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O abandono de Marega

Este episódio pode ser emblemático e marcar uma virada de página em situações similares caso a FIFA atue de forma veemente.

Por Péricles Bassols

Marega deixando o campo.

Marega deixando o campo.

Para quem não acompanhou o caso, confira aqui: Marega vira o jogo para o Porto, sofre racismo e, revoltado, abandona a partida.

Em julho do ano passado, a FIFA protocolou um novo código disciplinar dando aos árbitros mais poder em situações de manifestações racistas, homofóbicas e xenofóbicas. O protocolo consiste no chamado "3 steps" (3 passos): 

1) Paralisação do jogo, com aviso aos jogadores e aos torcedores através do sistema de som pedindo para que parem as manifestações; 
2) Na reincidência, uma paralisação maior, com possível ida dos jogadores aos vestiários e mais um aviso, nos alto-falantes, direcionado aos torcedores;
3) Na terceira ocorrência, os jogadores deixam o campo. O jogo é encerrado e os alto-falantes pedem que os torcedores deixem o estádio.

Mas o que, de fato, é dar mais poder ao árbitro? Por onde passa este poder antes de chegar até ele? 

Como árbitro, não peguei este novo código disciplinar da FIFA, mas já tínhamos algumas determinações de quando poderíamos paralisar ou até encerrar uma partida: tumultos generalizados; chuvas fortes; falta de energia; faixas com dizeres racistas, políticos ou que incitassem a violência.

Mesmo assim, era, é e será muito raro vermos um cancelamento de partida. Mesmo em casos de falta de energia, ficava a critério do árbitro avaliar de 30 em 30 minutos a viabilidade da continuidade da partida.

Sabe por que?? 

Porque sempre sofremos pressão com relação ao calendário. Não há uma recomendação explícita, mas ela transita entre os árbitros disfarçada de bom senso.
Dizem: "Usem o discernimento...vocês sabem que temos um calendário difícil."

Neste domingo, o árbitro Luis Godinho disse aos seus dirigentes que estava prestes a paralisar a partida, mas que o atacante se antecipou à sua decisão e ele nada pôde fazer. 

Acho que, no mínimo, Godinho foi pouco inteligente.

Fosse ele atento e sensível, poderia ter ajudado a fazer história e, quem sabe, teria sido o árbitro que daria início a uma onda de coragem para dar um ponto final a esse tipo de manifestação execrável.

Poderia ter conversado com calma com Marega e lhe convidado a ficar com ele em campo. Daria início ao protocolo da FIFA para estas situações até que o jogo fosse dado por encerrado. 

Mas, será que um branco vai ter coragem para isso um dia? Zumbi, Luther King, Malcom X e Mandela não eram brancos.

Seria histórico e impactante, assim como foi o abandono de Marega. Só que, desta forma, com a ajuda do árbitro, teria um carimbo da FIFA impulsionando outros a terem a mesma atitude. 

Enquanto a FIFA não cobrar a aplicação das novas regras das Confederações abaixo dela e estas, por sua vez, não estabelecerem uma punição aos árbitros que não implementarem o novo protocolo quando necessário, não avançaremos. Continuaremos nesta página triste que insiste em não ser virada, até que mais Maregas apareçam para abandonar os campos... até que abandonem o futebol.

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