Futebol Brasileiro

Jogadores brasileiros enxergam na Coreia do Sul o novo trampolim para alcançar o futebol chinês

Mais de 20 atletas brasileiros estiveram envolvidos em transações no futebol sul-coreano nas últimas duas janelas de transferências do país

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Por Rodrigo Fragoso

André Gaspar fez muito sucesso na Coréia do Sul(Arquivo Pessoal)

André Gaspar fez muito sucesso na Coréia do Sul | Arquivo Pessoal

Paulinho, Renato Augusto, Moisés, Elkeson, Ricardo Goulart, Ralf, entre outros vários nomes do futebol brasileiro conseguiram grande destaque na Série A e, por isso, receberam o tíquete dourado para alcançar a independência financeira na China. Porém, um caminho alternativo e mais discreto para chegar ao futebol chinês passou a existir recentemente e já parece consolidado por meio do trabalho de um grupo de empresários brasileiros: um bilhete de ida à Coreia do Sul.

ALTERAÇÕES NAS REGRAS MODIFICARAM CENÁRIO DO FUTEBOL CHINÊS

A Federação Chinesa já sinalizava desde 2018 que faria algumas mudanças nas regras do mercado da bola dentro de seu país. Modificações em relação ao número de estrangeiros por elenco e teto salarial entraram em discussão. No ano passado, os anúncios foram feitos para a temporada de 2020, gerando impacto grande na relação da China com o mercado da bola mundo a fora. 

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"Eles aumentaram o número de estrangeiros, mas abaixaram o orçamento dos clubes e salário máximo para aqueles que vinham de fora do país. Os vencimentos se limitam a três milhões de euros por temporada, o que afasta jogadores de salário maior", conta Vinicius Nascimento, de 32 anos, sócio da Three Sports Group, que identificou potencial no mercado sul-coreano e tem o país como grande área de atuação. O empresário ainda completa: "Os chineses têm a possibilidade de pagar três milhões de euros e colocar mais dinheiro em premiação e bônus, mas não conseguem fugir tanto disso. Com dificuldade de buscar jogadores de salários astronômicos e estrelados, eles começaram a olhar para a Coreia do Sul, pois é uma liga respeitada na Ásia e são jogadores já adaptados a cultura asiática".

O empresário Vinicius Nascimento posa ao lado de Dario Pereira, brasileiro que deixou o Azerbaijão para atuar pelo Daegu, na Coreia do Sul, em 2019 (Instagram/Vinicius Nascimento)

COREIA DO SUL COMO CAMINHO LUCRATIVO DE ADAPTAÇÃO E VISIBILIDADE

Embora não deixe de atuar no mercado brasileiro, com participações diretas, por exemplo, nas negociações de jogadores badalados como Yony González para vestir a camisa do Corinthians e Gustavo Henrique para chegar ao Flamengo, a TSG tem como um dos principais focos o mercado sul-coreano justamente pelas condições que ele passou a oferecer a jogadores que não conseguiram alçar voos maiores no Brasil ou em outros mercados menores, mas podem alcançar salários superiores aos dos principais craques que atuam por aqui.

"A Coreia do Sul se tornou a oportunidade dos jogadores que a gente enxerga qualidade e potencial, mas no momento da transição da base para o profissional ou até na fase seguinte não conseguiram estourar por aqui. É o mercado de entrada para que o jogador possa buscar seu espaço, ganhar destaque, criar uma identidade e conseguir uma transferência para a China, onde existe possibilidade de ganhar 3 milhões de euros por ano, o que pode fazer a independência financeira de qualquer jogador", explica o empresário Bruno Martins, de 33 anos, sócio da TSG, que ainda complementa sobre a independência financeira: "Dentro do mercado coreano, os jogadores já conseguem iniciar sua independência financeira, porque são bons salários, mas com essa possibilidade de estarem do lado da China e do Japão, com clubes de potencial financeiro maior do que os da Coreia, com exceção do Jeonbuk Motors, Ulsan Hyundai, e Seoul FC, os três clubes que ainda tentam competir, porém com os impostos do país dificilmente chegam perto de valores oferecidos pela maioria dos clubes chineses ou japoneses".

Na década passada, o técnico brasileiro André Gaspar viveu a experiência de jogar por três anos no Seoul E-Land FC para, na sequência, ser contratado pelo clube chinês Quindao. Quando se tornou treinador, voltou ao Brasil e livrou o Bragantino da queda para a Série C do Brasileirão em 2014, mas seu destino era mesmo a Ásia: em 2015 iniciou uma sequência de cinco anos de trabalho no Daegu-COR, da Coreia do Sul, onde conquistou o acesso para a primeira divisão em 2016 e foi campeão da FA Cup em 2018, se tornando também, em 2019, o comandante da primeira campanha da história do clube na AFC (Champions League Asiática). Depois de quase nove anos de trabalho na Ásia em seu currículo, o treinador relata que o futebol da Coreia do Sul é visto, de fato, como importante para qualquer jogador que quiser atuar na região. 

André Gaspar treinou o Daegu por cinco anos e fez muito sucesso na Coréia (arquivo pessoal)

"Eu fui atleta, joguei três anos na Coreia e, depois, fui para a China. A Coreia do Sul tem um campeonato muito organizado, difícil de ser jogado na parte tática, no vigor físico e, por isso, muito se fala na região que os jogadores que se destacam no futebol coreano podem se destacar nos países vizinhos, como Japão e China, que pagam salários ainda maiores", argumenta o atual treinador do Al-Hazen, da Arábia Saudita.

ATACANTES BRASILEIROS SÃO EXEMPLOS DE SUCESSO NA TRAJETÓRIA PARA A CORÉIA DO SUL

O atacante Ricardo Lopes é um dos exemplos de quem recentemente cumpriu a ida para a Coreia do Sul e alcançou o futebol chinês. Aos 29 anos, Ricardo Lopes teve passagens discretas por Ituano-SP, Globo-RN e Fortaleza até ganhar destaque e sequência atuando no futebol sul-coreano por Jeju United, Jeonbuk Motors e, em 2020, chegar ao Shangai SIPG, um dos principais clubes da China. Marcão, hoje no Hebei Fortune, é desconhecido no Brasil, mas é brasileiro com relevância no mercado asiático. As discretas passagens por Ituano-SP, Guarani-SC e Bragantino contrastam com as duas temporadas artilheiras de seu currículo no Gyeongnam, onde conquistou a Série B coreana em 2017 e marcou 47 gols em 57 partidas ao longo de dois anos, garantindo vaga no elenco do Hebei Fortune em 2019.

Ricardo Lopes foi vendido para o Shanghai SIPG (Divulgação/ Jeonbuk Motors)

Percebendo a movimentação de jogadores como esses e os valores implicados nas transferências que acontecem dentro do mercado asiático, os empresários da TSG participaram de quase uma dezena de transferências de brasileiros para a Coreia do Sul em apenas um ano: "a perspectiva é muito positiva para quem aceita esse projeto alternativo de carreira, pois há jogadores de Seleção atuando no Brasil que recebem salários até mais baixos do que atletas que nem mesmo chegaram a atuar na Série A, mas toparam o desafio asiático e hoje estão contentes em vivenciar uma nova cultura ao mesmo tempo em que financeiramente estão muito melhores do que imaginavam quando aceitaram o projeto", revela Anderson Franciscon, de 33 anos, sócio que completa o trio da TSG.

LEANDRINHO E WILLYAN DOBRARAM SEUS SALÁRIOS EM RELAÇÃO AO FUTEBOL EUROPEU

Formado no Internacional, Leandrinho é um desses jogadores que não encontraram espaço no Brasil e optaram por seguir esse caminho depois de se arriscarem em outros mercados cujos resultados não trouxeram os benefícios esportivos ou financeiros esperados. O atacante passou pelo Arouca, de Portugal, pelo FC Dila, da Geórgia, Maccbi Netanya, de Israel, Sheriff, da Moldávia e agora espera fazer sucesso na Coreia da Sul, atuando pelo Seoul E-Land FC, onde dobrou seu salário em comparação a qualquer outro clube que passou na Europa, e espera chegar ao futebol chinês.

Leandrinho chega ao Seoul E-Land FC e posa para foto com o empresário Bruno Martins (Foto: Instagram Bruno Martins/2020)

"Questão financeira não precisa nem comentar, porque é o sonho de muitos jogadores  atuar na Ásia e eu me sinto muito privilegiado, porque a galera da TSG lutou muito para me trazer pra cá. Estamos muito próximos da China, então a ideia é fazer uma temporada boa e buscar uma estabilidade financeira ainda maior", revela o jogador de 25 anos.


Já o ponta Willyan, de 26 anos, passou por Torino-ITA, Beira-Mar-POR, Nacional-POR, Vitória de Setúbal-POR e Panetolikos-GRE, onde sofria com atraso de pagamento, até chegar ao Gwanju-COR em 2019 e, assim como Leandrinho, dobrar seu salário em relação a qualquer um dos clubes pelo qual atuou anteriormente. 

Após apresentação oficial no Gwangju, o atacante Wyllian posa para foto ao lado do empresário Bruno Martins (Foto: Instagram Bruno Martins/2019)

"Eu jogava na Grécia há um ano e meio, e próximo de acabar a temporada, eu estava com quatro meses de salários atrasados. Quando apareceu a oportunidade de ir para a Ásia, eu não pensei duas vezes. A gente sabe como funciona aqui: todo mês está na conta e ainda tem boas premiações de jogos", conta Wyllian que também relembra a diferença que essa escolha fez na vida da sua família: "eu estava tentando pagar a casa dos meus pais há três anos e quando passei a jogar na Coreia, em um ano a casa já estava paga".

Marcão fez 47 gols em 57 jogos no Gyeongnam (Divulgação / Gyeongnam)

As novas regulamentações chinesas aliadas a perspectiva de sucesso desportivo e financeiro tornaram a Coreia do Sul um destino atraente para os brasileiros que não encontraram o espaço que desejavam no Brasil ou na Europa. Entre a primeira e a segunda divisão coreana, os brasileiros dominam a lista de estrangeiros com 23 atletas inscritos para competir, já que o segundo país com maior número de atletas é a Austrália, com apenas sete jogadores. Nomes que pouco atuaram no Brasil, como Leandrinho, Wyllian, Ricardo Lopes e Marcão se misturam a jogadores conhecidos de grande parte do público brasileiro, como Negueba, Marlone e Willian Barbio. Tudo em prol de uma perspectiva nova de carreira na rica região asiática de futebol.

 
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