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"Com uma semana de treinos, Gabriel Jesus estará pronto para jogar 90 minutos"

Conheça o trabalho de André Cunha, que há dois anos e meio coordena a rotina do atacante do Manchester City e da Seleção Brasileira

Por Fred Caldeira

Gabriel Jesus e André Cunha em Manchester(Arquivo pessoal)

Gabriel Jesus e André Cunha em Manchester | Arquivo pessoal

Em fevereiro de 2018, quatro meses antes da estreia do Brasil na Copa da Rússia, André Cunha recebeu o primeiro contato do estafe de Gabriel Jesus. Muito amigo de Neymar, o atacante, à época com 21 anos, desejava ter um acompanhamento similar ao que a estrela do PSG tem há anos com Ricardo Rosa, preparador físico particular de Neymar e a quem André dá o status de mentor. O paulista de 36 anos já havia trabalhado com atletas do calibre de César Cielo, Thomaz Bellucci e Vitor Belfort quando decidiu mergulhar no futebol. Em setembro, dois meses depois da eliminação brasileira para a Bélgica, Cunha se juntou a Gabriel em Manchester.

 

O interesse do então camisa 33 do Manchester City era em cuidar mais atentamente dos detalhes da carreira e dialogava com mais um momento complicado na carreira do jogador: Gabriel estava em recuperação de uma lesão no joelho que o afastou dos gramados por 52 dias, o segundo problema físico grave desde que havia se juntado aos Cityzens - um ano antes, o atacante fraturou o metatarso e perdeu 13 jogos pelo clube. Desde a chegada de André, Jesus teve apenas uma lesão, e de menor gravidade na coxa. "Eu evito dizer que é resultado do meu trabalho. Sou apenas o GPS e ele é o motorista, dou as direções e ele decide se as segue ou não. Felizmente, desde o dia em que cheguei, ele escolheu percorrer esse caminho."

"O MANCHESTER CITY NÃO QUERIA QUE EU VIESSE"

Até a suspensão do futebol na Inglaterra por conta da pandemia do COVID-19, em março, Gabriel caminhava para a melhor temporada particular no Manchester City. Os 2.224 minutos em campo até então já representavam 98% do tempo de toda a temporada anterior. Eram 18 gols marcados e nove assistências, em comparação com 21 gols e seis assistências em 2018-19. Se o torcedor dos Cytizens pôde ver mais de Jesus, é em parte graças a um trabalho entre duas pontas, a do próprio clube e a de André. A relação foi construída "pisando em ovos", como diz o preparador físico.

"Nos primeiros dois meses [em Manchester], não havia diálogo com o City, então não fiz nenhum trabalho de carga que pudesse resultar em lesão. Trabalhei os comportamentos do Gabriel na hora em que ele está em casa - sono, descanso, alimentação e suplementação -, conversei com pessoas que pudessem me dar informações sobre a vida dele anterior à minha chegada e também com quem compra e prepara as comidas. Foi um processo de entender o Gabriel, a rotina do clube e tudo o que girava em torno da vida dele."

Em dezembro de 2018, Jesus disse a André que o clube havia o convocado para uma reunião. Estavam presentes o diretor de ciência esportiva Sam Erith, o preparador físico Simon Bitcon e Lorenzo Buenaventura, chefe da preparação física e braço direito de Guardiola desde o começo do treinador no Barcelona. "Eu sentei e eles começaram a falar de todos os medos e receios que tinham sobre o meu trabalho. Quando eu disse que não estava aplicando nada que colocaria o Gabriel em risco, percebi que eles se surpreenderam. Essa reunião foi um divisor de águas, pois criou uma sinergia grande entre nós."

Lorenzo e Guardiola: dupla inseparável desde o Barcelona

Hoje, clube e preparador físico trocam informações, em média, uma vez a cada duas semanas. "Só um terço do dia do atleta da Premier League é no clube, os outros dois são em casa. O clube pôde perceber que eu não sou um problema, e sim uma extensão para a casa do Gabriel do trabalho que eles fazem." O ar inicial de desconfiança não é exclusividade do Manchester City, lamenta André. "Muita gente me liga dizendo que clubes proíbem esse tipo de trabalho ou que não compartilham nenhum dado. Se você não tem os dados do clube, está dando tiros no escuro."

QUATRO PILARES E O SANTUÁRIO

Formardo em educação física na universidade Mackenzie e com cursos de capacitação nos EUA, Cunha abriu em 2012 a 4PERFORM, empresa de preparação física com academias em São Paulo que tem como base o que André chama de quatro pilares: psicologia, prevenção, nutrição e treinamento. Os pilares de São Paulo também se fundamentaram em Manchester. 

"O que a gente faz bastante é tirar o olhar para o resultado. No futebol, o bom é quem ganhou, fez gol e foi campeão - e nada disso está sob o controle do atleta, então pesa muito na parte emocional. Decidimos pautar o nosso dia a dia em conquistas simples que estejam no controle do Gabriel, e fazer com que essas conquistas tenham relação clara com a ponta final, que é marcar gols, vencer e ser campeão."

O acompanhamento da rotina de Jesus vai desde conversas sobre frustrações até o que o jogador põe no prato. "Tudo pode começar com a salada. Nos exames bioquímicos, as taxas de ômega-3 são boas, e é uma gordura que ajuda na velocidade da recuperação muscular. Se ele treina mais e melhor, as chances de marcar mais gols cresce."

Área de treinos na casa de Gabriel Jesus é chamada de "santuário"

Desde a suspensão do futebol na Europa, André e Gabriel passaram um tempo no Brasil, cada um com a própria família, mas mantiveram o trabalho por ligações de vídeo. A pausa nos jogos foi uma oportunidade para focar em pontos que sequer podem ser abordados na geralmente curta pré-temporada. No dia seis de maio, a dupla voltou para a Inglaterra. "Nas últimas duas semanas, o Manchester City passou a entrar em contato comigo para eu passar tudo o que tenho feito com o Gabriel. Já reconhecem que ele está pronto para voltar."

"Foi um período bem importante. Ele não estará 100%, já que o atleta precisa praticar o esporte, mas fisicamente está totalmente preparado para adquirir ritmo de jogo. Conhecendo o Gabriel, em uma semana [de treinamentos] ele está pronto para uma partida de 90 minutos."

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