Futebol Brasileiro

Fortaleza: cortes nos salários de elenco e diretoria salvam funcionários

Elenco foi o primeiro da Série A a fechar um acordo; Tricolor cearense conseguiu manter colaboradores sem atraso nos pagamentos

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Por Bruno Formiga e Monique Danello

Fortaleza na 1ª fase da Copa Sul-Americana, contra o Independiente, da Argentina(Kely Pereira / AGIF)

Fortaleza na 1ª fase da Copa Sul-Americana, contra o Independiente, da Argentina | Kely Pereira / AGIF

Já são quase dois meses sem futebol no Brasil por conta da pandemia da Covid-19. Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica para equilibrar receitas e despesas. A crise financeira já bateu na porta de todos os clubes. E com o Fortaleza não foi diferente. O estrago, porém, tem sido bem menor do que se imaginava.

 

 

O Tricolor renegociou prazos de pagamento com fornecedores e, até o momento, não tem salários atrasados e nem precisou demitir funcionários. Mas, conforme a paralisação se estende, a situação fica cada vez mais complicada. O Esporte Interativo conversou com o presidente do clube, Marcelo Paz, que foi bem direto ao definir a real situação do Leão do Pici.

 

 

 

O mês de abril já foi difícil, maio será muito apertado, chegando em junho não sei mais como vamos conseguir manter as coisas em dia, a não ser que apareça algum recurso externo.

 

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Acordo com os jogadores garante permanência dos funcionários

 

O Fortaleza foi o primeiro clube da Série A a divulgar acordo com o elenco profissional para redução de salário durante a pandemia. A conversa aconteceu ainda no fim do mês de março, cerca de dez dias depois do início da paralisação. O grupo e a diretoria fecharam uma redução de 25% dos vencimentos de março e abril. Para o mês de maio, essa conversa voltou a acontecer, novamente com um acordo selado.

 

 

 

 

“Quando a gente viu o início do problema e que isso iria impactar nas finanças, a maior preocupação foi preservar os empregos e não ter que demitir ninguém. Os primeiros a negociar foram os jogadores. Eles entenderam que era importante que eles abrissem mão para manter os empregos, foi um fator de sensibilização, até agora não demitimos ninguém”, explicou Paz.

 

 

Representados por algumas de suas lideranças - nomes como Wellington Paulista, o capitão Juan Quintero, Marcelo Boeck, Roger Carvalho e Ederson – o elenco entendeu a necessidade de ceder para ajudar os funcionários. A redução de salário do grupo foi fundamental para a criação do programa chamado de ‘Rede de Proteção ao Funcionário’. Além dos jogadores, diretores e comissão técnica também tiveram redução salarial, para que os demais colaboradores permanecessem com seus trabalhos durante a pandemia.

 

 

Seria impossível se eles não cedessem, em qualquer clube de futebol o maior peso é a folha de jogadores e a comissão. A redução por parte deles é fundamental, o salário de dois jogadores pode pagar a folha de todos os funcionários. São realidades diferentes e eles têm que entender o contexto. Até aqui estou muito grato.

 

Novo perfil de contratações e desejo de seguir jogando no Castelão

 

A incerteza em relação ao tempo de paralisação dos campeonatos também atrapalha no planejamento da temporada. Além da manutenção dos seus principais jogadores e do técnico Rogerio Ceni, o Fortaleza foi buscar reforços, principalmente para o meio campo e o ataque. Campeão da Libertadores da América com o Grêmio, o volante Michel foi um dos grandes nomes anunciados pelo Tricolor em 2020. O clube também foi buscar uma dupla revelada pelo Flamengo e que se destacou na disputa da Taça Guanabara: o meia Luiz Henrique e o atacante Yuri César. Para aumentar ainda mais o seu poder ofensivo, chegaram também Edson Cariús, que assinou pré-contrato ainda no ano passado, e David, que estava no Cruzeiro.

 

Torcida do Fortaleza tem sido um alicerce do clube nos últimos anos | Crédito: Kely Pereira / AGIF

 

Pensar em reforços neste momento é praticamente inviável, mas o presidente Marcelo Paz entende que pode ser necessário, com a projeção de um calendário ainda mais apertado em 2020. O grande objetivo do Fortaleza no Campeonato Brasileiro é a permanência na Série A, sem deixar de sonhar com a conquista de uma nova vaga em uma competição internacional. Para manter um elenco competitivo, a diretoria terá que fazer contas e buscar reforços que se enquadrem neste novo orçamento.

 

 

“Temos que readequar, não tem como achar que será o mesmo. Se os clubes soubessem que em março teria essa pandemia, ninguém teria formado o elenco que formou, teria feito um elenco mais barato, não teria comprado jogador. Mas, quando voltar a disputa, não vai deixar de ser uma disputa. Se tiver uma lacuna, vamos tentar resolver, porque ficar na Série A será muito importante para o Fortaleza. De repente mudando um pouco o perfil, o jogador X ganharia 100 mil, vamos trazer um parecido que ganha 60 mil, com investimento menor, com cautela, olhando novos números, mas sem deixar de competir em alto nível. Será dificílimo e já vamos ter a ausência da torcida. Em um campeonato em que muito provavelmente os jogos serão sequenciais, quem tiver elenco vai se dar melhor”, analisou Marcelo Paz.

 

 

Com o calendário abarrotado de jogos e sem contar com o apoio do torcedor, o Fortaleza não quer perder também a vantagem de jogar em um gramado que já é habitual para o elenco. O clube espera contar com o bom senso das autoridades para seguir mandando seus jogos na Arena Castelão, sem precisar arcar com os custos de operação do estádio em dias de jogos.

 

 

“Eu pretendo continuar jogando no Castelão, porque já vamos ter uma perda do torcedor, que é um fato importante para a gente, e o gramado também é importante, um campo que estamos acostumados, não queremos perder isso. Quero jogar lá e acredito que vamos chegar num entendimento com o Governo do Estado para se cobrar pouco ou não cobrar, porque será um uso bem mais moderado. Nossa intenção é continuar jogando lá”, declarou o dirigente.

 

 

Fortaleza se prepara para retorno das atividades

 

Na última semana, a cidade de Fortaleza começou a colocar em prática o chamado "lockdown", com medidas mais restritivas de tráfego e circulação de pessoas como forma de conter o avanço do novo coronavírus. Não há previsão para o retorno das atividades esportivas, mas o Tricolor já se prepara para retomar os treinamentos, assim que forem autorizados.

 

Crédito: Kely Pereira / AGIF

 

O Leão do Pici já adquiriu testes para Covid-19, que serão realizados no elenco, na comissão técnica e em membros do departamento de futebol, assim que os treinamentos forem liberados.

 

 

Após as férias no mês de abril, o elenco se "reapresentou" por vídeo ao vivo. O departamento físico e de fisiologia do clube criaram um treinamento virtual, feito diariamente, com a presença dos membros da comissão técnica. Os atletas realizam exercícios e atividades sob a coordenação da fisiologia. Ao mesmo tempo, o Fortaleza prepara um protocolo médico rígido, para quando os treinos presenciais forem autorizados.

 

 

“Só quero voltar quando tiver autorização das autoridades, não adianta falar que estou com protocolo pronto, porque somos exemplos para a sociedade. Nosso Governador estendeu o decreto, com medidas mais duras, não posso ir na contramão e querer a volta do futebol. Estamos fazendo tudo para ficar pronto, para quando tiver a ordem, a gente poder voltar no dia seguinte. Higienização, adquirimos testes, montamos protocolo, não vai ter vestiário, teremos menos funcionários trabalhando, quartos separados, jogadores vão lavar material em casa, cuidados com refeição, eles farão em casa, somente um lanche será deixado no apartamento deles. Tudo isso para dar mais segurança tanto para quem vai trabalhar, quanto para os familiares”, explicou Marcelo Paz.

 

 

Comunicar (bem) é preciso

 

Se tem algo que o Fortaleza tem feito muito bem é comunicar. De 2018 para cá, o departamento de marketing do clube já ganhou prêmios na Argentina, em Portugal e, claro, no Brasil. Mas nenhuma dessas campanhas chega perto do desafio imposto pela pandemia: falar com o torcedor de forma transparente, direta e, principalmente, sensível.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ohana quer dizer família. Família quer dizer nunca abandonar ou esquecer. ❤️�� #FamíliaDeLeais

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Para administrar a crise, o Fortaleza sabe que precisa do seu torcedor. Porém, sabe também que o momento é duro. E fazer esse mesmo torcedor chegar junto para ajudar, mesmo sem jogos e muitas vezes sem dinheiro sobrando, não é fácil. No começo deste mês, o clube promoveu uma live para celebrar os cinco anos do gol histórico de Cassiano na final do Campeonato Cearense de 2015, que deu o título ao Leão. Com duração de quase 7 horas, 15.705 ingressos virtuais foram vendidos por R$5 cada. Com essa ação,  o clube conseguiu um faturamento de R$140 mil.

 

 

“Tudo bem que estamos pedindo dinheiro para a manutenção de base, dos funcionários, mas não podemos ser tão comerciais nesse momento. Não estamos criando oferta de varejo. É mais para proteção do funcionário e sócio, arrecadando para pagar quem trabalha no grupo. Não dá para pedir toda hora, não temos muito a oferecer, eles têm outras prioridades em casa”, ressalta o gerente de marketing Márcio Persivo.

 

 

A estratégia está funcionando. O Fortaleza tem conseguido manter um balanço positivo no seu plano de sócio-torcedor até aqui. O clube garante não ter sofrido com cancelamentos no programa, mas viu a inadimplência subir 20% desde que o futebol foi suspenso.

 

 

“A primeira coisa que a gente fez foi prorrogar por dois meses (o contrato) para quem já era sócio, imaginando que seria o período da paralisação. Depois, fizemos promoção de 40% para quem quisesse entrar, mas também para quem quisesse renovar. A gente prorrogou essa promoção”, lembra Márcio, que também investiu em uma comunicação massiva para negociar atrasos e perdoar dívidas dos inadimplentes.

 

 

Márcio tem total suporte do diretor de marketing Marcel Pinheiro. Os dois bolaram também descontos exclusivos para sócios que seguiram pagando em dia as mensalidades – a base segue na casa dos 30 mil. E criaram ações de exposição para os patrocinadores do Fortaleza.

 

 

O clube, por sinal, não perdeu parceiros durante a crise. Empresas que suspenderam os pagamentos após acordos tiveram os contratos estendidos para compensar o período sem partidas.

 

 

“Temos tentado fazer ações nas redes (sociais), com desafios interativos expondo o patrocinador, pegando algo peculiar do mercado dele e fazendo post de interação”, explica Marcel Pinheiro. “Temos tentado dar espaço e apoiar ações, como a MRV fez o ‘Copa em Casa’, campeonato de vídeo game entre clubes patrocinados por ela. Todo suporte para ações que vêm de patrocinadores estamos dando. Seja em postagem, em live, essa é preocupação, independente do mercado”, completa.

 

 
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