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Vinte meses depois, a gravidade de não haver ninguém preso pelo incêndio no Ninho do Urubu

No país da Boate Kiss, do avião que passa reto em Congonhas ou do jato Legacy e do estouro de duas barragens de minérios, talvez eu esteja sendo muito otimista em esperar que alguém seja preso pelas dez mortes do Ninho do Urubu.

Por Vitor Sérgio Rodrigues

Vinte meses depois, a gravidade de não haver ninguém preso pelo incêndio no Ninho do Urubu

Vinte meses depois, a gravidade de não haver ninguém preso pelo incêndio no Ninho do Urubu

O incêndio no Ninho do Urubu, que vitimou dez jovens das categorias de base do Flamengo em fevereiro do ano passado, ganhou um capítulo triste e revoltante nesta quarta-feira: os jornalistas Pedro Ivo Almeida e Léo Burlá revelaram em uma reportagem no UOL que o clube sabia dos riscos de acontecer um acidente naquelas instalações. E que as providências não foram tomadas para que dez vidas fossem poupadas.

A reportagem é baseada em alguns e-mails que fazem parte do processo que corre na Justiça, deixa claro que os administradores do Ninho do Urubu sabiam da precariedade das instalações elétricas do local desde maio de 2018. De acordo com as notas fiscais que também fazem parte do processo, o Flamengo pagou R$ 8500,00 para que o serviço fosse feito, mas ele, de fato, nunca foi realizado. Cerca de 11 meses depois, a tragédia se consumou no centro de treinamento.

A partir dessa brilhante reportagem, fica evidenciado que a tragédia poderia perfeitamente ser evitada e levanta o debate sobre o caráter de “acidente”. Bem como traz o espanto em saber que, 20 meses após dez famílias receberem seus filhos em caixões, não há nenhuma pessoa presa por isso. O inquérito vai e vem pra lá e pra cá e ainda está com a Polícia Civil do Rio de Janeiro.

Nesses 20 meses, é muito comum você ler e ouvir a pergunta “E as indenizações?” em qualquer debate ou discussão em que seja citada a boa condição financeira do Flamengo atualmente. A impressão é que só se preocupam com o clube pagar ou não para tirar dinheiro que poderia ser investido no time de futebol (mesmo o Flamengo tendo o valor previsto para as indenizações separado no orçamento). Indenizar as dez famílias que perderam seus familiares é obrigação do clube, que já se acertou com sete delas, além de ter feito acordo com o pai de Rykelmo (com a mãe não houve acerto ainda). Mas é raríssimo você ouvir alguém levantar a voz cobrando por... justiça!

Tão importante quanto pagar os valores que as famílias entendam ser razoáveis é saber que as pessoas que têm essas mortes nas mãos irão para a cadeia. O sentimento de justiça não pode ficar para trás e não será atendido após o Flamengo pagar a última indenização pendente. Os responsáveis por desgraçar a vida de dez famílias têm que pagar por isso. Só assim a tragédia do Ninho do Urubu poderá ser dada como encerrada.

No país da Boate Kiss, do avião que passa reto em Congonhas ou do jato Legacy e do estouro de duas barragens de minérios, talvez eu esteja sendo muito otimista em esperar que alguém seja preso pelas dez mortes do Ninho do Urubu.

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