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A maior goleada da história do Brasil e o tal futebol de antigamente

Em 1909, o Botafogo fez 24 a 0 no Mangueira. Até hoje, o placar mais elástico da história do nosso futebol. Resultado quase impossível de se repetir, já que goleadas são cada vez mais raras por aqui. E isso é bom!

Por Bruno Formiga

Temos uma estranha mania de enaltecer (saudosamente) o passado. Principalmente no futebol. Meu irmão costuma chamar isso de "a síndrome da Era de Ouro". Uma obssessiva busca por um jogo-espetáculo que, na prática, nunca existiu. E alguns fatos históricos nos ajudam a entender.

Peguemos o exemplo de uma data marcante para o futebol brasileiro: 30 de maio.

Em 1909, pelo Campeonato Carioca, o Botafogo (ainda batizado de Botafogo Football Club) venceu o Mangueira por inacreditáveis 24 a 0. Sim. Foi exatamente esse o placar. O resultado permanece até hoje como a maior goleada aplicada por aqui. 

Gilbert Hime fez nove gols naquele dia. Um feito que perdurou até 1976, quando Dario marcou dez na vitória do Sport por 14 a 0 sobre o Santo Amaro, pelo Campeonato Pernambucano.

 Essa outra goleada, por sinal, também serve de fio condutor para este texto.

Resultados mirabolantes, quase de futebol de várzea, não podem ser modelo de saudade de um jogo que era bem mais desigual e muito menos competitivo. Existiam abismos. E muito time amador travestido de profissional.

Uma busca rápida deixa evidente a mudança de perfil. No Brasileirão, por exemplo, que reúne a elite do que temos, praticamente todas as maiores goleadas são da década de 1980 pra trás. Dos 50 placares mais elásticos apenas 10 são dos anos 90 pra cá - e nenhum desses aparece no top 15.

Outro exemplo que também mostra a equiparação do nível é o Paulistão. Levantamento com um recorte bem mais recente expõe como os resultados largos diminuíram em apenas dez anos. A pesquisa da Folha de S. Paulo pegou os jogos de 2008 até 2018. O gráfico traduz uma proximidade maior entre os times, trabalhos distribuídos e boas estruturas espalhadas.

A tendência está em outras competições. Na Liga dos Campeões da Europa, as dez maiores goleadas estão todas de 1981 pra trás. Os 25 placares com mais gols (somandos os dois clubes) também - exceções apenas para três resultados. 

A Copa do Mundo segue a mesma linha. Apesar de algumas goleadas marcantes na era moderna, a esmagadora maioria foi estabelecida há 30, 40 anos. E até mais. Bem mais.

Não existe mais bobo no futebol
A frase é feita, antiga. E deveria ser visto como algo bom.

Se hoje tem mais países, clubes e culturas sabendo jogar o jogo, significa que o nível médio das partidas subiu. Tem mais gente competindo e entrando no bolo. Logo, sem bobos, placares de pelada de final de semana são mais raros, o que nos leva a crer que o profissionalismo na elite (que é o que no final das contas serve de parâmetro) está melhor distribuído.

As estruturas melhoraram, os treinos melhoraram, a preparação dos treinadores melhorou. A captação de talentos idem. Times pequenos são capazes de achar bons nomes. Times grandes evoluíram no monitoramento. Ou seja: Todo o tipo de filtro ficou melhor.

Mas você pode lembrar de goleadas bem bizarras no futebol da Oceania. Vitor Sérgio Rodrigues me alertou sobre os inúmeros placares absurdos (32x0) da Austrália na década passada. Esses resultados, inclusive, nos ajudam a ver como abismos são ruins para o esporte. Tão ruim que o time precisou MUDAR DE CONTINENTE para jogar as Eliminatórias da Copa.

É óbvio que a tese aqui precisaria de mais tempo, de mais espaço - talvez um livro (?).

Mas pra mim é uma questão lógica. O esporte é competição. E quanto mais gente com ferramentas para competir (não necessariamente ser campeão) melhor para o produto, melhor para o jogo. Melhor pra todo mundo.

Aquele 24x0 provavelmente nunca vai se repetir.

Ainda bem. 

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