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"Pra Frente, Brasil" não merece a secretária, o país, e nem a Seleção

Miguel Gustavo era radialista, jornalista e compositor de jingles quando entrou num concurso para a escolha de uma canção para embalar  a Seleção na Copa-70. Ganhou até de Chico Buarque, Edu Lobo e Carlos Imperial. PRA FRENTE, BRASIL era o tema. A Ditadura a barbarizou como Charles Manson latrocinou HELTER SKELTER, dos Beatles

Por Mauro Beting

Miguel Gustavo, compositor da maravilhosa PRA FRENTE, BRASIL

Miguel Gustavo, compositor da maravilhosa PRA FRENTE, BRASIL

Mais de 100 músicas foram inscritas no concurso no começo de 1970. O júri para escolher a vencedora era formado por representantes das empresas que patrocinavam o pool de emissoras de televisão que transmitiriam ao Brasil (pela primeira vez) uma Copa do Mundo (Esso, Gilette e Souza Cruz), além de publicitários da Almap, McCann/Erickson e J.Walter Thompson. Eles escolheram 20 canções finalistas.

Tão boa era a qualidade dos temas que os presidentes das três empresas tiveram que se reunir numa sala para desempatar. E escolher a canção PRA FRENTE, BRASIL, de Miguel Gustavo, compositor do tema da BUZINA DO CHACRINHA, e da caninha Tatuzinho.

A versão definitiva cantada pelo Coral do Joab. Tocada antes da Copa quando o Brasil ainda era uma dúvida (como todo dia este blog mostra na retrospectiva). Massificada pela melhor seleção de todos os tempos, a cada golaço, a cada uma das seis vitórias em seis jogos tricampeões.

Depois dos 4 a 1 finais contra a Itália, o carnaval de 21 de junho (que começou 17h50 daquele domingo) teve como maior hit o "90 milhões em ação". Música tão perfeita e tocante e empolgante quanto a que foi lançada dias depois pelos Golden Boys, composta pelos irmãos Valle, Marcos e Paulo Sérgio: EU SOU TRICAMPEÃO.

Mas até por ter composta antes do Mundial, por ter tocado direto nas transmissões, PRA FRENTE, BRASIL é o tema de 1970. Apropriado pela ditadura militar "como" a Família Manson roubou HELTER SKELTER, dos Beatles.

Dever insistir no tema.

O bom filme PRA FRENTE, BRASIL (1982), de Roberto Farias, escancarou (involuntariamente ou não) o uso (e mau uso) e o (mau) costume de associar a canção de Miguel Gustavo à ditadura. Até como um hino colaboracionista. Ufanista - mais politicamente) que esportivamente. 

Tirado do contexto do concurso, a leitura não é errada. Faz parte do jogo duro da época, e de qualquer jogada de qualquer dono da bola e das boladass em qualquer tempo - ainda mais sob um governo totalitário e durante a repressão nos porões e latrinas do poder.

Triste é que uma belíssima canção que embalou belíssima seleção de talentos seja agora ainda mais conspurcada com um debate ideológico rasteiro. Quando o lado à minha esquerda a detona sem ouvir e sem ler e sem pensar. E quando o lado à direita dela a toma pelas orelhas e a entoa à toa com a mesma infelicidade que Regina Duarte deixa a Namoradinha do Brasil (que eu não gosto) na deprimente entrevista para a CNN. Triste em vários sentidos que aqui não interessam, e também passam pelo nosso papel e papelão como jornalistas.

Conversa que a secretária nacional de Cultura (SIC) demonstra ser mais infantil que o teletubbie do ministério da Educação. Com pérolas aos bezerros do tipo de "na humanidade nao para gente de morrer", 'sempre houve tortura", "não quero arastar um cemitério de mortos nas minhas costas".

Mas isso é melhor nem falar - ela e e eu.

Só queria defender Miguel Gustavo e sua canção das conotações políticas, desde as necessárias até as toscas. Pretendo mesmo elevá-la ao patamar e ao panteão do FUTEBOL DO BRASIL NA COPA DE 1970.

Dois espetáculos que militantes, milicos, malucos e meliantes não vão macular.

Acima de qualquer suspeita. E de qualquer coisa que assuma de supetão algo tão importante como a Cultura.

   

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