Outros Esportes

No Dia da Mulher, elas pedem o básico: respeito, oportunidades e valorização no esporte

Quando perguntadas sobre seu maior desejo para o esporte feminino, resposta de quem o vive foi quase unânime em pedir coisas "simples"

Por Gabriel Menezes

Marta aponta para a chuteira em seu protesto por igualdade de gênero na Copa do Mundo(Getty Images)

Marta aponta para a chuteira em seu protesto por igualdade de gênero na Copa do Mundo | Getty Images

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é um dia de luta desde suas origens. Em 1917, quando trabalhadoras russas saíram às ruas para protestar contra a Primeira Guerra Mundial e a fome, em ato que é considerado por historiadores como pontapé para a Revolução Russa que, neste mesmo ano, culminaria na derrubada do czarismo pelos bolcheviques.

Oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975, a data é um bom momento - mas não deveria ser o único - para relembrar que a desigualdade de gênero ainda existe. No esporte, o cenário não muda.

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Neste Dia da Mulher, o Esporte Interativo ouviu quatro mulheres que têm - ou tiveram - o esporte como seus sonhos, sua profissão e sua vida, para saber delas seus maiores desejos. Joanna Maranhão, Camila Lima, Giovanna e Thaissan Santos podem ter histórias diferentes, mas seus discursos concordam em um ponto: o esporte feminino, no Brasil, ainda precisa de muitas coisas básicas.

Giovanna, lateral do Santos: "Ninguém sabe o que a gente luta pra ter uma vida melhor"

Se o histórico de transferências de Giovanna, lateral do Santos, for analisado, muitos não acreditarão que a jogadora tem apenas 27 anos. O motivo? Já foram 13 clubes em sua carreira. A defensora chegou a passar por três clubes no mesmo ano, em 2013. As mudanças inimagináveis no cenário do futebol masculino são fruto da incerteza que o futebol feminino traz para as mulheres que sonham com o esporte.

Antes, a gente jogava e quantas vezes, na hora de pagar, os clubes chegavam e [diziam que] não tinha dinheiro. A gente sempre jogou por amor. Não só eu, mas todas. Se fosse para desistir, a gente já tinha desistido. Joguei muito tempo fora e, pra mim, era coisa de nunca mais querer voltar pro Brasil."

A luta das atletas, inclusive, tem se expandido. Ada Hegerberg, uma das melhores jogadoras do mundo, renunciou à seleção norueguesa por não acreditar que as mulheres recebiam o mesmo tratamento dos homens. Para Giovanna, é importante se colocar, mas é ainda mais importante que os donos do poder estejam dispostos a ouvir.

Giovanna em ação pelo Santos (Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)

"Não adianta só as pessoas de fora verem. Quem tem o poder pra ajudar também tem que ver. Às vezes tem preconceito, tem machismo sim. No Século XXI, ainda tem isso de o futebol ser pra homem. Mas vamos fazer o que? Temos de continuar lutando. Se não acontecer com a gente, que já tem uma certa idade, vamos fazer pra quem vem atrás."

O desejo da jogadora para o futebol feminino, no futuro, não é extravagante. Muito pelo contrário: "Queria que quem está dentro dos clubes e tem poder pra isso, olhe pra gente como se a gente jogasse como os caras jogam. Dê valor, aumente os salários. A gente não precisa ser rica, mas quer viver bem, ajudar nossa família. Porque a gente tem que sair do nosso país, que é o país do futebol, pra ajudar nossos pais. E eu acho isso feio."

Por que a gente não dá o valor, aqui dentro, que a gente recebe lá fora?"

Camila Lima, analista de desempenho do Equador: "Deixar nível amador é o 1º passo"

O futebol é feminino, mas a presença de homens nas comissões técnicas ainda é massiva. Camila Lima é uma das mulheres que tenta trilhar sua história em posição de "comando". A paulista radicada em Pernambuco é analista de desempenho na seleção do Equador, onde trabalha com Emily Lima, ex-técnica da Seleção. Para ela, ter mulheres nessas funções pode incentivar outras a seguir o mesmo caminho.

Camila posa com o uniforme da seleção equatoriana (Foto: Arquivo pessoal)

"É muito bom poder ter uma referência feminina do seu lado. Quando você pergunta pra alguém quem são as referências dela no futebol, todo mundo conhece os grandes do futebol masculino. Os espelhos femininos dão uma força maior no sentido de 'olha, dá pra chegar. O caminho é um pouco mais difícil, mas dá pra chegar.'"

Quando questionada sobre o seu desejo para o futebol feminino nos próximos anos, Camila destacou que ainda é necessário que exista uma profissionalização do esporte.

"Deixar esse nível amador é o primeiro passo que a gente tem que dar. A gente chama algumas equipes de profissionais, mas o tratamento às meninas é muito amador. Porque algumas meninas ainda não conseguem só jogar futebol."

Queria que, no futuro, o futebol feminino fosse profissional de fato e a disparidade na organização, na estrutura, não no jogo, seja cada vez menor, pra que as meninas consigam viver de futebol, ter bons centros de treinamento, bons alojamentos. Parecem coisas simples, mas ainda não acontecem."

Thaissan Santos, treinadora do Fluminense: "Quero trabalhar pelo legado"

No Brasil, poucas mulheres são técnicas. Recentemente, a sueca Pia Sundhage assumiu a Seleção, se tornando apenas a 2ª mulher no cargo. Em 2019, nos clubes que disputaram as duas primeiras divisões do Brasileirão feminino, apenas nove das 52 equipes tinham uma mulher comandando o time.

Thaissan Santos é mais uma a desafiar a supremacia masculina no esporte. A técnica do Fluminense, que comanda a equipe principal e a sub-18, afirma que o futebol feminino sente falta de mais mulheres nessa posição e indicou que tenta fazer seu trabalho da melhor maneira possível, para ser um exemplo positivo.

Thaissan Santos durante jogo-treino do time feminino do Fluminense (Foto: Maílson Santana/Fluminense FC)

"Sim, faz. Precisamos desta representatividade, as mulheres estão buscando cada vez mais conhecimento e, sendo competentes como profissionais, precisam ter oportunidade. Quero trabalhar pelo legado, espero que isso seja um exemplo positivo para as meninas, para que não desistam dos teus objetivos de vida, seja dentro ou fora de campo."

Thaissan indica também, que o futebol feminino muitas vezes é enxergado apenas como uma despesa, uma obrigação - já que CBF e Conmebol obrigaram as equipes que disputam suas competições de topo a ter times femininos. Mas vê o cenário como possível de mudar.

Thaissan Santos: "professora" dentro de campo

"Gostaria que o futebol feminino estivesse neste momento sendo visto como um braço dos clubes, não como despesa, mas entendo que teve que ser assim, pois a modalidade não andava. Vamos nos unir e trabalhar para que as meninas tenham condições de trabalho, uma estrutura digna, para que qualidade dos jogos sejam um bom atrativo para o público, para a mídia, assim trazendo apoio de patrocínios e visibilidade."

Acredito que, se trabalharmos corretamente, em um futuro próximo as coisas vão acontecer naturalmente."

O desejo da técnica, como refletido na fala das outras entrevistadas, passa por coisas que deveriam existir como regra, e não como exceção: "Respeito, dedicação das partes envolvidas no processo de desenvolvimento do futebol feminino, a capacitação de novos profissionais, estrutura, e busca de trabalhos a longo prazo, responsabilidade para formar as próximas gerações."

Joanna Maranhão, ex-nadadora: "O sistema lucra com mulheres caladas"

Joanna Maranhão foi uma das referências da natação brasileira na última década. A pernambucana tem oito medalhas em Jogos Pan-Americanos, acumula quatro participações em Olimpíadas e teve diversos recordes brasileiros e sul-americanos. Fora das piscinas, nunca se escondeu em relação à sua luta e acredita que pode deixar isso de exemplo.

Veja a entrevista completa com a ex-nadadora!

"Acredito que o que deixei no esporte foi uma coisa muito significativa. Acho que, nessa questão de deixar um legado, fica essa questão da resiliência e da integridade. Até a preços muito altos, no enfrentamento a uma gestão corrupta de uma federação, mesmo sabendo o quanto isso poderia me prejudicar, eu não hesitei em me colocar."

Gosto de falar abertamente sobre meus pontos positivos e negativos também, de forma a humanizá-los e aí, acho que fica mais próximo de alguém olhar e pensar: 'eu consigo me enxergar aqui'. Se vender como um ex-atleta, como um modelo perfeito, eu acho muito sintomático."

Joanna Maranhão em 2016, competindo no Troféu Maria Lenk (Foto: Getty Images)

A ex-nadadora, que se aposentou definitivamente em 2018, conta que durante um congresso técnico em um Campeonato Brasileiro, esteve como assistente técnica de Keycy Florêncio, representando a treinadora. E, mesmo sendo ex-atleta com sucesso, foi recebida de forma grosseira. Para ela, houve machismo na ocasião.

"Uma vez que fui pra um Campeonato Brasileiro, fui recebida a gargalhadas, por técnicos de seleção, como que perguntando: 'o que você tá fazendo aqui?'. E aí eu respondi: 'estou fazendo a mesma coisa que você. É um congresso técnico, estou representando minha chefe'. Mas fui motivo de chacota. Esse tipo de coisa aconteceria com um ex-atleta homem? Com certeza não."

O desejo da nadadora passa muito pelo processo de mais mulheres levantarem suas vozes contra a desigualdade: "Acho que podemos dar passos mais largos se caminharmos em bloco. Isso não afeta rendimento de nenhuma atleta. Mas quebrar o status quo é complicado. Existe uma resistência muito grande do sistema. O sistema lucra com mulheres onde estão, caladas como estão, aceitando as coisas como estão. A gente tem que ir se colocando e colocando o pé na porta mesmo."

 
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