Futebol Brasileiro

Números impressionantes: técnico do Olímpia 'rouba a cena' com campanha espetacular no Paraguai

Chamados de "tetraterrestres", números dos comandados do técnico Daniel Garnero são similares até mesmo aos do Flamengo de 2019, que quebrou recordes no futebol brasileiro

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Por Rodrigo Fragoso

Daniel Garnero conquistou o tetracampeonato paraguaio com o Olímpia com uma campanha dominante(Getty Images)

Daniel Garnero conquistou o tetracampeonato paraguaio com o Olímpia com uma campanha dominante | Getty Images

Os "Jorges" Jesus e Sampaoli se tornaram exemplos de treinadores no futebol brasileiro. O português ganhou destaque pelo bom futebol e a consolidação rápida de um time campeão nacional e continental, enquanto o argentino levou um elenco pouco badalado ao vice-campeonato brasileiro com qualidade e agressividade. O sucesso desses estrangeiros pode abrir outras portas para treinadores de mesmo estilo nos próximos anos. Um deles acaba de conquistar o tetracampeonato paraguaio, que não acontecia desde 2000, e tem em seu time números parecidos com os do Flamengo, atual sensação do futebol brasileiro: o argentino Daniel Garnero, "novo Tata Martino", é a voz de comando do gigante paraguaio Club Olimpia, e falou de sua visão de futebol com exclusividade ao Esporte Interativo.

INÍCIO DISCRETO NA ARGENTINA

Treinador desde 2008, quando encerrou sua carreira como jogador, Daniel Garnero trabalhou até 2015 na Argentina, onde conquistou apenas uma Copa Suruga com o Independiente e um acesso para a primeira divisão com o Banfield. As primeiras experiências serviram de aprendizado para que ele buscasse um caminho diferente, mas conhecido por grandes treinadores: deixar o país. O Paraguai abriu as portas e sua história começou a mudar.

AMADURECIMENTO E CONSOLIDAÇÃO

No Sol de América chegou em 2015, quando conquistou uma vaga que o clube tentava sem sucesso há 25 anos. No Guaraní chegou em 2016 para desbancar os gigantes do país e levantar uma taça nacional. No convite do Olimpia, em 2018, o reconhecimento de seu trabalho no país. Duas temporadas depois, Garnero e seu elenco são chamados pelo clube de Tetraterrestres pela conquista dos Apertura e Clausura 2018 e 2019. Garnero já é comparado a outro Daniel: Daniel Gerardo Martino, o Tata, argentino que também fez história por times paraguaios e comandou a Seleção do país entre 2012 e 2013.

NÚMEROS "TETRATERRESTRES"

Posse de bola, intensidade e criação de espaços diante de adversários temerosos do ofensivo ataque, liderado pelo veterano e conhecido Roque Santa Cruz, caracterizam o trabalho de Daniel Garnero no Olimpia, que conquistou o título paraguaio de 2019 no último final de semana, com uma rodada de antecedência, ao empatar com o Guaraní por 2 a 2 em casa, no Estádio Manuel Ferreira ou "El Bosque para Uno".

No Apertura, o Olimpia garantiu o troféu sem perder nenhum dos 22 jogos. Foram 16 vitórias e seis empates, obtendo aproveitamento de quase 82% dos pontos. Com 61 gols marcados e 17 sofridos, o time que finalizou em média 15 vezes por jogo alcançou a altíssima média de 2,7 gols por partida. No Clausura, até o último final de semana, foram 16 vitórias, três empates e duas derrotas, culminando em aproveitamento próximo a 81% dos pontos. A equipe de Daniel Garnero diminuiu um pouco sua média de gols por partida para 2,3 em 21 jogos, balançando as redes 49 vezes, sofrendo 15 gols até aqui.

Com posse de bola média de 58% envolvendo os 43 jogos já disputados de Apertura e Clausura 2019, o time de Daniel Garnero só deixou o adversário ter mais posse de bola em quatro duelos. Agressivo, intenso e sufocante, o Olimpia dos 110 gols pode chamar a atenção de qualquer um que pretende ver uma equipe insaciável em campo, como agem também os comandados dos "Jorges" Sampaoli e Jesus. Seria o treinador argentino uma opção para o futebol brasileiro? Confira isso e muito mais na entrevista exclusiva com o técnico Daniel Garnero.


Esporte Interativo - Raros são os jogos em que o Olimpia tem menos posse de bola do que o adversário. Na sua ideia de jogo, uma equipe vencedora tem de querer a posse da bola o tempo todo, mesmo se estiver em vantagem no placar?


Daniel Garnero: A verdade é que nossa proposta é ter sempre a bola. Ser agressivo, atacar, recuperá-la rápido e se defender com a bola. Eu considero que uma equipe que sabe controlar a bola, controla o jogo. E obviamente vai ter uma possibilidade muito maior de ter o resultado.

EI  - Os jornais paraguaios descrevem o estilo de sua equipe como sufocante para o adversário. É isso que você pede para seus jogadores em campo durante os 90 minutos?

DG: Buscamos ser agressivos, ter muita intensidade. Com a  bola, buscamos ter uma maneira de jogo que o rival, para jogar, tem de fazer um esforço grande. Vamos desgastando o adversário. Nisso também está o acerto das jogadas, já que somos uma equipe muito eficiente. Isso também desanima o adversário quando conseguimos abrir o placar.

EI - No Brasil, tivemos dois treinadores realizando trabalhos com estilos muito ofensivos em 2019: Jorge Sampaoli pelo Santos e Jorge Jesus pelo Flamengo. Você já assistiu ao trabalho de algum deles em algum momento? Você entende que seu estilo de jogo é semelhante ao estilo de algum deles?


DG: Jesus agora, por sua conquista na Libertadores, passei a conhecer mais, embora já o conhecesse. Já Sampaoli, sobretudo em La U, acredito que conseguiu uma dinâmica e um grupo de jogadores que o levaram para a Seleção do Chile. Eles fazem a diferença. São treinadores admiráveis por sua insistência, por tentar com a bola, com agressividade, com o jeito deles, se tornarem dominantes no jogo. Ao longo da carreira deles, assim, tiveram sucesso. E isso é fundamental na profissão do treinador. Alguém pode tentar, ter convicção muito clara de jogo, mas se não conquistar títulos, sinceramente, a opinião pública não te valoriza pelo que você faz no campo.

EI - Diferente de 2019, nos últimos anos muitos times brasileiros se destacaram mais pelo poder defensivo do que ofensivo, alcançando seus objetivos com estilos reativos de jogo, no qual depois de marcar um gol, a equipe recua para segurar o resultado e só tentar fazer outro gol se uma possibilidade de contra-ataque aparecer. Agora, com Jesus e Sampaoli fazendo grandes campanhas no Campeonato Brasileiro, os torcedores no Brasil estão querendo ver times que atacam mais e buscam fazer mais gols. O seu time é assim, então me responda: por qual motivo seu time não para de atacar? Por qual motivo você não joga pelo placar mínimo?

DG: Nós temos uma maneira e os jogadores também estão convencidos dela. Nós somente nos defendemos com a posse da bola, sempre tentando fazer com que o rival saia das zonas e espaços que podemos aproveitar para que a gente siga podendo ter agressividade. Em todos os torneios, sobretudo no campeonato nacional aqui no Olimpia, temos a equipe mais goleadora, buscamos ter um equilíbrio para ter a defesa menos vazada e isso aconteceu em vários torneios. Eu creio que nossa maneira e o convencimento dos jogadores faz com que tenhamos esse rendimento e sejamos muito difíceis de ser batidos pelos rivais.

EI - Muitas pessoas no Brasil carregam preconceito contra os campeonatos da América do Sul, geralmente considerando competições fracas sem nem mesmo acompanhá-las. Você acha que conseguiria realizar esse trabalho de números ofensivos tão bons em outros países da América do Sul, como no Brasil, ou concorda com as pessoas que dizem que é mais fácil comandar um grande nos países vizinhos do que aqui?

DG: Creio que é preciso ver a competição e o potencial dos rivais. Aqui no Paraguai há três equipes muito fortes, principalmente no quesito econômico, com dinheiro para formar grandes times: Olimpia, Cerro Porteño e Libertad. Há esse grupo diferenciado, enquanto o restante não tem tanto poder financeiro. Já no Campeonato Brasileiro, há um grupo muito maior, de equipes com muito mais dinheiro, melhores treinadores, melhores jogadores, então a competição é mais exigente e equilibrada. Mas, como em todas, se você chegar entre equipes assim em qualquer campeonato, o convencimento dos jogadores com um bom elenco pode alcançar o objetivo que você propõe. Disso eu não tenho nenhuma dúvida.

EI - Roque Santa Cruz é artilheiro do seu time com ótimos números desde 2018. São 42 gols em 79 jogos. Só nesse ano, foram 27 gols em 40 partidas até essa semana. Aos 38 anos, Roque Santa Cruz tem disposição e condição física para jogar em tão alto nível por mais quanto tempo?

DG: Tem a ver com seu estado de ânimo. Hoje, Roque está num estado ótimo. Quando chegamos ao Olimpia, se falava muito de sua saída, que não havia retornado bem, que pouco participava. E a verdade é que tínhamos certeza de que ele se transformaria no jogador mais importante da equipe. E com trabalho, esforço e convencimento, hoje Roque é o jogador mais importante do elenco nos seus 38 anos. É o mais decisivo e de maior eficiência. Em toda equipe, o goleador e o goleiro são muito importantes. Nós entendemos que nessas duas posições temos jogadores que fazem total diferença no campeonato paraguaio.

EI - William Mendieta jogou no Palmeiras, aqui no Brasil, em 2013 e 2014, mas não conquistou o torcedor. Hoje ele é camisa 10 de seu time e terceiro artilheiro da temporada, com 13 gols em 29 jogos, sendo titular em 24 deles. Embora tenha enfrentando uma lesão, explique um pouco da sua importância tática para a equipe.

DG: Mendieta é totalmente identificado com o clube, muito importante no elenco e no time titular. No último semestre, lamentavelmente teve uma lesão muito grave em uma partida amistosa realizada no início da temporada. Ele havia feito uma pré-temporada excelente, estava muito focado para o início da Copa Libertadores e lamentavelmente ficou três meses fora depois desse amistoso. Recentemente passou a retomar ritmo de jogo, mas "Willie" é muito importante, um dos goleadores da equipe. Lá no início, tínhamos a ideia de ter Roque, Willie e Camacho no campo, fizemos tudo para conseguir e a verdade é que nos deram muitos bons resultados, porque esse tridente conduz a equipe e faz muitos gols juntos.

EI - Seu time tem o melhor ataque do ano no Paraguai e já marcou 110 gols em 43 jogos. Sofreu apenas 32 gols nessas 43 partidas e é também a melhor defesa, somando Apertura e Clausura 2019. Como formar um time tão forte ofensivamente e também defensivamente?

DG: Buscamos jogadores que se adaptem rápido a nossa maneira. Sobretudo defensivamente. Hoje em dia o futebol é muito dinâmico e todos têm de participar de todo o jogo. Na parte ofensiva, não pedimos nada de outro mundo, nada que um jogador de característica ofensiva não tenha feito antes. Entretanto, defensivamente, sim, a participação do goleiro, dos dois zagueiros e do volante de contenção é diferente. O nosso jogo passa muito por ali. Nós, quando buscamos reforços nesses setores, temos 50% que já participaram de times que tinham ideias similares às nossas, onde é muito importante o início da jogada para sua conclusão.

EI - Os atacantes Julián Benítez e Fernando Cardozo, além do defensor Patiño, foram as perdas com maior número de jogos que você teve de 2018, quando fez outro trabalho com ótimos números, para 2019. Para colocar em prática esse estilo de jogo que você aplica no Olímpia, é preciso um elenco com características muito específicas ou qualquer grupo pode jogar ofensivamente?

DG: Buscamos ter equilíbrio e sermos uma equipe agressiva. Nos importa que essa agressividade gere boas conclusões de jogadas para que o rival não tenha possibilidade de contra-atacar, pois nós, para termos a bola e impedirmos que o rival se feche demais, temos de nos expor e criar abertura no campo para encontrarmos jogadores livres com tempo para aproveitar o espaço. Nisso somos muito exigentes: construir bem a jogada, encurtar os espaços e ser agressivo se perder a posse de bola. Depois é preciso ser ordenado na transição defensiva, sobretudo aqueles que estão especificamente preparados para a perda da posse de bola. Creio que estamos tendo sucesso.

EI - Você costuma praticar o rodízio de jogadores no time titular, descansando atletas nas rodadas, ou costuma definir um time titular e colocá-lo em campo sempre que possível, sem poupar jogadores?

DG: Eu tenho a ideia de ter sempre uma base e achar uma equipe titular. Gosto que o jogador sinta isso. Obviamente que, por exemplo, esse 1° semestre de 2019 foi muito exigente, a redução de tempo por conta da Copa América fez com que tivéssemos 11 partidas em meio de semana por 16 semanas. Aí procuramos ter um funcionamento mais geral, de forma que as mudanças fossem sentidas o mínimo possível no time, com uma ideia clara. Obviamente a característica de cada jogador vai dar maior importância para as virtudes que tenha, mas no geral, temos uma ideia muito clara com os jogadores. Aqueles que chegam ao clube e aqueles que temos a sorte de termos aqui tornaram tudo muito simples.

EI - Em 2018, o Olimpia cai para o Junior Barranquilla antes da fase de grupos da Copa Libertadores da América. Em 2019, o Olimpia se classifica em primeiro lugar no seu grupo, mas é eliminado pela LDU nas oitavas de final. Por que o Olimpia, na Libertadores, não consegue repetir o sucesso que tem em seu campeonato nacional?

DG: Em 2018, tínhamos acabado de chegar ao clube. Foi nossa primeira participação, nossa estreia coincidiu com o início da Libertadores, então ainda não havia esse funcionamento que buscávamos. Ainda assim, fomos superiores ao Junior. Ganhamos em casa, conseguimos o gol de visitante e uma distração, pois tínhamos a partida totalmente controlada, pela qualidade individual de equipes como essas, fez com que terminassem nos eliminando. Já na segunda participação fiquei muito irritado, pois lamentavelmente não chegamos com a equipe em ótimas condições. Por motivos distintos, cinco ou seis jogadores não estavam nas melhores condições físicas e muitos não jogaram na partida de ida. Fizemos o possível para que jogassem na volta e também tivemos de lidar com os contratempos que existem no futebol: cometemos erros que não havíamos cometido nunca. E foram em momentos determinantes do jogo. Criamos muito, fomos muito superiores, o rival literalmente não havia dado um chute a gol e acabou marcando.

EI - Na Argentina você não teve o sucesso e a badalação que está tendo no Paraguai. Por que?

DG: Podem ser vários fatores. Eu estava começando. Hoje me sinto outro treinador depois de 10 anos de experiência, de haver passado em lugares onde não fui bem. Você vai amadurecendo, crescendo, vai definindo sua maneira de conduzir um grupo, de como falar com os jogadores. E, bem, obviamente num país como o meu (Argentina), onde há pouca tolerância e a exigência é muito grande, se não obtém o resultado imediatamente, não é fácil. Então resolvi vir ao Sol de América já com outra maturidade. Era uma equipe que estava bastante organizada, gostaria de voltar a uma competição internacional depois de 25 anos e nós conseguimos a vaga na Copa Sulamericana. Depois fui para o Guaraní, equipe com mais dinheiro, e pudemos ser campeões, então isso faz você crescer, amadurecer. E a chegada ao Olimpia foi meu melhor momento. Cheguei a um clube muito mais organizado, com muito mais potencial em todos os sentidos, e tivemos a sorte de poder conduzir um elenco de jogadores muito bons, darmos identidade de jogo e hoje a equipe é realmente muito superior a todas as outras.

EI - Você se inspira em alguém para guiar sua carreira? Exemplos como Sampaoli, que deixou a Argentina para conseguir fazer sucesso no Chile, ou Patón, que deixou a Argentina para fazer sucesso no Equador?

DG: Muitos aqui me comparam com Tata Martino, pois com ele aconteceu o mesmo. A Argentina foi difícil pra ele, então buscou outras alternativas e a minha ideia de sair da Argentina foi essa: tratar de encontrar em um país próximo as possibilidades que estavam se fechando em meu país.

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