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Pandemia da COVID-19 pode trazer o gancho para calendário sul-americano se igualar ao europeu?

Temporada ser concluída ainda nesse ano pode trazer prejuízo técnico e sequência insuportável para jogadores no continente

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Por Rodrigo Fragoso

Países filiados à Conmebol poderiam mudar seus calendários para se adequar ao Europeu(Reprodução)

Países filiados à Conmebol poderiam mudar seus calendários para se adequar ao Europeu | Reprodução

Seria irresponsabilidade dizer que o futebol já tem um prazo para retorno. Entretanto não seria absurdo pontuar que esse retorno não está próximo de acontecer e pode, dessa forma, tornar viável uma mudança brutal no calendário sul-americano: a equivalência das temporadas de futebol do nosso continente com a Europa.

OS ESTADUAIS SÃO UM CASO A PARTE

Os campeonatos estaduais têm regulamentos diferentes entre si (alguns nem mesmo pararam, como no Acre e no Amapá) e por isso teriam de ser rediscutidos dentro de suas Federações para entender qual a melhor forma para a conclusão de cada um. Porém, pensando no restante do ano de 2020, manter o formato atual do calendário brasileiro (e até dos calendários dos vizinhos da América do Sul) pode se tornar literalmente insuportável para os elencos e até mesmo para os encaixes em prováveis datas disponíveis.

SE FOR POSSÍVEL, SERÁ VIÁVEL REINICIAR A TEMPORADA COM O CALENDÁRIO ATUAL DO CAMPEONATO BRASILEIRO?

O Brasileirão tem data prevista de início para o dia 03 de maio e de conclusão para o dia 06 de dezembro. De acordo com a programação divulgada pela CBF, serão 11 rodadas realizadas em dias úteis e 15 semanas com dias úteis sem compromisso com a competição. Partindo do princípio otimista de que seria possível voltar a ter futebol já na data agendada para a primeira rodada do Brasileirão, o calendário como um todo já poderia se considerar insustentável, tendo em vista as participações de Vasco, Bahia, Flamengo, Palmeiras, Athletico, São Paulo, Grêmio, Internacional e Santos nas competições da Conmebol, além de Botafogo, Fluminense, Ceará e Goiás na Copa do Brasil.

Copa Libertadores da América e Copa Sul-Americana poderiam acontecer nas mesmas datas? Sim, já que não há mais equipes disputando as duas competições em uma mesma temporada. Ambas exigiriam, juntas, 11 das 15 datas livres do Brasileirão. O problema já poderia ser, por si só, as poucas semanas livres para treinamento e recuperação, mas ainda há de se encaixar as 10 datas da Copa do Brasil, que deve ter muitos confrontos com equipes que estão na Copa Sul-Americana ou na Copa Libertadores da América, impedindo o aproveitamento de algumas datas em meio a duelos dos torneios internacionais. Em uma conta básica, são 15 datas livres de meio de semana para o encaixe de 21 datas de meio de semana sem depender do avanço ou não de equipes em competições simultâneas.

BRASILEIRÃO COM TURNO ÚNICO PODERIA SER UMA SOLUÇÃO?

Tornar o Brasileirão um campeonato de turno único livraria mais 11 meios de semana e oito finais de semana. Isso significaria a soma de outras 19 datas a essas 15 já livres, efeito que geraria 34 datas livres para o encaixe de 21 compromissos. Em compensação, o calendário teria uma série de buracos tanto em dias úteis quanto em finais de semana, já que os torneios a Conmebol só são disputados em meio de semana. O calendário teria de ser absolutamente modificado em todos os países para uma readequação que mais pareceria uma bagunça com enormes remendos em datas aleatórias.

COMO O CALENDÁRIO EUROPEU PODERIA SER APLICADO POR AQUI?

Para se trabalhar com um calendário no modelo europeu, o primeiro ponto é que as férias dos jogadores mudariam do verão para o inverno, ou seja, eles passariam a atuar durante o mês de dezembro e de janeiro, parando no meio do ano. Se isso for cogitado, a exemplo da Premier League 18/19, o Brasileirão poderia ser iniciado no dia 12 de agosto e ocuparia 20 datas até 29 de dezembro, sendo 18 dessas datas em finais de semana e duas dessas datas em meio de semana, abrindo, assim, 18 meios de semana livres para compromissos de outras competições.

COMO FICARIAM OS TORNEIOS DE MATA-MATA?

Para se ter uma ideia, pensando apenas nas competições nacionais e continentais (deixando os Estaduais de lado, já que possuem regulamentos e números de datas diferentes entre si), da rodada número 1 até rodada número 20 da Premier League 18/19, apenas a primeira fase da Champions League, com seis datas de meio de semana, foi disputada, restando outras 12 datas para compromissos de copas nacionais. Tendo em vista que a temporada daqui estaria dividida pela metade (20/21), seria possível colocar mais quatro datas da Copa Libertadores da América nesse calendário de 2020 com o objetivo de encerrar a primeira fase e mais quatro datas (duas fases) ou seis datas (três fases) da Copa do Brasil, somando oito ou 10 meios de semana ocupados. Isso renderia outros oito ou 10 meios de semana livres.

O CENÁRIO NOS OUTROS PAÍSES DA AMÉRICA DO SUL É RUIM?

No ambiente nacional de outros países, a adequação ao calendário europeu também poderia cair como uma luva nesse momento. Para se ter uma ideia, a temporada de futebol na Colômbia prevê 46 datas fixas para a realização dos torneios Apertura e Clausura, além de outras 14 datas para a Copa Colômbia. Sete rodadas já foram disputadas do Apertura e a fase em que clubes da primeira divisão entram na Copa Colômbia, prevendo 10 datas partindo dessa etapa, ainda não se iniciou. Situação quase idêntica vive a temporada do futebol paraguaio, com 44 datas fixas para as disputas do Apertura e do Clausura, tendo apenas sete rodadas disputadas até aqui e mais 11 datas necessárias para a fase em que os times de primeira divisão partem para a disputa da Copa Paraguay. Venezuela e Peru também vivem cenários parecidos com esses já citados, tendo poucas rodadas de suas competições de pontos corridos disputadas e um torneio de mata-mata envolvendo clubes da primeira divisão em suas fases preliminares.

Os países que vivem cenários menos complexos com a paralisação do futebol são Uruguai, Chile, Equador e Argentina. Os uruguaios carregam apenas a principal competição nacional, dividida em três (Apertura, Intermedio e Clausura), com 38 rodadas no calendário dessa temporada, com regulamento similar ao Brasileirão, tendo sido disputadas nesse ano somente três rodadas até agora. A falta de um acordo entre clubes e Federação impediu o início da Copa Uruguaya, que abrangeria 68 clubes em sistema de disputa idêntico ao praticado na Copa do Brasil. Já os chilenos disputam o campeonato nacional em 34 datas, tendo sete já disputadas, e precisam de outras nove para a Copa Chile, que ainda não se iniciou. As equipes do Equador têm calendário um pouco menor, com 32 datas para as disputas da principal competição nacional e outras nove necessárias para a Copa FEF Ecuador, que também não teve seu pontapé inicial nesse ano ainda.

Bolívia e Argentina estão em cenários mais específicos. Os bolivianos não possuem um torneio de mata-mata envolvendo equipes da primeira divisão e, portanto, preenchem 52 datas com os torneios Apertura e Clausura, porém 12 rodadas já foram disputadas. A Argentina já adequou seu calendário ao modelo europeu e encerrou sua Superliga com o título do Boca Juniors no último dia 07 de março, antes da paralisação do futebol por conta da pandemia que assola o planeta. Caso a competição opte por repetir o planejamento da última temporada, a expectativa seria de um reinício próximo do fim de julho ou início de agosto, como poderia ser nos outros países da América do Sul.

Claro que a discussão de uma adequação de todo o calendário sul-americano ao calendário europeu tem muitos outros prós e contras, mas diante do cenário atual do planeta, pode ser uma solução para não tornar a temporada dos atletas insuportável e repleta de lesões, além de uma saída para as lamentações de que a janela mais forte do futebol europeu é justamente no meio de quase todas as competições sul-americanas, modificando os elencos montados justamente nos instantes que precedem as fases mais agudas e decisivas para o futebol do continente.

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