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Diniz e Ceni mostram que futebol não é mágica

Classificação do São Paulo passa muito pelo tempo dado a Diniz pra evoluir o trabalho, enquanto Ceni teve só uma semana depois do Flamengo não dar tempo a Dome

Por Taynah Espinoza

Fernando Diniz, há um ano e três meses no São Paulo, eliminou o recém chegado ao Flamengo, Rogério Ceni(1287)

Fernando Diniz, há um ano e três meses no São Paulo, eliminou o recém chegado ao Flamengo, Rogério Ceni | 1287

Toda quinta e toda segunda, uma conversa se repete Brasil afora: tem que trocar o treinador. Não é sempre com o mesmo time, claro. Mas toda quinta e toda segunda, em algum lugar desse país, há quem discuta que o trabalho de um técnico não deu resultado e é necessário um “fato novo”. E toda vez que alguém questiona essa dança das cadeiras maluca, também é certeza que alguém vai aparecer pra dizer “mas olha o Bayern! Trocou de técnico e atropelou todo mundo na Champions”. É verdade! Mas é tão exceção que a gente lembra direitinho quando isso acontece.

Não há regra pra montar time vencedor no futebol. O mundo da bola está longe de ter uma receita pronta. Mas há caminhos que os vencedores vão mostrando. É escolher qual deles seguir.

Nos últimos anos, o São Paulo tem sofrido. Eliminações seguidas em mata-matas. Oito anos sem títulos ou 12 anos pra pessoas como eu, que não consideram relevante a conquista da sul-americana pra um clube do tamanho do São Paulo. E toda temporada trocas de treinadores seguidas, mudanças de rota, tentativas do tal “fato novo”. Nessa temporada, tudo indicava que o Tricolor Paulista poderia seguir pelo mesmo caminho. Se ouvisse a torcida e boa parte da imprensa, Raí teria demitido Diniz. Seria, inclusive, o mais fácil a fazer. Mas Raí bancou. Acreditou no trabalho. O resultado apareceu.

Todo trabalho, de todo profissional, evolui com o tempo. É necessário conhecer as peças, pensar em modelo de jogo, apresentar isso ao grupo e entender que a evolução é processo. Os jogadores do São Paulo já trabalham com Diniz desde o ano passado, o tempo inteiro só se ouve elogios ao trabalho do treinador. Mas os resultados não acontecem da noite pro dia.

O processo mostra que fazer a saída de bola de trás, com o goleiro participando, é uma boa alternativa, mas que só vai se aperfeiçoar com o tempo, principalmente com as repetições, com alguns erros, é verdade. Mas só assim é possível evoluir.

Outra característica que a gente aplaude muito no futebol europeu, que elogiávamos no próprio Flamengo de Jesus, era a pressão no portador da bola. Ou seja, quem tá com a bola no time adversário tem pouco espaço pra jogar, pouco tempo pra pensar porque é pressionado, é basicamente induzido ao erro, ou ao passe mais fácil. Foi exatamente o que o São Paulo fez com o Flamengo ontem. O rubro-negro até ficava com a bola, mas era forçado a dar o passe mais fácil, a girar muito a jogada porque não encontrava espaço pra fazer seu futebol. E isso também só acontece com o tempo porque exige organização. E organização vem com...tempo!

Tempo. Exatamente o que Rogério Ceni ainda não teve no Flamengo. Exatamente o que Dome não teve anteriormente também. Ceni até tentou fazer algumas correções nesta uma semana de trabalho, mas é muito pouco de treinamento pra mudar o padrão de movimento dos jogadores, pra automatizar uma movimentação diferente. Sabe quanto tempo Rogério Ceni teve no Fortaleza? Três anos. E não foram só vitórias, longe disso.

A gente reclama, dia sim, dia também, da qualidade do futebol brasileiro. Mas a gente dá tempo pros trabalhos acontecerem? E quando digo, “a gente”, digo clubes, torcedores e imprensa também. Sim, estamos todos no mesmo barco. Quando vamos aprender?

O futebol não é mágica! Depois de anos, o São Paulo parece ter entendido isso. E colhe os frutos com a classificação eliminando o Flamengo, um dos favoritos a conquistar tudo que disputa.

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