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Retorno de La Liga promove debate sobre o lado financeiro do futebol e a preocupação com os jogadores

Em meio ao retorno dos treinos e as testagens em massa nos clubes espanhóis, discute-se bastante o impacto financeiro da crise do novo coronavírus e a segurança dos jogadores

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Por Marcelo Bechler e Tatiana Mantovani

Barcelona e Real Madrid devem voltar a campo no próximo mês(Getty Images)

Barcelona e Real Madrid devem voltar a campo no próximo mês | Getty Images

Futebol também é negócio

Fora das quatro linhas, a crise econômica causada pelo novo coronavírus vai bater mais forte na porta dos clubes mais poderosos. Barcelona e Real Madrid serão os grandes perdedores na Espanha e no mundo, pela nova dinâmica do futebol.

Quem compartilha deste raciocínio é o presidente de La Liga, Javier Tebas, em uma conversa com empresários da Comunidade de Aragón, na Espanha.

"Quem é muito mais afetado por essa crise? Pois esta crise afeta muito mais aos grandes clubes. Por que os grandes clubes? Porque não são tão dependentes da TV."

Javier Tebas defende que La Liga tem que voltar (Foto: Getty Images)

Com o retorno da competição, com portões fechados, todos os clubes têm garantido o recebimento das cotas de TV e de seus patrocinadores. Ainda assim, sem poder levar o torcedor aos jogos, os clubes deixarão de arrecadar 300 milhões de euros (R$ 1,9 bilhão) no total. Caso La Liga seguisse o mesmo caminho das ligas holandesa e francesa, os prejuízos seriam de 1 bilhão de euros (R$ 6,41 bilhões).

E é por isso que Barcelona e Real Madrid são os que mais sofrem. Um estudo da Deloitte Consultoria, publicado em janeiro de 2020, mostrou como as potências espanholas turbinam suas receitas com exploração de seus estádios. Camp Nou e Santiago Bernabéu representam quase 20% de todo o dinheiro ganho pela dupla.

Quem mais ganhava, é quem mais vai perder

O Camp Nou gera ao Barcelona quase 200 milhões de euros (R$ 1,2 bilhão) por ano, mas para isso é preciso mais do que Messi em campo. É preciso Messi em campo e gente consumindo. O museu do clube é o segundo mais visitado de toda a Espanha com quase 2 milhões de entradas vendidas. O ingresso custa a partir de 28€ (R$ 179). Ou seja, apenas com entradas para seu tour, o Barça ganha mais de 50 milhões de euros (R$ 320 milhões).

O entorno do Camp Nou, cheio, antes do jogo contra o Slavia Praga, pela Champions League 2019/20 (Foto: Getty Images)

O final da visita desemboca em uma megastore de três andares onde são vendidas todas as linhas de uniforme para homens, mulheres e crianças. Agasalhos, camisas retrô, jaquetas de couro com o símbolo do clube, ternos, toucas, sungas, meias e calcinhas.

Além disso é possível comprar miniaturas do estádio, bonecos dos jogadores, bolas, canecas,  flâmulas e mais uma quase interminável lista de produtos com a marca do Barcelona.

Pela cidade estão estrategicamente posicionadas outras grandes lojas oficiais, onde a presença do turista é passiva. Pelo acordo com os patrocinadores, todas as vendas nas lojas do Barcelona na cidade têm retorno completo para o clube. Ou seja, se você compra uma camisa do Barça em São Paulo, o dinheiro vai para a loja. Se você a compra em Barcelona, ele vai para os cofres do clube.

A megastore do Barcelona em 2015, antes do jogo contra o Bayer Leverkusen, pela Champions League (Foto: Getty Images)

Além de museu e loja, o Camp Nou recebe mais de 500 eventos por ano. Um chefe detentor de uma estrela Michelin (prêmio para a alta gastronomia) tem um restaurante no estádio. Existem também outros bares e restaurantes na esplanada situada entre o museu e o campo.

Tudo isso, mais o programa de sócio-torcedor e a venda de ingressos para turistas no dia do jogo, gera aproximadamente 160 milhões de euros (R$ 1 bilhão) por temporada para o clube. Sem turistas, sem torcedores e sem poder abrir o museu desde 13 de março, o clube vê sua fonte simplesmente secar e não sabe quando esta torneira será reaberta.

Situação quase idêntica passa o Real Madrid, que também explora seu tour no museu, restaurantes e espaço do Santiago Bernabéu para fazer eventos. O Real ganha 15 milhões de euros (R$ 96 milhões) menos por ano com seu estádio do que o Barcelona. A exploração comercial é menor, mas o preço do programa de sócios é mais alto. O clube branco da capital cobra entre 245 e 2,6 mil euros por um lugar anual em todos os jogos da equipe (entre R$1.470 e R$15.720). O Barcelona cobra menos, entre 180€ e 1.100€ (R$ 1,1 mil a 7 mil).

A tendência é que o futebol só volte a receber torcedores nos estádios quando existir a vacina para a COVID-19. O ministro dos esportes da Holanda e a subsecretária de saúde da Itália já acenaram com este cenário.

Como fica o mercado

As superpotências espanholas terão que conviver com a ideia de arrecadar dezenas de milhões de euros menos no próximo ano, o que pode gerar um impacto em contratações e manutenção do plantel.

transferências, acredita que os preços dos jogadores serão revistos em até 30% dos valores que vinham sendo pagos, como falou em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo.

"Vão acontecer algumas transferências. O mercado estava inflacionado e disse isso em uma aula no Real Madrid em janeiro. Temos tendência de inflar a bolha do futebol. Essa bolha iria estourar, minha única preocupação era como e quando."

Griezmann foi uma das grandes contratações recentes do futebol mundial. A clássica cena da foto tende a não se repetir. Pelo menos, não com valores tão altos (Foto: Getty Images)

Barcelona e Real Madrid adotaram medidas para diminuir os prejuízos causados pela pandemia. O Barça, uma semana depois da implementação do confinamento na Espanha, já negociava com seus capitães uma redução salarial. Chegou-se a um acordo de cortes de 70% enquanto o Estado de Emergência persistir. Com data para expirar no dia 24 de maio (e ainda podendo ser prorrogado por mais um mês), o clube vai pagar apenas 30% dos vencimentos dos atletas de futebol e basquete por dois meses e meio, pelo menos.

O Real Madrid adotou uma postura diferente. Caso as competições não terminem dentro de campo, os jogadores terão 20% do corte salarial para toda a temporada. Com os torneios retornando, a diminuição será de 10%.

Essa nova dinâmica pode alterar a estratégia de atuação dos clubes no mercado, como analisa Marcos Motta.

Antes você tinha um clube pressionado para comprar. O vendedor ficava em uma situação confortável de não colocar um preço e o outro tinha que aceitar. Isso mudou. O comprador está com problema financeiro e o vendedor precisa negociar, mas talvez também precise manter o jogador por mais tempo, porque não vai encontrar reposição. Veja como a dinâmica é complicada."

Por enquanto, possíveis contratações estampam a capa dos jornais espanhóis a cada dia. “Truque duplo”, “Neymar no al PSG, sí al Barça”, “Pjanic SÍ”, são algumas das manchetes. Nas últimas duas semanas, apenas em dois dias nenhum dos quatro principais jornais esportivos espanhóis (Marca, Ás, Mundo Deportivo, Sport) emplacou sua principal chamada com um possível reforço da dupla Barça-Madrid.

Apesar do bombardeio midiático, os clubes esperam para conhecer os efeitos reais da pandemia na economia do esporte para se planejarem.

Afinal, o futebol precisa voltar?

Para o presidente de LaLiga, Javier Tebas, sim. O futebol é mais uma engrenagem da economia espanhola, que tenta voltar a funcionar desde o meio de abril.

É importante que a atividade econômica segura e controlada seja reativada. É mais perigoso ir trabalhar em uma fábrica, em uma linha de montagem, ou estar em um barco de pesca em alto mar, que jogar futebol com portões fechados com os protocolos de LaLiga, que são feitos por especialistas".

O futebol não é mero entretenimento na Espanha. As duas primeiras divisões representam 1.37% do PIB do país, movimentando €15.8 bilhões (R$ 101 bilhões) e gerando 185 mil postos de trabalhos diretos ou indiretos, segundo um estudo realizado pela 'PwC'.

Muitos destes empregos estão relacionados à atividade turística fomentada pelas partidas - o que, sem público, fica inviabilizado.

Ainda assim, clubes e jogadores são essenciais para a economia da Espanha. A arrecadação de impostos do Barcelona, por exemplo, corresponde a quase 14% do orçamento da cidade que abriga o clube.

Afinal, quando volta?

O presidente da LaLiga, Javier Tebas, disse em entrevista à 'Movistar' que a ideia da entidade que organiza o futebol profissional no país é retomar a competição no dia 12 de junho e disputar partidas todos os dias. Em 35 dias, o Campeonato Espanhol seria finalizado. 
 
Os clubes da Espanha voltaram aos treinos na última semana e Tebas acredita que o risco de contágio da COVID-19 em uma partida será zero ou praticamente zero.

“24 horas antes da partida faremos testes. Há um estudo do Ministério da Saúde da Dinamarca, feito por uma universidade local, e outro feito pelo Ministério de Saúde da Alemanha, que durante um jogo de futebol um jogador só está a menos de um metro de outro por 67 segundos e não está cara a cara. Para que transmitisse o vírus teria que estar mais de 15 minutos”, afirmou Tebas. 
 
Do “Não vou jogar, voltarei quando exista uma vacina” ao “Quero voltar a jogar, assumo o risco”: o posicionamento do jogador do Cádiz, Fali, e a postura de Ivan Rakitic, do Barcelona, são os extremos neste primeiro momento do retorno do futebol na Espanha.

O governo espanhol autorizou a volta aos treinamentos dos clubes profissionais no país. Na última semana, a LaLiga distribuiu os testes para COVID-19 e de sorologia (para detectar anticorpos) aos 42 clubes da primeira e segunda divisões.

Real Madrid já voltou aos treinos (Foto: Getty Images)

Foram cerca de 2,5 mil testes nesta fase inicial de retorno aos treinos e 5 jogadores testaram positivo. Entre eles o brasileiro Renan Lodi. Os positivos foram isolados e a ideia de retomada da competição segue.
 
O jogador do Cádiz representa uma ponta da discussão sobre se o futebol deve ou não retornar no país. Outros jogadores também deixaram claro seu receio, mas somente Fali se negou a fazer o teste e segue firme em sua decisão de não voltar a jogar. Antes de realizar os testes, os jogadores do Eibar divulgaram um comunicado expressando sua preocupação e medo com o retorno.

O zagueiro do Valencia, Gabriel Paulista, postou em suas redes sociais há alguns dias: “Vamos jogar quando ninguém faça isso com medo e quando tenhamos garantias totais de que não há riscos”.

Em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo, Paulista explicou: “Respeito a opinião de cada um. Em nenhum momento eu falei que não vou jogar. Eu coloquei os riscos, mas lógico que eu vou jogar. Se tiver que jogar, eu vou jogar, eu tenho contrato com o clube. Sou funcionário da empresa e tenho que trabalhar. Os clubes precisam, nós jogadores entendemos o clube, entendemos esse lado. Foi um rombo muito grande para eles. Nós respeitamos, já conversamos com o clube e negociamos de reduzir os salários e achei ainda que foi pouco o que descontaram, o clube precisa muito e a gente entende”.

 
Gabriel Paulista comenta que retorno do futebol tem sido movido pelo lado financeiro


 
Por outro lado, a decisão de Rakitic de voltar a jogar é compartilhada por outros atletas: “Estamos trabalhando em casa para voltar o quanto antes. Muito complicado ficar preso em casa e não poder fazer o que você mais ama que é jogar o futebol”, falou o atacante Deyverson em entrevista ao Esporte Interativo no início de abril.

Deyverson está no Getafe (Foto: Getty Images)

Após fazer os testes para COVID-19 no CT do Atlético de Madrid, o atacante Álvaro Morata ressaltou que também é responsabilidade dos jogadores seguir as regras: “Nós temos que aceitar as normas e fazer tudo para que o risco seja o menor possível. Mas que hoje a gente esteja aqui, quer dizer que estamos muitos mais próximos do retorno e isso é muito importante”.
 
Apesar da existência de um protocolo de segurança para evitar contágios, o volante Fernando Reges, do Sevilla, acredita que os testes são fundamentais, mas não há 100% de segurança.

Futebol é contato em todo o momento, a partir de quando começarmos a treinar um com o outro, será difícil. Não sei o que eles vão fazer. É bom fazer o teste? É porque você vai ter certeza que nenhum está infectado, mas acho complicado".

Barcelona calcula que terá entre cinco e dez lesionados


Os clubes ficaram dois meses sem treinar e estarão, no cenário mais positivo, há quase 100 dias sem jogar. Considerando essa realidade, o Barcelona calcula que no primeiro mês de retorno das competições terá entre 5 e 10 lesões. Na notícia, publicada pelo jornal 'As', o clube irá tentar minimizar estes riscos com trabalhos específicos. 
 
Os clubes retomaram os treinamentos, após dois meses longe dos CTs. Nestes primeiros dias, os treinos são individuais, mantendo a distância de segurança entre os jogadores.

Em uma segunda fase, provavelmente a partir do dia 18 de maio, os jogadores começarão os treinamentos em pequenos grupos e só no final do mês treinarão com o elenco completo. Ou seja, passarão quase 80 dias para voltar a treinar com “normalidade”. 

A data prevista pela LaLiga para o retorno da competição é, no melhor dos casos, dia 12 de junho. Ao escutar a ideia de retomar a competição nesta data, Gerard Piqué, um dos capitães do Barcelona, afirmou, em entrevista à 'Movistar': “[Ter] uns dias a mais não seria ruim para nós”.

O jogador ressaltou que ao voltar no dia 12 de junho, os clubes só teriam treinado um mês e sem amistosos, pediu que pensassem no melhor para o espetáculo e para que não aconteçam lesões.

A cena que ninguém quer ver: jogadores lesionados (Foto: Getty Images)



O preparador físico do Espanyol, de Barcelona, Jaume Bartrés, também acredita que o ideal seria mais tempo. Em uma entrevista aos canais oficiais do clube, Bartrés disse que seis semanas de preparação seriam ideais e alerta: “Estamos fazendo trabalho preventivo, mas há um risco altíssimo de lesões, como há precedentes na Liga Americana”.
 
Durante 60 dias, os jogadores fizeram trabalho em suas casas e agora, no retorno aos CTs, a principal preocupação dos preparadores está sendo reforçar as áreas de compensação muscular. Evitar que os jogadores se lesionem na maratona de partidas que vem pela frente é o objetivo.

 
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