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Argentina dá caminhos pro futebol lidar com violência contra Mulher

Mas será que queremos aprender? Ou o Brasil prefere o resultado esportivo acima de tudo?

Por Taynah Espinoza

Velez foi o primeiro clube na Argentina a colocar em contrato uma cláusula que permite a rescisão unilateral em caso de violência de gênero

Velez foi o primeiro clube na Argentina a colocar em contrato uma cláusula que permite a rescisão unilateral em caso de violência de gênero

A contratação de Robinho pelo Santos neste final de semana trouxe de volta um assunto que vira e mexe aparece e muita gente faz questão de desmerecer: o papel social que os clubes de futebol deveriam exercer. Condenado por estupro na Itália, o atacante foi anunciado como reforço sem que o Peixe, sequer, fizesse qualquer menção sobre o assunto. Pior que isso. O mesmo Santos, que faz campanha nas redes sociais contra violência contra mulher, confirmou a contratação com toda moral que um ídolo merece. Alguém condenado, mesmo que em primeira instância, deve ser tratado como ídolo?

Este não é o primeiro nem será o último caso relacionado a violência contra mulher no futebol. Aliás, bem longe disso. No início deste ano, tivemos o caso do goleiro Jean, preso em flagrante nos Estados Unidos por agressão a ex-mulher. O então reserva do São Paulo teve como “pena” a titularidade do Atletico-GO. Bem antes disso, o goleiro Bruno foi condenado por feminicídio num crime brutal que pode ter chocado muita gente, menos quem o trata como ídolo até hoje ao ser contratado pra voltar a jogar futebol. Ou quem acha engraçado que ele faça propaganda de um canil.

Enquanto tratamos assim a violência contra mulher no Brasil, a Argentina mostra um caminho que deveria ser seguido no mundo inteiro. Os principais clubes do país já criaram, ou estão criando, um protocolo a ser seguido pra defender as mulheres.

O Velez Sarsfield foi pioneiro na ação, com um departamento exclusivo para combater a violência de gênero. O clube definiu que o contrato de todos os jogadores terá uma cláusula que permite a rescisão unilateral em caso de violência contra mulher. O Velez já foi seguido por San Lorenzo, River Plate e Boca Juniors.

Isso é o mínimo que o futebol pode fazer.

Mas a Argentina deu ainda mais exemplo. O futebol feminino fez uma campanha, no fim do ano passado, que escancarava os altos números de feminicídio no país. Intitulada de “o time incompleto”, a ideia era tirar uma jogadora da equipe a cada dia sem jogo, pra mostrar que uma mulher morre na Argentina a cada 26 horas.  

Na Argentina, futebol feminino também fez campanha para alertar sobre os altos números de feminicídio no país. Foto: Reprodução

Enquanto isso, aqui no Brasil, estupro, feminicídio ou agressão contra mulher é assunto apenas nas redes sociais dos clubes. A advogada de Robinho garante, em entrevista ao UOL, que não há nenhuma cláusula no contrato do jogador que peça a rescisão automática caso seja pedida a prisão do atleta. Dá pra acreditar? O clube contrata um jogador condenado por estupro, não trata do assunto e não coloca sequer uma cláusula no contrato pra se proteger.

Até quando essa cegueira coletiva? Até quando o futebol vai seguir no seu mundo paralelo onde resultado esportivo, título, taça, esconde um problema gigante da sociedade? Ou a violência contra mulheres não é um problema pro futebol?

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