Blogs

Obrigado, Pacaembu, meu velho, seu velho, nosso velho

Oitenta anos do mais lindo estádio de espírito paulistano. Hoje servindo ainda mais a população como hospital de campanha

Por Mauro Beting

O Pacaembu mais uma vez abraçando a população

O Pacaembu mais uma vez abraçando a população

Minha primeira vez foi com você. Foi de noite. Eu tinha sete anos. Nunca vou esquecer. Eu imaginava como seria fantástica a emoção. Foi melhor do que eu imaginava. Meu pai me levou. Meu tio também. Não era a primeira vez do meu irmão. Mas era como se fosse.

Saí meio frustrado da minha primeira experiência. Foi meio brochante. Não saímos do zero a zero. Não foi aquele jogo. Eu esperava muito mais.

Afinal, era a Segunda Academia. Dudu e Ademir da Guia. Rima que era Seleção.

Não teve gol e nem show. Era outubro de 1973. Empate com o Vasco. Um gol eu só veria em estádio em 15 de novembro. Um a zero no Inter. Gol do Nei. Tinha de ser com você. Em você.

À noite teve pizza no Casa Grande, na Pompeia. No salão de cima estava toda a segunda academia jantando. Leão, Luís Pereira, Leivinha. E o bom velhinho Dudu.

Ele é um pouquinho mais velho que o Pacaembu. E pra mim nada consegue ser mais mais velho que a estátua Olegário e que o estádio Paulo Machado de Carvalho.

Nada também consegue ser mais palestrino e palmeirense que Dudu e Pacaembu. Rima que é solução.

Dudu que jogou com costelas quebradas no título de 1972. Dudu que se doou e se doeu como Dudu em cada canto do campo onde se vê sempre todo o jogo.

Dudu é nosso. O Pacaembu é nosso. De todos os nossos. É da cidade. De todos os cidadãos e credos. Mas também é nossa identidade. Ninguém deu tanta volta olímpica no Pacaembu como o Palmeiras. Foi o primeiro estadual em 1940. Foi sem Dacunto em 1944 . Foi o Jogo da Lama de 1950 no Ano Santo contra o Tricolor da Fé. Foi o Rio-SP de 1951 contra o Corinthians.

Supercampeonato de 1959 contra Pelé. A goleada contra o Fortaleza na Taça Brasil de 1960. Academia de 1965. Taça Brasil de 1967. Paulista invicto de 1972. Rio-São Paulo de 1993. Brasileiro de 1994. Volta olímpica paulista em 1994 e 1996. A libertação de um grito travado contra o Libertad, em 2013.

Mais um jogo histórico que não levou a título algum.

E quem diz que é preciso?

O palco da primeira vez é o templo de todas elas. Como o Pacaembu é um pouco de todos. É da casa.

Não somos maiores e nem menores. Não somos donos da casa. Mas ninguém mandou melhor no Pacaembu.

Onde morremos líder e nascemos campeões em 1942. Onde eu nasci pro futebol. Onde meus filhos viram juntos a primeira derrota em 2010, contra o Flamengo do Love que era nosso, mas virou deles, como uma ópera de Vagner. Onde eu também vi a minha primeira derrota, em 1977. Onde o avô deles também viu alguma derrota que eu não sei. Até empate com gosto de queimado como eu sofri em agosto de 1990.

Palmeiras 0 x 0 Ferroviária. Bastava vencer para ser finalista. Não deu. O Novorizontino se classificou e foi vice paulista para o Bragantino de Luxemburgo.

Eu era jornalista esportivo havia dois meses. E não me aguentei quando vi uma camisa queimada do Palmeiras na arquibancada. Levei para casa. Mas antes fui chamado de corintiano por alguém que me viu com o manto queimado.

Dor apenas menor que ver a sala de troféus do Palestra quebrada por “palmeirenses” minutos depois.

Paulo Machado de Carvalho querido, ganhei muito na nossa casa. E, quando perdi, ou empatei, como em 1990, aprendi mais do que perdi.

São Paulo, a cidade, não pode perder o Pacaembu que hoje, dia 27, faz 80 anos. Corinthians também não. Palmeiras. Santos. Portuguesa. Juventus. Fla-Flu que foi aqui em 2016. Copa de 1950 que foi aqui. Um pedaço de todos nós que está por aqui. No meu. No seu. No nosso.

Hoje hospital de campanha. Neste dia de aniversário com 142 pacientes e devendo chegar à lotação máxima de 200 atendimentos até o final da semana.

Pacaembu sempre disponível e com disposição de garoto para a nossa gente.

Em breve patrimônio privado.

Para sempre servindo o futebol e o torcedor.

O cidadão.

Pacaembu é o bem mais público que já tive.

Obrigado, meu velho.

Comentários