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EXCLUSIVO: Tiago Splitter fala sobre a NBA, seleção brasileira e seu futuro

Primeiro brasileiro a ser campeão da NBA, o ex-pivô e agora assistente técnico Tiago Splitter bateu um papo EXCLUSIVO com o Esporte Interativo

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Por Raul Moura

Tiago Spiltter foi o primeiro brasileiro campeão da NBA(Foto: AFP)

Tiago Spiltter foi o primeiro brasileiro campeão da NBA | Foto: AFP

Dono de um dos currículos mais invejáveis do basquete brasileiro, Tiago Splitter iniciou sua carreira em Blumenau ainda adolescente, quando jogou pelo Ipiranga. Aos 15 anos, se transferiu para a Espanha, onde foi MVP (Melhor jogador da liga) e campeão da Liga Espanhola de Basquetebol (ACB) em 2010, pelo Baskonia-ESP. No mesmo ano, Splitter assinou contrato com o San Antonio Spurs, clube que o havia selecionado na primeira rodada do draft de 2007. Pelo time treinado por Gregg Popovich, foi campeão da NBA e teve médias de 8,2 pontos e 6,2 rebotes por partida. 

Além de boa carreira por clubes, Tiago Splitter teve uma passagem brilhante pela seleção brasileira. Com a ajuda do pivô, o basquete brasileiro voltou a participar de uma Olimpíada (Londres, 2012), quando ficou com a medalha de prata no pré-olímpico de Mar Del Plata em 2011, após ficar 16 anos fora - momento esse considerado um dos mais importantes da carreira, ao lado do título conquistado pelo Spurs. Em mundiais, grandes confrontos contra a seleção da Argentina, do amigo Luis Scola, marcaram o período, principalmente com a vitória nas oitavas de final na edição de 2014, quando o Brasil venceu a seleção rival por 85 a 65, com Splitter fazendo 10 pontos e pegando oito rebotes.

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Qual a principal mudança que notou em termos de treinamentos quando saiu da Europa para a NBA? 

Os times na Europa dão muito mais prioridade para o jogo tático, enquanto na NBA o jogo individual e físico são mais priorizados. 

Como foi sair de um cenário onde era uma estrela para ter um papel secundário no Spurs? 

Óbvio que foi preciso uma adaptação, mas eu aceitei numa boa. Eu sabia o que estava fazendo, estava consciente sobre onde estava entrando, em um time, San Antonio Spurs, que tinha a chance de ser campeão, o que acabou acontecendo e também sabia que a NBA era mais forte que a liga espanhola (onde Splitter ganhou o prêmio de MVP em 2010).

Como era o contato de Gregg Popovich com os atletas no dia a dia? 

Dependia muito se o time vencia ou perdia, acredito que com todos deve ser assim, mas ele é um cara muito legal, que se importa com seus atletas dentro e fora da quadra, então acho que no geral foi muito positivo. 

Instagram/tiagosplitter
Gregg Popovich e Tiago Splitter no San Antonio Spurs

Como foi a passagem por Atlanta em questão de cultura organizacional e em jogar com um elenco jovem em reconstrução? 

Foi uma mudança boa para mim. Pude ver um outro estilo de jogo e jogadores e um outro vestiário. Realmente abriu meus olhos para ver como era organizado o nosso sistema em San Antonio e como jogador faz a diferença para seus times. Não ter figuras como Tim Duncan, Tony Parker e Manu Ginobili muda muito o ambiente do vestiário, a gente não tinha essas figuras em Atlanta e isso muda o seu time e a forma de se jogar. 

Qual o melhor jogador atuando na Europa hoje?

O melhor jogador na Europa hoje em dia eu diria que é o Nando De Colo. É um jogador francês que já jogou na NBA. Eu joguei com ele em San Antonio, ele jogou pouquinho, mas é um jogador de muito talento, que saber ler o jogo muito bem, arremessa muito bem, só não tem um físico pra jogar na NBA. Acho que só por isso ele não jogou bem na NBA, mas acho que na Europa, com a liga um pouco menos física, ele consegue dominar e levar seu time a conquistar títulos e ter boas atuações individuais.

Acredita que o Brasil perdeu a chance de mudar de patamar no cenário mundial ao não oferecer suporte a uma das melhores gerações que o basquete brasileiro já viu? 

Eu acho que o esporte no Brasil sempre vai sentir falta de um suporte, a gente sempre vai ser um país secundário em todas as modalidades, tirando o futebol. O único esporte no Brasil que existe uma estrutura para você poder desenvolver talentos é o futebol, o resto deixa muito a desejar. Com certeza, ter uma liga consolidada ajudaria muito o futuro do basquete. Por que que eu digo isso? Porque cria ídolos e você criando ídolos, você tem mais crianças jogando basquete e quanto mais crianças jogando basquete, a gente tem quantidade de jogadores. E a qualidade sai da quantidade de jogadores. A gente não está fazendo milagre aqui, quanto mais jogadores a gente tiver, dessa quantidade a gente vai achar um ou dois grandes jogadores. Por que Estados Unidos é tão bom? Não é porque eles têm um treinamento diferenciado, é porque eles tem muito mais criança jogando basquete e, claro, lá se tem estrutura, tudo o que as universidades têm, mas é porque existe muita criança jogando basquete então essa é a grande diferença. 

Divulgação/CBB
Splitter teve boa passagem pela seleção brasileira

O que esperar da nova geração do basquete brasileiro? 

Espero que a nova geração tenha mais sucesso que a minha. Sempre estou torcendo pela seleção brasileira e torço que essa geração cresça muito! Ela ainda está em estado de formação, com Didi e Yago se formando, Raulzinho que já tem mais experiência, Felício que está voltando a jogar e o Bruno Caboclo que está começando agora a ter minutos na NBA. Então, por estar nesse estado, vejo que eles vão ter que remar muito ainda. Acho que a CBB (Confederação Brasileira de Basquete) vai dar o suporte necessário para eles na seleção.

Como a CBB pode ajudar para o Brasil ter um futuro melhor no basquete?

No meu modo de ver, a CBB tem que se preocupar com a garotada de 11, 12,13 anos porque são esses garotos que temos que formar, para vermos resultado lá na frente. Se pensarmos que a CBB vai formar o Yago e Didi, esquece. Eles vão dar o suporte para continuar a evolução deles, que já deveriam estar quase formados, mas claro que vão ganhando experiência, minutos de quadra internacional. Então, para pensar no futuro, temos que focar na garotada com menos de 13 anos. 

Qual a meta pro futuro? 

Se eu sou auxiliar hoje em dia, obviamente tenho o desejo e o objetivo de ser técnico no futuro. Se eu estou pronto hoje? Não, mas estou estudando para isso, participando do dia a dia de treinamentos e jogos. Minha meta é ser técnico no futuro!

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