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Você tinha que ser assim lá na favela, Patrick de Paula

O que aconteceu com um motoboy em um condomínio em Valinhos e o que aconteceu com o garoto que nasceu para o futebol na Copa das Favelas

Por Mauro Beting

Gabriel Menino e Patrick de Paula, os moleques são lisos - ARTE PALESTRINA

Gabriel Menino e Patrick de Paula, os moleques são lisos - ARTE PALESTRINA

"Você nem tem onde morar! Você tem inveja disso daqui!

Eu pedi pra ele sair fora daqui, não bater esse pênalti, não ser jogador de futebol. E ele não saiu fora. Ficou aqui.

Fora, moleque.

Fora!

Chuta pra fora!

Moleque! Você tem inveja disso daqui. Você tem inveja dessas família aqui.

Sabe o que vai acontecer com seu futuro?

Você vai jogar na Seleção. Vai conquistar muitas coisas.

Você tinha que ser assim lá na favela. Não aqui!

Quanto você tira por mês?

Fora, moleque.

Chuta pra fora."

(Não. Não era o Cássio falando. Não era a torcida rival falando. Era o mundo doente falando para o motoboy em Valinhos. Era o mundo dizendo não a Patrick e a tantos que não conseguiram vencer. Ainda.

Porque o futebol e quem tem fé conseguem virar esse jogo. Conseguem dar um bico na intolerância. Na ignorância. No preconceito. No desrespeito.

Patrick mandou no ângulo.)

Uma vitória da vida.

Quanto ao futebol, na decisão do SP-20, a história foi outra.

Foi num sábado à tarde. Não tinha meias brancas como em 1993, no Dia da Paixão Palmeirense, contra o maior rival. Não foi de novo como em agosto de 1993 com o mistão que ganhou de novo o Rio-São Paulo contra eles. Não foi como agora em 2020 quando Patrick de Paula jogou no ângulo do Gol Norte o título paulista 100 anos depois do primeiro, em 1920. Quando a gente ainda contava mortos da Gripe Espanhola. Como neste mesmo sábado contamos 100 mil mortos pelo Covid-19.

Não tinha a nossa gente campeã no Allianz Parque nesta véspera de Dia dos Pais de 2020. Como há 8 anos o nome da sala de imprensa do estádio (o meu pai) visitou as obras da arena pela última vez. No último passeio que faria com os meus filhos, três meses antes da partida. Na véspera do Dia dos Pais de 2012.

Quando eu tirei uma foto do meu pai com os meus filhos, minutos antes de meu pai sair de cadeira de rodas do estádio pela doença que o levaria e a gente ainda não sabia a gravidade, eu me emocionei porque senti que talvez aquela fosse uma das últimas fotos dele no velho Palestra.

E foi mesmo.

A frase dele está escrita em dois lugares do estádio. Está na Academia do clube. Está na alma de palmeirenses como os netos. Como a mulher dele. Como a nora que ele não conheceu de olhos verdes como o coração. Como a filhinha que ele também não teve a felicidade.

Eles estavam todos juntos em casa vendo a final de 2020. Eu comentava pelo Esporte Interativo a Champions lá no estúdio. Não vi o gol de Luiz Adriano. Vi o pênalti de Gómez no desespero da minha mulher pelo WhatsApp.

Mas vi Patrick de Paula batendo como gente grande. La Favela è qui! Foi ali no ângulo. Foi na mesma meta de 1999. Foi onde eu tirei essa foto há 8 anos. Também em um sábado. Também na véspera do Dia dos Pais.

Eu achava que poderia ser a última. E foi.

Foi a primeira de Patrick. E vai ser a primeira de muitas.

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