Blogs

Quando Mourinho apostou na agressividade e pagou o preço

A semifinal da Champions League entre Real Madrid e Barcelona, em 2011, marcou o auge da tensão entre os rivais na passagem do português pelo Bernabéu e custou caro para o Real
 

Messi marcou os dois gols do Barcelona no jogo de ida, disputado no Santiago Bernabéu (Foto: Getty Images)

O Real Madrid contratou o português José Mourinho no início da temporada 2010-2011 para um objetivo específico: conseguir competir com o Barcelona de Pep Guardiola. O Real Madrid, acreditem, vivia uma “maldição das oitavas”, com seis eliminações seguidas no primeira mata-mata da Champions League, inclusive na temporada de estreia de Cristiano Ronaldo, enquanto o Barcelona tinha feito uma tríplice coroa no meio de 2009 e havia sido eliminado pela Inter de Milão, de Mourinho, na semifinal da Liga dos Campeões anterior.

Eliminar o Barcelona dentro do Camp Nou, com aquele antológica foto dele correndo para onde estava a torcida da Inter, deu aos madridistas a sensação de que o reinado do Barça de Guardiola estava com os dias contados. A dura realidade veio na 13º rodada do Campeonato Espanhol, com o Real Madrid tentando jogar de igual para igual com o Barcelona e levando a histórica goleada de 5 a 0. Ali Mourinho percebeu que precisaria fazer algo diferente. E optou pela agressividade para diminuir a distância entre os times. E pagou o preço.

O Esporte Interativo exibe Real Madrid 0 x 2 Barcelona, jogo de ida da semifinal da Champions League da temporada 2010-11 dentro da Faixa Liga Retrô, nesta terça-feira, às 16h, na TNT e no Facebook do EI. É a chance de matar a saudade do maior torneio de clubes do mundo em meio a esta quarentena, além de relembrar do que, na minha opinião, foi o auge do Barça de Guardiola.

Nos quatro jogos seguintes entre Real Madrid e Barcelona naquela temporada, o Real teve jogadores expulsos em três deles, além do próprio Mourinho expulso do banco uma vez. Não que o Real não tenha jogado bola nessas partidas. Jogou em vários momentos, em especial na final da Copa do Rei, vencida pelos merengues na prorrogação, com o gol de cabeça de Cristiano Ronaldo, que impediu outra tríplice coroa do rival. Mas a escolha do técnico português para encurtar a distância para o time de Guardiola foi jogar no limite da agressividade, tornar o jogo o mais físico possível. E quem joga no limite está sempre assumindo o risco de exagerar. Foi o que aconteceu.

Guardiola e Mourinho fizeram grandes duelos naquela temporada (Foto: Getty Images)


Real Madrid e Barcelona iriam se enfrentar três vezes em 11 dias: 16 de abril pelo Espanhol (1 x 1); 20 de abril na final da Copa do Rei; 27 de abril jogo de ida da semifinal da Champions. Além do jogo físico, Mourinho optou por uma guerra mental intensiva nos dias anteriores aos jogos. Isso se refletiu em campo, com jogos beirando a violência, muito empurrão, falatório e confusão. E o ápice desse tensão veio na partida pela Liga dos Campeões.

Isso ficou claro com a escolha de Mourinho para formar o Real. Tendo Kaká, Granero, Higuáin e Benzema à disposição, ele optou por Lass Diarra e Pepe formando o meio-campo com Xabi Alonso e Cristiano Ronaldo jogando de centroavante. Desde o início, entradas fortes dos dois lados, Lass Diarra e Marcelo pelo Real e Keitá pelo Barça. O time catalão começou melhor, tendo pelo menos três boas chances, com Messi, Villa e Xavi, mas o Real equilibrou, com Di Maria sendo um tormento para Daniel Alves e Cristiano Ronaldo chutando forte e Valdés defendendo do jeito que deu.

No saída para o intervalo, uma confusão envolvendo reservas e comissão técnica dos dois times acabou com o goleiro reserva do Barcelona, José Manuel Pinto, sendo expulso. Na etapa final, o Barcelona estava nitidamente incomodado com o jogo físico do Real. Logo no início, Sergio Ramos fez uma falta dura, trombando com força em Messi e levou amarelo. O Real teve uma ótima chance com Cristiano Ronaldo. E quanto o jogo parecia ficar bom para o time da capital, o exagero que custou o jogo e a vaga.

Expulsão de Pepe abriu o caminho para a vitória do Barcelona no Bernabéu (Foto: Getty Images)


Em um lance em que a bola está elevado, Daniel Alves tentou dominar e Pepe veio com a perna em riste, com muito risco e pega o lateral brasileiro. O árbitro alemão Wolfgang Stark, que teve um trabalho absurdo no jogo, tinha o visual limpo e não teve dúvida: vermelho direito. Até hoje eu tenho muito espanto ao ver gente achando que era para amarelo! E o argumento é fantasioso: que não pegou. É só olhar a imagem. Pegar, é nítido que pegou. Se disser que não pegou em cheio, a reação é: ainda bem, porque se pegasse, poderia machucar com seriedade. Essa expulsão, aos 16 minutos, mudou o jogo.

Com mais espaço e com o Real mais temoroso em buscar o limite físico, o Barcelona cresceu demais no jogo e dez minutos depois fez 1 a 0. Affelay, de passagem curta e de pouco brilho pelo Camp Nou, cruzou da direita e Messi, no auge do “Falso 9”, empurrou dentro da pequena área. Cerca de dez minutos depois, o gol antológico: Busquets recolhe a bola na altura do grande círculo e Messi está atrás dele. O volante praticamente recolhe o corpo para não atrapalhar o início da arrancada do Camisa 10. Ele dispara, passa por Lass Diarra, dribla Sergio Ramos, entra na área, evita a chegada de Marcelo e bate cruzado, para vencer Casillas. Golaço!

No jogo da volta, na semana seguinte, no Camp Nou, o Barcelona perdeu muitos gols e o Real, mais calmo, conseguiu equilibrar a partida. Mas o 1 a 1 classificou o Barcelona, que viria a ser campeão batendo o Manchester United novamente. Após esse jogo, até ir embora na temporada 2012-13, Mourinho conseguiu equilibrar os confrontos contra o Barcelona de Guardiola, tanto em atuações, quanto em resultados. Pena, para o Real Madrid, que ele aprendeu tardiamente que não precisava daquela agressividade.

Comentários