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Data-Fifa só incomoda quando aperta o próprio calo

O futebol brasileiro caminha para 20 anos rasgando uma obrigação: não ter jogo oficial de seus clubes durante as Datas-Fifa. Vai acontecer agora de novo, nas quartas-de-final da Copa do Brasil e no Campeonato Brasileiro. De quem é a culpa de isso continuar ocorrendo?

Por Vitor Sérgio Rodrigues

Data-Fifa só incomoda quando aperta o próprio calo(Lucas Figueredo / CBF)

Data-Fifa só incomoda quando aperta o próprio calo | Lucas Figueredo / CBF

A Fifa criou a Data-Fifa em 2002 para acabar com a eterna briga sobre os clubes liberarem jogadores para as seleções nacionais em meio a seus compromissos valendo três pontos. A partir da sua adoção, acabou essa polêmica, já que nenhum jogador desfalcaria seu clube em jogos importantes para atuar por sua seleção, já que os clubes não entram em campo naquelas datas. É assim praticamente no mundo inteiro. Mas o Brasil nunca respeitou essa regra simples e clara.

O futebol brasileiro caminha para a segunda década rasgando uma obrigação evidente: não ter jogo oficial de seus clubes durante as Datas-Fifa. Reparem, eu disse 20 anos! É um absurdo que clubes que pagam caríssimo para ter grandes jogadores não possam contar com eles em partidas importantes e decisivas. Vai acontecer agora de novo, em partidas das quartas-de-final da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro. De quem é a culpa de isso continuar ocorrendo?

Logicamente a resposta disso é fácil: da CBF. Ele rasga uma regra clara e fácil: usa as Datas-Fifa para realizar jogos oficiais. Mas a CBF comete esse “erro” há quase 20 anos. Ou seja, não é mais um equívoco, é um modo de operação consciente. Digo há muito tempo que a CBF é uma instituição cuja a expertise não é fazer futebol, é fazer política. A CBF precisa fazer política porque é assim que seus dirigentes se mantêm no poder, dando 16 datas para realizar campeonatos estaduais. Normalmente, são de oito a dez Datas-Fifa num ano... Eu, de coração, não acredito que a CBF respeite em algum momento as Datas-Fifa, pois a CBF não pensa no bem dos clubes, ela pensa no bem de sua relação política para se manter no poder.

Diante do exposto no parágrafo anterior, a culpa segue sendo da CBF, mas também recai nos clubes. Sim, os clubes. Que são vítimas, mas também são culpados. Por inércia. São quase 20 anos sendo prejudicados pelo desrespeito da CBF. E eles não fazem nada além de reclamar e apenas quando têm jogadores convocados. Já passou da hora de os clubes se juntarem e buscarem uma medida drástica, como uma greve ou uma mobilização real contra a CBF. Do tipo: não entraremos em campo até a Data-Fifa ser respeitada.

Logicamente, não adianta um, dois ou três clubes fazerem isso. Na organização perversa do futebol brasileiro, em que as federações estaduais têm votos com peso três enquanto clubes têm voto com peso um, quem reclama ou questiona acaba sendo prejudicado. Então, esse movimento de revolta tem que ser de todos os clubes envolvidos na Primeira Divisão (o ideal, conceitualmente, é que fosse de todas as divisões!). Mas esperar que os clubes se unam em torno de uma pauta boa para eles virou reino da fantasia por aqui.

Por um simples motivo: no futebol brasileiro segue prevalecendo a máxima de querer sempre se dar bem. Então, não há uma unidade para pressionar a CBF pelo respeito à Data-Fifa. Em cada convocação, normalmente temos três ou quatro clubes que são prejudicados pelas convocações. Ou seja, são 16 clubes que “se dão bem”, enfrentando adversários enfraquecidos sem seus melhores jogadores. Logicamente, eles não vão brigar para enfrentar times mais fortes! Aí é que está o problema...

Desde 2002, quando a CBF começou a rasgar a Data-Fifa, os clubes que cedem jogadores para as seleções nacionais (não é só a brasileira, em um momento em que o futebol do Brasil tem dezenas de jogadores de vizinhos sul-americanos) variaram muito. A maioria já foi prejudicada em algum momento, alguns são agora e outros serão num futuro próximo. Logo, esse pensamento de “levar vantagem” é pontual. Hoje está bom, pois o adversário perde seus principais jogadores, mas em breve, isso vai prejudicar quem hoje se beneficia.

Vamos a um exemplo concreto: o Santos conseguiu segurar Neymar no Brasil por uns dois anos além do “normal” para um jogador da qualidade dele. Nesse período, praticamente não conseguiu usufruir disso no Brasileirão, pois do meio de 2010 ao meio de 2013 viu a seleção brasileira tirar o craque de vários jogos importantes. Neymar chegou a ficar fora 15 jogos de um Campeonato Brasileiro para servir a seleção, principal e olímpica. Nos Brasileiros de 2011 e 2012, o Santos com Neymar tinha aproveitamento de campeão, mas não conseguia ter seu melhor jogador em campo para de fato disputar o título. Algum clube se preocupou com isso? Não! Era só o Santos reclamando. Porque era o calo do Santos apertando. Para os outros, era ótimo enfrentar o Peixe sem Neymar...

Do mesmo jeito que dei o exemplo do Neymar, todos os principais clubes do Brasil têm situações como essa no histórico desde 2002. Enquanto eles não entenderem que precisam se unir para resolver uma questão prejudicial a todos eles, diretamente, por não ter seus principais jogadores em momento centrais, e indiretamente, pois isso diminui o valor do campeonato, vão continuar reclamando e sendo desfalcados. Quem sabe se em 2012 todos se unissem para não ver o Santos sem Neymar (é só um exemplo!), hoje não teriam esses desfalques...

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