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Guardiola e a (suposta) pressão de ganhar a Champions com o City

Em um momento em que o futebol brasileiro confirma a rotina de ser uma máquina de moer treinadores, é muito importante dar o peso devido a essa resposta. O Manchester City, que tem um dos projetos de futebol mais estruturados neste século, nunca pressionou o seu treinador em quatro temporadas

Por Vitor Sérgio Rodrigues

Guardiola agora fica no Manchester City até o meio de 2023

Guardiola agora fica no Manchester City até o meio de 2023

Pep Guardiola concedeu entrevista nesta sexta-feira, a sua primeira após renovar com o Manchester City por mais dois anos. A ligação dele com o clube inglês, que iria até o meio de 2021, agora tem como prazo junho de 2023. Entre várias respostas interessantes, como por exemplo ele dizer que se não renovasse com o City iria tirar um ano sabático, está uma que me chamou muito a atenção: Guardiola disse que nunca recebeu nenhum tipo de pressão do presidente do Manchester City.

A resposta completa é ainda mais impactante: “Desde o dia em que eu cheguei aqui, Khaldoon (Al Mubarak) jamais exigiu nada em termos de títulos e aspectos do trabalho. Só pediu para eu seguir sendo a mesma pessoa e com o mesmo trabalho que faço desde a base do Barcelona. Agora, me disse o mesmo: siga da mesma maneira, com o trabalho que você iniciou aqui porque acreditamos nisso. Ele entende completamente o futebol e as dificuldades envolvidas.".

Em um momento em que o futebol brasileiro confirma a rotina de ser uma máquina de moer treinadores, é muito importante dar o peso devido a essa resposta. O Manchester City, que tem um dos projetos de futebol mais estruturados neste século, nunca pressionou o seu treinador em quatro temporadas. Claro que isso é uma realidade muito particular do City, conduzido de forma muito parecida com uma grande empresa multinacional, especialmente em comparação ao futebol brasileiro. Aqui, o presidente do clube sabe que pode ser trocado de dois em três anos, via eleição. O City é uma propriedade privada.

Ao ler essa resposta de Guardiola, eu me lembrei da quantidade de perguntas que recebi quando da eliminação do City para o Lyon, na última Champions League. Muita gente me questionou se a continuidade de Guardiola no clube passava por uma “obrigação” de o City ganhar a Champions 20/21. Para todos eu respondi que uma coisa tinha zero ligação com a outra e que, pelo que já li e conversei com várias pessoas envolvidas com o City, ganhar a Champions não é a prioridade da missão do treinador no City. Está aí a renovação, no meio da temporada.

Guardiola foi contratado pelo City para, em primeiro lugar, criar uma cultura de futebol no clube, um modelo de jogo, uma proposta que todos envolvido no “setor produtivo” da bola compreendam. Também tem a missão de transformar o City em uma fábrica de jogadores, utilizando o que é, provavelmente, a melhor estrutura de base do mundo (o plano do City é que no meio da próxima década o clube produza em casa praticamente todos os seus jogadores do time principal). Como fruto dessas duas ações, o City projeta ter muito sucesso no competitivo futebol inglês. Em quatro temporadas, o City ganhou oito dos 16 títulos disputados em nível nacional.

Então quer dizer que o City dá zero importância para ganhar a Champions League? Não, claro que não! O City quer muito ganhar o maior torneio de clubes do mundo. Mas o ponto é: a qualidade do trabalho de Guardiola não é medido por isso para o patrão dele. Você pode achar isso um absurdo, uma ode ao fracasso ou um recibo de pensar pequeno. Mas quem pensa o futebol do Machester City não acha. Por isso, Guardiola terá mais dois anos por lá.

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