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No mundo paralelo do RJ, prefeito publica decreto para evitar WO no futebol em meio à pandemia

Somente um prefeito muito descolado da realidade perderia tempo da população de uma cidade para regular uma competição esportiva que, se ele fosse competente, nem deveria estar ocorrendo

Evitar o WO de dois clubes é a preocupação de Marcelo Crivella hoje

Evitar o WO de dois clubes é a preocupação de Marcelo Crivella hoje

A degradação do Rio de Janeiro, enquanto cidade e estado, em várias áreas da vida cotidiana nos últimos anos é nítida para quem conhece um pouco o local. Mas isso acaba passando despercebido dado o fascínio que a cidade costuma provocar em quem não é muito atento, seja por suas belezas naturais, pelo espírito festivo de seu povo ou pela sua capacidade de gerar tendências. Mas alguns fatos bizarros não podem passar desapercebidos no Rio de Janeiro, como o prefeito parar o combate à maior urgência de saúde em um século para evitar o WO de dois times de futebol.

É isso que aconteceu neste sábado, com o prefeito Marcelo Crivella publicando (e depois prometeu republicar) um decreto que, a rigor, só tem uma utilidade: adiar ou risco de Botafogo e Fluminense levaram um WO (o chamado “walkover”, que é o ato de uma equipe não comparecer a uma disputa esportiva) em jogos do Campeonato Carioca. É uma agressão ao povo da cidade que o elegeu, que a cada dia perde dezenas pessoas sem conseguir respirar para o Coronavírus, o prefeito estar gastando energia, tempo e dinheiro do contribuinte se metendo nessa questão.

Na última terça-feira, Crivella autorizou a retomada das competições esportivas, com portões fechados, desde que cumpridas os protocolos de saúde estipulados pela prefeitura. Ainda no evento em que anunciou essa decisão, o prefeito afirmou que não gostaria que Botafogo e Fluminense fossem obrigados a jogar em datas que eles não quisessem. Ali, Crivella já extrapolou suas atribuições, já que, até onde eu sei, ele não faz parte do corpo diretivo da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj). Era o indício do que estava por vir.

Com a autorização de Crivella, a Ferj marcou os jogos de Botafogo e Fluminense para os dias 22 e 25 de junho, alegando que eles deveriam estar preparados para jogar. Os clubes vêm se negando de forma tácita a entrar em campo nesta data e o caso seria decidido neste sábado, pelo presidente do STJD, Paulo César Salomão, após dois dias de tentativas infrutíferas de mediação. Antes que o veredito fosse conhecido, veio um decreto de Crivella dizendo que todas as competições esportivas estavam suspensas na cidade até o dia 25 de junho.

De cara ficou evidente para mim que a decisão de Crivella tinha zero preocupação com a saúde da população. Primeiro porque até o dia 25, crise do Coronavírus não terá nenhuma modificação significativa. Depois porque a medida só incluía “competições esportivas”, não afetava shoppings e lojas, por exemplo. Era um decreto municipal interferindo, na prática, apenas na disputa do Campeonato Carioca de Futebol.

Mas a confusão estava só começando! De imediato, a partida entre Vasco x Macaé, no domingo, estaria cancelada. Começou a se pensar em apenas tirar o jogo do Estádio de São Januário e levar para o estádio em Saquarema, cidade da Região dos Lagos do estado, já que o decreto é municipal. Mas não seria necessário...

Cerca de uma hora depois, Crivella publicou um vídeo nas redes sociais da Prefeitura dizendo que, na verdade, o decreto era uma maneira de confirmar que todo o protocolo de saúde estava sendo seguido nos jogos e que, objetivamente, ele só atingia as partidas de Botafogo e Fluminense. A assessoria de imprensa do município confirmou ao Esporte Interativo que o decreto seria refeito e que Vasco x Macaé poderá ser realizado normalmente.

Várias versões retóricas serão construídas para justificar o que Marcelo Crivella fez neste sábado. Mas o fato é que o prefeito do Rio de Janeiro, demonstrando ser uma figura desconectada do mal que aflige a cidade que ele deveria governar, insensível e adormecida, tirou tempo do combate da pandemia que mata seus cidadãos para querer regular um torneio de futebol. Torneio esse que se Crivella fosse minimamente competente, não estaria sendo disputado, considerando o estágio de contágio e morte da doença na cidade. Vivemos o "Fantástico Mundo de Marcelo Crivella".

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