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São Victor do Horto - Sete anos depois

A noite de pânico no Independência. 15h deste sábado converso com São Victos, no FORA DE JOGO, nas redes sociais do Esporte Interativo

Por Mauro Beting

São Victor do Horto

São Victor do Horto

Era um dia 30 de maio como hoje. De maio de 2013. Sete anos depois, hoje e pra sempre é Dia de São Victor para o torcedor atleticano.

Quartas-de-final no Independência. Ainda não era o jogo do título. Não foi o gol da América. Nem gol foi.


O chute de canhota que virou defesa que virou antologia de Victor em 2013 é o momento mais emocionante da história do Atlético para quem não é Galo.
 

Nem vou citar outros momentos-chave de grandes brasileiros. Fico apenas nas Gerais de Minas.

O bico que Victor deu na bola de Riascos não apenas defendeu o Galo e eliminou o Tijuana. Mandou para a lanterna dos infernos todas as disputas de pênaltis perdidas pelo time mineiro. Todas as derrotas doídas do Galo doido para todo tipo de rival em todo tipo de campeonato – e rival também se entende arbitragem.


Naquele pênalti no Horto, Victor não apenas deu um bico para longe da eliminação previsível para quase todos. Defendeu quase que a convicção até do próprio atleticano que, no fundo, no final dos tempos e torneios, daria tudo sempre errado para o Atlético. O Galo que chutaria os três pênaltis para fora e pra cima contra o São Paulo em 1977. Faltariam atletas para vencer o Flamengo em 1980, 1981 e 1987.

Faltaria sempre alguma coisa em qualquer disputa além Minas desde 1971.
 

Qualquer time estaria praticamente eliminado naquele pênalti do Tijuana.

O Atlético não. Ele já estava desclassificado, desmoralizado, e rebaixado se aquela bola entrasse mais uma vez. Não era apenas mais uma eliminação. Era o fim de quase tudo – menos da paixão do torcedor.


Não teria Copa do Brasil de 2014 histórica pro Galo.


Se aquela bola de Riascos entra como a lógica mandava, desmontava um dos melhores Atléticos que vi. E sempre com o mesmo final infeliz pra quem não é fiel atleticano.


Mas, há exatos sete anos, o ainda mais que correto Victor deu um bico no Tijuana, no terreiro, no enterro, no desterro.


Não foi um gol de Reinaldo, que isso sempre se esperou.

Foi um inesperado bico de goleiro no fim do jogo para bem longe do Horto.

Era impossível. Mas foi Atlético.

Aquela bola é tão mágica que ainda não caiu. Nem vão deixar cair.

A ficha já caiu. Deu Libertadores, deu Copa do Brasil, deu ao atleticano um outro ar, ainda mais vida, ainda mais viva a paixão pelo clube.


Naquela bola defendida, mudou um pouco o que o futebol acha do Galo, e um tanto o que o atleticano acha do time.


Ele continua sendo Galo como continuará sendo Galo.

Mas, naquela hora em que tudo sempre dava tão errado, deu tudo tão certo que, se em campo, a confiança é sempre a mesma, eu tenho certeza que o atleticano na rua, em casa, no trampo, na escola, está cada vez mais preparado. Mais confiante. ]

Mais vencedor.

O atleticano, como atleticano que é, não precisava daquela defesa eterna para ser mais atleticano.

Mas o atleticano, como ser humano que é, precisou demais de São Victor para ser mais humano.


ABAIXO, o texto que publiquei à época no meu blog, no LANCENET!,  e também no livro NÓS ACREDITAMOS, editado pela BB, escrito por mim, Leonardo Bertozzi e Mario Marra.


Era Victor ou derrota no fim do jogo e do sonho de conquista da América. Foi o pé esquerdo do goleiro Victor. Victor com C de campeão. Como Cássio, em 2012, na bola de Diego Souza. Como o goleiro do Atlético no pênalti de Riascos.
Empate que foi Independência. Victor que foi vitória para o atleticano calejado das dores no final. Perder a Libertadores por uma penalidade além da máxima em mais uma partida de qualidade discutível para o bom time do Tijuana seria o fim da picada. Victor já havia salvado um gol cara a cara com o pé esquerdo. Victor deu a bicada na bola em cobrança de um pênalti que tantas vezes eliminou o Atlético no passado.
Agora é outra história. Antológica.
O azar não depena mais o Galo. A sorte tabela com quem merece. Ainda que o Atlético tenha jogado mal no México, e um pouco melhor no Horto. Classificou-se por Victor e pelo critério discutível dos gols marcados fora de casa. Tem mais time que o Tijuana. Não foi mais time em 180 minutos. Mas passou. Pesou a campanha, talvez. Não pesaram os anos de infortúnios de melhores times com melhores campanhas que, na hora H, na hora do Horto, não colhiam o que mereciam. Como o único vice-campeão brasileiro invicto. O mais campeão dos vices. O Galo de 1977. Perdido em três pênaltis chutados por cima do travessão, no Mineirão.
Não teve nada mais atleticano que aquilo: depois da derrota nos pênaltis para o São Paulo, Mineirão e Brasileirão estupefatos pela queda sem derrota de um senhor time de bola, os jogadores baqueados e barreados pela chuva e pela lama se abraçaram no gramado e assim foram ao vestiário.
Foi a primeira vez que vi a cena reverente que virou referência. Ninguém estava fazendo marketing (nem existia a tal palavra).
Nenhum jogador estava jogando pra galera. Era fato. Time e torcida estavam juntos naquele abraço doído e doido.
Como tantas vezes o atleticano esteve junto com o time. Qualquer time. Nada é mais atleticano que aquilo: um time que se comportou como o torcedor. Solidário na dor, irmão no gol.
Foi assim em outros anos depois. Não tem sido assim em 2013.
Desta vez, mesmo com 1 a 0 para o Tijuana que jogou o jogo e o antijogo (como o próprio Galo), parecia que era questão de tempo para empatar e classificar. Quando Réver foi pra área, falei pro meu filho Gabriel. Olha o gol do Galo. Olha o gol do Réver de cabeça.
E foi. Não por que eu saiba de futebol. Não por que, desta vez, eu chutei certo – ainda que tenha sido gol de pé direito. É que tem horas que certos times parecem prontos para fazer os minutos precisos. Este tem sido o Galo. Pelo que investiu. Pelo que se estruturou. Pela comissão técnica. Pelo elenco. Pela camisa. Ainda mais pelo torcedor que merece toda essa alegria.
Talvez não merecesse o pânico no Horto. Sem máscara além daquela da agonia.
O sofrimento daqueles eternos segundos entre o chute de Leo Silva no Aguilar rival e o bico na bola de Victor. Aquele momento em que os torcedores rivais riram sadicamente, esperando tanto o cartão vermelho que não veio e o gol contra o Atlético. Pensando que o Galo voltaria a ser aquele time que perderia e se perderia no final. Ainda que injustamente pela brilhante campanha – não pelas preocupantes atuações nas quartas-de-final. Como já aconteceu com tantos outros campeões. E também vices.
Não só os rivais pensaram assim, no fim do mundo e da América alvinegra. Os atleticanos naquela eternidade viram o pior. O que já viveram tantas vezes nos últimos 40 anos. Não vai dar. Já foi. Já era. Já deu. Já acabou. Já perdeu. Já tomou gol. Já vou sair do estádio sem saber o caminho de casa. Já vai tocar o celular. O torpedo vai bombar. As redes sociais vão estar cheias de piadas. A minha cabeça vai estar cheia. Acordar no dia seguinte será um pesadelo pior que a realidade. Já vi esse filme. Já vivi essa dor. Já vou ter de contar e chorar pros netos mais uma derrota sem explicação. Sem razão.
Mas ainda bem que tem a emoção do time de alma para me animar e me armar pela vida.
Se o Atlético de novo e de velho perdeu sem explicação, melhor tocar a bola pra frente e pensar no Brasileirão. Voltar ano que vem pra Libertadores. E recomeçar tudo de novo.
Uma hora vai dar certo!
E deu naquele mesmo minuto.
Quando a canhota de Victor foi mais eficiente que uma bomba de Eder Aleixo nos anos 1980. Ou que um foguete de Nelinho por aqueles tempos.
Só o Rei Reinaldo das tantas placas no Mineirão fez com os pés algo tão mágico quanto a defesa de Victor.
Craques históricos como Mário de Castro, Zé do Monte, Guará, Toninho Cerezo e Marques.
Artilheiros como Dario, Carlyle e o goleador dos gols impossíveis Ubaldo.
Goleiros como Kafunga, Mazurkiewicz, João Leite e Taffarel.
Todos juntos estiveram com Victor dando um bico naquela bola e em tantos azares.
Victor do pênalti possível.
Foi o chute mais importante da história do Atlético.
Este time de Cuca e de alma tem o coração ali na ponta da chuteira de Victor.
Este Galo bica a taça e não dá bola pro azar.

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