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Jorge Jesus faz história, mas ratifica que longo prazo é desafio com estrangeiros no Brasil

Independentemente dos motivos que fizeram Jorge Jesus voltar para o Benfica, caso ratifica a sensação de que o futebol brasileiro é passagem e não destino para técnico de outras nacionalidades

Jorge Jesus e o Flamengo campeão foi rotina na passagem do português pelo Brasil

Jorge Jesus e o Flamengo campeão foi rotina na passagem do português pelo Brasil

Desde 2015 o futebol brasileiro viu três técnicos estrangeiros fazerem bons trabalhos e saírem na primeira oferta sólida que receberam. Foi assim como Juan Carlos Osório e Edgardo Bauza, no São Paulo, e Reinaldo Rueda no Flamengo, os três terminando seus trabalhos antecipadamente por proposta de seleções. Nenhum deles teve o sucesso e o impacto que Jorge Jesus, em 13 meses, gerou no Flamengo desde o ano passado e também não possuíam equipes com um poderio tão grande, individual e coletivamente. Mas na primeira boa oportunidade que teve, Jorge Jesus também decidiu deixar seu trabalho, tendo renovado o contrato por um ano, há um mês.

O Flamengo anunciou, na noite desta sexta-feira, que Jorge Jesus aceitou a oferta do Benfica e decidiu retornar ao clube onde trabalhou por seis anos, ganhando dez títulos. O contrato assinado recentemente com o clube carioca previa uma multa de um milhão de euros (cerca de seis milhões de reais) para um oferta como essa. Na nota, o Fla compreendeu o desejo do técnico português e desejou sucesso no novo desafio.

Não sei os motivos que levaram Jorge Jesus a retornar a Lisboa. Pode ter sido a saudade ou falta de convívio com a família, o que acho totalmente compreensível. Pode ser receio da pandemia de Coronavírus, considerando que o Brasil é um dos países que mais sofre com a Covid-19 no mundo. Outro fator que torna a decisão totalmente entendível. Ou então pela questão financeira, já que receberá mais na Luz.

Mas, esportivamente, não considero que faça sentido voltar para o Benfica. Ele retorna para o clube onde foi muito bem sucedido, basicamente para disputar as competições nacionais, considerando a distância que o clube de Lisboa tem hoje para as potências do continente (e as perspectivas de encurtar essa diferença são pequenas). Ou seja, ele volta para buscar o domínio no cenário português, algo que ele já fez anteriormente. Se a oferta fosse do Porto, clube por onde Jorge Jesus não passou, eu consideraria válido esportivamente. Para voltar ao Benfica, não vejo como um desafio maior do que continuar no Flamengo.

Independentemente do motivo, a decisão de Jorge Jesus escancara que será muito difícil um clube brasileiro ter um projeto de longo prazo com um técnico europeu, voltando ao tema central deste post. É nítido que os técnicos que são bem sucedidos (os que não agradam rapidamente, acabam demitidos por direções que parecem não saber que caminho querem seguir...) terminam atraindo muitos holofotes e vão embora na primeira oportunidade considerável. A sensação é que o futebol brasileiro não é destino, é apenas passagem, ficou mais nítida com o ocorrido com Jorge Jesus no Flamengo.

Conversando com pessoas que estão no futebol rubro-negro, o objetivo é continuar com um técnico estrangeiro, de preferência um português. Há alguns que estão desempregados, como Leonardo Jardim e Marco Silva. Será que eles aceitariam o desafio? E se aceitarem, com que espírito viriam para o Brasil? O de fazer um trabalho de médio ou longo prazo ou aproveitariam a oportunidade para atrair novamente os holofotes para receber boas propostas de ligas mais prestigiadas da Europa? Com esse cenário, é preocupante pensar que um técnico europeu (valeria também para o argentino Marcelo Gallardo, que olha com a possibilidade de trabalhar na Europa) não ficará mais de um ano por aqui. Ou será demitido se as coisas não derem certo rapidamente ou o clube ficará refém do sucesso e o perderá para um clube do Velho Continente na primeira oportunidade mais estruturada.

Jorge Jesus deixa o Flamengo com uma passagem histórica. Foram cinco títulos (Libertadores, Brasileiro, Supercopa do Brasil, Recopa Sul-Americana e Estadual) em sete competições disputadas (não levou a Copa do Brasil e o Mundial de Clubes). Perdeu apenas quatro partidas nesse período, para Emelec, Bahia, Santos e Liverpool, este na prorrogação. No total, foram 43 vitórias, dez empates e quatro derrotas, num aproveitamento de 81%. Sob seu comando, o Flamengo não foi derrotado nenhuma vez no Maracanã e em nenhum clássico. Além disso, atendeu o desejo do torcedor do Flamengo em entregar um time ofensivo, que sempre buscava o gol e que agradava ao se assistir. O português, em pouco tempo, gravou seu nome para sempre na história do Rubro-Negro.

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