Futebol Brasileiro

No Goiás, Sandro revela que rejeitou proposta do City e diz que só jogaria no Grêmio 'em último caso'

Ex-Tottenham, o jogador se disse arrependido pela forma como deixou o clube e ainda admitiu ter recebido sondagens de Real Madrid, Milan, Inter de Milão e, mais recentemente, Vasco

Avatar del

Por Redação do Esporte Interativo

Sandro foi anunciado como reforço do Goiás nesta temporada(Rosiron Rodrigues / Goiás)

Sandro foi anunciado como reforço do Goiás nesta temporada | Rosiron Rodrigues / Goiás

"Quando eu era criança, meus pais foram tentar a vida em Brasília por conta da dificuldade de encontrar trabalho em Riachinho-MG. Meu pai construiu nosso barraco e, até hoje, quando passo por lá, penso onde cheguei". Porto Alegre, Londres, West Bromwich, Antalya, Benevento, Gênova e, hoje, Goiânia. Filho do pedreiro Juaci e da faxineira Rosângela, o mineiro Sandro, de coração colorado, também poderia ter adicionado as cidades de Manchester, Milão e Madrid a essa sequência. Aliás, poderia até ter trocado Antalya pelo Rio de Janeiro.

"O Vasco tentou, mas não conseguimos um acordo. Eu agradeci muito na época, só que o projeto do Antalyaspor era incrível. Já tinham o Eto'o e tiraram o Nasry do Manchestes City, só pra você ter uma ideia", relembra o volante, em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo, que escolheu a Turquia como seu destino para a temporada 2016/2017 por conta de um projeto cuja execução naufragou rapidamente: "muito ego no elenco, muitos galáticos, muitos querendo dar opinião e, no fim das contas, o jovem presidente que bancava tudo saiu, aí os salários começaram a atrasar e tudo desandou".

Sabe tudo de futebol e quer provar que é um dos maiores torcedores do seu time? Clique aqui e baixe agora o Fanáticos! É grátis!

O NÃO AO NOVO RICO MANCHESTER CITY E AS SONDAGENS DE GIGANTES

Anos antes, enquanto disputava a Copa América de 2011, os representantes de Sandro o avisaram de uma vantajosa proposta do Manchester City, novo rico da época. Só faltava uma resposta positivia do jogador para que o negócio se concretizasse, o que não aconteceu. "Era só eu falar sim, mas eu amava o Tottenham. Time de Champions League, a torcida com carinho especial por mim, eu havia conquistado a posição, sendo que passei os primeiros seis meses sem jogar, então dei pra trás. Eu não quis", revelou Sandro.

O City foi o único que formalizou o interesse, mas outros gigantes europeus entraram em contato com seus representantes naquele período. "Alguns clubes estavam me procurando, como o Real Madrid, o Milan e a Inter de Milão. Eu era muito jovem, já havia conquistado a Libertadores, estava firmado na posição no Tottenham logo em meu primeiro ano de Europa e acumulava convocações para a Seleção. Tudo isso só com 21 anos", analisou Sandro, cujo único arrependimento na carreira envolve a sua saída do clube londrino.

POSTURA EM SAÍDA DO TOTTENHAM PODERIA TER SIDO DIFERENTE

"Minha saída do Tottenham começou em uma briguinha com o treinador interino". Aos 31 anos, Sandro entende que poderia ter agido de outra forma quando, após uma discussão com o técnico interino do clube, se envolveu em uma negociação com o Zenit-RUS, na qual sentiu que o clube inglês queria vendê-lo e vislumbrou na oferta um futuro próspero, se frustrando logo depois com a recusa da diretoria dos Spurs.

"Eu tinha uma proposta muito boa do Zenit nas mãos, mas o presidente do Tottenham acabou colocando um preço alto e os russos falaram: 'esse dinheiro a gente não vai pagar'. Aí fiquei na lista de dispensa e, por isso, não treinava com o Mauricio Pochettino. Nas vezes em que ele me chamou, eu falei que não queria. Disso eu me arrependo", revela o jogador, que justifica: "me queimei com o Pochettino e vi que o Tottenham queria me negociar, me vi num cenário em que o treinador não me usaria por conta da minha postura. Eu era um dos mais experientes da Premier League, quatro anos de Tottenham, então poderia ter tido outra postura e esperado mais para sair".

Em meio a esse cenário, Sandro já batalhava contra lesões, fato que pode ter influenciado seu futuro no Tottenham e também na Seleção Brasileira. "A lesão de 2013 aconteceu na minha melhor época. Eu estava jogando 23, 24 jogos seguidos sem quase ser substituído e era considerado um dos melhores volantes da Premier League, também tinha números altos de desarmes, além de fazer alguns gols. Quando vem a lesão, fico sete meses sem jogar", puxa pela memória com um tom chateado de lembrança triste seguida por uma conversa envolvendo o então técnico da Seleção, Luiz Felipe Scolari.

Ele falou para mim: 'volta, faça seu trabalho que você faz parte dessa Seleção. Volta bem, você é parte desse elenco', ele dizia. Aí eu voltei, fiz jogos fortes, mas não aguentava as sequências. Eu sofri com as pequenas lesões que acontecem depois de você ter um problema grande, ou seja, sentia a panturrilha, sentia a coxa e tudo isso me prejudicou. No fim de 2014, ainda deixei o Tottenham", finaliza Sandro, cuja certeza de melhor época ter sido pouco tempo antes desses problemas, embora o momento mais feliz da carreira tenha acontecido anos antes.

MELHOR ÉPOCA NO TOTTENTAM, MOMENTO MAIS FELIZ NO INTERNACIONAL

"O Tite é sensacional. O melhor treinador que eu já tive". A lembrança é de quem tem um carinho especial pelo atual treinador da Seleção Brasileira, que, junto com o auxiliar Cléber Xavier, optou por integrá-lo ao elenco profissional em 2008. "Depois de um jogo contra o Juventude na base, em Caxias, o Clebinho assistiu e todo mundo gelou o coração. Ele nos parabenizou pelo jogo e disse: 'o Sandro não faz mais parte desse time, está no profissional", além de falar de outro companheiro que não me lembro. Fui ao céu e voltei! Nunca vou me esquecer desse dia!", relembrou o volante, que ainda comentou a importância daquela temporada para o futuro de Tite com a conquista da Copa Sul-Americana. "Eu já conseguia ver que ele era técnico para ser campeão mesmo. Não era para trabalhar só dois, três meses. E aquele título ajudou a alavancar a imagem dele".

Aprovado por Osmar Loss e Lisca, na época treinadores das categorias juvenil e juniores, respectivamente, Sandro entrou poucos minutos na importante conquista da Copa Sul-Americana, mas foi peça fundamental, dois anos depois, no bicampeonato da Copa Libertadores da América. Naquele ano, a diretoria do Internacional trocou Jorge Fossati por Celso Roth às vésperas da semifinal da competição. Detalhe: com o consentimento do elenco.

"Fossati jogava num esquema com o qual a gente não ficava muito feliz. O grupo sentia que não rendia tanto e a diretoria também. E ele não trocava as ideias dele. Como o Internacional vivia anos dourados, achou que, mesmo com o time avançando na Libertadores, poderia render mais. Questionaram os capitães e a resposta foi que o elenco não se sentia tão à vontade no esquema e estava de acordo com a ideia, por isso a troca", revelou Sandro.

A taça da Copa Libertadores da América foi erguida por Celso Roth chefiando a comissão técnica e marcou para sempre o coração do jogador. "Lá no Sul é muita chacota. O Grêmio falava muito das duas Libertadores. Quando ganhamos a primeira, em 2006, diziam que demoraríamos muito ou nunca ganharíamos a segunda. Quando ganhamos a festa foi incrível e foi o momento mais feliz da minha carreira. Pena que foi rápido, porque dois dias depois eu tinha de viajar para a Inglaterra", brincou Sandro.

"GRÊMIO? SERIA A MINHA ÚLTIMA OPÇÃO"

"Não vou mentir, seria minha última opção". Os anos de base e profissional dentro do Beira-Rio mexeram com o coração do mineiro de Riachinho, que tinha o irmão mais velho Saimon como mais promissor da família, frustrado antes mesmo do início da carreira por conta de um problema cardíaco, quando estava prestes a ter o Goiás como seu primeiro clube profissional. Na época de Internacional, ele fazia os corações da família baterem contra a frustração por meio dos seus passos em Porto Alegre. "Era motivo de orgulho. Naquela época havia o Orkut, eu postava fotos todo dia e já conseguia ajudar minha família mandando dinheiro. Quando eu voltava, via orgulho nos olhos de todos eles".

Orgulho tamanho daquela época que impede o volante de pensar em ser algo normal, um dia, vestir a camisa do grande rival do Colorado. Questionado se o Grêmio cogitou contratá-lo em algum momento da sua carreira, ele foi muito sincero. "Às vezes existe a sondagem no futebol. Isso é normal. Já houve até, mas nada concreto. E tenho que ser realista: seria minha última opção. Não vou mentir, seria minha última opção", reafirmou Sandro, que só viu duas tentativas do Internacional em repatriá-lo durante a sua carreira na Europa.

"Foram duas vezes enquanto eu estava no Tottenham, enquanto eu estava em alta. Depois, não mais. Mas é assim mesmo, muda-se a direção e acontece. Naquela época tentaram fazer eu voltar duas vezes, mas nem mesmo o Tottenham iria me liberar quando tentaram e eu mesmo disse que gostaria de ficar, já que eu havia acabado de chegar na Europa", relembrou o volante, cujo desejo hoje é fazer história no Goiás sem pensar onde e quando pretende parar de jogar.

"Eu quero jogar uns quatro anos ainda, mas quero terminar bem. Quero fazer um grande trabalho no Goiás e fazer história seria perfeito para mim. Comecei a carreira no Brasil e, quem sabe, termino também no Brasil, pertinho da minha família". Difícil imaginar algo diferente diante das coincidências da vida: Sandro, hoje, mantém a forma física em um sítio de Riachinho-MG, cidade da sua família, até que o Goiás, que poderia ter sido o primeiro clube de seu irmão, volte a treinar para que ele retorne aos gramados e faça o que mais gosta: levar orgulho à sua família.

Comentários