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Meu pirão primeiro?

O egoísmo em xeque também no futebol

Por Fred Caldeira

Daniel Levy, o homem de 20 milhões que apela ao Estado(Getty Images)

Daniel Levy, o homem de 20 milhões que apela ao Estado | Getty Images

No pacote econômico de proporções histórias anunciado pelo governo britânico para o combate à crise do coronavírus, o dinheiro público poderá ser usado para cobrir 80% dos salários de quem recebe até o equivalente a cerca de 20 mil reais por mês. Para isso, basta as empresas em situação mais frágil comunicarem o Estado - assim como fez o Tottenham, décimo clube de futebol mais rico do mundo no ano passado.

É sempre espinhoso analisar a questão moral das cifras astrônomicas da (verdadeira) elite do futebol, mas agora parece irresistível não julgar os Spurs: como um clube que lucrou 2.7 bilhões de reais em doze meses apela ao dinheiro dos contribuintes? Não olhar para os mais vulneráveis ganha traços criminosos nos tempos atuais. "O futebol inglês tem atuado em um vácuo moral", disse até mesmo o deputado conservador Julian Knight.

As pedras não são arremessadas somente em direção ao Tottenham. Há poucos dias, o prefeito de Londres,  Sadiq Khan, cobrou os jogadores da Premier League: "deveriam ser os primeiros a sacrificar o próprio salário". É aí que entra um detalhe importante no sórdido movimento dos Spurs: a folha de todo o elenco profissional segue intacta, enquanto o dinheiro público será utilizado para bancar todos os outros 550 funcionários do clube. Será que o caminho teria sido diferente se Harry Kane e companhia abrissem mão de alguns tostões?

A questão não é tão simples assim. O presidente do Tottenham, Daniel Levy, recebeu, sozinho, um bônus de 20 milhões de reais em 2019. No lugar de Kane, eu gostaria de entender se não seria preciso apontar o dedo em outras direções antes de mexer no meu salário. Em paralelo, felizmente, há clubes que remam para outro lado: o Leeds United garantiu a sobrevivência de outros 272 empregados graças à redução salarial de Marcelo Bielsa e comandados.  Se a farinha é pouca, que se faça o maior número possível de pirões.

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