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17/4/1970: Rivellino não queria jogar na ponta-esquerda

O dia a dia da campanha da melhor campeã de todos os tempos. Faltando 47 dias para o Brasil de Zagallo estrear no México, o futuro camisa 11 dizia que não saberia fazer a função que tão bem executou na Copa

Por Mauro Beting

Dois canhotos geniais: Rivellino e Gérson, juntos na conquista do tri, no México

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"Em um mês eu não vou conseguir ser ponta-esquerda". Rivellino encerrava a discussão que torcida, imprensa e os treinos como naquela sexta-feira à tarde, no Maracanã, abriam. Ele estava jogando melhor do que o titular de Zagallo na função.

Paulo César Caju não estava bem. Desde que havia se tornado o camisa 11 de Zagallo com a chegada do novo treinador, em 17 de março. Mesmo fazendo a função tática semelhante àquela que exercia no Botafogo havia três anos com o próprio técnico. Ele havia sentido muito as vaias impiedosas do Morumbi, na estreia de Zagallo na Seleção, na goleada sobre o Chile por 5 a 0. Tinha perdido a confiança. Não conseguia ser o mesmo ponta-esquerda e armador que brilhava no clube. Jogador de muita técnica, velocidade, inteligência para armar um jogo, compor como terceiro homem de meio-campo tanto pela esquerda quanto pela direita. Destro, sabia até jogar como centroavante mais enfiado.

Mas ele não estava bem. Como quase toda a seleção. Exceção ao próprio Rivellino e de Clodoaldo.

No treino de sexta-feira, a equipe de camisa amarela (reserva) jogou com Ado e depois Félix como goleiro (pelo rodízio, era a ver de Leão entre os titulares). A zaga tinha Zé Maria, Baldochi, Joel e Everaldo. O tridente do meio-campo era inteiro do Cruzeiro: Piazza, Zé Carlos e Dirceu Lopes. Na frente, Jairzinho, Roberto e Rivellino (o melhor do treino). Ainda assim ele foi substituído por Arilson. Como, no outro lado do ataque, Zagallo foi obrigado a tirar Jair do time de camisa amarela pra escalá-lo entre os titulares que vestiam azul. Edu entrou na ponta-direita dos reservas.

Jairzinho substituiu seu companheiro de Botafogo. O maior problema médico daquele 17 de abril: Rogério voltou a sentir o músculo posterior da coxa direita. Mais uma vez desfalcaria a seleção no amistoso contra a seleção mineira, dois dias depois, no Mineirão.

Não apenas a imprensa pedia Rivelino entre os titulares, mesmo que ele não quisesse jogar mais aberto pra esquerda. Outros treinadores pensavam em soluções para aquele setor da Seleção. O campeão do mundo em 1962, Aymoré Moreira, queria Edu ou Arilson na ponta-esquerda. " Paulo César embola muito o meio-campo. Acaba tirando espaço de Pelé".

Com Edu, titular absoluto da antiga comissão técnica, a seleção voltaria ao 4-2-4 que Zagallo não gostaria de ver nem pintado de verde amarelo. Arilson tinha características parecidas com as de Caju. Mas com muito menos qualidade técnica, e pouca experiência de Seleção.

O ex-treinador da Seleção João Saldanha tinha desde 23 de fevereiro uma coluna no jornal O GLOBO, que começou a assinar menos de um mês antes de ser demitido. A imagem que ele usava para definir o papel de PC na equipe: "ele parece um Fusca quebrado às 18h30 na avenida Rio Branco. Ele congestiona tudo. O jogo não flui".

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