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Brasil 5 x 2 Suécia - Campeão mundial há 62 anos

Recontando o primeiro dos cinco títulos mundiais brasileiros, há exatos 62 anos

Por Mauro Beting

A primeira das cinco voltas olímpicas mundiais do Brasil, há 62 anos

A primeira das cinco voltas olímpicas mundiais do Brasil, há 62 anos

COMEÇOU - A Suécia decide mandar no campo e no jogo em Rasunda. Na saída, o excelente meia Gren lança o ótimo ponta-direita Hamrin. Era a senha e a sanha sueca: ligação direta de qualidade do meio para a frente, sobretudo com o organizador Gren, normalmente pensando o jogo pelo lado direito, e abusando dos toques de primeira e de taquito. Algo que o Brasil combateu até usando a mão. Numa esticada para o craque Skoglund (o melhor ponta-esquerda da Copa), Bellini meteu o mãozão na bola. A jogada ficava ainda mais perigosa pelo gramado escorregadio que deixava metade dos jogadores pelo chão (mesmo com o carinho e zelo dos organizadores, que protegeram as grandes área da chuva forte com encerados que a cobriram antes da decisão da Copa).

4min – 1 x 0 SUÉCIA.
Liedholm faz belo gol para os suecos. Lance começou numa ligação direta do zagueiro-direito Gustavsson para o centroavante Simonsson, que dominou às costas de Nilton Santos e lançou para o centro da área, onde o meia-esquerda limpou os dois zagueiros de área e bateu cruzado, no canto direito de Gilmar.


Didi pega a bola no fundo da meta e vai acalmando os companheiros. Zagallo não gosta e pede pressa ao camisa 6 brasileiro. A Suécia era muito mais time. Hamrin e Simonsson se mexiam bem pelo ataque e meio-campo.

5min – O Príncipe Etíope Didi não dá bola ao Formiguinha camisa 7. Dá a saída e já lança Mané Garrincha. Ele passa como quer pelo lateral-esquerdo Axbom e bate (sem ângulo) na rede lateral da meta do goleiro Svensson.
Resposta rapidíssima do Brasil. Até porque as celebrações de gols eram mais contidas, e os reinícios de jogo muito mais rápidos que agora.

8min – 1 x 1. GOL DO BRASIL. VAVÁ!
Garrincha arranca pela segunda vez. Faz o que quer e serve Vavá, na raça, para empatar a decisão.
A torcida sueca murcha no estádio Rasunda.

9min – Pelé, da meia direita, arranja belo lance e manda de sem-pulo, de canhota, na trave direita sueca. Ele quer jogo. No 4-3-3 brasileiro, troca de função com Vavá, saindo da meia-direita para a esquerda. Quando Zagallo avança e faz um 4-2-4, Pelé normalmente é o meia pela direita. Mas, como Vavá, Ele se movimenta muito e dá opções para o organizador Didi, que atua pelo lado esquerdo do campo, com Zito à direita. Quando Zagallo recua para compor o meio (e não para liberar Nilton Santos, que não avança – porque preso e obrigado a marcar o driblador Hamrin), Didi centraliza. E começa quase todos os lances brasileiros. Quando não é ele, a saída mais usual, desde o campo do Brasil, é com Zagallo.
Garrincha fica aberta à direita. Com pelo menos três atentos a ele: Axbom, Parling e até o volante Borjesson.

10min – Em lindo lance de Pelé, por dentro, Vavá bate e Svensson faz boa defesa. Brasil melhora e aquieta o estádio. Seleção toca bem a bola desde o seu campo. Vez ou outra faz ligação direta com os zagueiros Bellini e Orlando, ou mesmo com o lateral-direito Djalma Santos. Nos tiros de meta e reposições, a canhota de Gilmar também funciona bem, explorando o cabeceio de Vavá.

12min – Pelé perde gol feito, pegando mal, de canhota, em saída errada do zagueiro-esquerdo Parling. Brasil aperta marcação na frente e vai ganhando o campo. Torcida sueca apreensiva e calada.

14min – Garrincha repete o lance do primeiro gol, mas, desta vez, a zaga alivia para escanteio.
(Os corners são completamente diferentes dos de hoje. Os bandeirinhas se dirigiam à linha de fundo, próximos da bandeira de escanteio; os árbitros se colocavam no segundo pau, fora de campo, próximos à linha de fundo.
Além da posição da arbitragem, a dinâmica era completamente outra: os escanteios eram batidos rapidamente pelos pontas de cada lado. Uma só vez a Suécia bateu com o meia Gren, pela direita. Ao bater rápido, pouca gente chegava ao ataque para tentar a conclusão.
Normalmente, ficavam apenas Vavá e Pelé, com o ponta do outro lado fora da área, perto do bico oposto da grande área, e mais Zito e Didi na entrada da área, esperando um rebote.
A Suécia atacava com mais gente. Até quatro ficavam na área para tentar o cabeceio. Os demais, fora.
Não por acaso saíam menos gols em lances de bola parada; era menos gente na área. Também nas cobranças de falta laterais. Elas eram rapidamente feitas. E sem formação de barreira. Não havia tempo para a chegada dos zagueiros do time atacante).

16min – Suécia começa a errar passes demais. Ouve-se do banco os gritos de “vai, Garrincha!”.
Seleção está melhor, mas, por vezes, exagera nos balões para o ataque. Algo que os suecos já deixaram de lado, também pela excelente atuação de Bellini no jogo aéreo.

17min – Didi mata com extrema finesse a bola no meio-campo e, logo depois, enfia a bola entre as canetas de Borjesson. Torcida sueca faz “ohhh” e aplaude o brasileiro!

24min – Orlando fura horrorosamente na entrada da área. Apesar do melhor momento brasileiro, tem ótima técnica o time sueco. Sabem trabalhar a bola e gostam do jogo bonito. Tocam rapidamente e se deslocam bem. Jogam a final não apenas porque são donos da festa.

25min – Skoglund consegue vencer Djalma Santos e cruza no segundo pau. O incansável Zagallo aparece para desviar de cabeça. Quando a Suécia resolvia atacar, todo o Brasil voltava. Só Garrincha e Vavá ficavam um pouco mais à frente. Didi e Zito os enchiam de bolaS no contragolpe. Quase sempre realizado com menos velocidade e em menores proporções que hoje.

26min – Pelé responde e quase vira o placar, em belo lance pela esquerda. Svensson espalma pela linha de fundo. O camisa 10 vai ganhando todas de Borjesson.
(Não havia gandula. Ou só havia um, que ficava bem atrás da meta. Jogadores, fotógrafos, repórteres e mesmo os bandeirinhas pegavam as bolas que saíam).

28min – Garrincha dá duas comidas brilhantes, rente à lateral, no “Mané” deles, o 11 Skoglund. A cada jogada do ponta do Botafogo, ouve-se uma reação de “ahhh...” dos suecos. O Brasil era melhor. Zagallo ajudava o meio, Didi cadenciava o time, Zito acertava a marcação em Liedholm. Como Zagallo fechava para compor o meio, Vavá caía pela esquerda. O Brasil era mais time. A melhor jogada sueca ainda era com Hamrin. Mas Nilton Santos estava mais esperto. E sempre ajudava Orlando na cobertura pela esquerda.

31min – 2 x 1 BRASIL. GOL. VAVÁ!
Replay do primeiro gol. Garrincha escapa de Axbom e cruza para Vavá virar o placar na Suécia. Lance começou com Pelé na entrada da área brasileira roubando a bola como se fosse um volante, e puxando o belo contragolpe pela direita. Aplicação tática brasileira era notável.

32min – Nilton Santos salva o empata quase sobre a linha, em tiro de Hamrin. Apesar do lance, Suécia chega pouco. Djalma vai contendo Skoglund, e Liedholm tem pouco espaço com Zito. O armador sueco tenta recuar para achar o jogo e até para cercar eventualmente Garrincha. Não dá certo. A marcação sobre o ponta-direita não funciona e, ao mesmo tempo, libera Zagallo, cada vez mais tranqUilo em campo.

33min – Impressionante o fair-play entre os atletas. Poucas faltas, e muitas reverências. A torcida segue o clima. Orlando ficou alguns minutos sendo atendido no gramado. Ao se levantar, foi aplaudido pela torcisa sueca.

36min – Torcida no Rasunda extrapola: Garrincha dá de calcanhar a Djalma Santos, que executa seu tradicional balãozinho e devolve a Mané. Uma salva de palmas ao bonito lance brasileiro por parte da torcida que perdia a final da Copa do Mundo jogando em casa...

38min – Brasil espera a Suécia. Nilton começa a ganhar quase todas de Hamrin. A Seleção joga fácil e melhor que os donos da casa.

39min – Lateral da Suécia, Pelé bate como se fosse brasileiro. Primeira malandragem do jogo.

40min – A bola chega a Garrincha, contra três marcadores. Torcida faz “ahhhhhh!!!!”.

43min – Vavá toca para Zagallo, de calcanhar, e torcida sueca aplaude...

44min – Pelé limpa dois e chuta mal. Suecos aplaudem!!! Na seqüência, Gilmar faz boa defesa em chute de Simonsson.

45min – Sem acréscimos, fim de primeiro tempo. Placar justíssimo.



SEGUNDO TEMPO –

1min – Garrincha recupera a bola e quase faz golaço por cobertura.

2min – Suecos fazem “ohhhh...” com belo lance de Garrincha. Zagallo se segura mais para liberar Mané. A Suécia chuveira e insiste na ligação direta, e Bellini despacha tudo.

5min – Brasil domina o jogo. Pelé abre pela esquerda e Zagallo cerca por dentro. Didi faz o que quer. Como a maioria dos meias. Trabalho facilitado pela marcação muito distante e espaçada. Há como pensar o jogo sem afobação. Na prática, sem a bola, o Brasil é um 4-3-3, com Zito, Didi e Zagallo na intermediária, Garrincha, Pelé e Vavá no ataque (estes dois se mexendo bastante).

6min – Skoglund reaparece e deixa Djalma Santos no chão. As grandes áreas sentem as chuvas pesadas desde a véspera. Imagine o que seria o campo se os suecos não tivessem protegidos as grandes áreas e não tivessem tentado secar o gramado com toalhas e esponjas.

9min – PELÉ. GOLAÇO. 3 a 1. GOL. 
Nilton cruza, Pelé mata no peito, chapela um rival, e fuzila Svensson. Suécia definha. Orlando e Bellini desarmam os rivais quase na intermediária. Zito domina o meio-campo, Didi faz do ritmo dele o dos rivais.

11min – Garrincha desarma um rival, faz uma graça no meio e recua para Gilmar. Os suecos aplaudem!!!

13min – Brasil ganha tempo com Garrincha driblando e cavando faltas pela direita. Djalma Santos bate os laterais dentro da área sueca. O jogo é nosso.

17min – Garrincha arranja grande lance, mas finaliza mal. A Suécia segue entregue.

19min – Ouve-se um grito do banco brasileiro: “ainda tem muito jogo! Vamos correr!”

21min – Suécia se desespera e erra passes bisonhos. Brasil segura Zagallo, adiante Pelé e Vavá por dentro, e deixa Garrincha aberto pela direita.

22min – ZAGALLO. GOL. 4 X 1.
Na raça, ganha um pé-de-ferro pela ponta-esquerda, depois de um escanteio, e bate por baixo de Svensson.

25min – Todas as divididas e rebatidas são brasileiras. A Suécia está entregue. Moral e fisicamente. E Didi reina no gramado. Que categoria.

30min – Falta perigosa pela meia esquerda para os suecos. Em vez de mandar para o gol em cobrança direta, um inócuo chuveirinho nas mãos de Gilmar. A nossa barreira tinha apenas quatro jogadores. Os europeus não tinham grandes batedores de faltas. Até porque elas aconteciam raramente no jogo, de lado a lado.

31min – Pênalti de Borjesson em Garrincha. Mas o árbitro francês Maurice Guigue marca fora da área. Na cobrança, Didi bate à esquerda de Svensson. Hoje, o volante teria sido expulso por impedir oportunidade clara de gol.

34min – Simonsson. Golaço. 4 x 2 Brasil.
Bela enfiada de Liedholm para o centroavante, que, entre os zagueiros, apareceu livre à frente de Gilmar.

35min – Didi toca por cobertura e quase amplia, em bela cobrança de falta.

37min – Zagallo cruza da esquerda para Pelé, no segundo pau, cabecear nas mãos de Svensson. Ele estava impedido. Mas é a jogada que seria clonada no final da partida.

39min – Excelente saída de Gilmar aos pés do atacante sueco impede ótimo contragolpe rival.

44min – Borjesson vai cruzar, chuta o gramado, e cai de boca. Acabou pra Suécia.

45min – Vavá cai na área. Pênalti? Para mim, foi.

45min – PELÉ. 5 X 2. GOL. 
Ele domina pela meia esquerda, toca de calcanhar para Zagallo, vai para a área e, no segundo pau, ganha dos suecos e faz o gol final.
Segundos depois, ainda caído no gramado, ouve o apito final do árbitro francês.
O primeiro mundial veio no último toque na bola de Pelé, em Rasunda.


NOTAS BRASIL

Gilmar (7);

Djalma Santos (9), Bellini (8), Orlando (7), Nilton Santos (7);
Zito (8), Didi (10), Zagallo (9);
Garrincha (10), Vavá (9), Pelé (10).

Pelé e Didi, os craques do jogo.

NOTAS DA SUÉCIA

Svensson (5);

Bergmark (4), Gustavsson (4), Parling (3) e Axbom (3);
Borjesson (3), Gren (7);
Hamrin (6), Simonsson (6), Liedholm (7), Skoglund (5).

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