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Não toca no meu pedaço

Os passos da balada entre Manchester City, UEFA e Liga dos Campeões.

Por Fred Caldeira

Na quinta faixa do icônico 'The Dark Side of the Moon', álbum lançado em 1973 pelo Pink Floyd, a voz rouca de David Gilmour provoca em meio a tantas ironias às grandes fortunas: "acho que vou comprar um time de futebol". Décadas depois, o City Football Group comprou oito. Nas ramificações do empreendimento da família real dos Emirados Árabes Unidos, a grande joia da coroa, o Manchester City, vive o momento mais turbulento desde o início da parceria, em 2008.

No último dia 14, a UEFA anunciou a suspensão da equipe por duas temporadas da Liga dos Campeões. O maior órgão regulador do futebol europeu acusa o clube de maquiar parte dos investimentos dos donos como se fossem do patrocinador, cenário em que todas as partes pertencem à mesma família. O Manchester City já anunciou que vai entrar com recurso. Enquanto detalhes técnicos vão definir essa novela sabe-se lá quando, o que o público acompanha é uma dança que desenha os contornos do futuro do esporte: os investimentos são, de fato, doping financeiro ou a única chance dos pequenos e médios balançarem os gigantes?

Como num roteiro afeito a simbolismos, o Real Madrid recebe os Cityzens, nesta quarta-feira,  para o começo da decisão por uma vaga entre os oito finalistas do continente. Treze taças do lado espanhol, zero para os ingleses. A primeira participação do Manchester City na fase de grupos da Champions foi em 2011. O primeiro troféu do Real na competição foi erguido em 1956. No dia seguinte ao anúncio da punição, o técnico Pep Guardiola disse aos jogadores que, mais do que nunca, agora é preciso mostrar como o time é "talento, e não dinheiro".

Desde 2011, os torcedores do Manchester City vaiam o hino da Liga dos Campeões. O problema começou em outra competição, a Europa League, quando o Porto foi punido pela UEFA apenas com uma multa de vinte mil euros por cantos racistas em direção a Mario Balotelli, à epoca atacante dos Cityzens. Na partida decisiva diante do Real Madrid, no próximo dia 17, a torcida inglesa promete um clima hostil como nunca antes visto.

Mais para o fim da canção 'Money', que abriu a coluna de hoje, Gilmour volta a ironizar: "divida a grana igualmente, mas não toca no meu pedaço". No complexo emaranhado de perspectivas, a quem o trecho se aplica: UEFA ou Manchester City?

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