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Dia do número um

Dia do Goleiro no Brasil. Porque nos outros 364 é só ataque

Por Mauro Beting

Manga, goleiro histórico do Botafogo, é quem dá origem ao Dia do Goleiro (que celebra seu nascimento)

Manga, goleiro histórico do Botafogo, é quem dá origem ao Dia do Goleiro (que celebra seu nascimento)

O único número um que não é o primeiro da turma é o goleiro. Para a gente do jogo, melhor seria se fosse o número zero. Tem quem acha o goleiro um zero à esquerda que fica no meio do gol só porque não sabe chutar a bola com a direita. É um mártir crucificado nos postes da meta por um só lance.

Como Barbosa, que pagou pela vida uma culpa que não teve no gol da vitória do Uruguai, no Maracanazo de 1950. Tantas defesas não o salvaram dos ataques injustos.

Ficou o gol. Não sobrou o goleiro.

O centroavante que perde todos os feitos e acha um gol sem querer é o herói. Mas o goleiro que opera milagres apenas “está lá para isso mesmo”, como até os próprios profissionais do ofício repetem sem pensar. São aqueles chavões que pegam mais do que os grandes goleiros catam. Com o devido respeito, e em nome dos que, como eu, têm o prazer de estragar a alegria e a artilharia alheia: vão se catar!

Disse Pompeia, épico arqueiro do América carioca: “Quem mais gosta da bola é o goleiro. Todo mundo a chuta, só o goleiro a abraça”. E ainda assim é chutado pelo mundo do futebol. Ninguém dá bola a ele. O anjo-guardião de uma meta é o estraga-prazer profissional. O único que pode pegar com as mãos e se vestir de outro modo. Vai ver que por isso ele é mesmo único.

Um. Que joga por 11.

Que troca os pés pelas mãos.

Que merece todos os elogios que não recebe.

Craques das traves que nem o reconhecimento como tais recebem. Não há uma expressão que nomeie um goleiro-craque. Mas goleiro frangueiro nem precisa explicação.

Almas depenadas e depredadas por arquibancadas e tribunas de imprensa.

O futebol nasceu junto com Zé Roberto e Paulo Baier, em 1863. O primeiro jogo acabou sem gols. E começou sem goleiros. A culpa não é deles. Eram dois zagueiros e nove atacantes. E nenhum goleiro.

Só em 1871 ele foi aceito na regra do jogo. Então ele podia tocar com as mãos por todo o campo.

Em 1887, só na própria metade do gramado.

Só em 1912 o goleiro só podia ser goleiro mesmo na grande área. Três anos depois da oficialização do uniforme diferente dos outros 10 companheiros. Até 1909, então, o goleiro era um dos 11. Passou a ser do contra. Nem na conta. Esquema é 2-3-5, WM, 4-2-4, 4-1-4-1.

Tem 1 na cabeça da área. Tem 1 no comando do ataque. Mas goleiro não conta nem no esquema. Hoje até tentam contar. E tem mais é que contar mesmo. Não sei se é todo grande time que começa com um grande goleiro.

Mas não tem futebol sem goleiro. Tentem nos atacar agora!

O goleiro solitário: um pleonasmo

Feliz dia de quem mais protege a bola no Brasil. De quem melhor nos defende.

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