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Rodeado por desconfianças, futebol italiano corre contra o tempo mesmo sem certeza do retorno

Intenção é que a bola volte a rolar no dia 13 de junho e clubes já têm permissão para realizar treinamentos, mas o Governo afirma que o retorno das competições segue em análise

Por Clara Albuquerque

Serie A parece estar próxima de retornar, mesmo em meio a protestos(Getty Images)

Serie A parece estar próxima de retornar, mesmo em meio a protestos | Getty Images

Centros de treinamentos abertos, jogadores no gramado, bola no ar. A rotina dos clubes da elite italiana, ainda que a passos lentos, volta a ter ares de normalidade. Depois da permissão para os treinos individuais, as equipes receberam sinal verde para o retorno dos treinos coletivos a partir do dia 18 de maio.

Em assembleia com os clubes, a Lega Serie A também agendou o reinício das competições para o dia 13 de junho, mas as dúvidas e opiniões sobre a retomada do futebol no país, no entanto, ainda são muitas.

Se o campeonato recomeçar, como todos esperamos, será porque chegamos ao objetivo colocando tudo e todos em segurança e não com a pressa irresponsável ou opinião de quem quer que seja. Afinal, a forte demanda pela retomada do campeonato contrasta completamente com uma situação de emergência”, declarou o ministro do esporte italiano Vicenzo Spadafora.

Presidente do Comitê Olímpico Nacional Italiano (CONI), Giovanni Malagò é mais otimista sobre a possível data de reinício da Serie A: "Quais as chances da Serie A reiniciar em 13 de junho? Na minha opinião, 99%. Tudo está sendo feito para recomeçar, para colocar o sistema em situação de reiniciar", disse em entrevista à 'RAI Radio2'.

Giovanni Malagò está confiante na volta da Serie A em junho (Foto: Getty Images)

A ideia é finalizar as doze rodadas restantes do campeonato italiano, mais quatro jogos adiados, até o dia 2 de agosto. Dentro desse período também seria possível finalizar a Coppa Italia, que ainda tem os jogos de volta das semifinais, entre Napoli x Inter e Juventus x Milan, e a final a serem realizados. O mês de agosto seria reservado para as competições europeias.

Retorno dos treinamentos e casos positivos

Enquanto aguardam a autorização do governo italiano para marcar a data do retorno na agenda, os clubes do país tentam se preparar da melhor forma. Desde o dia 4 de maio, os treinos individuais nos centros de treinamentos dos clubes foram autorizados, mas o resultado dos testes para o novo coronavírus, realizados em todos os envolvidos no retorno e obrigatórios conforme protocolo de saúde, mostraram uma realidade longe da ideal.

A mais afetada foi a Fiorentina, clube de Florença, que precisou colocar em quarentena três jogadores e três colaboradores que testaram positivo para COVID-19. Na Sampdoria, da cidade de Gênova, foram identificados três novos jogadores positivos e um reincidente. O Torino também confirmou a infecção de um atleta do time titular.

Dybala de volta aos treinos depois estar curado da COVID-19 (Foto: Divulgação/Juventus)

Na Juventus, que teve três jogadores positivos ainda no mês de março, Rugani, Matuidi e Dybala, o retorno aos treinamentos não trouxe à tona novos casos. A atual campeã italiana, no entanto, precisou chamar de volta para a Itália dez jogadores do seu elenco, incluindo Cristiano Ronaldo e os brasileiros da equipe. Antes de retomar os treinos no CT do clube, todos estão passando por quarentena de 14 dias. O único que ainda não desembarcou em Turim é o argentino Higuaín, que segue na Argentina por questões familiares.

Opiniões divididas

Se desde o início da pandemia, a posição da Federação Italiana de Futebol, da Lega Serie A e dos clubes da elite tem sido a mesma, de retomar as competições assim que possível, muitos torcedores pensam diferente.

Como eu vejo, essa temporada já foi. Mesmo que retorne, não terá o mesmo valor e interesse, mas o dinheiro fala mais alto assim mesmo”, diz um torcedor do Torino ao comprar um jornal na banca de revistas, numa praça de Turim.

“O contágio não vai parar totalmente, então, mesmo que tenha alguns positivos, tem que continuar jogando. Só tem que ter segurança e inteligência pra conviver com esse vírus”, responde o jornaleiro.

Parte da torcida da Atalanta é contra o retorno (Foto: Reprodução/Facebook)

Algumas torcidas organizadas, de vários clubes, também se manifestaram contra o retorno do futebol. Em Bérgamo, norte da Itália, uma das cidades mais afetadas pela pandemia no país, torcedores da Atalanta estenderam uma faixa na porta do estádio do time: “Querem esquecer nossa dor... mas sem a sua gente, não faz sentido voltar a jogar”.

Protesto dos torcedores do Lecce (Foto: Reprodução/Facebook)

Torcedores do Lecce, atualmente na 18ª colocação do Campeonato Italiano, também se manifestaram na frente do estádio Via del Mare: “As mortes continuam, mas pra vocês o que importa é voltar. Contra esse futebol: sem resultados, sem retomada!”

Faixa em frente ao estádio Filadelfia (Foto: Reprodução/Facebook)

Em Turim, torcedores do Torino também estenderam uma faixa no estádio Filadélfia, onde o time realiza seus treinamentos: “Milhares de mortes em todas as cidades, mas vocês só pensam na retomada da Serie A”.

 
Gabriel Paulista comenta que retorno do futebol tem sido movido pelo lado financeiro

Estádios e cofres vazios

Enquanto muito se discute o retorno das competições, os clubes fazem as contas de um impacto financeiro, a longo prazo, já confirmado: a ausência de torcedores nas arquibancadas.

Segundo o site 'Calcio e Finanza', é esperada uma queda de faturamento liquido médio de 14% do faturamento total dos clubes. Com portões fechados até 2021, segundo a publicação, a Juventus deixaria de faturar cerca de 70 milhões de euros (algo em torno de R$450 milhões).

Com base nos dados do último ano, a Internazionale seria o segundo clube mais afetado, perdendo quase 50 milhões de euros (R$320 milhões) enquanto o Milan, logo atrás, deixaria de embolsar perto de 39 milhões de euros (R$250 milhões).

No total, analisando as receitas de todas as equipes da Serie A, é possível estimar uma perda de receita de aproximadamente 290 milhões de euros (algo em torno de R$1,8 bilhão). A emergência da pandemia trouxe desafios desconhecidos para o mundo do futebol e, num eventual retorno, um deles será encontrar soluções diferentes para compensar a falta de receita proveniente da presença do público em dias de jogos.

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