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Não podemos "denegrir" e "judiar" a democracia...

As manifestações políticas e as partidárias no esporte e na vida social

Por Mauro Beting

Justiça e democracia e respeito e liberdade

Justiça e democracia e respeito e liberdade

Carol Solberg pegou o microfone que a parceira de vôlei de praia Talita usava para ser entrevistada pelo SporTV, depois da conquista do bronze no Circuito Nacional e gritou "fora, Bolsonaro".

A CBV fez nota de repúdio à atleta. Nota veemente. E infeliz quando diz que "fatos como esse DENIGREM a imagem do esporte".

Mais não seria preciso dizer a respeito do tom da nota preconceituosa que é ainda menos "pensado". Se é que pensam. Se é que sabem.

Voltemos à manifestação da atleta. E reiteremos que este que vos tecla é defensor até ofensivo da liberdade de expressão. Seja qual for a expressão. Até mesmo quando atenta à liberdade. À democracia.

Só sou intolerante contra intolerantes. À minha esquerda e à direita deles. Esses precisam sempre ser expostos e combatidos. Com a mesma dureza com que tratam (SIC) as questões (leia-se KESTÕES).

Sem me alongar muito, você vai achar pela internet e nos meus blogs e redes sociais várias manifestações minhas a respeito do tema. Estou mesmo entrando tarde neste caso por já ter tratado muito e além da conta essas questões (não se leia CUESTõES) outras vezes.

Mas apenas por ter sido instado muitas vezes ao tema. Reitero: ou se é TOTALMENTE favorável a manifestação política ou não se é. Não dá pra apoiar a de um lado e rechaçar a de outro. Não dá pra bater palmas para um e mandar o outro à palmatória. Não dá para defender só o meu lado e só atacar o outro.

Ou falamos todos - o que sempre apoio - ou não fala ninguém - o que leva a nada ou algo ainda pior e mais obtuso e mais violento que uma manifestação ainda que virulenta.

Só faço uma ressalva. Não só eu: a lei faz. A regra do jogo.

Quando em campanha eleitoral, com urnas a serem abertas como feridas, as manifestações devem ser contidas. Quando não evitadas.

Exemplo, aqui postado em maio:

"Todos somos animais políticos. Alguns mais animais do que políticos.
Podemos e devemos respeitar todas as manifestações. Só não podemos limitar ou censurar ou proibir ou bloquear qualquer opinião.
Tudo é (ou pode ser) manifestação política. Todos podem se manifestar politicamente. Mas não partidariamente em algumas situações. Não fazendo proselitismo eleitoral em qualquer ambiente e durante o período de eleição. Sobretudo no local de trabalho. Ainda mais com o eleitor representando uma instituição.
O cidadão Raí pode e até mesmo deve cobrar tudo que o presidente do Brasil não entrega. O diretor do São Paulo pode questionar muitos temas que o eleito responderia perguntando.
Pedir a renúncia do presidente pode ser claramente entendida como uma questão que entra no campo partidário, de proselitismo "eleitoral" e ideológico. Pode e deve ser debatida.
Como a recriminação a ele feita por muita gente.
Só não concordo com o caríssimo Caio Ribeiro quando ele coloca que o dirigente tricolor "tem que falar de esporte. Na hora que ele fala de renúncia, dos hospitais públicos e tudo isso, me parece que ele tem conotações políticas em relação a preferências".
Claro que Raí tem. Como Caio tem. Como todos temos.
E todos devemos debater a respeito. Não combater o debate. Não proibir ou deplorar o diálogo.
Podemos criticar o que ele falou. Mas jamais cercear a manifestação. Ainda mais quando os assuntos estão tão próximos.
Em 2018, Felipe Melo, depois de marcar um gol para o Palmeiras, tinha todo o direito de o dedicar a um amigo e mito que estava no hospital e havia sido esfaqueado. Podia dizer como disse que era Jair Bolsonaro.
Só não podia dizer que era "o futuro presidente do Brasil". O que ele virou.
Mas que durante um processo eleitoral, qualquer jogador de qualquer clube não pode fazer esse tipo de proselitismo ELEITORAL (que é diferente do POLÍTICO, por ser feito DURANTE uma campanha que pode induzir o voto): você pode votar em quem quiser. Só não pode fazer campanha eleitoral no ambiente de trabalho. Líder religioso não pode fazer na pregação, professor induzir aluno a votar em candidato, eu fazer apologia na TV pra partido, jogador com a camisa do clube fazer campanha eleitoral.
Mas pode um clube fazer campanha pelo voto no país então sob regime militar e pela DEMOCRACIA como a do Corinthians, em 1982.
Pode desejar recuperação de um câncer a um ex-presidente do país e conselheiro do clube - sem ser em eleição - como fez o Corinthians com Lula, em 2011.
Pode Felipe Melo dedicar um gol pelo seu clube, ainda no gramado, a um amigo esfaqueado se recuperando no hospital. Pode falar o nome de Jair Bolsonaro. Só não pode explicitar o que ele falou (“futuro presidente”) na TV. E só não é “legal” por ser durante a campanha eleitoral.
Agora, se quiser, FM pode dedicar o título a ele, amigo e palmeirense também. Já foi a eleição. Ele já é o presidente.
Como sempre pôde Lucas Moura na rede social declarar apoio ao 17. Ronaldinho Gaúcho na rede dele (como muito bem pôde o Barcelona não gostar da postagem dele e a de Rivaldo, também). São Marcos também pode se manifestar por Jair Bolsonaro. Como outros podem pedir Lula Livre. Ou Cabo Daciolo no monte. Adnet em Brasília por imitar o melhor e o pior dos candidatos.
Agora que já foi a eleição, já está trabalhando o presidente, pode Diego Souza bater continência para o capitão eleito presidente ao lado do general vice ao celebrar gol do São Paulo (embora a regra do jogo proíba). Pode até fazer a arminha com as mãos do Bolsonaro. Pode até fazer o “acelera” do novo vizinho de Morumbi - Doria. Qualquer manifestação política se aceita. Política é isso.
Diego Souza pode agora se manifestar mais “livremente” porque toda manifestação política é válida desde que se arque com as consequências. E, no caso, diferente do que ocorreu com Felipe Melo na entrevista pós-jogo, NÃO É MAIS PERÍODO ELEITORAL. NÃO INFLUENCIA MAIS O VOTO DE NINGUÉM.
Ainda assim o São Paulo poderia ter chamado a atenção do atleta e afirmar que o clube é para todos e apartidário.
E o futebol inteiro poderia ter chamado a atenção de Diego Souza e lembrar que o São Paulo naquele jogo de 2018 jogava de luto pelo assassinato do colega de ofício e ex-atleta Daniel.
Brincar de arminha não pegava bem".

Voltando ao nosso tema: do mesmo modo, um "fora, Bolsonaro", primo de um "Lula na cadeia", "fora, Dilma", "fora, Temer", "fora, Gandhi", "fora, presidente eleito democraticamente", "fora, imperador", também é manifestação "antieleitoral".

Não chego a ponto de colocar um "fora, ditador sanguinário", ou "fora presidente comprovadamente corrupto" ou "presidente comprovadamente inepto" ou "presidente usurpador e ilegítimo" na mesma linha de foras da linha. Aí é crime. Usurpação. Golpe. Ditadura. O diabo que for.

Mas um grito de "fora, mãe do Mauro Beting", ainda que sem ser o sentido ou a acepção eleitoral do "fora" no sentido de "xô!", constitui em si, também, um viés de atentado à ordem constituída. Por mais bagunçada que seja, por 89 mil motivos contra, outros 17 ou 13 a favor. O número que você quiser.

Se presidente da CBV, além de demitir quem escreveu "denegrir" (que deve se sentir "judiado" por ser criticado por isso...), eu reiteraria o caráter apartidário da confederação. Apenas isso.

Mas apartidário não significa ser apolítico. O que seria apocalíptico. Até pela eleição para a mesma ser um processo... POLÍTICO!!!

Eu, presidente, reiteraria que a CBV é apartidária. Mas defensora da livre manifestação pessoal dos atletas.

Sobretudo nas redes sociais deles. Na vida deles. Mesmo na profissão deles. Como a própria CBV já se manifestou antes.

Não confundindo, porém, com a entidade.

A mesma, aliás, que não se posicionou com a mesma "firmeza" quando Maurício Souza e Wallace, atletas da Seleção, se manifestaram depois da vitória contra a França, no Mundial de 2018, a favor do mesmo presidente. E o que era pior: também durante processo eleitoral (proselitismo muito mais grave e perigoso).

E não interessa qual é o candidato e político e presidente.

Só é importante se o mesmo peso e a mesma medida for adotada nos dois casos.

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