​Por: ​Felipe Rolim


A Copa da Rússia, que indicava uma tendência de acúmulo de jogadores na defesa - a linha de 5 que apareceu na Copa de 2014 - deu uma guinada radical e virou a Copa da pressão alta e constante (o pressing), tanto em quem está com a bola quanto nos demais que auxiliam a transição ofensiva. E é neste cenário hostil para os meias centrais, em que as defesas falham em tentar sair jogando ou executam a transição direta, longa e aérea procurando os pivôs, que aparece o personagem do texto: Luka Modric.


Muitas vezes descrito como o "10 moderno", Modric faz jus à homenagem. Participa muito da armação ficando pouco com a bola, procura sempre o passe ofensivo, trabalha para o pivô e para os laterais, chega ao ataque, tem um bom chute e dá assistências. Se Kroos não erra passes, o croata é quem dita o ritmo do Real Madrid (e de sua seleção).


E a alcunha do 10 moderno aparece porque não há espaços na faixa central da intermediária ofensiva no futebol de alto nível. Ali é terra de jogo físico, de imposição, de briga por espaços e briga pela segunda bola, que passa por cima, é escorada pelo pivô e volta suja. Frações de segundos para tomar a melhor decisão com um ou dois em cima (o cenário clássico de um rondo, ou o nosso bobinho), este é o local de trabalho de Modric.


Vinha sendo assim no começo do jogo contra a Argentina. Sampaoli montou um time móvel que tentava encaixar a marcação individual no lado bola e encosta seus volantes em Modric e Rakitic. Não deu certo durante os noventa minutos, como visto. Modric tocou sessenta e duas vezes na bola. Perdeu a posse em míseras quatro vezes, mesmo sendo o croata que mais vezes passou em direção ao terço final de campo, com quinze passes.


Depois da porteira aberta e da desorganização completa dos hermanos, apareceram os espaços na meia cancha, um cenário vintage, da década de 80 ou 90, quando o 10 recebia, pausava, usava o tempo a seu favor e escolhia a decisão a se tomar com o horizonte limpo. Entra em campo, então, o "10 Clássico", que Modric sabe ser, mas que seu ambiente normal não lhe permite. O resultado, fatal, para a Argentina, foi o brilho individual de Modric, o 10 mais coletivo do melhor time do mundo nos últimos três anos.

Gol Modric


O gol no chute de fora da área (artigo de luxo na Copa do pivô e do VAR) é uma pintura, um brinde, um revival.


Um meia de extremo brilho, com espaços e de frente para uma defesa atônita. Esse é do tempo do rádio, do branco e preto, ou da imagem em definição baixa.


Os Camisas 10 ainda estão aí, mas adaptados ao jogo do seu (nosso) tempo, criando e transpirando, jogando e competindo, esperando pelo descontrole do adversário para mostrarem o futebol eternizado no imaginário.


Facebook (​aqui) e Instagram (​aqui) do autor.

Créditos das fotos: getty images