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A solução não passa pela vítima

Reflexões sobre os caminhos para combater o racismo no futebol

Por Fred Caldeira

A solução não passa pela vítima(Reprodução Internet)

A solução não passa pela vítima | Reprodução Internet

Hoje, a Federação Portuguesa anunciou punições pelos incidentes na partida entre Vitória de Guimarães e Porto do último dia 16. O uso de sinalizadores rendeu ao time da casa uma multa de € 4.017, enquanto os insultos a Moussa Marega não passaram de € 714. A pirotecnica nas arquibancadas, portanto, é quase seis vezes mais grave que o racismo, por mais que a Federação negue a relação da multa aos atos racistas.

A reação de Marega, similar à de Taison em novembro, girou o mundo e endossou um debate muito quente na panorama entre racismo e futebol: em caso de ataques, os jogadores devem deixar o campo? Há quase um consenso de que sim. Permita-me discordar. É compreensível projetar que os dois times saindo em direção aos vestiários, encerrando uma partida prematuramente, componham uma cena poderosa. Talvez cause efeitos jamais antes vistos. Mas haveria aí uma grave delegação de responsabilidades.

Vivemos em sociedades nas quais a cor da pele é, sim, relevante. A distribuição de privilégios, entre diversos aspectos, começa também na cor de cada indivíduo. O futebol não é um universo paralelo - nessa questão, claro, porque é em tantas outras. É evidente que falhamos no combate ao racismo, tanto na conscientização quanto na punição, e há uma sanha justificável por respostas urgentes. "Se nada acontece, que ao menos o jogador tome uma atitude", pensam parcialmente cobertos de razão.

Sou branco, talvez um pouco menos enquanto moro na Inglaterra, então jamais terei a compreensão do que é ser vítima de racismo, mas me parece pouco sensível atribuir à vítima a responsabilidade por respostas. Quando o primeiro time sair de campo, todos os outros casos deverão ter a mesma resposta? A vítima que, paralisada pela agressão, não reagir será vista como conivente? O caminho é tortuoso e perigoso.

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