Futebol Brasileiro

‘Polícia de Montevidéu pediu para não levarmos o Felipe Melo para o jogo’, diz Eduardo Baptista

No aniversário de três anos da ‘Batalha de Montevidéu’, treinador relembra cenário de guerra e até ameaça a jogadores uruguaios caso não arrumassem briga após o jogo

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Por Rodrigo Fragoso

Eduardo Baptista revela torcida para o Palmeiras vencer a Libertadores e o Mundial(Cesar Greco/SE Palmeiras)

Eduardo Baptista revela torcida para o Palmeiras vencer a Libertadores e o Mundial | Cesar Greco/SE Palmeiras

No dia 26 de abril de 2017, exatamente três anos atrás, o Palmeiras entrava em campo no Estádio Campeón Del Siglo, em Montevidéu, pela quarta rodada da fase de grupos da Copa Libertadores da América, para enfrentar o Peñarol. Enquanto o clube paulista lutava pela liderança do grupo, os uruguaios precisavam da vitória para manter a esperança de classificação. Tudo isso depois de um jogo nervoso em São Paulo, no qual o Palmeiras venceu por 3 a 2 e deixou o Allianz Parque com a forte declaração de Felipe Melo contra Gastón Rodríguez, jogador uruguaio.

"O cara que entrou (no segundo tempo) e fez o (segundo) gol deles estava me chamando de macaco durante muito tempo. Macaco pra lá, macaco pra cá. Sou preto mesmo. Ele deve ter algum problema. A mulher dele já deve ter traído ele com algum negão. Não sei o nome dele. Mas é um moreno escuro. Na época da escravidão, teria tomado chibatada igual a mim", concluiu Felipe Melo.

Mas não foi só o jogo com muitos gols e a tensão natural de uma Copa Libertadores que gerou a rivalidade logo na primeira partida.

CLIMA PESADO JÁ ERA SENTIDO ANTES DA BOLA ROLAR EM SÃO PAULO

"Se tiver que dar tapa na cara de uruguaio, vou dar", disse Felipe Melo, em janeiro de 2017, ao sugerir que faria qualquer coisa para defender as cores do Palmeiras. Meses depois, os uruguaios não haviam esquecido, como relatou o técnico do Palmeiras na ocasião, Eduardo Baptista, em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo. "Os uruguaios usaram isso. A gente já teve um clima pesado antes do início do jogo no Allianz Parque. No aquecimento, dentro do túnel na volta do aquecimento, já dava pra sentir que o clima estava pesado".

Duas semanas depois, no Uruguai, era díficil esperar um clima diferente. O Palmeiras enfrentaria não só o time do Peñarol, mas também a soma da revolta de torcedores com as declarações de Felipe Melo e a possibilidade de serem eliminados em casa justamente pelo clube paulista. Por conta desse cenário, era preciso levar em conta tudo o que se comentava no Uruguai antes da viagem para Montevidéu. Tudo mesmo. Até mesmo um absurdo pedido.

Cesar Greco/SE Palmeiras
Eduardo Baptista comandando o Palmeiras diante do Peñarol no jogo da 'Batalha de Montevidéu'

POLÍCIA URUGUAIA QUIS FELIPE MELO FORA DA VIAGEM E TORCIDA DO PEÑAROL PODE TER AMEAÇADO JOGADORES DO PRÓPRIO CLUBE

Certamente Eduardo Baptista jamais recebeu ou receberá uma tentativa de interferência em escalação tão inusitada quanto na semana que antecedeu a Batalha de Montevidéu. "A polícia de Montevidéu pediu para não levar o Felipe Melo pro jogo", revelou o treinador, que nem mesmo cogitou a hipótese: "nesse ponto, o Alexandre Mattos (diretor na época) e o Cícero Sousa (gerente de futebol do clube) conseguiam blindar muito a gente. O Alexandre, junto com o Cícero, tinha essa habilidade de cuidar do contexto. Foi muito tranquilo lidar com isso".

Contexto que gerava preocupação no Palmeiras pela segurança, mas não só no Palmeiras. Os resultados ruins no início da campanha da Libertadores, o ódio pelas declarações de Felipe Melo e a possibilidade de uma eliminação precoce aparentemente também trouxeram uma preocupação para os jogadores uruguaios em relação a própria segurança, como lembra Eduardo Baptista: "a gente tinha alguns amigos no Uruguai e, embora não tenhamos certeza absoluta disso, nos passaram que os jogadores do Peñarol foram avisados de que, se não viessem pra cima da gente, eles que apanhariam da torcida depois. Esse era o clima para eles".

Cesar Greco/SE Palmeiras
Felipe Melo em ação no jogo diante do Peñarol contra o Peñarol no Uruguai

ERRO DE TRÊS ZAGUEIROS EM CAMPO E A MUDANÇA DE POSTURA QUE RESULTOU NA VITÓRIA

Fernando Prass; Jean, Edu Dracena, Mina, Vitor Hugo e Egídio; Felipe Melo, Guerra e Michel Bastos; Róger Guedes e Borja. Foi assim que o Palmeiras entrou em campo no 1º tempo, levando para o vestiário, no intervalo, o pessimista placar de 2 a 0. "Colocamos o Vitor Hugo, naquela ideia de ganhar o jogo pelos lados, como fizemos os gols, e na bola parada, como também fizemos gols no Allianz Parque contra o próprio Peñarol. Você planeja esperando que dê certo. Quando vimos, virou 2 a 0, aí eu faço as modificações. Tiro o Vitor Hugo e coloco o Tchê Tchê pra fazer uma saída melhor e tiro o Egídio pra colocar o Bigode. Voltamos pro 4-1-4-1, só Felipe Melo de volante, e em 20 minutos viramos o jogo. Aliás, era pra ter feito 4 ou 5", brinca Eduardo Baptista.

De acordo com o treinador, a partida é um exemplo da capacidade daquela equipe de mostrar que estava conseguindo se configurar e trabalhar de diversas maneiras logo no início da temporada. "O time do Palmeiras, como um todo, com a capacidade de entendimento de ideia tática dos jogadores, conseguia mudar o sistema muito rápido. A assimilação deles era muito alta. Naquele jogo eles entenderam e a coisa aconteceu. A gente conseguiu interferir em tudo, mesmo depois de uma eliminação contra a Ponte Preta, no Paulistão, onde criamos muito, mas só fizemos um gol. Foi uma grande vitória no Uruguai, um dos jogos mais emblemáticos da minha carreira".

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Willian anotou o gol da vitória do Palmeiras no Uruguai

"SOCOS, CHUTES E TAPAS": A EMBOSCADA DOS PORTÕES DO CAMPEÓN DEL SIGLO

Não foi apenas uma vitória. Foi uma vitória de virada por 3 a 2 que resultou na eliminação do Peñarol na Copa Libertadores da América com duas rodadas de antecedência do fim da primeira fase. O apito final do jogo foi também o inicial de uma grande emboscada realizada por pessoas ligadas ao clube uruguaio que fizeram do gramado um campo de batalha.

"Foi um negócio armado. Foi perigoso. É preciso exaltar a logística do Palmeiras, que conseguiu levar um número grande de seguranças para a viagem e para dentro do estádio. Ele foram excepcionais", elogia o então técnico do Palmeiras, que viu Felipe Melo em situação de apuros após o soco em Mier, camisa 10 do Peñarol, enquanto tentava abrir o portão de saída para os vestiários, coincidentemente bloqueado bem no momento da briga.

"Ele (Felipe Melo) sai pro pau do escanteio, alguns vão ajudar e outros vão tentar abrir o portão pra que todos pudessem ter um lugar pra sair dali. Eu gritava: 'tem que abrir!' e havia umas 30 pessoas segurando o portão do lado de dentro, sendo que um monte de gente estava dando socos, chutes e tapas atrás da gente. Eu nem olhava pra trás, só queria abrir o portão", conta Eduardo Baptista, que foi um dos últimos a deixar o gramado do Campeón Del Siglo: "Eu, Felipe Melo e o Róger Guedes fomos os últimos a conseguir entrar no meio da confusão. Foi quando derrubamos o portão".

DEMISSÃO NO JOGO SEGUINTE À BATALHA DE MONTEVIDÉU E TORCIDA PELA CONQUISTA DE UMA LIBERTADORES LOGO, PELA TRANQUILIDADE DO CLUBE

Nove dias depois da épica vitória no Uruguai por 3 a 2, uma derrota contra o Jorge Wilstermann, na Bolívia, pelo mesmo placar, culminou na demissão de Eduardo Baptista. Com 70% de aproveitamento em 21 jogos oficiais, o técnico sente que deixou um trabalho bem feito. "O que eu fico contente é que a gente assumiu um time pra mudar a maneira de jogar. Eu vejo a situação muito parecida com essa que o Tiago Nunes está vivendo no Corinthians. E nós conseguimos êxito! Mudamos a maneira de jogar, já que o Cuca tinha um jeito todo dele. Nós metemos a bola no chão, alternávamos no 4-1-4-1, 4-2-3-1, 3-4-3 e os jogadores assimilavam muito bem tudo isso", lembra Eduardo Baptista.

Três anos depois da passagem pelo clube, o atual técnico do CSA não se surpreende com a sua saída ao observar todas as trocas de comando ocorridas nesse período. "No Palmeiras, você não pode perder. Aconteceu com o Roger Machado também, que tinha aproveitamento parecido com o meu. E o Mano Menezes? Só não foi campeão porque o homem lá de cima botou o dedo no Flamengo e disse: 'vocês vão ser campeões'. E aí o Mano caiu com algo em torno de 80% de aproveitamento", analisa Eduardo Baptista, que conclui torcendo pelas conquistas da Libertadores e do Mundial pensando nos profissionais que passam pelo clube: "Palmeiras é caldeirão que ferve sem parar com a obsessão da Libertadores. Eu torço muito para o Palmeiras ser campeão da Libertadores logo, ser campeão do mundo, para os profissionais conseguirem tranquilidade para trabalhar lá".

 
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