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Quando, como e onde: as difíceis questões para o retorno da Premier League

Volta dos jogos na principal liga europeia tem sérias dificuldades envolvidas

Por Fred Caldeira

Premier League ainda não tem previsão de volta(Getty Images)

Premier League ainda não tem previsão de volta | Getty Images

Provavelmente você nunca ouviu falar de Harvey Barnes. Nascido em Burnley e criado para o futebol em Leicester, o inglês de 22 anos marcou duas vezes na goleada de 4x0 dos Foxes sobre o Aston Villa. Eram quase 23h na Inglaterra quando, aos 40 minutos do segundo tempo, Barnes estufou as redes do King Power Stadium pela última vez no jogo e na competição. A Premier League não viu nenhum gol desde aquele 9 de março.

1º de junho é a data mínima para o retorno da liga de futebol mais rica do mundo. Na mais recente atualização das instruções ao público durante a pandemia, o governo britânico divulgou um programa de cinco passos em seis meses para a saída do Reino Unido do confinamento: o segundo passo estipula que eventos esportivos podem ser realizados com portões fechados a partir de junho, a depender do controle da curva no contágio do coronavírus. O governo, portanto, deu o sinal verde para a Premier League. Agora, o problema é a própria liga chegar a um consenso sobre exatamente quando, onde e como retomar a competição

RETORNO DA PREMIER: QUANDO?

Acima de qualquer objetivo esportivo, é o dinheiro que dita a determinação da Premier League em concluir a temporada 2019/20 dentro de campo. "É uma vontade de todos", simplificou o chefe executivo da liga Richard Masters no último dia 11, após a mais recente das cinco reuniões entre os membros da Premier. Semanas antes, Masters já havia alertado o governo britânico: em caso de suspensão da temporada, os prejuízos poderiam chegar a um bilhão de libras (o equivalente a pouco mais de sete bilhões de reais).

 

 
Gabriel Paulista comenta que retorno do futebol tem sido movido pelo lado financeiro

A grana, portanto, fala alto, mas não sozinha. Em meio a uma pandemia sem precedentes, é evidente que as questões de saúde estão em primeiro lugar e, assim, o futebol não será mais o mesmo por algum tempo. É justamente nos detalhes desse novo futebol que moram as dificuldades para os clubes da Premier chegarem a um consenso - ou pelo menos a dois terços de concordância, já que qualquer decisão precisa ser aprovada por no mínimo 14 dos 20 clubes.

No fim de abril, a UEFA estipulou o dia 25 de maio como prazo para que as ligas nacionais europeias apresentassem o plano final para o retorno das competições, incluindo datas de início e fim e o formato adotado. Na Inglaterra, a data é considerada muito pouco confortável, e a UEFA já admite estender o prazo para casos especiais. A Premier League quer voltar a jogar o quanto antes, mas sem atropelar questões essenciais.

RETORNO DA PREMIER: ONDE?

No dia 1º de maio, com espantoso atraso, o secretário de cultura britânico Oliver Dowden comandou a primeira reunião com foco no retorno do esporte profissional no país.

 

Junto ao representante do governo, estavam especialistas da medicina esportiva de diversas modalidades: críquete, rugby, automobilismo e futebol. Naquele encontro, a Premier League escutou que "até dez estádios" poderiam receber os 92 jogos restantes para a conclusão da temporada.

 

 

Debate sobre utilização "normal" dos estádios ainda é empecilho para a volta da Premier League (Foto: Getty Images)

A limitação não agradou. A princípio, apenas os clubes da parte de baixo da tabela - de fato os seis últimos colocados (Norwich City, Aston Villa, Bournemouth, Watford, West Ham e Brighton) - reprovaram a condição de utilizar estádios neutros.

 

"Não seria justo mudar as regras após três quartos dos jogos já disputados", reclamou o presidente do Brighton, Paul Barber. "Caia na real, olhe para o lado e veja um país com mais de 30 mil mortos", respondeu o chefe da segurança direcionada ao futebol Mark Roberts.

A insatisfação com as sedes se alastrou pela tabela. "Acredito que todos gostariam de jogar em casa e fora, se possível", disse na última semana o CEO da Premier League Richard Masters, "mas está claro que alguns clubes estão mais firmes nessa posição do que outros".

 

 

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Richard Masters, chefe executivo da Premier League (Foto: Getty Images)

 

Enquanto a isonomia esportiva é a principal motivação de alguns clubes, outros fazem coro por motivos menos nobres. De acordo com a ESPN UK, há quem tenha receio de quebrar contratos pelos naming rights dos estádios que ficariam fora da zona neutra.

Os milhares de torcedores do PSG reunidos do lado de fora de um Parque dos Príncipes com portões fechados no dia 11 de março, em jogo válido pela Liga dos Campeões, formam um retrato vivo do maior medo do governo britânico em caso de retorno da Premier League.

 

Jogadores do PSG comemoraram a vitória sobre o Borussia Dortmund com os torcedores (Foto: Getty Images)

 

O temor ganha contornos de argumento na proposta por estádios neutros: se as equipes jogarem longe da própria cidade, menores as chances dos torcedores repetirem as cenas de Paris. O que as autoridades não podem controlar, entretanto, é a provável festa do título do Liverpool, que não vence o campeonato inglês há 30 anos.

 

O prefeito da cidade Joe Anderson alerta: "não acho que muitas pessoas vão respeitar as regras, muitos iriam se unir para celebrar ao redor do estádio [de Anfield]".

Na próxima terça-feira, dia 19, o governo britânico voltará a se reunir com representantes dos esportes mais importantes do Reino Unido.

RETORNO DA PREMIER: E COMO?

Mesmo que as sedes das 92 partidas restantes para a conclusão da Premier League já estivessem definidas, existem diversos outros pontos ainda sem resolução. Uma questão central passa pela segurança dos envolvidos nos jogos.

 

A Premier League calcula que, em média, cerca de 300 pessoas sejam necessárias por partida, desde jogadores a funcionários da transmissão televisiva. A previsão é que os gastos da liga com testes privados - ou seja, sem interferir nos testes do sistema de saúde público britânico - apenas com jogadores e comissões técnicas cheguem a quatro bilhões de libras (o equivalente a quase R$30 bilhões).

Os atores do jogo pouco foram consultados até aqui, e os insatisfeitos vêm demonstrando publicamente o desconforto. Em entrevista ao programa espanhol 'El Chiringuito', o atacante do Manchester City Sergio Agüero admitiu: "a maior parte dos jogadores está assustada por conta dos próprios filhos e familiares". O mesmo sentimento foi dividido pelo lateral do Leicester Ricardo Pereira, em participação no MFM Debate, do Esporte Interativo.

 

 
Aguero vira o jogo para o City

 

Danny Rose, lateral do Newcastle e da seleção inglesa, foi o mais duro nas críticas: "o governo pede o retorno do futebol como uma injeção de ânimo para o país. Cara, eu não ligo porra nenhuma para o ânimo do país, as vidas das pessoas estão em risco. O retorno do futebol jamais deveria ser considerado até que o número de infectados e mortos caia drasticamente."

No dia dez de maio, o Brighton anunciou que mais um jogador testou positivo para o coronavírus. No começo da pandemia, dois atletas do clube já haviam sido infectados. O terceiro atleta, que teve o nome omitido, passará 14 dias isolado enquanto o restante do grupo segue treinando com distanciamento social no CT do clube.

 

"Apesar de todas as medidas que temos tomado nas últimas semanas, em que as atividades sequer foram significativas, temos mais um jogador com o teste positivo. É uma preocupação", admitiu o presidente do Brighton Paul Barber para a Sky Sports.

 

No mesmo dia, o meia do Norwich Todd Cantwell se solidarizou com o jogador adversário e ironizou: "também somos pessoas normais".

 

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