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EXCLUSIVO: Emily Lima abre o jogo sobre futebol feminino: 'Falta amor'

Em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo, Emily Lima relatou as dificuldades do futebol feminino no Brasil e falou sobre sua passagem no Santos e na Seleção 

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Por Priscila Senhorães

Emily Lima treinou a seleção brasileira por 13 jogos(Getty Images)

Emily Lima treinou a seleção brasileira por 13 jogos | Getty Images

Entre histórias polêmicas e de representatividade, Emily Lima sempre foi um nome forte no futebol feminino. Antes jogadora e com passagens pela seleção brasileira e pelo Santos como treinadora, a ex-volante não costuma fugir dos problemas que a modalidade encontra no Brasil. 

Com o currículo grande e conhecimento profundo da área e das pessoas que dela participam, Emily tem opinião formada sobre o que falta para que seja possível buscar melhores horizontes para o futebol feminino no Brasil.

Falta amor no trabalho, nas pessoas que trabalham com futebol feminino. Quando tem amor, carinho e prazer as coisas acontecem. As pessoas que trabalham no futebol feminino ainda trabalham por obrigação, pelo espaço de estar na Seleção e pelo bom dinheiro que a CBF paga. Então o que falta é o amor, essa vontade de querer evoluir e contribuir com o futebol feminino no país. 
 

A sensação de estar dentro de grandes entidades do futebol brasileiro não é novo para a ex-treinadora da Seleção. Para ela, além da falta de envolvimento das pessoas com o esporte, o problema também está diretamente ligado à estrutura da nossa sociedade.

"Com certeza é totalmente cultural e não digo que é só futebol feminino. Acho que a mulher no Brasil sofre com o preconceito em relação a qualquer espaço que seja mais dominado por homens. Aos poucos estamos quebrando isso. Mas é cultural, leva tempo. Ficamos 40 anos sem poder praticar futebol e tem 40 anos que voltamos a praticar, então é questão de tempo, tem que dar tempo ao tempo, que as coisas estão mudando, o mundo está mudando, o Brasil vai ter que se encaixar e evoluir junto com os outros países", afirma a treinadora.

Emily Lima deixou a CBF após desentendimento com a diretoria | Getty Images

Um dos principais trabalhos de Emily foi no comando do Peixe, já que, assim como ela reconhece, o clube sempre foi referência na modalidade de futebol feminino. No entanto, não deixa de citar a necessidade do mesmo manter o investimento para que não seja deixado para trás. Na sua opinião, o Corinthians já virou o melhor time feminino do Brasil.

Emil

Outra experiência marcante da carreira de Emily foi sua contratação para assumir o comando técnico da seleção feminina de futebol, sendo a primeira mulher contratada para tal cargo e entrando para a história. O rendimento da equipe nas mãos da treinadora não foi decepcionante. No entanto, os 56% de aproveitamento não foram vistos como suficientes para a permanência no cargo: foram 13 jogos com sete vitórias, um empate e cinco derrotas. Em contra partida, Emily admite que existe a possibilidade de sua demissão ter relação com o fato da mesma ser mulher.

Confira na íntegra a entrevista com Emily Lima:

 

  • Efeitos da Copa do Mundo feminina

Futuro próximo eu vejo algo que não vai me surpreender muito. Quando o ano que vem chegar a Olimpíada, vai ter o 'boom' de novo do futebol feminino, porque acabou o Mundial e o que tivemos de futebol feminino no país? qual foi o 'boom'? Nós tivemos a final do brasileiro, foi a maior audiência na Band, mas o que mais? Tivemos o brasileiro inteiro aí sem ninguém saber, ninguém sabe de futebol feminino no país, tudo aconteceu por conta da Copa do Mundo, aí sim, foi um 'boom', todo mundo ficou sabendo e tudo mais. Mas e a continuidade do futebol feminino no país? Temos o Paulista, que é o maior campeonato que temos no país, e o Brasileiro, e quase ninguém tá sabendo, quase ninguém vai assistir. No Santos mesmo iam 50, 60, 100 pessoas assistir os jogos, então não vejo em um futuro muito próximo algo que possa nos surpreender. Acho que a médio longo prazo possa ser que as coisas se modifiquem, eu vou torcer pra que tudo dê certo, pra que as coisas aconteçam, porque esse é o nosso mercado de trabalho e temos que fazer com que isso tenha uma evolução, não digo rápida, mas uma evolução concreta, pra que não possa acabar como sempre acaba, e volta, reativa, acaba, reativa de novo... tem que ser a longo prazo e algo que seja concreto.

Emily Lima acredita ter sido demitida da Seleção por ser mulher | Getty Images
  • Sobre representatividade de Tatiele Silveira sendo campeã brasileira com a Ferroviária

Representa demais, e ainda a gente tem que ouvir algumas pessoas que não tínhamos mulher no Brasil pra assumir a Seleção Brasileira, né? Tá aí uma grande prova. Ela já esteve na Seleção de base do Luizão como assistente técnica, acabou sendo dispensada com uma derrota. É cultura. Você vê aí quantos treinadores do futebol masculino já trocaram de clube em menos de dois meses... é absurdo. Ela sai do Inter dessa forma, faz um excelente trabalho na Ferroviária e é campeã do Campeonato Brasileiro que é o mais difícil do nosso país. Sou amiga dela, admiro ela, sempre tento indicá-la pra tudo que a gente faz sobre futebol feminino e ela está aí provando que é mais uma mulher que pode fazer o trabalho que o homem faz. 

  • Sobre contratação de Pia Sundhage

Eu acredito que foi uma jogada muito interessante e muito boa, é uma treinadora que sabe muito de futebol feminino, teve experiências, tem um currículo invejável com título mundial, olímpico. Foi uma tacada muito certa desde que a Seleção dê munição pra ela trabalhar, dê condições de trabalho para que ela possa chegar onde ela chegou com outras seleções. Não basta só trazê-la e não oferecer o que ela precisa, mas vamos aguardar, está no começo do trabalho ainda, acredito que se der aval pra ela que possa trabalhar e munição também, acredito que a seleção possa nos dar o que tanto buscamos.

Emily Lima defende que a seleção feminina tenha seu próprio uniforme | Getty Images
  • Sobre diferença de salários entre o futebol feminino e o futebol masculino

O futebol é um negócio, o que traz renda pra dentro da CBF é o masculino. Poderia ser melhor, um pouco melhor, a diária das meninas? Poderia. Mas acho que temos que ir com calma nesse sentido de salário, de igualar o salário do masculino e do feminino, mesmo porque eu acho que o salário do masculino está fora da realidade. Não é possível uma pessoa ganhar tanto dinheiro assim por mês, sendo que temos tanta gente passando fome. O futebol saiu fora da realidade. Então eu acho que o futebol feminino só precisa ser respeitado e pago o que é necessário. O futebol feminino também pode trazer dinheiro pra dentro da CBF, basta as pessoas terem amor e carinho e correrem atrás desses patrocinadores, porque enquanto eu estive lá, apareceram dois, mas que não deram muita atenção: 'ah, não, onde vamos colocar na camisa da Seleção?'. Então eles falam que o futebol feminino gasta dinheiro, mas também não podem colocar os patrocinadores que chegam lá na camiseta. O assunto futebol feminino é muito extenso, tem muitas brechas que a gente pode estar falando e que a gente não sabe.

  • Sobre a Seleção feminina usar a camisa com cinco estrelas, conquistadas pela Seleção masculina

Eu acho que a gente tem que ter a nossa camisa e o masculino tem que ter a camisa deles. Não podemos levar as estrelas que foram conquistas do masculino. É o que eu falo da cultura, a gente ainda tem dirigentes com cabeças muito fechadas. Se você for nos EUA, as meninas têm a camisa feminina, que tem as estrelas delas, o masculino não leva as estrelas delas, tem o seu escudo sem as estrelas. Na Holanda os homens usam o leão como escudo, e as meninas têm a leoazinha, tipo assim, as pessoas vão se adequando dentro do futebol feminino, porque o mundo do futebol feminino é muito novo, então as pessoas vão evoluindo, as marcas... a própria Nike, ela deu essa ideia pra Holanda e a Holanda falou: 'poxa, que bacana'. E a Nike foi também na CBF falando para fazer uma camisa só pras meninas e as pessoas acham que não deve. Eu acho que deveria ter uma camisa somente do feminino e uma somente do masculino.
 

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