Blogs

Fator campo entra em campo

Tem jogador que prefere jogar sem torcida?

Por Mauro Beting

Allianz Arena sem público

Allianz Arena sem público

Sidney Miller é um dos grandes craques que a Era de Ouro da nossa música (final dos anos 1950 e início dos 1970) nos deu. Autor da espetacular e infelizmente ainda atualíssima "Pois é, pra quê"?, na pungente versão de 1971 do MPB-4, ele só não teve mais sucesso e visibilidade porque temia o sucesso e a visibilidade.

Ótimo compositor, letrista e cantor, foi devidamente comparado a Chico Buarque. Até pelo charme e beleza. Não apenas não aguentou as comparações. Não tolerava se apresentar ao vivo para uma plateia que fosse.

Timidez. Medo do palco.

Miller morreu jovem. A obra deveria ser mais conhecida.

Mas ele não queria. Não queria sucesso. Popularidade. Queria apenas fazer música.

Não apenas ele. Kurt Cobain era outro que preferia tocar na sua garagem de Seattle a encher um Rock in Rio.

Não são poucos os casos.

No futebol também tem.

Há anos.

A célebre frase do melhor jogador da Copa de 1958 durante os treinamentos para o Mundial na Suécia explica. "Jogo é jogo, treino é treino". Se o treinador Vicente Feola escalasse o Brasil pelos treinos, Moacir teria sido escolhido titular da Seleção. E o "preterido" Didi não seria o craque de 1958.

Franz Beckenbauer, maior jogador alemão, campeão mundial como craque e também como treinador, criou a expressão a respeito de alguns atletas "campeões mundiais de treinos". Os que fazem de tudo longe dos spots. Os que sentem o peso do esporte quando a luz acende e a torcida apaga seu ímpeto.

Alan Shearer, artilheiro inglês nos anos 1990, fala dos "jogadores de segunda a sexta". Os leões de treinos. Os que não conseguem se expressar com a bola rolando pra valer.

Os que na teoria podem se beneficiar na prática da volta do futebol sem torcida. Sem a pressão da arquibancada. Sem a cobrança do torcedor em um passe errado, em um drible que não rolou, numa cobrança de pênalti sem a cobrança externa. Mas bastante interna e interior.

Talvez seja o momento de lançar mais moleques de chuteiras imberbes sem as pressões cada vez mais impensadas das tribunas também de imprensa.

Sem o calor e o fogo saindo das ventas da turba e sem os ventos e tsunamis que vem de todos os lados, pelo menos em um primeiro momento os mais tímidos, suscetíveis, sensíveis, o que for, poderão ser mais do que são.

Mas só neste momento.

Comentários