD.

“Eu até sei por que eu fui demitido. Eu só não consigo entender por que motivos eles me contrataram ano passado”.

Zagallo assumiu a Seleção no dia seguinte à demissão de Saldanha. Trouxe mais cinco jogadores: Félix, goleiro do Fluminense, Leônidas, zagueiro do Botafogo, Arilson, ponta-esquerda do Flamengo, e dois centroavantes: Roberto, do Botafogo, e Dario. Do Galo.

Mudou o 4-2-4 antiquado de Saldanha para um mais "moderno" 4-3-3. Mas o time não se acertava.

Em 15 de abril de 1970, a Seleção vinha de um medíocre empate sem gols contra o Paraguai, três dias antes, no Maracanã. Paulo César Caju estava mal como terceiro homem do meio pela esquerda. Dario destoava no comando de ataque. Pelé seguia longe da forma física ideal.

Zagallo tinha dúvidas para a Copa, que começaria para o Brasil em 3 de junho, em Guadalajara, contra a forte Tchecoslováquia. Félix ainda era o preferido para a meta, pela experiência, mais do que pela forma que exibia. Por isso Ado ou Leão ainda não estavam descartdos. Joel Camargo e Fontana não davam segurança na zaga-esquerda. Clodoaldo vinha melhor do que Piazza na cabeça da área. Rivellino era melhor opção do que PC Caju pela esquerda (mas o craque corintiano não queria jogar por ali). Na cabeça de Zagallo, desde o início, Tostão e Pelé eram "incompatíveis taticamente".

Mesmo tendo funcionado muito bem nas Eliminatórias, em 1969.

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