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Kanté segue reciclando o lixo dos outros

Volante francês joga na Inglaterra com a mesma coragem da infância difícil. E também cruza as pernas com a mesma independência

Por Mauro Beting

Kanté é o mais baixinho da foto. Sempre. Mas e um gigante. Sempre

Kanté é o mais baixinho da foto. Sempre. Mas e um gigante. Sempre

Kanté não se sentiu seguro para voltar aos treinos do Chelsea. Foram feitos pela Premier League 719 testes para o Covid-19. Seis casos foram detectados entre atletas.

Kanté não quis jogo. Ele e Troy Deeney, capitão do Watford, pai de uma criança de cinco meses com problemas respiratórios.

Que outros tenham a mesma coragem de serem "covardes" em qualquer campo profissional.

Não exijo que fiquem em caso. Mas quero respeito à ciência, cultura, educação e convívio.

Até porque Kanté parece que sabe o que é coragem e que é passar fome.

1998: não faltaram latas, garrafas, bandeiras e todo tipo de lixo largado pelas ruas de Paris na celebração do título da Copa do Mundo pela dona da casa. Sobrou o maior dinheiro conquistado por N’golo naqueles dias de festa para o mundo e trabalho para ele do baixo dos 7 anos. Do baixinho de 1m68 hoje que não conseguia times para jogar pela pouca altura. Dez disseram não a ele pela estatura. O que não é documento para quem não tem tamanho de tanta vontade de coletar bolas pelo campo como sobras. Antecipar lances para limpar a sua área e o campo do time dele.

N’Golo tem nome de rei do Mali onde vieram os pais para morar no subúrbio de Paris. Aos 11 ele perdeu o pai. Mas não o Norte. Ajudou a criar os irmãos menores com a mãe. Quando viu que vencer no futebol seria difícil com tantos nãos, ele foi estudar contabilidade. Até que a oportunidade de jogar pra valer ele foi catar como se fossem as sobras recicladas da infância.

Kanté demorou a explodir pelo Leicester que ninguém esperava campeão da Inglaterra, em 2016. Foi bicampeão pelo Chelsea em 2017. Em 2018 foi bicampeão do mundo 20 anos depois de catar lixo para ajudar a família a sobreviver. Como o jogador que mais correu em média na Copa. O que mais desarmou. O que fez o trabalho mais “sujo” no time. Como se fosse o mesmo menino que trazia o trocado para a casinha no subúrbio de Ruel Malmaison, no leste parisiense. O que não desistiu quando ninguém lhe dava bola.

Ele era o menor entre todos os jogadores. Mas, desde os 8 anos, o que sonhava maior que todos. Não tinha dinheiro para ir aos estádios. Não conseguia ver os grandes jogos que só passavam na televisão paga. O que ele conseguia apenas era jogar. E não deixar que ninguém jogasse fora o que poderia ser reutilizado.

No Chelsea é quem chega com o menor carro em tamanho e preço. Não precisa mais do que isso. Nós é que precisamos mais de campeões como Kanté. O de valor que não se paga e não tem tamanho.

A prova mais do que viva de que o caminho francês em 1998 se recicla. A França "negra, branca e árabe" segue muito viva 20 anos depois. Revolução de integração que pode e deve reciclar muita coisa na Europa.

Exemplo de coragem que alguns podem chamar de covardia.

Esses que não se reciclam. Esses que merecem o balde marrom da história.

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