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3/6/1970 - a estreia: Brasil 4 x 1 Tchecoslováquia

O Brasil deu show acima do esperado e começou bem melhor do que a encomenda no Jalisco

Por Mauro Beting

Jairzinho celebra o show da estreia

Jairzinho celebra o show da estreia

JALISCO, GUADALAJARA

3 de junho de 1970. 16h.

Primeiro jogo do Brasil na Copa do México.

Ramón Barreto, Uruguai, apitou.

52.897 torcedores.

Ingresso da primeira partida do Brasil em 1970

BRASIL DE ZAGALLO começou no 4-2-3-1 treinado durante o último mês dos quatro de trabalho da Seleção; TCHECOSLOVÁQUIA de JOSEF MARKO variou do 4-4-2 para o 4-3-3, mas com menos movimentação

PRÉ-JOGO. João Saldanha foi demitido em 17 de março de 1970. Zagallo assumiu em seguida e foi mudando o 4-2-4 que não vinha dando certo. Mas mesmo o novo treinador não tinha convicção do que faria. Acreditava que Tostão e Pelé eram “incompatíveis taticamente”. Também por isso apostou em Dario como opção. Zagallo não confiava em Joel e Fontana, os zagueiros pela esquerda. Apostou no improviso de Piazza na zaga, abrindo espaço para Clodoaldo na cabela de área, com Gerson ao lado. Rivellino não queria atuar aberto na esquerda. Mas para cavar um lugar que seria do mais ofensivo Paulo César Caju, aceitou a contragosto jogar por ali – mas mais recuado. Na última semana, Everaldo ganhou o lugar do mais ofensivo Marco Antonio.

A base do time campeão mundial foi definida no último jogo antes de partir para o México: vitória por 1 a o contra a Áustria, no Rio. O Brasil foi vaiado. Zagallo também não gostou: “esse não é o meu time. É o do povo”.

Seria o time que caiu no gosto e no coração do povo, um mês depois. O Brasil que venceu os seis jogos da Copa de 1970.

 

 

COMEÇA O JOGO

2min – Brasil não sai quebrando a bola. Félix sai pelo direito com Brito. Quase sempre chama Carlos Alberto que entrega a bola ao ponta-direita Jairzinho, que sempre vem buscar a pelota no campo de defesa.

3min – Primeira chance brasileira. Pelé quase faz, mandando uma bomba por cima. Grande arrancada de Rivellino pelo lado esquerdo, como um ponta que ele não era, e nem queria ser.

6min – Petras, grande meia-atacante de 23 anos, dribla três brasileiros e também isola. Excelente jogada.

7min – Gerson avança e tabela com Rivellino. Jair também isola na finalização. Jogaço!

10min – Terceira oportunidade. Desta vez foi o cabeça-de-área Clodoaldo quem se apresentou e mandou à esquerda de Viktor. Intensa chegada dos dois volantes brasileiros. Tostão sai bastante da área e abre espaço para Pelé chegar, mais centralizado.

11min. GOL. 1 X O TCHECOSLOVÁQUIA. PETRAS. Falha de Clodoaldo na saída de bola, PETRAS arranca pela esquerda, supera Brito e bate sem chance para Félix. Depois da Copa, ele quebrou a perna do companheiro de Seleção Migas. Fratura exposta. O governo do país obrigou que ele permanecesse suspenso por 14 meses, até a recuperação do zagueiro

12min – Tostão pega rebote e manda a bola na rede direita de Viktor. Resposta rápida brasileira.

15min – Boa defesa do goleiro tchecoeslovaco. Pela primeira vez Rivellino foi armar pela direita, limpou o lance e soltou a patada de canhota.

17min – Pelé tenta cavar falta de modo ridículo ao se atirar no chão depois de tranco legal de zagueiro rival. Brasil segue apertando e joga melhor.

19min – Tostão recua cada vez mais, sobretudo sem a bola, deixando Pelé mais à frente. Sem a bola, Brasil marca bem, com Rivellino cercando também pelo lado direito.

20min – Terceira chance deles, depois de outro erro individual brasileiro. Desta vez foi o capitão Carlos Alberto. Petras mandou por cima.

21min – Torcida no Jalisco grita BRASIL. Jogo espetacular.

22min – Primeira grande arrancada de Pelé, mas Tostão isola.

23min – Pelé e Tostão tabelam até o Rei ser derrubado na entrada da área, pela meia direita.

23min. GOL. 1 X 1 BRASIL. RIVELLINO. FALTA. Canhota emenda a bomba indefensável para Viktor pela velocidade da pancada. Muito justo. A bola passou onde estava Jairzinho. Como, em 1974, Jair se abaixou para Riva vencer a Alemanha Oriental.

Rivellino marca o gol de empate brasileiro

25min – Primeiro grande contragolpe brasileiro. Pelé faz lançamento de Pelé para Jairzinho que divide com o goleiro rival. Viktor era um senhor goleiro, que estreou pela seleção nacional justamente contra o Brasil, em amistoso em 1966.

26min – Brasil domina amplamente o jogo, enfim. Rival sentiu o gol de Riva.

27min – Primeira quebrada de bola de Félix em um tiro de meta. Brasil sempre sai jogando.

28min – Taquito lindo de Pelé. Brasil cada vez mais solto, com intensa movimentação dos dois homens de contenção e também dos três de frente, com Tostão recuando e ajudando a criar.

29min – Gérson aparece como um raio na área rival depois de lançamento de Pelé. Gérson que foi estigmatizado por ter atuado mal em 1966. Por sorte a corneta não venceu e o armador pôde brilhar no México.

30min – Porrada de Gérson na intermediária. Primeiro cartão amarelo da história do futebol brasileiro. Os cartões amarelo e vermelho foram instituídos a partir da Copa de 1970. Uma saída para a confusão depois da expulsão de Ratín, em Inglaterra 1 x 0 Argentina, nas quartas-de-final da Copa-66. Mais a respeito no meu livro AS MELHORES SELEÇÕES ESTRANGEIRAS DE TODOS OS TEMPOS, Editora Contexto, 2010.

31min – Tostão e Rivellino recuperam bolas na intermediária brasileira. Eles recuavam para cercar ou dar o combate e Pelé ficava como única referência na frente. Mais vezes era Tostão mesmo quem ficava mais à frente. Brasil, além da consciência tática na recomposição defensiva, já vencia a maioria dos duelos pela privilegiada condição física. Foi a primeira Seleção a chegar ao México. Seria a última a deixar o país. Tambéo porque aprendeu a marcar e compactar seu jogo.

31min – Tostão recebe livre e bate de canhota da entrada da área. Bela espalmada para escanteio de Viktor. Oitava oportunidade brasileira.

33min – Lateral-direito Dobias avança mais que o esquerdo. Também por isso Rivellino sai menos ao ataque. O lateral de 22 anos foi eleito o melhor jogador nacional em 1970 e 1971 atuando pelo Spartak Trnava.

34min – Calor deixa partida mais lenta.

35min – Tostão tentou armar lance e perdeu a bola. Imediatamente voltou para recompor o meio-campo. Pelé seguiu comandando o ataque.

35min – Brito bate o primeiro tiro de meta quebrando a bola.

36min – Jalisco vem abaixo com grande jogada de Pelé desde a intermediária. Parece um garoto. Ou melhor. Isto é Pelé.

36min – Brito bate outro tiro de meta. E muito mal.

37min – Jairzinho ataca e dribla pela direita como se fosse Mané Garrincha e só para no chutamento cruzado para boa defesa de Viktor.

38min – Incansável, Jairzinho acompanha o avanço do lateral rival e recupera a bola. Partidaça. Não foi a primeira dele fazendo isso.

40min – Brasil fecha bem os espaços. Muito compacto. Sem a bola, Rivellino recuava mais pela esquerda; Jair seguia espetado, mas um tanto mais atrás; Pelé e Tostão trocavam de função, Mais jovem, o craque celeste de 23 anos dava o combate ao volante rival.

41min – Décima do Brasil. Pelé quase vira o placar. Aquele lance…

Gérson: Quando eu vi o Pelé chutando dali eu comecei a xingá-lo: Crioulo, você tá de sacanagem… E ele vai lá e faz aquilo!

Zagallo: Meu Deus! Esse crioulo está louco!?

Pedro Carbajal, narrador mexicano: Ele tentou o gol mais bonito que eu já vi. Digo, que eu não vi.

Daily Mirror, jornal inglês: Havia 70 mil pessoas no estádio, mas só Pelé viu Viktor adiantado.

O primeiro dos três golaços que Pelé não marcou na Copa-70 e o fizeram ainda maior por isso. Um lance que ele já tinha tentado em treinos pelo Santos. E, meses antes, pelo Brasil, em Porto Alegre, contra a Argentina.  E em um amistoso contra o Chile, no Morumbi. Mas esse é tema para outro post.

42min – Quarta deles. Petras invade ás costas de Everaldo e chuta fora. O lateral gremista, a estrela dourada no escudo tricolor, ganhou o lugar no time dias antes da estreia. 

45min – Carlos Alberto cruza a bola para Jairzinho dentro da área. Árbitro uruguaio (que apitou também no Brasil) termina a primeira etapa com a bola chegando! Absurdo não reclamado pelos brasileiros. Diferentemente do estádio, que aplaudiu demais o excelente primeiro tempo.

INTERVALO

PLACAR VIRTUAL – BRASIL 10 X 4

MELHORES DO BRASIL – Jairzinho, Rivellino, Tostão e Pelé.


RECOMEÇOU

Brasil sem a bola. Bem mais compacto do que era

MUDA : KVASNAK-6 X HRDLICKA. Volante por volante.

30s – Vesely chuta errado, Brito salva e, na sequência, Félix faz senhora defesa.

50s – Segunda chance rival, com menos de um minutos. Jokl bate na rede lateral esquerda.

1min – Resposta brasileira. Gerson da meia direita chuta de trivela e a bola atinge a trave direita.

3min – Rivellino se desloca mais para a meia direita e tenta achar espaço vazio. Arrisca de longe e nada.

4min – Outra saída errada de bola com Félix.

4min – Torcida dá força e grita BRASIL.

4min – Tabelinha linda entre Tostão e Jairzinho. Mas nada acontece.

6min – Jairzinho retoma outra bola no campo de defesa e inicia belo ataque.

7min – Pelé está livre mas manda nas mãos de Viktor. Marcava-se menos e se deixava jogar. Mas é uma senhora partida.

11min – Rivellino manda a bomba da intermediária. De pé direito. Por cima. Brasil arrisca bastante em tiros de longe.

11min – Grande arrancada de Jair que tabela com Pelé, mas o botafoguense bate bisonho de canhota pra fora, na cara de Viktor.

13min – Bobeada monstro da zaga. Escanteio curto, ninguém aparece, lateral-esquerdo deles isola o que seria o segundo gol europeu.

13min – De tanto errar na saída de bola, Félix resolve quebrar a primeira bola dele no segundo tempo. Jogo igual. Mas não tão intenso. Calor aperta.

14min. GOL. BRASIL 2 X 1. PELÉ. Gerson lança lá da esquerda espetacularmente para o peito Dele. Ele espera a bola cair, deixa pro pé direito, e fuzila Viktor. No momento do gol, Rivellino estava pelo lado direito, mais uma vez. Atuou mais por ali na segunda etapa.

FOTO: O GLOBO
FOTO: REVISTA PLACAR

15min – Calor intenso. Melhor para o Brasil que está voando.

19min – Outro gol absurdo perdido pelo time europeu. Outra falha defensiva brasileira no escanteio. Livre na pequena área, numa bola rasteira.

20min – GOL. BRASIL 3 X 1. JAIRZINHO. Outro golaço. Gerson teve toda a liberdade para lançar Jairzinho em posição legal, embora contestada pelos adversários. Ele chapelou Viktor e estufou a rede de sem-pulo. Bandeira vermelha confirmou o gol.

21min – Brasil resolve voltar a sair jogando no tiro de meta.

22min – Seleção sempre tenta a jogada mais plástica, não necessariamente a mais prática. Opta pela beleza, não necessariamente pela firula.

23min – Tostão faz a pressão mais à frente. Brasil marca mais adiantado.

24min – Bomba da meia-direita de Rivellino. Bem Viktor. Com a bola, ele arma pela direita. Sem a bola, recompõe pelo lado esquerdo, até pelo apoio ainda intenso de Dobias.

25min. Pênalti claro de Dobias em Tostão. Barreto nada marcou. Antes, sem a bola, Pelé foi atingido por Migas, e árbitro nada fez.

27min – MUDA BRASIL: PAULO CÉSAR CAJU-18 x pelo lesionado Gerson. Riva vai ser recuado para fazer a do Papagaio. PC Caju entra na dele, aberto pela esquerda, mas recompondo mais o meio.

Rivellino mais uma vez fazendo a de Gérson, mais atrás

28min – Petras não se cansa. Bomba da esquerda. Bem Félix.

30min – A patada agora é de Rivellino, Viktor defende. Equipes mortas fisicamente.

31min – Petras quase faz, mas perde boa chance.

32min – Marcação frouxa pelo lado esquerdo brasileiro. Chance deles.

34min – Jairzinho é mesmo um furacão. Passa por três até ser travado. Um show.

37min – GOL. 4 X 1 BRASIL. JAIRZINHO. Segundo gol dele, outro golaço. Dribla dois e, na frente do terceiro, bate cruzado, em jogada iniciada por Pelé.

39min – Rivellino manda a bomba de falta. Boa defesa de Viktor.

FIM DE JOGO – Equipes mortas fisicamente esperaram o jogo terminar. Partidaça.

 

PLACAR VIRTUAL SEGUNDO TEMPO: BRASIL 6 X 5

PLACAR VIRTUAL JOGO TODO: BRASIL 16 X 9 TCHECOSLOVÁQUIA

NOTA DO JOGO – 9


NOTAS DO BRASIL (9):

FÉLIX (nota 6) – Inseguro em algumas saídas e reposições, mas fez ótima defesa no início do segundo tempo. Muito ágil. E jogou como prometera sem luvas.

CARLOS ALBERTO (6) – Dificuldade com incursões de Petras, atacou menos que o esperado.

BRITO (6) – Algumas desatenções, mas não comprometeu.

PIAZZA (6) – Improvisado, teve problemas para cobrir Everaldo.

EVERALDO (5) – O mais discreto do time, sentiu o peso da estreia, e o apoio de Dobias.

CLODOALDO (8) – Apesar da falha no gol rival, foi um monstro na saída para o jogo. Mas também deixou alguns buracos na entrada da área.

GERSON (8,5) – As atribuições defensivas não tiraram o brilho dos lançamentos geniais para dois dos três gols brasileiros.

JAIRZINHO (9,5) – Espetacular. Deu um pé atrás, fez dois belos gols, e infernizou a marcação rival. Técnica, tática e fisicamente. Iniciava o Furacão de 1970

PELÉ (8,5) – Fez um não-gol antológico. Marcou o da virada. E esteve muito melhor que nas partidas anteriores.

RIVELLINO (9) – O gol de empate, o improviso pela esquerda, a vontade de chutar, a armação e movimentação pela direita, e ainda ajudou atrás no fim. Partidaça.

TOSTÃO (8) – Teve de marcar por Pelé e ainda chegar à frente e abrir espaços. Muito inteligente.

ZAGALLO (8) – O time dele não era o que ele queria. Mas foi muito melhor que a encomenda. E bem diferente da equipe de Saldanha.

TCHECOSLOVÁQUIA (6)

Ivo Viktor (7);
Karol Dobiaš (7), Václav Migas (5), Alexander Horváth © (5) e Vladimír Hagara (4);
František Veselý (6), Ivan Hrdlička (4) (Kvašňák, 5), Jozef Adamec (6) e Ladislav Kuna (5);
Petráš (8) e Karol Jokl (6)

Josef Marko (7)

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