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De onde vem o silêncio?

No calor do combate ao racismo, maior parte dos atletas brasileiros parece enxergar posicionamento como risco

Por Fred Caldeira

Imagem utilizada nas redes sociais relaciona assassinatos de George Floyd e João Pedro

Imagem utilizada nas redes sociais relaciona assassinatos de George Floyd e João Pedro

"Republicanos também compram tênis". A frase de Michael Jordan foi dita em meio a cobranças por um posicionamento do então atleta durante eleições para o senado na Carolina do Norte em 1990. O democrata Harvey Gantt poderia ser eleito o primeiro senador negro na história do estado e tinha como adversário o republicano Jesse Helms, apontado como racista diversas vezes durante a carreira política. Ao faturar milhões com um tênis recém-lançado em parceria com a Nike, Jordan optou pelo silêncio. Helms venceu a corrida eleitoral.

No último dia 25 de maio, George Floyd, negro, foi assassinado por um policial branco em Minnesotta. Entre tantas ramificações consequentes ao crime cometido pelo Estado norte-americano, a busca pelo posicionamento de referências midiáticas encontrou um Michael Jordan diferente. Quase vinte anos depois do último jogo como atleta profissional, ele diz em um comunicado compartilhado nas redes sociais: "estou ao lado de quem aponta para o racismo e a violência arraigados contra as pessoas de cor em nosso país."

Certamente é mais fácil - ou menos arriscado - assumir um posicionamento como ex-atleta do que enquanto atleta. Mas o esporte estadunidense apresenta jogadores em atividade que assumem o risco. Astro do Los Angeles Lakers, LeBron James tem repetidamente utilizado o espaço digital como campo de batalha contra o racismo. Colin Kaepernick, jogador que perdeu espaço da NFL por liderar na liga protestos contra a mesma violência policial em 2017, segue ativo na mesma briga. E os atletas brasileiros?

No Brasil, existem incontáveis casos semelhantes ao de George Floyd. O mais exposto na mídia recentemente é o de João Pedro, adolescente negro de 14 anos morto pela polícia do Rio de Janeiro há duas semanas. É justamente a relação entre os dois episódios que foi compartilhada por nomes relevantes do futebol brasileiro, como Richarlison e Vinicius Júnior. Mas a ampla maioria dos jogadores de destaque do esporte mais popular do país não se posicionou. Principal atleta brasileiro na atualidade, Neymar optou por compartilhar outro tipo de conteúdo na noite de domingo.

 

Como branco, eu me sinto em uma posição bastante delicada para julgar o que um atleta negro deveria ou não fazer em meio a uma curva acentuada de protestos contra o racismo, contudo admito uma frustração grande com, por exemplo, a opção de Neymar. O que estamos vivendo não é um debate sobre preferências partidárias. Não considero exagero imaginar que, não fosse o sucesso no futebol, atletas negros poderiam ser alvo da mesma violência policial que vitimou George Floyd e João Pedro.

No entanto, o meu palpite para as razões do silêncio não especula a falta de empatia, imagino que os atletas que optam pela não exposição também sintam repulsa ao verem o vídeo do assassinato de George Floyd. O que enxergo é um filtro pós-empatia que evita o posicionamento público por enxergá-lo como risco - como Jordan trinta anos atrás.

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