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Exclusivo: Joanna Maranhão fala sobre machismo e relembra preconceito: 'Fui motivo de chacota'

Ex-nadadora cobrou mais espaço para mulheres mostrarem seu trabalho no esporte 

Por Gabriel Menezes

Exclusivo: Joanna Maranhão fala sobre machismo e relembra preconceito: 'Fui motivo de chacota'(Foto: Sátiro Sodré)

Exclusivo: Joanna Maranhão fala sobre machismo e relembra preconceito: 'Fui motivo de chacota' | Foto: Sátiro Sodré

A ex-nadadora Joanna Maranhão acumulou participações em Olimpíadas e medalhas durante sua carreira. Foram oito subidas ao pódio nos Jogos Pan-Americanos e a pernambucana esteve presente em quatro Jogos Olímpicos. Mas isso não a isentou de sofrer com o machismo, mesmo dentro do esporte.

Em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo, Joanna falou sobre o preconceito que as mulheres ainda enfrentam no esporte e relatou que ela mesma, pouco após se aposentar, foi tratada de maneira vergonhosa em meio aos seus pares.

Eu trabalhei como assistente técnica por um breve período. Em um campeonato brasileiro, fui recebida a gargalhadas, por técnicos de seleção, como que perguntando: 'o que você está fazendo aqui?'. E aí eu respondi: 'estou fazendo a mesma coisa que você.' Mas fui motivo de chacota. Esse tipo de coisa aconteceria com um ex-atleta homem? Com certeza não."

Joanna Maranhão nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008 (Foto: Getty Images)

Aposentada desde 2018, também questionou porque, na maioria dos casos, as mulheres acabam fazendo apenas o trabalho de base no esporte, não recebendo oportunidades para demonstrar sua qualidade nos níveis "mais altos".

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"A gente se enxerga nas atletas, umas nas outras. É difícil ver uma técnica, dirigente...a grande maioria é de homens. Na natação, por exemplo, é sempre a "tia" que ensina a nadar e quando você chega no juvenil já começa a ser sempre homem. Por que? Por que a gente não pode estar nesse lugar? Quem falou que não pode? Os homens têm capacidade melhor? As mulheres nunca chegaram, como a gente vai saber?"

Outro ponto que ajuda a provar a diferença de tratamento para atletas homens e mulheres fica pelo modo como ambos são tratados pelo público. A imagem dos atletas homens realmente condiz com seu desempenho esportivo. Para as mulheres, no entanto, se valoriza mais a aparência.

"Vi uma reportagem que falava sobre uma pesquisa sobre as palavras mais comumente associadas a atletas homens e mulheres durante os Jogos Olímpicos. Homens era "grande, forte, vencedor". Mulheres era "solteira, casada, grávida, musa, bonita". Isso ainda existe. Estamos falando dos últimos Jogos, de 2016", destaca a ex-nadadora.

Por fim, tratando do futuro das mulheres no esporte, Joanna Maranhão ressalta que ainda falta muita coisa para que, de fato, possamos falar que existe igualdade. Mas que a luta não pode ser abandonada por conta disso.

Joanna Maranhão se destacou nas piscinas e fora delas (Foto: Getty Images)

"Pesquisas mostram que a gente ainda tem mais 200 anos até chegar numa equidade de gênero na questão salarial. Então a gente não tem tempo a perder. A gente não vai ver essa equidade acontecer, mas a gente pode ser ferramenta dela. E pra ser ferramenta, a gente tem que se colocar, tem que trazer essas pautas à tona. Isso tem que ser discutido e falado."

Nessas datas comemorativas, uma ou outra atleta se posiciona, mas esse debate ser uma coisa contínua, a ponto de causar inquietamento e mudança, ainda não acontece, principalmente no esporte."

Para reforçar a ideia, a ex-atleta comenta que, apesar da grande dificuldade, o debate tem que seguir existindo e as responsáveis por levantá-lo devem "colocar o pé na porta".

"Eu percebo que, sempre que a gente como mulher se posiciona ou questiona uma coisa e faz a sociedade repensar uma coisa, não passa muito tempo para vir uma onda do machismo estrutural e fazer tudo voltar ao status quo. Aí, a mulher é a louca, a que quer fazer histeria.  gente sai de trazer um debate sensato pra histeria num piscar de olhos."

Existe uma resistência muito grande do sistema. O sistema lucra com mulheres onde estão, caladas como estão, aceitando as coisas como estão. Mas a gente tem que fazer esses debates, ir se colocando e colocando o pé na porta mesmo."

 
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