Futebol Brasileiro

Ele superou grave lesão e depressão para ser bicampeão pelo Palmeiras; hoje, brilha na Ásia

Revelado pelo Palmeiras, Thiago Martins foi campeão dos Brasileirões de 2016 e 2018 pelo clube e se transferiu para o Yokohama Marinos, do Japão

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Por Leonardo Ferreira

Thiago Martins virou ídolo do Yokohama Marinos, no Japão(Getty Images)

Thiago Martins virou ídolo do Yokohama Marinos, no Japão | Getty Images

27 de novembro de 2016, Estádio Allianz Parque, em São Paulo. Jogo: Palmeiras 1 x 0 Chapecoense.

O árbitro Anderson Daronco sopra o apito pela última vez, enquanto o estádio vai à loucura com o nono título brasileiro da história palmeirense. Na comemoração da conquista, um filme passa na cabeça de um jogador em especial: Thiago Martins Bueno.

A euforia e o arrebatamento por aquele momento contrastava peremptoriamente com a dor aguda de dois anos antes, quando o zagueiro, então aos 18 anos de idade, imaginava não poder sequer seguir com o sonho de ser jogador de futebol. Sentir o gosto de ser campeão dentro do campo? Nada disso.

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Uma grave lesão no joelho, sofrida em um treinamento do clube, colocou em xeque tudo o que o garoto natural da diminuta cidade mineira de São João Evangelista havia traçado como parte de seus planos para a vida.

"Foi um baque muito grande. Não sabia o que seria da minha carreira, se teria mais uma oportunidade, ou como voltaria da lesão. Era tudo muito novo", lembra Thiago, com a voz embargada, em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo.

Àquele momento, tudo o que passava pela cabeça do jovem jogador era um sentimento comum para pessoas que sofrem reveses na vida: o abatimento.

"Deu uma balançada na questão emocional. Precisei fazer um trabalho psicológico muito forte, porque muitas vezes eu não queria ficar perto de ninguém, queria sofrer sozinho. Não queria passar esse sofrimento com minha família. Na época, minha namorada morava em outra cidade, eu morava sozinho. Isso foi me massacrando."

É nessas horas em que o apoio familiar, e das pessoas próximas, pode ajudar. Com Thiago Martins, a saída não foi diferente. O papel do pai, Dênis, da mãe, Daniela, e da então namorada - e hoje esposa -, Bianca, foi preponderante para a evolução mental do atleta.

"Graças a Deus, na hora que vi que fui evoluindo na questão de fisioterapia, que eu estava voltando a correr e conseguindo bater na bola, isso me ajudou muito a ter a confiança e a vontade de voltar a colocar meu nome na história do Palmeiras. Foi isso que fiz. Consegui retornar com a cabeça tranquila para continuar a carreira", conta.

Da queda à glória

Thiago pôde, então, se reerguer. Aliado ao trabalho mental, os empréstimos a Paysandu e Bahia logo após seu retorno aos gramados foram benéficos para sua plena recuperação. Em 2016, em conjunto com aquele time treinado por Cuca, ele participou de 31 partidas durante o ano e foi um importante substituto para os titulares Yerry Mina e Vitor Hugo.

"Foi um grupo sensacional, que ficou marcado para mim, por tudo que vivemos e fico muito feliz por ter participado desse título. A gente se fechou muito. Estávamos com o propósito de não importava o que acontecesse, nós iríamos nos fechar, nos dedicar ao máximo para que conseguíssemos sair com o campeonato. Todos os jogos e todas as adversidades a gente conversava e falava que conseguiria passar por cima", diz.

Thiago Martins comemora gol marcado pelo Palmeiras em 2016. Foto: Daniel Vorley/AGIF

Naquela temporada, foram 80 pontos ganhos, o melhor ataque (62 gols marcados), a melhor defesa (32 sofridos) e um estilo de jogo direto e ofensivo, que ficou marcado pelo dedo de Cuca. Thiago Martins, aliás, nutre até hoje muita admiração pelo antigo treinador, com quem conseguiu atuar com maior frequência pela primeira vez na carreira.

"Ele me deu muitas oportunidades, por tudo que ele me proporcionou. É um cara sensacional, todo rachão que ele participava, ele brincava, mas ao mesmo tempo um cara muito sério, que tinha suas convicções. Então, tudo que eu pude aprender, agregar ao meu profissionalismo, ele me ajudou bastante. Agradeço bastante por todas as oportunidades que me deu", afirma.

Depois de quase dois anos longe, porém, engana-se quem pensa que Thiago não pensa mais no seu ex-time. Seu desejo, aliás, é algum dia retornar ao Palestra Itália para seguir escrevendo sua história de verde e branco.

"Todas as vezes que eu saí do Palmeiras, eu sempre coloquei na minha cabeça que eu preciso fazer o meu melhor, me dedicar, para poder algum dia voltar para o Palmeiras e mostrar meu potencial.Tenho um carinho muito grande pela instituição, pela torcida. Espero um dia voltar, sim, e jogar mais uma vez com a camisa do Palmeiras, pra eu poder marcar ainda mais o nome na história. Tenho esse sonho de poder voltar, ser importante pro clube e poder ajudar o Palmeiras independentemente do campeonato", diz.

Ídolo na Ásia

Thiago Martins recebe prêmio de melhor zagueiro da J-League. Foto: Getty Images

Após ajudar por alguns meses na caminhada do Palmeiras rumo ao título brasileiro de 2018, Thiago Martins recebeu sua primeira chance no futebol internacional: o Yokohama Marinos, do Japão. No país asiático, o zagueiro se adaptou rapidamente e logo virou ídolo dos torcedores por suas boas partidas com a camisa azul.

"Eles já me reconhecem aqui, tenho uma gratidão muito grande, porque, desde que eu cheguei, eles me apoiavam muito quando me viam. Mesmo eu não entendendo o que eles queriam me dizer, eles sempre estavam querendo meu melhor pra eu me sentir em casa. Me senti cada vez mais leve. Sempre muito tranquilo. Não só os jogadores, mas também a torcida. Isso me fez ultrapassar uma etapa de conhecer melhor o país, de entender o futebol e deslanchar."

E como deslanchou. Na campanha que culminou com o título da J-League de 2019, o zagueiro foi eleito o melhor da posição no torneio e acabou escalado no melhor 11, ao lado de ninguém menos que Andrés Iniesta, ex-craque do Barcelona.

"Fiquei muito feliz. Quando vim para o Japão, nunca tinha sentido essa sensação de ser titular absoluto, de ajudar o quanto pude ajudar os japonenses, então fico muito feliz por estar entre os 11 melhores. Tem o dedo do treinador (Ange Postecoglu, australiano), porque o método que a gente joga aqui é muito diferente de como a gente joga no Brasil. Ele sempre disse pra gente confiar no nosso futebol."

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