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Retorno da Bundesliga: exemplo para o mundo ou fiasco histórico?

Pressão política, testes em larga escala, torcedores de papel e quarentenas rígidas: em meio à polêmicas, o futebol na Alemanha será o primeiro à regressar dentre as grandes ligas europeias

Por Arthur Quezada

Campeonato Alemão voltará no próximo sábado (15)(Divulgação/Borussia Dortmund)

Campeonato Alemão voltará no próximo sábado (15) | Divulgação/Borussia Dortmund

Há exatamente 2 meses, dia 11 de março de 2020, a bola rolou pela última vez na Bundesliga. Com portões fechados, o Borussia Mönchegladbach venceu o Köln por 2x1. Depois, assim como todas as grandes ligas na Europa, a Alemanha suspendeu a competição por tempo indeterminado, por conta da pandemia do novo coronavírus. Suspensão que está próxima do fim. O retorno do futebol no país já tem data marcada: dia 16 de Maio, próximo sábado.

A decisão foi sacramentada na última quarta-feira (6) pela chanceler Angela Merkel, depois de reunião decisiva com os 16 ministros federais do país, que marcou uma série de decisões do plano de desconfinamento em solo alemão, incluindo a autorização do retorno da primeira e segunda divisão da Bundesliga para a segunda quinzena de Maio.

Conseguimos o objetivo de desacelerar a propagação do vírus porque os nossos cidadãos conseguiram ter um comportamento responsável e salvaram a vida de outros. A primeira fase da pandemia passou mas estamos ainda no início global da pandemia e temos uma longa luta contra o vírus pela frente", disse Merkel.

O problema é que nos últimos dias, após a decisão, o abrandamento das medidas restritivas da quarentena fez com que os números de infectados e de mortos subisse na Alemanha. Segundo o Instituto Robert Koch (RKI), a taxa de contágio na Alemanha voltou a crescer para 1,1, o que significa que cada pessoa com COVID-19 contagia cerca de 1,1 pessoas, e esse número preocupa, pois já chegou a ser de 0,67 na semana passada. Atualmente, o país registra 169.218 casos diagnosticados e 7.395 vítimas mortais.

E mesmo com um dos maiores indíces de pessoas curadas no mundo (144.400 pessoas recuperadas), os alemães estão preocupados com uma possível subida repentina do surto. Neste cenário, o futebol tem sinal verde para regressar e colocará o país como modelo, positivo ou negativo, já que será a primeira grande liga a retornar.

Bundesliga voltará, mas estádios continuarão assim: vazios (Foto: Getty Images)

Com o aceno positivo dado por Angela Merkel, a DFL (Federação Alemã de Futebol) deflagrou um plano ousado para o retorno da Bundesliga. Com nove rodadas restantes, a ideia da entidade é terminar a competição até do dia 27 de junho. Para isso, foi feita, na última quinta-feira, a reunião com os 36 clubes representantes das duas principais divisões do país, acertando pormenores do retorno.

Testes, testes e isolamento

O primeiro passo foi a realização de testes em larga escala dentro das equipes. Cinco laboratórios particulares especializados firmaram parceria com a DFL para executar o plano de testagem por fases. Na primeira rodada de testes, 1724 exames foram feitos com atletas, comissões técnicas, staff e funcionários no entorno das equipes. Apenas 10 pessoas foram diagnosticadas com COVID-19.

Signal Iduna Park, estádio do Borussia Dortmund, virou ponto de testagem para a COVID-19 durante a crise (Foto: Getty Images)

No início desta semana, mais 1650 testes foram feitos. Alias, a Alemanha é referência no número de testes que aplica nos seus habitantes, são 818 mil amostras por semana, sendo o terceiro país que mais faz o processo, atrás apenas de EUA e Rússia. O futebol profissional vai absorver apenas 0,4% deste volume. Estima-se que serão necessários 25 mil testes até o final da temporada, um investimento de 2,5 milhões de euros.

Os familiares dos jogadores também poderão ser testados nos próximos dias, voluntariamente. Além dos exames, um período de confinamento obrigatório para cada equipe foi estipulado. Para a 26ª rodada do Campeonato Alemão, os times ficarão 7 dias em isolamento, em hotéis ou centro de treinamentos, para evitar qualquer contato com o mundo exterior. O Bayern de Munique, por exemplo, irá utilizar o Infinity Hotel, maior hotel e centro de conferências no sudeste alemão, como quartel general antes das partidas em casa.

Em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo, o meia-atacante Paulinho, do Bayer Leverkusen, disse que esse isolamento será apenas para a primeira partida pós regresso da competição: "São 7 dias de confinamento num hotel, de segunda a segunda. Depois passaram pra gente que tudo vai ficar normal. O isolamento será feito em casa. Se essa quarentena pré partidas continuasse, teríamos que ficar em isolamento até o campeonato acabar, o que seria muito ruim. A indicação é que continuaremos fazendo testes semanais", relata.

Paulinho contou como estão sendo os bastidores do futebol na Alemanha (Foto: Getty Images)

Depois das primeiras rodadas de testes, o caso mais preocupante é o do Dynamo Dresden, da segunda divisão do futebol alemão, que decretou quarentena para todos os seus jogadores e comissão técnica após detectar dois novos casos positivos para coronavírus. Assim, a equipe não poderá disputar seu primeiro jogo da retomada do campeonato, programada para o próximo sábado. Todos os jogadores, técnicos e funcionários do Dynamo Dresden terão de passar 14 dias isolados, após o período terão os jogos remarcados.

Pressão financeira para o regresso

O retorno da Bundesliga aprovado pelo Governo foi comemorado à exaustão pela DFL e pelos clubes alemães. O presidente executivo do Bayern de Munique, Karl-Heinz Rummenigge, agradeceu Angela Merkel, salientando: "vão permitir que as decisões esportivas sejam tomadas no campo e não numa sala de reuniões".

Bayern de Munique já treina na Allianz Arena (Foto: Getty Images)

O diretor executivo do Borussia Dortmund, Hans-Joachim Watzke, enfatizou "a conduta magnífica do povo alemão no combate ao novo coronavírus", explicando que o clube vai "fazer tudo o que for possível para garantir a segurança dos jogadores e das suas famílias".

Já o diretor executivo do RB Leipzig, Oliver Mintzlaff,  lamentou as arquibancadas vazias, mas ressaltou: "de forma a evitar um rombo ainda maior nas finanças dos clubes, jogar sem público é a única opção".

O futuro financeiro dos clubes e do mercado do futebol na Alemanha foi fundamental na decisão do Governo. Uma pressão política enorme foi feita para que a Bundesliga não seguisse o exemplo dos seus vizinhos Holanda e França, que cancelaram, cada um à sua maneira, a temporada futebolística. Os números mostram que, caso o Campeonato Alemão não fosse concluído, muitas equipes poderiam ir à falência.

No dia 23 de abril, a DFL conseguiu garantir junto aos veículos de comunicação, responsáveis pela transmissão da competição, o adiantamento das cotas de TV relativas aos meses que completam a temporada. A conclusão destas negociações forneceu liquidez a todos os clubes da Bundesliga e da Bundesliga 2, de forma gradual, até ao dia 30 de junho.

Cerca de 250 milhões de euros foram repassados dos direitos de TV para os clubes no último dia 2 de maio. Porém, caso os campeonatos não tivessem sinal verde para serem concluídos, esses montantes teriam que ser devolvidos aos detentores de direitos.

Christian Seifert, CEO da Bundesliga, chegou a dizer: "manter os direitos da TV é a nossa única opção para preservar o futebol na Alemanha do jeito que conhecemos". Em termos práticos, a DFL assume que o prejuízo seria em torno dos 750 milhões de euros e que pelo menos 18 times, dos 36 presentes nas duas principais divisões, poderiam sofrer perdas irrecuperáveis - caso a temporada não fosse concluída.

Além disso, a pressa para a conclusão da Bundesliga (previsão dia 27 de Junho) é relacionada aos contratos dos jogadores. Mais de 100 atletas terão seus contratos expirados no dia 30 de Junho.

Times e atletas prontos

Em termos físicos e logísticos, a maioria das equipes alemãs está pronta para o retorno. Os times voltaram a treinar no final de março e a evolução destes treinamentos foi gradual. No início os trabalhos foram praticamente individuais. Em cada clube, os atletas era separados em grupos pequenos, fazendo basicamente treinos físicos e de pouco contato com a bola.

A ideia era minimizar o contato em todos os setores, e a recomendação da maioria das equipes era para que os jogadores fossem treinar já uniformizados, sem passar por nenhuma área comum do CT (refeitório, vestiário, academia) e logo após o treino se dirigissem diretamente para casa.

Em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo, Wendell, lateral-esquerdo do Bayer Leverkusen, revelou que as regras eram bem restritivas e que o pragmatismo alemão ajudou na condução dos trabalhos: "Eles fizeram tudo para nos proteger. Eu não podia nem encostar numa maçaneta dentro das instalações. Por isso, tem dado certo', afirma o jogador.

Wendell, abraçado por Kai Havertz, comemora gol marcado contra o Mainz (Foto: Getty Images)

Aos poucos os treinamentos foram voltando ao normal. "Hoje, essa pausa já valeu como uma pré-temporada. Jogador quer jogar e aqui nos sentimos seguros para isso. Nunca passou pela nossa cabeça encerrar o campeonato", disse o meia atacante do Bayer, Paulinho.

Em termos de comportamento a partir de agora, os atletas estão sendo instruídos a manter o máximo de cautela. Do treino para casa, de casa para o treino. Além disso, entre os jogadores, o distanciamento social mantém-se e o caso do atacante do Hertha Berlin Salomon Kalou é o grande exemplo. Ele foi suspenso pelo clube após fazer uma live no vestiário, antes de um treinamento, na qual cumprimenta os colegas com a mão, desrespeitando as normas recomendadas.

 
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Essa semana, a DFL vai disponibilizar uma cartilha para que os clubes repassem aos jogadores. Obviamente os atletas não utilizarão máscaras por conta da questão respiratória, mas os reservas, treinadores, comissão técnica, pessoas da organização e equipes de arbitragem deverão utilizar.

Os jogadores não poderão comemorar gols com abraços, beijos e cumprimentos de mão, apenas cotovelos e pés. Além disso, os atletas não poderão trocar camisetas e caso, em alguma situação de jogo, cerquem o árbitro para cobrá-lo, aglomerando-se em volta do mesmo, o juiz poderá punir os atletas envolvidos.

Sem paixão nas arquibancadas

Todas as partidas do restante da Bundesliga serão sem torcida. Quem conhece o futebol alemão sabe o quanto vai custar ver os estádios vazios. A Alemanha tem como tradição estádios lotados, com todos os ingressos, para a maioria dos jogos, vendidos no início da temporada. Financeiramente, o rombo será grande.

 
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Segundo um estudo da 'Kicker', revista alemã especializada em futebol, o prejuízo dos clubes da primeira e segunda divisão da Bundesliga, só com ingressos, será de 90 milhões de euros (70 milhões na Bundesliga 1 e 20 milhões na Bundesliga 2).

O intuito é evitar qualquer tipo de aglomeração dentro ou fora dos estádios. A DFL autoriza que cada partida pode ter no máximo 322 pessoas trabalhando. O grupo autorizado inclui jogadores, árbitros, técnicos, jornalistas, cinegrafistas, agentes antidoping, comissários da liga, seguranças, cuidadores do gramado e gandulas. As pessoas ficarão separadas em zonas: 98 dentro do estádio, 115 nas arquibancadas e 109 nos arredores da arena.

Com a determinação rígida, alguns clubes já planejam fórmulas de simular o apoio das arquibancadas. O Borussia Mönchengladbach, por exemplo, colocará recortes de papelão com fotos de seus torcedores. Cada torcedor terá que pagar 19 euros para garantir o seu "avatar" de papelão no lugar determinado dentro do estádio. Outras equipes deve apostar no sistema de som para simular a presença dos torcedores.

Torcida do Mönchengladbach estará representada por "avatares" de papelão (Foto: Divulgação/Borussia Mönchengladbach)
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