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Manchester City 4 x 3 Tottenham - o jogo sem derrotados

Nesta quarta-feira, 16h, na TNT, Facebook do Esporte Interativo, EI PLUS. Uma vitória do futebol nas quartas-de-final da Champions 2019.

Por Mauro Beting

Todo o Tottenham lamenta o gol que o VAR anularia logo depois

Todo o Tottenham lamenta o gol que o VAR anularia logo depois

O futebol é a mais perfeita imperfeição criada pelo homem por nos ensinar a perder, a ganhar e, sobretudo, a empatar. O VAR invadiu o campo para nos levar a outra dimensão pedagógica: ensinar a lidar com a frustração de um gol anulado Algo que os geniais João Bosco e o saudoso Aldir Blanc já cantaram há 44 anos, em GOL ANULADO: “Eu aprendi que a alegria de quem está apaixonado é como a falsa euforia de um gol anulado”.

Eu não lembro ter transmitido uma partida que com 10 minutos e 45 segundos já estava 2 a 2. Menos ainda uma com 20 minutos e 32 segundos e já estivesse 3 a 2 para o time da casa e então favorito ao bicampeonato inglês que conquistaria com brilho contra um imenso Liverpool - o City de Guardiola. E absoluta certeza que, com meia hora de bola bem rolada e pensada em Manchester, não vi na vida uma partida que com 30 minutos tivesse cinco chances de gol. E todas elas convertidas.

Não lembro ter visto isso.

E certamente não esquecerei o lance final de Manchester City 4 x 3 Tottenham. Quando um passe errado foi interceptado pelo excelente Bernardo Silva. O toque do português deu a bola (mas não a condição) para Aguero avançar no segundo tempo notável dele pelo quarto gol que classificava o City - até Llorente diminuir para o bravíssimo Spurs de Pochettino. O argentino avançou e tocou para o endiabrado Sterling marcar como iceberg o terceiro dele em temporada de fábula, aos 47 minutos e 22 segundos de um jogo ainda mais fabuloso.

Nenhum jogador do Tottenham levantou o braço a não ser para o colocar sobre a cabeça. Ninguém reclamou do impedimento que o VAR escancarou, quando Bernardo, ao roçar a bola, desabilitou a posição de Aguero, que se aproveitou do toque voluntário do companheiro, e estava mesmo impedido.

O impedimento mais duro da história recente do VAR. Como seria a mais doida e doída derrota do Tottenham se o gol fosse validado.

Em menos de um minuto, viu-se a mais ensandecida celebração de gol celeste na sua nova casa desde os 48 minutos e 20 segundos da segunda etapa de City 3 x 2 QPR, jogo que valeu o título nacional dos Citizens em 2012. Um gol também de Aguero, de execução semelhante a esse de 2019 (como bem observou Bruno Formiga, na transmissão histórica de Jorge Iggor, com mais de um milhão de perfis do Facebook vendo a mágica noite europeia pelo Esporte Interativo).

Quando ressuscitou na véspera de Páscoa o Tottenham pelo lance invalidado, não morreu o estilo e a escola de Guardiola. Talvez apenas algumas escolhas se Pep desde o jogo de Londres. Quando só apostou em Sané e De Bruyne aos 43 finais. Quando não foi feliz como foi felicíssimo desde o início Pochettino. Sem o goleador Kane, sem Winks pra começar o jogo (e o reserva Dier), optou pela força e ótima fase de Wanyama e Sissoko, recuando Dele Alli para um tridente no meio, com o notável Erikssen ora mais atrás, por poucas vezes mais à frente dos velozes e leitais Son e Lucas Moura.

Um 4-3-3 dinâmico e competitivo como o Tottenham que faz o milagre histórico de inaugurar um estádio belíssimo de 1 bilhão de libras e ainda montar ao mesmo tempo o seu melhor time na história.

Em duas estocadas e duas bobagens de Laporte até 9 minutos iniciais, dois gols em três minutos do excelente Son, virando o placar espetacularmente aberto por Sterling, aos 3. Uma das grandes redescobertas da temporada de absurdos 154 gols até então do time de Pep.

Equipe que não desabou ou se abalou e ainda empatou com Bernardo Silva aos 10, com bola ricocheteada que matou o imenso Lloris. Incapaz de deter outro gol de Sterling, aos 30, em lance bem bolado por De Bruyne.

Seria outro o City se o craque belga não tivesse se lesionado tanto na temporada.

Foi ele também quem criou o gol de Aguero, aos 13 finais, coroando excelente reinício do City. Fazendo KDB tudo que David Silva mais uma vez pouco produziu em um time que pedia desde sempre Sané pela esquerda. Para alargar o campo e espaçar a estreita linha de 4 dos Spurs. Formação que se manteve mesmo precisando achar o gol que encontrou com Llorente, meio que literalmente nas coxas. Nas ancas. Numa bola que resvalou em seu braço depois de escanteio. Mas não foi toque. Foi gol corretamente concedido pelo VAR, aos 27.

Quando a ousadia teórica de Pochettino ainda na primeira etapa foi mais feliz que o pragmatismo compreensível de Pep. Quando Sissoko saiu lesionado, com opções limitadas em técnica ou experiência no banco, o treinador argentino ousou ao colocar Llorente. Prendeu um tanto mais Erikssen na função de Sissoko, com outra característica. Segurou um tanto mais Dele Alli pela esquerda. E passou a ter um aríete na frente. Para fazer aquilo que Kompany furou e ele marcou no gol que reclassificava o Tottenham, depois de passar 14 minutos apenas “eliminado”.

Quando Pep havia sido mais conservador que o usual ao sacar o desaparecido David Silva e apostar em Fernandinho na cabeça da área. Mudança que não foi crime lesa-bola e nem renúncia à filosofia de Pep. Ele apenas foi resguardar um time bastante aberto, com Gundogan mais uma vez na cabeça da área (em jornada tecnicamente pálida). Sem o espanhol Silva, o todocampista alemão foi fazer a dele, onde se se sente mais confortável. Fernandinho entrou na cabeça da área. O 4-3-3 se manteve. Sem abdicar do ataque e ofensividade. Mas apenas castigado pela bola parada de uma crudelíssima maneira.

E chacinado sem piedade pelos deuses e diabos da bola.

Numa jornada onde não houve derrotados. Mas um grande classificado como o Tottenham. Um gigante eliminado como o City. E um jogo para contar aos netos.

Só não podemos debitar apenas no cartão de crédito black de Pep que foi mais uma derrota de Guardiola - até porque vitória, até porque de novo eliminado pelos discutíveis gols sofridos em casa...

Muito menos dizer que ele e o City foram castigados por “recuar o time”, em uma troca de nomes absolutamente natural. O espetáculo que se viu em Manchester foi algo que acontece no futebol.

Por mais que jogos como esses aconteçam pouco.

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