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Vantagem impressionante e título com futebol equilibrado: Gustavo Quinteros fez história na Universidad Católica

Vantagem impressionante e título com futebol equilibrado: Gustavo Quinteros fez história na Universidad Católica

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Por Rodrigo Fragoso

Gustavo Quinteros vai assumir o Tijuana, do México(Marcelo Hernandez/Getty Images)

Gustavo Quinteros vai assumir o Tijuana, do México | Marcelo Hernandez/Getty Images

Uma forte crise política e social assola a sociedade chilena e, em meio à crise, o Campeonato Chileno teve de ser encerrado com seis rodadas de antecedência e a Universidad Católica foi decretada campeã da edição de 2019, tendo como vice o Colo-Colo. Muitos torcedores poderiam questionar a entrega do título com tantos jogos por acontecer, mas a distância do primeiro para o segundo colocado impediu qualquer protesto: a Católica de Gustavo Quinteros abriu incríveis 13 pontos de vantagem.

A campanha de 24 partidas teve 16 vitórias, cinco empates e somente três derrotas. A Universidad Católica obteve média de posse de bola de 55% por jogo (seria a quarta no Brasileirão). Somente em cinco dos 24 confrontos teve menos posse de bola do que o adversário, sendo quatro deles fora de casa. E você vai perceber que em algumas dessas ocasiões, a menor posse de bola foi uma opção do técnico Gustavo Quinteros, já que a Católica obtinha larga vantagem na tabela de classificação e não se preocupava com posturas defensivas dos adversários.

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A equipe teve o melhor ataque e a melhor defesa da competição. Marcou 44 gols em 24 jogos, obtendo uma média de 1,8 gol por partida. Se comparasse com os números das equipes do Brasileirão, essa média tornaria a Universidad Católica o time com a segunda melhor média de gols por partida do Campeonato Brasileiro, atrás apenas do Flamengo, com 2,3 gols por jogo. Falando em gols sofridos, foram 14 em 24 partidas, obtendo média de 0,6 por jogo, melhor do que o São Paulo, time menos vazado do Brasileirão com média de 0,8 gol sofrido por jogo.

Responsável pela confortável e precisa campanha da Universidad Católica, o ex-jogador argentino - naturalizado boliviano - Gustavo Quinteros carrega larga experiência pela América do Sul, tendo trabalhado em quatro países (Argentina, Bolívia, Equador e Chile) e partindo para o primeiro desafio na América Central, onde comandará o Tijuana a partir de 2020.

Por Seleções, já foi técnico da Bolívia e do Equador. Aos 54 anos, ele completa 15 temporadas como treinador e carrega oito títulos na carreira. Em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo, ele revelou que trabalhar no Brasil é um sonho, falou sobre suas referências no banco de reservas, a campanha extraordinária no torneio chileno e muito mais.

Confira abaixo a entrevista com o técnico Gustavo Quinteros:

Esporte Interativo - A Universidad Católica se sagrou campeã com 13 pontos a mais do que o vice-líder Colo Colo. O que explica tamanha vantagem?

Gustavo Quinteros - A verdade é que o Universidad Católica conseguiu muitos pontos de vantagem, teve um ano ótimo em todos os sentidos. Ganhamos a Copa Fox, a Supercopa e no torneio nacional conseguimos 13 pontos de vantagem podendo ser até mais e creio que assim seria, pois estávamos jogando muito bem enquanto o Colo-Colo não estava. Jogaríamos em casa contra eles e, por isso, creio que teríamos aberto ainda mais vantagem se o campeonato não tivesse seu encerramento antecipado. Foi uma diferença futebolística muito grande, já que fomos também a equipe mais marcou gols e a que menos sofreu.

EI - No Campeonato Chileno, você obteve média de 55% de posse de bola. Foram apenas cinco partidas nas quais você não teve maior posse do que o adversário, sendo quatro delas fora de casa (Coquimbo Unido 1 x 2 UC; UC 1 x 0 Unión La Calera; Colo Colo 2 x 3 UC; Palestino 1 x 2 UC; O'Higgins 1 x 0 UC). Foram circunstâncias dos jogos ou você também gosta da estratégia de jogar sem a bola em algumas oportunidades?

GQ. Nós fomos a equipe que mais teve posse de bola no campo de ataque em todo o campeonato. Para mim, temos que manter a posse no campo do adversário para construir a jogada de ataque e foi o que a Católica fez durante todo o campeonato. Em algumas partidas, onde o rival saía jogando muito bem e mantinha a posse de bola no seu campo de defesa, não nos interessava buscar a bola tão em cima. Não nos incomodava que o adversário tivesse a posse de bola dentro do seu próprio campo. Principalmente na segunda etapa  do campeonato, quando já tínhamos aberto larga vantagem.

EI - Há quem prefira um futebol com intensidade, velocidade e verticalidade, sem trocar muitos passes. Há quem prefira um futebol mais tranquilo, trocando mais passes e tentando criar espaços nos adversários com a movimentação do time sem o desespero de finalizar a jogada rapidamente. Qual dos dois estilos você prefere?

GQ - O futebol com intensidade e velocidade, hoje em dia, é fundamental. O futebol vai evoluindo. Perceba que a melhor equipe do mundo, que é o Liverpool, tem isso. Tem intensidade na recuperação, tem intensidade na pressão, tem velocidade nas transições, sejam defensivas ou ofensivas. Entretanto, há vezes em que você enfrenta equipes que se defendem em bloco e muito recuadas, então tem de ter mais paciência, trabalhar a bola, provocar os espaços com posse de bola no campo rival e fazendo movimentos de quebra de linhas para conseguir finalizar a jogada. Depende da partida e do rival, mas velocidade e intensidade para jogar é fundamental hoje em dia.

EI - No Brasil, o futebol praticado pelo Flamengo do técnico Jorge Jesus tem chamado a atenção pela intensidade e ataque incansável. Uma equipe com um futebol mais paciente é criticada por conta do êxito da equipe campeã brasileira e da Libertadores. Você acha que é possível jogar um futebol que encante sem ser agressivo o tempo todo?

GQ - Assisti muito ao Flamengo jogar. Na final da Libertadores, contra o River Plate, não teve muita intensidade, velocidade nas transições. River colocou muito mais velocidade e pressão, mas Flamengo tinha a individualidade que fez a diferença nos últimos minutos do jogo. Aí está a diferença de uma equipe como o Flamengo: quando não é possível superar um adversário futebolísticamente, a qualquer momento da partida a individualidade pode fazer a diferença. Haverá jogos em que rivais vão te pressionar, como fez o River contra o Flamengo na final, e não te deixar jogar e praticar o futebol que você gosta, mas nos momentos decisivos das partidas os jogadores que fazem a diferença te fazem ganhar.

EI - Qual o diferencial do seu trabalho? Lado psicológico? Fase ofensiva? Fase defensiva?

GQ - O equilíbrio. Quando temos jogadores para aplicar velocidade, intensidade e pressão, fazemos o tempo todo que podemos. Creio que o equilíbrio entre defesa e ataque é fundamental. Não me considero um treinador defensivo ou ofensivo. Minhas equipes são equilibradas e buscam sempre a vitória em qualquer campo. Tratar de se impôr sempre a ideia de jogo e isso acontece em alguns momentos e, em outros, não. Ás vezes você não consegue por enfrentar uma equipe financeiramente muito mais forte, com jogadores de alta qualidade e pode não conseguir se impôr. Aliás, a parte psicológica é muito importante. Como motivar os jogadores a todo momento, seja no treinamento para alcançar máxima intensidade, e nos jogos, para conseguir tirar o melhor do começo ao fim.

EI - No Chile, vimos a Universidad Católica conquistar o bicampeonato nacional em 2018 e 2019, mas não pudemos ver o mesmo sucesso nas competições internacionais, seja na Libertadores, quando caiu na primeira fase, seja na Copa Sul-Americana, quando caiu nas oitavas de final. Por qual motivo isso acontece?

GQ - Há anos o futebol chileno não consegue bons resultados a nível internacional. Nesse ano, nós precisávamos agregar alguns jogadores de características diferentes das que tínhamos disponíveis, por exemplo, para jogar como visitantes nas copas internacionais. Contra o Libertad, no Paraguai, e Independiente Del Valle, ambas como visitante, foram partidas muito ruins. Precisávamos de jogadores com mais agressividade, recuperação e não tínhamos nem na base.  Depois ganhamos do Libertad em casa, quando jogamos bem, começamos vencendo, mas na bola parada e nas bolas aéreas, perdemos a partida. Caso contrário, teríamos passado das oitavas de final da Libertadores sem nenhum problema, porque a equipe jogou bem como mandante. O problema foi não ter jogado bem como visitante.

EI - Você já levantou taças na Bolívia, no Equador e no Chile. Já dirigiu as Seleções de Equador e Bolívia. Agora viaja ao México com o objetivo de conquistar títulos pelo Tijuana. O que te encantou no projeto mexicano?

GQ - Nos três clubes que dirigi na Bolívia fui campeão. No Equador, pelo Emelec, também, no Chile, com a Católica. Quando chego aos clubes e posso montar o elenco e dirigir desde a pré-temporada, contratando jogadores que a equipe precisa, sempre fui bem. Sempre cumpri com meus objetivos. Minhas experiências nas Seleções foram enriquecedoras, porque aprendi muito dirigindo jogadores que competem fora do continente. Cheguei ao México com o objetivo de classificar na Liguilla no primeiro ano e, no segundo ano, brigar com os cinco grandes para conquistar um campeonato. Se os dirigentes me trouxerem os jogadores que preciso para formar um time competitivo, não tenho dúvidas de que tudo vai sair bem. Isso é o mais importante: a formação do elenco.

EI - Já recebeu convite de algum time brasileiro para iniciar um projeto no Brasil?

GQ - Me encantaria! Gostaria muito de trabalhar no Brasil. É um futebol muito competitivo, com jogadores de alto nível técnico, então seria ótimo poder mostrar um trabalho que certamente seria positivo em um país onde a competição é muito grande, são muitos times fortes. Porém, ainda não recebi nenhum convite no país. Não tenho dúvida de que, com o nível dos jogadores no país, agregando velocidade e intensidade, formaria um time forte o suficiente para chegar longe em competições internacionais. Seria lindo profissionalmente.

EI - Quais são suas referências no futebol?

GQ - Eu me formei em equipes com visão de jogo ofensiva, de bola de pé em pé, de jogo associado, essa foi minha formação desde sempre. Como referências, tenho Arrigo Sacchi desde o Milan e a Seleção Italiana com sua organização defensiva e intensidade, passando por Guardiola, Klopp e outros treinadores que acompanho. Sempre é possível aprender. Me alimento do mesmo que Bielsa, Sacchi, Guardiola, enfim, todos que passaram pelo futebol de alto nível mundial, que é respeitar uma ideia de jogo. Assim conquistei oito títulos na minha carreira e espero conquistar mais.

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