A luta principal da edição de dez anos do Watch Out Combat Show, o WOCS 50, coloca em disputa o título vago dos pesos-moscas da organização entre Matheus 'Raposinha' e o representante da Chute-Boxe e Gracie Barra, Charles 'Blackout'.


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Porém, quem assistir à transmissão deste sábado não vai ver o passado que levou o cearense 'Blackout' ao posto mais alto de um card histórico para o MMA nacional.


Charles vem, como muitos outros, de um começo complicado. Nascido em Santa Quitéria, interior de Fortaleza, é irmão de quatro e desde cedo aprendeu que a maior dificuldade da vida, às vezes, é viver.


- Morava no interior brabo, interior onde só tinha capim e se esquentasse muito, pegava fogo. O meio de vida era muito duro. Trabalhava na agricultura e quando não tinha inverno, passava até dois anos na seca. Muitas vezes, eu acordava cedo de manhã e minha mãe me dava farinha com açúcar, que era meu café da manhã. Ou, às vezes, ela fazia um sacrifício, arrumava café e me dava café com farinha em um copo. A gente comia e ia para o colégio. Na escola até tinha um lanche, mas quando chegava em casa não tinha o que comer. Minha mãe ficava desesperada. Corria atrás de lavar roupa para alguém para ganhar um dinheiro. Carregava água na cabeça por três quilômetros para ganhar um quilo de farinha, um quilo de feijão, ganhar meio pacote de arroz, não era nem um quilo. Isso tudo para a gente poder jantar ou almoçar - contou Charles em conversa exclusiva com o Esporte Interativo.


Como se já não bastasse a dificuldade já empregada pela realidade de Charles, seu pai deixou a família para trás muito cedo, ficando mais de uma década sem dar notícias.


- Isso sem contar que meu pai abandonou minha mãe com cinco filhos. Veio para o Rio procurar uma vida melhor e passou doze anos sem falar com a gente. Depois desse tempo ele até apareceu, mas minha mãe já estava com outro. Um cara que considero como meu pai de verdade. Ele colheu minha mãe já com seis filhos, para trabalhar na agricultura sozinho, quebrando pedra, cortando capim para o gado dos outros - o gado não era nem dele, recebendo 12 reais o dia. Muitas vezes ele saía sem tomar café - lembrou o atleta da Chute-Boxe.


Mesmo com tantas complicações, o lutador garante que não tenta esquecer o passado, mas lembrar com orgulho de tudo que passou.


- Me sinto orgulhoso, não tenho vergonha de contar o meu passado. Dei a volta por cima. Vim para o Rio e deu tudo certo, graças a Deus. Se não fosse pela luta, estaria trabalhando de carteira assinada para os outros, tomando esporro e hoje eu vivo da luta. Pretendo nunca mais trabalhar para ninguém.


Porém, vir ao Rio não representou apenas vitórias e alegrias a Charles. O cearense precisou ter cabeça no lugar para não cair nas tentações que a cidade grande apresenta.


- O Rio de Janeiro me ofereceu muitas coisas ruins. Se você tiver a mente muito fraca, você abraça porque dá dinheiro. Mas por outro lado, pensava que eu não vim do Ceará para cá e virar bandido, praticar o mau aqui. Eu vim para ter uma vida melhor. Hoje, quem viu o Charles antes sabe que nem se compara. Calei a boca de muita gente - desabafou.


No Rio, Charles fez de tudo.


- Trabalhei de garçom, segurança, servente de pedreiro. Menti, não sabia fazer, mas disse que sabia emassar, peguei várias piscinas para colocar azulejos e ficava bom, eu era bom. Fica um serviço bonito. Mas é aquele ponto, se você tem a vontade de fazer a parada, você vai fazer bem feito, para a galera confiar em você - relembrou.


Entre tantos trabalhos, 'Blackout' trabalhou em uma churrascaria e nesse restaurante conheceu Airton Nogoceke, frequentador do restaurante e treinador da Gracie Barra, que fez uma proposta que mudou a vida de Charles.


- Eu falava para ele que queria fazer MMA, mas acho que ele não levava muita fé. Um dia, ele chegou no balcão, eu estava cortando carne, e disse para eu aparecer na academia para fazer uma aula, sem compromisso. Meu sonho era botar uma luva, não sabia nem dar um soco, para falar a verdade - contou Charles sorrindo.


O hoje lutador aceitou o convite e foi um caminho sem volta. Bem recebido, 'Blackout' se tornou um rato de tatame e a força de vontade foi retribuída pelo novo benfeitor, Aírton, que desde então cuida da preparação, treinamentos, alimentação e até patrocínios do ex-campeão peso-galo do WOCS.


Próximo de uma das lutas mais importantes da carreira, Charles revelou que sente vontade de voltar às raízes, pelo menos uma vez.


- Às vezes eu volto a fita e penso por tudo que passei. Já fazem dez, doze anos que não volto lá. Mas queria ir de novo, andar em alguns lugares que sofri muito, voltar e relembrar - finalizou o lutador.


fgd

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