Futebol Brasileiro

'Até a morte na areia': preparador físico do Palmeiras rebate críticas sobre seu trabalho

Antônio Mello deu exemplos de jogadores do Palmeiras que melhoraram seu desempenho com trabalhos na caixa de areia e usou Flamengo como exemplo de que o futebol não mudou tanto nos últimos anos

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Por Rodrigo Fragoso

Preparador físico do Palmeiras, Antônio Mello é um dos mais fieis escudeiros de Vanderlei Luxemburgo(Cesar Greco / Palmeiras)

Preparador físico do Palmeiras, Antônio Mello é um dos mais fieis escudeiros de Vanderlei Luxemburgo | Cesar Greco / Palmeiras

72 anos de vida e 40 anos de carreira. Antônio Mello pode dizer que viu de tudo no futebol. O atual preparador físico do Palmeiras carrega um título para cada ano de trabalho na carreira e garante que um profissional só fica bom quando "discute com os livros". De acordo com o multicampeão, há profissionais por aí dizendo que desenvolveram novidades, mas "não desenvolveram coisa nenhuma". Esses são alguns trechos da entrevista exclusiva com um dos mais fiéis escudeiros de Vanderlei Luxemburgo em toda a sua história. E se alguém criticar o trabalho de Mello na caixa de areia, ele não titubeia em responder que é "carioca, porra" e vai "até a morte treinando também na areia". Nunca duvidou da capacidade desse tipo de trabalho.

"Eu não tenho dúvidas do que eu faço. São 40 anos de profissão e 40 títulos. Seis brasileiros, seis paulistas, títulos cariocas, títulos mundiais. Será mesmo que está errado esse treino? Qual é a resposta de um profissional do nosso nível aqui no Palmeiras? É fazer meu time correr e vencer. Eu trabalho pra vencer, não trabalho para expôr treino. Eu nunca vou mudar, vou até a morte treinando também na areia. Não é ultrapassado. Hoje combinei trabalhos moderníssimos com a areia e a reposta já veio", disse Mello.

Alinhado com o que Vanderlei Luxemburgo costuma falar sobre o futebol, Antônio Mello também esclareceu o que pensa sobre rodízio de titulares e comentou o papel da preparação física no desenvolvimento do drible e no desempenho tático de uma equipe. De acordo com o preparador, o último campeão brasileiro e da América é um exemplo do que Luxa sempre pregou no futebol, já que, segundo Mello, enfrentou um europeu em condição de igualdade, como não acontecia há muitos anos. Somente a velocidade do jogo mudou e a explicação parece ser clara para o preparador físico.

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"É a redução do campo. Antigamente se jogava em 75 x 110. Era um campo muito grande. Hoje você joga em 68 x 105 e essa redução aproximou muito os jogadores, então a dinâmica do jogo aumentou. Sempre ouço falar que o futebol europeu é mais veloz. Não é, não. O europeu tem dinheiro para comprar. Nós somos formadores, não somos compradores. Quando temos uma equipe boa, vendemos quase todos. Aquele atleta que é expoente físico, é talentoso, não fica. É comprado. Então há uma diferença. Antes, quando o Brasil não vendia tanto, era de igual para igual. O Flamengo deu exemplo disso, muito bem treinado e organizado na parte física, foi jogar com o Liverpool e jogou de igual para igual no aspecto físico e técnico", avaliou Antônio Mello.

Confira abaixo o bate-papo exclusivo com a reportagem do Esporte Interativo:

Esporte Interativo: Alguns profissionais falam que o atleta perde velocidade de arranque quando trabalha na areia justamente porque exercita um movimento mais lento de encostar e tirar o pé do chão, o que acaba sendo mais rápido no gramado ou até no piso da academia. Pela sua experiência, isso não procede?

Antônio Mello: Se contesta a areia dizendo que o solo é mais macio. Aí vai treinar na Academia num piso duro para fazer salto com tênis. Como é o nome daquilo que vai embaixo da chuteira? Trava! Aquilo foi feito pra andar na superfície ou pra enterrar? Quem viu o jogo do São Paulo na segunda-feira, viu um campo cheio de água, quase cobrindo a grama por 90 minutos. Aquele solo tá mais perto da areia ou da academia? Então é preciso sair um pouco da teoria e pensar um pouco que a minha contração e relaxamento no campo também não é completo. Eu vou encontrar gramado fofo e molhado que tem muita semelhança com a areia. Vamos sair da teoria, vamos vir pro campo prático, analisar e ver resultado. Um acadêmico, para entrar na medicina, precisa fazer residência. Precisa ver! Não adianta só informação teórica. Você fica bom quando você discute com os livros. Se você só copia e cola, você ainda está caminhando pra ser bom. Eu brigo com os livros e já vi como as coisas funcionam. Um profissional de nível tem que ter essa sensibilidade por completo.

Cesar Greco / Palmeiras

Esporte Interativo: Consegue explicar também na teoria a diferença do mesmo treino na academia, no gramado e na caixa de areia?

Antônio Mello: Existe o ciclo de encurtamento e relaxamento muscular, chamado pliometria. Dentro de uma academia com piso duro, você salta de um ponto mais elevado para o solo e, do solo, você retoma o salto. Você trabalha isso em diferentes alturas e vai ganhando relaxamento e contração. Areia é pliometria também. O ciclo de encurtamento e relaxamento acontece quando você enfia seu pé na areia depois de uma arracanda, aí você relaxa, e depois contrai para arrancar novamente. O que as pessoas contestam, e não estão na prática percebendo, é que o componente elástico muscular não é completo quando relaxa e não é completo quando contrai no futebol. Eu quero ter ganho de força. Eu não treino na areia duas ou três vezes por dia, porque não é esse o objetivo. Meu treino hoje durou oito minutos. Eu saí de um treino em que equilibrei a cintura pélvica, fiz exercícios de força e velocidade e conclui com potência na areia.

Esporte Interativo: Foram três circuitos rápidos na atividade da caixa de areia de hoje. Quais são os objetivos deles?

Antônio Mello: Um circuito era de agilidade, que combina movimentos de lateralidade e mudanças de direção: componentes específicos de futebol. Você viu outro circuito com entrada de frente, costas, acelera, desacelera e retoma, ou seja componentes físicos importantíssimos no futebol: movimento concêntrico e excêntrico. Também havia outro de impulsão combinado com arranque, ou seja, mais componentes físicos do futebol. Toda vez que você executa um desses, dura seis segundos. O trabalho executado como eu fiz hoje é de três módulos específicos para futebol com curta duração de tempo, com total de oito minutos, sendo uma vez por semana. Me diga onde isso vai interferir na corrida em campo. Hoje a tarde já tem bola na grama, amanhã tem trabalho em velocidade específico de mudança de direção, muito parecido com o que fiz na areia, só que na grama.

Esporte Interativo: Consegue trazer exemplos de jogadores que estão entregando melhor potência?

Antônio Mello: Dudu está arrancando mais. Felipe Melo está com mais força pra jogar na zaga. O Gabriel Menino, o Gustavo Gómez também. Eu já fiz seis sessões de caixas de areia desde que iniciamos o trabalho em janeiro e o meu time entrou no Paulistão para encarar equipes que estão trabalhando desde novembro. Entramos melhor ou no mesmo nível dessas equipes no aspecto físico. Contra o Red Bull, por exemplo, no segundo tempo tivemos um domínio muito grande na parte física.

Esporte Interativo: Se é tão polêmico esse tipo de treino, por qual motivo você começou a realizar esse trabalhos na areia?

Antônio Mello: Eu comecei a fazer treinos na areia por recurso, pois trabalhava num clube pobre no Rio de Janeiro e tinha um ônibus a meu favor. Aí eu levava o grupo para a praia do Grumari. Eu fazia um trabalho empírico. A minha intuição veio muito antes da técnica. Eu comecei a fazer corrida, trabalhar resistência, o que não é o melhor na areia, mas com o tempo fui percebendo que encurtei a distância e comecei a ter resultados na potência. Aquilo estava, em jogo, me rendendo um atleta que arranca mais, tem melhor impulsão, antecipa melhor, então comecei a ver a mecânica da resposta física da areia. Com isso, fui estudando, pesquisando, e não conheço nenhum artigo sobre futebol com qualidade de quem escreveu. Já vi qualidade na parte científica, falando bem, por sinal. Mas quando chega na comparação prática, aí falta artigo. Muitas pessoas que contestam nunca vieram treinar na areia. Eu sou carioca, porra. A minha vida toda foi na praia. Eu vivo na praia. Hoje é uma febre no Rio de Janeiro o treinamento funcional. Isso é um treinamento de estímulo curto, fazendo a função do dia a dia: anda de frente, vem de costas, muda de direção. Quando isso é estimulado na areia em tempos reduzidos, você começa a ter uma força muscular grande. Para as pessoas que não são atletas é um trabalho preventivo. No meu caso, com atletas, é um trabalho de potência.

Cesar Greco / Palmeiras

Esporte Interativo: Na Copa Libertadores da América, o Palmeiras vai encarar o Bolívar, que manda seus jogos na altitude. A caixa de areia traz algum benefício para esse tipo de situação?

Antônio Mello: Eu já fui na altitude mais de 50 vezes. Fui do mais alto ao mais baixo estádio. Há uma interferência na preparação física, claro. Qual é a minha preocupação? Chegar dois, três dias antes e elaborar um processo de treinamento diferente. Vão me constestar, muita gente vai falar que está errado, mas eu saio de lá com bom resultado físico. Se eu trabalho o anaeróbio intensamente, vou ter essa resposta em qualquer lugar, principalmente na altitude, onde tem rarefação do ar, dificuldade respiratória e hiperventilação com facilidade.

Esporte Interativo: Além da melhor performance física, como o trabalho do preparador se relaciona com o desempenho tático do time?

Antônio Mello: Quando iniciei no treinamento esportivo, a primeira coisa que eu fiz, em 1976, foi colocar 20 bolas no campo. Ninguém treinava assim: era uma bola, coletivo e o trabalho físico era a corrida. Quando percebi que a bola era o elemento motivador e trazia alegria para o treinamento, eu comecei a fazer as ações de jogo no treinamento físico. E quando um treinador elabora um trabalho tático, você tem que trabalhar em cima do que o treinador deseja. O Vanderlei quer retomada da bola no campo do adversário. O meu treinamento, então, é todo envolvido nesse sistema. Isso é tão banal, elementar, que já faço há 40 anos. Às vezes aparece preparador dizendo que desenvolveu algo. Não desenvolveu coisa nenhuma. O que melhorou pra gente foram as ferramentas que chegaram para avaliar a condição física real do atleta, o que te permite qualificar o treino em função dos resultados e do desempenho físico dos atletas nos jogos.

Esporte Interativo: Como a preparação física pode ajudar para o jogador ter mais recurso de drible?

Antônio Mello: A força muscular é tudo. Quando você combina a força e a velocidade de ganhar potência, o jogador que tem essa qualidade e essa característica desempenha bem. A arte de jogar futebol tem a improvisação, a leveza do movimento, afinal ele gira pra esquerda e pra direita. Então é preciso tomar muito cuidado pra não se elaborar trabalho de força em cima do jogo. Por exemplo, eu não uso, mas vejo muitas pessoas fazendo, trabalho de elástico e de força no aquecimento. Eu não condeno, mas não faço, porque acho que o jogador tem que soltar a musculatura no aquecimento para que ele tenha as ações do drible, do domínio e do passe bem favorecidas. Se não tivermos cuidado com isso, o jogador não vai ter facilidade para executar, então dribla mal e não vai ter a parte técnica a seu favor.

Esporte Interativo: O Palmeiras terá gramado sintético muito em breve no Allianz Parque e também na Academia de Futebol. Qual o impacto dessa mudança na preparação física?

Antônio Mello: É um fato inusitado. Eu já tenho uma ideia da velocidade da bola e da mudança de direção. No Real Madrid e no Barcelona há grama mista. Estive muito nesses campos, mas puramente sintético é a primeira vez. Já estive na Arena da Baixada, mas fui e voltei do jogo. Agora eu vou treinar no campo nosso que está sendo finalizado e jogar na nossa casa. Será 50% no gramado natural e 50% no sintético. Vai ser uma experiência nova na minha vida.

Divulgação

Esporte Interativo: Para você, o calendário brasileiro obriga um rodízio de jogadores durante a temporada? O Palmeiras terá esse sistema de rodízio com essa comissão técnica?

Antônio Mello: Nós fizemos uma programação que invadiu o Campeonato Paulista com a pré-temporada. Daqui a pouco serão dois meses de jogos quarta e domingo. Nós temos que olhar e analisar em que condição está o nível físico de cada jogador para aguentar o tranco. Eu tenho jogadores mais velhos e, claro, eles precisam de mais tempo de recuperação. Esses vão precisar do rodízio. Tem exemplos lindos como o Léo Moura, Edu Dracena, Zé Roberto... Dá uma semana que o jogador vai estar pronto de novo. Quando precisar, vamos analisar. Mas rodízio, pontualmente, não faremos. O Vanderlei é capaz de mudar um time inteiro, ele faz essas coisas, mas são coisas de treinador. Se precisar trocar e mexer, todos estarão prontos porque temos três grupos no elenco: G1, G2 e G3. O G1 joga, o G2 vai pro banco e o G3 treina pra cacete! Você não pode deixar o G2 se afastar, porque vai pro banco e não entra ou entra pouco, então fica praticamente dois dias sem treinar direito. É uma preocupação muito grande que a gente vai ter durante o ano.

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